Rio Hospício
Lorega
Segunda-feira já não é um dia lá muito louvável, em termos de coragem, para o trabalho, ainda mais se esta segunda, em Dezembro, na linda Recife, resolve se tornar cinza de repente e Pedro abrindo as comportas (que aquilo lá não era somente as torneiras) do Céu acompanha o sentimento da cidade e.. Tome água.
Estou dentro do ônibus, que também não estava muito a fim de trabalhar e “ronceiramente” se dirigia ao centro da cidade, originário da vizinha cidade do Paulista.
Eu já vinha meio enfezado com um adolescente que subira no coletivo, ainda no bairro do Janga, envergando uma bermuda comprida, chinelos de tirinha nos dedos, uma camisa social com uma gravata, e, pasmem, na boca, á guisa de cigarro, um palito de incenso, aceso! Não ultrapassou a catraca (borboleta) ficando a defumar, com aquela fumaça, o cobrador, e os passageiros do hemisfério sul do ônibus.
Estava eu na parte da frente, e resolvi não dar mais atenção ao fato e recostando a cabeça no vidro da janela quedei-me em devaneios, procurando não ver o nariz torcido da mocinha que acabara de passar na catraca, a tosse que se instalara na garganta de uma senhora de idade, que dizia com todas as letras “Apaga essa porcaria”, e a cara contrariada do cobrador que já se virara na cadeira, ciente de que aquela figura, era mais um que desceria pela porta traseira do coletivo deixando de pagar a passagem.
Nos aproximamos do centro da Recife, a chuva engrossava a cada parada. Será que quando chegarmos ao Parque 13 de maio, a chuva amenizará?? – Pensei .
Qual nada! Era progressivo! A cada ponto de parada do coletivo a chuva engrossava mais e mais.
As janelas do ônibus já todas fechadas desde o início do temporal, estavam embaçadas, e felizmente o incenso do infeliz de bermudas e gravata, havia acabado, passando ele por mim com o resto do palito ainda na boca e descendo mesmo sob a chuva, na mesma parada que desceria eu. Resolvi descer uma parada mais à frente pois teria mais opções de proteção da chuva, embaixo das marquises de diversos edifícios.
Para o coletivo no sinal. O motorista grita. – Quem quiser aproveitar, a hora é esta. – E abre a porta em frente a uma galeria que oferecia refúgio em suas marquises.
Fui na onda! Saltei e corri juntamente com a onda de gente que procurava se proteger da chuva que não dava trégua. – E tome água.
Encostei-me na parede da Ótica e decidi não me mover dali enquanto a chuva estivesse em evidencia. E passam dois correndo, não sei pra quê pois ambos estavam já encharcados até os ossos, mas mesmo assim corriam, como se assim evitassem molhar-se mais.
E sai a baratinha de lá do esgoto, no meio-fio, tonta com tanta água, vem manquitolando atravessando a calçada, escapa de diversos pés que a ignoravam. Pés masculinos apressados, pés femininos saltitantes, em tênis, sandálias, chinelos, sapatos altos ou baixinhos, todos sofrendo, espumando, outros já parecendo um sapo que houvesse sido atropelado por uma carreta.
De todos esses a baratinha escapou, e driblando um e outro, calmamente ou cegamente, passa por baixo da porta de aço da Ótica que ainda não havia iniciado as suas atividades. Pensei novamente, quantas mulheres teriam dado gritos histéricos, se houvessem se apercebido que passavam por cima da barata, ou mesmo algum enrustido, ao se deparar com o inseto Kafkaniano soltasse o grito de praxe:
- Ai meu Deus! Uma barata! – e tremendo aceleraria mais ainda a correria, que já havia encetado, deixando algumas pessoas rindo e outras se persignando.
E pára ônibus, aproveitando o sinal que fechara, e descem populares apressados. Uns a atropelar outros na escada de descida do coletivo. Empurra um cara com jeito de Office boy que sai saltitando em uma só perna. – Nunca vi descer de ônibus assim – (saltando amarelinha), tropeça no canteiro da loja e se estatela mais a frente. Não dá a mínima pra queda, levantando-se aproveita ainda o sinal fechado para atravessar a rua, procurando Kombis e Bestas que fazem a linha para a zona sul. E haja água.
Belos são os seios daquela mocinha que, apostando, como todo mundo, na segurança do verão, vestiu uma blusa branca e sutiã finíssimo.
Que horrível! Que a mulher que vende capas para celulares, também teve a mesma idéia, os dela são duas jacas (moles) que dormem esparramadas sobre a barrica (barriga) que tenta ficar socada dentro de um short de lycra verde escuro. (Ânsias de vômitos).
