DÍVIDAS
DE SANGUE SÃO DIFÍCEIS DE PAGAR
[Capitão]
...<E foi por isso que decidi optar por suas habilidades em troca de
limpar sua ficha. O que me diz, Sr. Rogan? Estamos entendidos?...> - fumando um cachimbo
totalmente curvo e de madeira escura.
[Wolvie]
<Não sei o que seu departamento tem a ver com isso, Hidochi.
Afinal, não foi citado nenhum chefão. Trata-se apenas de roubos a joalherias...
O que tu ganha solucionando um crime desses?> - com a sobrancelha curvada,
recostando-se na cadeira e cruzando a perna.
[Capitão] <Os roubos em
si nada têm de importantes, mas sim, a pessoa que os faz. Ainda não conseguimos
um retrato falado dela, nem mesmo das câmeras de segurança. Essa pessoa é
invisível! E sabemos que não se trata de um dos famosos ninjas,
pelo modo como os golpes são dados e pela rapidez com que extermina os
oponentes. Esse ladrão está atrapalhando minha reputação, dividindo a opinião
pública e dando um cheque-mate nas minhas tentativas de tentar uma carreira política...> - soltando uma poderosa baforada de fumaça.
[Wolvie]
<Eu entendi direito: quer que eu trabalhe pra ti, limpando uma barra que tu
não consegue pra que entre num cargo político e possa “fazer tua cama”? É
isso?> - voltando a sentar na ponta da cadeira, com cara de poucos amigos.
[Capitão] <Sabia que
não faria isso por mim, nem pelos meus motivos, mas, gostaria que visse essas
fotos, Sr. Rogan.> - abrindo uma das gavetas e jogando uma pasta preta na
direção do canadense - <Faça pelas pessoas inocentes que pereceram tentando
cumprir seu dever... Na verdade, quando decide roubar determinada jóia, ele
extermina todos no prédio, inclusive aqueles que não são responsáveis pela
segurança e nem estão no seu caminho. Como pode ver pelas fotos, não faltam requintes de crueldade, não é mesmo?... Encontramos,
inclusive, algumas réplicas de cenas de filmes classe “D”, como nesta foto
aqui> - mostrando uma foto onde o corpo foi totalmente desfigurado para que
parecesse um daqueles gigantes répteis que atacavam o Japão e sempre eram
mortos pelos heróis japoneses.
Logan responde com um grunhido e aponta para uma vítima mais adiante:
[Wolvie]
<O que é isso, Hidochi?> - afundando o dedo na
imagem.
[Capitão] <É o que
parece. Uma criança... Curiosamente, ele não a matou, mas furou seus olhos e
cortou sua língua, para que não pudesse fazer uma descrição do assassino...
Essa criança ainda não acordou do coma e, sinceramente, espero que nunca
acorde... Que vida ela teria depois de um trauma desses?> - maneando a
cabeça.
[Wolvie]
<Eu aceito! Ao que parece, vai demorar mais do que eu achei que ia, não? O
que mais cê tem pra mim, sobre esse caso? Já tentaram
fazer uma cilada?>
[Capitão] <Já tentamos,
mas, depois das perdas, decidimos não fazer mais. Tem que entender que estou de
mãos atadas. Nenhuma delegacia quer cooperar e, no lugar deles, eu faria o
mesmo! Nenhuma de nossas Forças Tarefa Especiais foram capazes de voltar de
suas missões e nem mesmo conseguimos descobrir onde ele mora, ou o que faz nas
horas vagas.>
[Wolvie]
<Quero ver a guria da foto, onde ela tá?> -
cerrando os dentes.
[Capitão] <No Hospital
Geral de Tóquio. Se estivermos entendidos, eu gostaria que começasse amanhã
cedo sua investigação. Todo o corpo policial do Japão será informado de sua
missão e prestarão os esclarecimentos necessários. Se precisar de armas*
[Wolvie]
<Eu sou a arma, Hidochi... E vou acabar com esse
maldito! – uma fagulha de raiva podia ser vista em seus olhos - Onde tá minha esposa?>
Tocando novamente o interruptor, a mesma guarda trás Ohana de volta à sala. E a ruiva não gosta do que encontra, um pensamento de “onde colocaram meu marido?” passa por sua mente e muitas dúvidas tomam conta de si. Mas Logan pede para que Hidochi explique tudo para ela e passam mais meia hora na delegacia.
A ruiva fica horrorizada com tudo o que vê e seu primeiro palpite é de que seja um mutante, pois o rastro de destruição era tão grande que não parecia ser feito por nada além de um mutante, e um extremamente poderoso!
Logan chega bem perto de Ohana e sentencia:
[Wolvie]
Cê entende que dessa vez, eu tenho que agir sozinho, né, gata? Se eu te perdesse por um descuido meu, nunca ia
me perdoar... Já conversei com o Hidochi e ele
prometeu cuidar muito bem de você. Eu tenho que confiar nisso, senão, não vou
conseguir fazer meu trabalho direito. Cê entende? –
baixa a cabeça e esfrega uma das mãos nervosamente na calça.
Ohana não consegue pensar em nada para dizer naquela hora. Sabia que era o certo a se fazer, sabia que não deveria ficar triste. Mas o pensamento que mais martelava sua mente era “por que perdi meus poderes?!”. Ela apenas o abraça, colocando sua cabeça exatamente no vão do ombro do canadense. Não demora muito e este sente um frio em sua pele, proveniente das lágrimas silenciosas que sua mulher chorava. Levantando o ombro, encostam a cabeça e então Ohana começa a soluçar, colocando a mão oposta no outro ombro e o abraçando com mais afinco:
[Ohana]
Aquelas... fotos... Tudo tão horrível!... Eu não quero
que você*
[Wolvie]
Shiii! Ruiva, cê sabe que
eu jamais mentiria pra você. Eu vou voltar, ou cê
pensa que vai se livrar de mim assim? A gente prometeu, lembra? Um pro outro!
Não é minha vez, guria, eu sei que não. – quase murmurando essas palavras em
seu ouvido.
Ela não responde mais com palavras, não conseguiria mesmo que tentasse. Maneia a cabeça, concordando, enquanto seu corpo faz um movimento totalmente diferente, agarrando-se ainda mais forte a ele. Sorrindo um pouco, Logan começa a se libertar do abraço, mais por obrigação que por vontade. É doloroso ter de separar-se de quem se ama, mesmo tendo a certeza de que essa pessoa o sabe. O canadense enche os pulmões do perfume de Ohana e sai, sem olhar para trás, com passos firmes e decididos, cruzando a porta, solta um:
[Wolvie]
<Cuide muito bem da minha mulher, Hidochi!> -
dando um tom de ameaça e sumindo no corredor, em direção à saída.
[Capitão] <Seu marido
tem um jeito muito peculiar de dizer que se preocupa, não?...> - voltando a
sentar-se.
[Ohana]
<Ao menos ele sempre o diz, Sr. Hidochi... Mesmo
que aos outros não pareça o meio apropriado. É por isso que nos damos tão bem.
Eu consigo entendê-lo.> - sentando-se na cadeira da
frente, com o olhar desfocado e rezando para que ele
somente voltasse.
Na porta da Delegacia, o canadense conseguiu ouvir essa última frase de Ohana, graças a sua audição apurada e somente fechou os olhos, parando para pensar se estava mesmo fazendo a coisa certa: deixando sua mulher para caçar alguém que rouba dos ricos. Então, a imagem da criança aparece em sua mente. Era para parar esse tipo de atrocidade que Logan resolveu encontrar o culpado! Isso estava acima do certo e do pertinente, passava a ser uma questão de vida. Senão sua, ao menos, das futuras vítimas em potencial do assassino. Pedindo para uma viatura levá-lo até o Hospital Geral de Tóquio, o mutante era a figura da raiva incontida!
Não demora muito para chegarem ao hospital e muito menos para chegarem até o quarto 6 da ala da UTI, ainda mais acompanhado por dois policiais.
Aqueles que guardavam a porta batem continência e abrem caminho para a pequena comitiva. Assim que entram, o ar abafado e viciado da sala invade Logan. Era um misto de remédio e morte, muito comumente encontrado nos hospitais, porém, mais acentuado naquele pequeno cubículo. Uma mulher jazia adormecida ao lado da criança que, naquele instante, parecia não contar com mais de dez anos, nas poucas partes que não continham tubos e agulhas para tentar manter a vida. Um curativo em cada um dos olhos deixava claro que a perda da visão tinha sido mesmo total. Instantaneamente, Logan pensa em James! Pensa em como a mulher deitada na minúscula cadeira deveria ter sofrido, parado de sofrer e juntado forças para recomeçar o sofrimento novamente... Era apenas isso que ela poderia fazer. Ou então, rezar. Mas isso nem mesmo passou pela mente do canadense. Afinal, não é o que ele faria num caso desse... Chegando mais perto da criança, o mutante tenta sentir algum cheiro significante, em meio a tantos aromas conhecidos. Nada! Também, já havia passado algum tempo desde o ataque, tempo demais pra qualquer pista permanecer ali:
[Mulher] <Quem é
você?!> - despertando de supetão e tomando a defesa da criança, como um
animal que cuida dos filhotes.