Uma lufada de ar joga a chuva sobre nos que estamos resignados a chegar atrasados ao trabalho, escola, encontro etc. Tudo naquele dia iria efetivamente atrasar. Resolvo sair do esconderijo quando a chuva tomasse um fôlego (ela às vezes fazia isso) deixando de ser torrencial para ser somente uma chuva forte, e era aí que os estáticos das marquises e dentro de lojas, resolviam correr e atingir outros portos seguros, não sem antes ver que uma segunda baratinha, tal qual a primeira, quem sabe da mesma turma de esgoto, vem seguindo o mesmo caminho da sua antecessora, e cai aqui, cai acolá, leva porrada de pingos d’água mas heroicamente vem atravessando a calçada. Passa os mesmos perigos sob pés desatentos de onde pisam, mas escapa, uma, duas, três vezes e... Não segue o mesmo destino da outra pois se embrenha no canteiro entre flores e grama, desaparecendo.
Dito e feito! Acalma um pouco a chuva e corro para o outro lado da rua. Lojas Americanas. Calçada larga. Gente molhada! Muita gente molhada.
Encosto-me na parede da loja e vejo chegar um casal na motocicleta que criativamente cortaram sacos de lixo de 100 litros fazendo uma capa improvisada para cada um. A mulher na garupa iria descer ali mesmo enquanto o homem, que talvez fosse seu esposo, seguiria adiante. Cortaram nos sacos o lugar para passar a cabeça, mas não cortaram o lugar para os braços de forma que a mulher, que vinha atrás ao agarrar na cintura do homem, formou com o saco plástico uma bolsa que, como era de se esperar, encheu de água, e o infeliz do motoqueiro que levanta os seus braços para colocar o capacete que emprestara a mulher, deixa desguarnecido por completo a sua cintura, local onde acidentalmente é despejada toda a água que a mulher acumulara entre seus braços. Que susto gente! O cara parecia que tomava um choque, e toda aquela água escorrendo pela bunda do mesmo. Todo enxutinho com a bunda completamente encharcada.
Não levou na esportiva não, acelerou a moto não se despedindo nem da companheira. Muito puto da vida!
E lá vem a água, que já enchia a rua. Era um rio. Ao invés de Rua, Rio... Rio do Hospício. Se não existe, foi criado naquele dia. E tem motorista que não se compadece da sorte dos pedestres passando acelerado pela rua, fazendo ondas e mais ondas, levando a água para onde ela ainda não havia alcançado.
Lá vem a água, em uma onda e eu me afasto para não mergulhar os pés nela, ou para ela não engoli-los, tentando fazer os meus tênis ficarem parecidos com os “sapos” que já passavam a fazer parte do desfile.
Pedestres e carros disputam o centro da rua (é o local mais alto) e certo de que não tem buraco, como no que caiu o rapaz que tentava entrar no Curso Brasil. Era tudo água, e ele saltitante pulou da calçada onde estávamos para o centro da rua, local onde ainda aparecia o asfalto, e dali para a outra calçada, não adiantava mais pular, pois dali em diante estava ele dentro d’água, mas parece que por instinto ou seguindo o ritmo ele continuou saltitando e eis que quase desaparece perto do meio-fio em frente à sua escola, e ajudado hilariamente pelos colegas de escola sai da “piscina”.
Passa um ônibus elétrico e com suas rodas descomunais espalha mais água na rua e calçada Mais peitos balouiçantes, rígidos, grandes, mínimos, parecendo mais que todas que tinham aqueles apêndices mais avantajados faziam questão de correr mais que as outras, e tentavam em vão segura-los, ficando atabalhoadas, não sabendo se seguravam as leiterias ou se corriam, algumas chegando a perder o equilíbrio com o balouçar dos ditos.
-Ai meu Deus! Uma barata!! – Agora eu ouvia o grito de terror bem a minha direita, não estava imaginando! Era real, e repetido – Ai Ai Ai ! Uma barata! – Uma mulatona, 25 ou 30 anos, de aproximadamente um metro e oitenta, forte como um touro (ou seria uma vaca?), tentava em vão se equilibrar em uns ferros que colocaram na calçada das lojas Marisa, para evitar estacionamento. Com o outro pé na beirada do batente da vitrine da mesma loja. Estática, via aproximar-se nadando, andando ou coisa que o valha, uma barata. E grita a mulatona mais e mais. E vem barata. E ninguém a acudia, (a mulatona, não a barata), cada um na sua faina de se livrar da água e da chuva, afinal de contas era só uma barata, - Que frescura! – disse alguém – ecoou com meus pensamentos. Tamanha mulher a temer um inseto envernizado tão pequeno.
Desiste a mulata de esperar algum socorro e desistindo também da posição circense, resolve lançar-se a correr por dentro do rio, que levava a roldão, pedestres, ônibus, baratas, baratas, baratas. O Rio do Hospício. Se não havia, agora há. Espera somente chover! Pra ver!