[Wolvie]
<Tô ajudando a polícia a encontrar quem fez isso...> - apontando para a criança.
Pronto! Não bastou mais nada para que a mulher iniciasse a chorar, apoiando-se no colchão ralo da cama com ambas mãos:
[Mulher] <Ela é só uma
criança! Quem faria isso a uma criança?!> - olhando firmemente para Logan.
[Wolvie]
<Alguém que nunca teve uma, ou se achou maltratada na infância... Mas isso,
tanto faz, senhora. Porque nada justifica matar os
outros e, quando eu encontrar quem fez isso, tenha a certeza de que os motivos
vão importar menos ainda...> - proferindo a última
frase entre estranhos grunhidos.
A mulher desvia o olhar do mutante. Não gostou do que encontrou nele. Mesmo sendo uma vítima, sabia que naquele olhar a morte não encontrava guarida, pois era muito mais do que isso: era sofrimento, real sensação de vingança e/ou justiça:
[Mulher] <O Sr. já teve um filho, não?> - passando a mão nos cabelos
ralos da criança, sem encontrar resposta nas máquinas que lhe sustentavam a
vida soando sempre da mesma forma monótona.
[Wolvie]
<Sim... Já tive...> - limitando-se a isso.
[Mulher] <Então, deve
saber que nenhum ato impensado pode trazê-lo de volta. Ou amenizar a dor... Nos
meses que estou aqui já passei por várias sensações. No início, o ódio tomou
conta de mim, depois a vingança. Conforme o tempo foi
passando e a situação permanecia a mesma, passei a procurar outros meios:
entrei em contato com várias seitas, tentando encontrar uma resposta de Deus,
tentando entender porquê ele faria isso... Não
consegui! Nenhum deles sequer parecia entender meu sofrimento. Minha dor.
Então, passei a ficar mais tempo com meu filho Ken.
Passei a perceber que, mesmo estando desacordado, havia muito tempo que o havia
“esquecido”. Havia muito que não sabia mais quais seus desejos e anseios... Até
que, mexendo numa das gavetas dele, encontrei seu diário. Oh! Desculpe-me, o Sr. deve estar achando isso uma história totalmente inútil,
não?> - fazendo o famoso cumprimento que leva o tronco para
a frente.
[Wolvie]
<Não! Pelo contrário... Tem muito de mim mesmo nas suas palavras, continue...> - retribuindo o sinal.
[Mulher] <Foi quanto
percebi que ele mesmo havia plantado essa “semente” de tristeza... Talvez, por
minha própria culpa, mas isso, não sei se um dia eu
saberei. Ele fugiu de casa naquela noite, ia se matar na manhã seguinte! Não
tinha mais vontade de viver... Segundo o diário, a culpa era
dele mesmo. Suas últimas palavras foram: “não agüento mais viver. Amo vocês,
meus pais, mas não vejo saída para minha dor”.
E essa “dor”, nada mais era do que não ter achado seu lugar no mundo.
Agora, eu me pergunto: o que uma criança de dez anos sabe sobre seu lugar!? Deixei de culpar o assassino, a mim ou a minha família.
Deixei, mesmo, de culpá-lo. Afinal, ele não conseguiu seu intento. Ainda está
vivo e, segundo os médicos, irá acordar um dia. Então, quando isso acontecer,
eu estarei ao lado dele e o farei perceber como a vida é bela e como todos
temos um lugar nela! Mesmo nas condições em que ele se encontra... Sei que
existe um lugar para ele e sei que seu filho também encontrou seu lugar. Pois é
para isso que estamos aqui. Conseguirmos encontrar nosso lugar no mundo.
Conseguirmos entender que as menores atitudes nossas são importantes e
repercutem no mundo ao nosso redor. Eu entendo isso agora. Entendo que minhas
ações afetam meu filho e entendo que a ausência delas também afetou, porém, a
falta de entendimento o fez buscar o caminho aparentemente mais fácil. E deu no
que deu... Sua vida será muito mais difícil daqui para frente. Mas tenho
esperança de que a dificuldade o fortaleça e o faça compreender a vida. – dá
uma pausa, olha para Logan novamente – Domo arigatô por ouvir meus singelos pensamentos... Foi muito
importante para mim!> - cumprimenta-o e volta a sentar-se.
O mutante nada disse. Tinha muito nas palavras dela que, de certa forma, o confortava, o fazia perceber que ele não era inteiramente culpado pela morte de James. Contudo, pensar que isso tinha sido o melhor para o filho, pois ele tinha “encontrado seu lugar”, era um salto que Logan não pretendia dar tão cedo. Mesmo sabendo de tudo que Psylocke falou, um imenso vazio vivia em seu peito. Pela impotência de fazer algo. E era esse mesmo vazio que o impulsionava a achar o assassino. Assim, teria como fazer alguma diferença para outros. Afinal, era isso que tinha feito a vida toda, sempre que vestia o uniforme e saia com os X-Men. Ele sabia o que significava perder quem se amava e, em nenhum momento teve de passar pelo que aquela senhora passava: Viver cada dia na esperança de seu amor acordar. Saber que seu corpo estava ali, sem, contudo, conter sua essência. Era uma situação diferente e fazia ter pensamentos diferentes. Logan ainda não podia entender. Apesar de ter notado em si uma certa modificação, especialmente depois de conhecer Ohana, sua vida ainda era, na maior parte do tempo, preto no branco. Os tons de cinza que cismavam em aparecer algumas vezes, o desconcertavam. Faziam-no pensar em assuntos dos quais não tinha controle e sempre era necessário voltar a “aclarar” a mente e parar de deixar-se levar por eles. Ao menos, desse modo, parecia ter controle sobre sua sanidade e era isso que importava! No momento, o que importava era encontrar o assassino e matá-lo. Impedindo que outras pessoas inocentes tivessem suas vidas ceifadas!
[Wolvie]
<Her... Não tem problema! Agora, se me dá licença,
tenho que tentar encontrar quem fez isso> - e saiu, sem esperar resposta.
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Numa outra parte da
cidade, Yukio perambulava com os pensamentos fervilhando em sua mente. Vários
momentos repassam como um flash back. Cenas em que Logan aparecia, ora como
salvador, ora como amante. Mescladas naquilo que foi uma vida, definitivamente,
agitada. A velha ninja sorria, às vezes. Outras, deixava claro que seus
pensamentos estavam perdidos em antigas promessas não cumpridas. Claro, todas
elas tinham sido feitas pela própria japonesa, já que Logan nunca havia deixado
de cumprir uma promessa. De qualquer modo, era doloroso sempre pensar nele.
Pensar em quantas vezes tinha se obrigado a parar de amá-lo, em vão... Sabia
que ele dificilmente se apaixonava, mas, quando o fazia, era pra valer. Foi
assim quando conheceu Mariko e o tempo todo que pranteou sua morte. Estava
sendo assim naquele instante, contudo, com outra mulher... Yukio odiava Ohana,
sem nem mesmo conhecê-la! Sabia que estando casado, Logan jamais teria algo com
ela e isso a enraivecia de tal forma que ela queria nunca ter conhecido o
canadense!
[Yukio] <“Ah!
Como eu fui tola! Se tivesse feito aquilo que me pediram, jamais estaria
sofrendo assim! Era tão simples: manter o canadense longe de todos, vivendo
embriagado em meus braços! Mas eu consegui cumprir com isso? Não! E agora,
sofro as conseqüências... Me deixei apaixonar... Mas, Yukio – a ninja pensava –
você nunca teve tantas alegrias em sua vida. Ah! Ele é tudo o que eu sempre
quis e, ao mesmo tempo, o que nunca desejei... Acho que tudo faz parte do “ser
Wolverine”, não? E, em seus atos, acabou me dando uma das maiores felicidades
do mundo: ser mãe! Nunca pensei ser capaz de criar uma criança, mas foi isso o
que sempre desejei e Amiko chegou para provar que eu sou capaz! Que mesmo um
coração endurecido é capaz de ter amor e de fortalecer esse amor....”>
Ia totalmente
despreocupada pela rua, perdida em idéias que não tinha há anos! Aliás, idéias
que pensava estarem esquecidas nalgum buraco profundo, soterradas pela difícil
vida levada. Mesmo assim, seus sentidos estavam alertas, talvez, apenas um
tanto embotados pelo barulho da rua, suas luzes, mesmo assim, seria capaz de
perceber uma aproximação, não seria?
[Amiko]
<Yuuuuuuu! Está dormindo?! Estou te seguindo há dois quarteirões!> -
pondo a mão no ombro da mãe adotiva.
O golpe vem rapidamente,
mas, do mesmo modo que vem, é rechaçado por um golpe bastante forte e preciso
onde a força empregada no golpe de Yukio é usada contra ela mesma! Assim que se
vê no chão, ela fala:
[Yukio]
<Hei! Onde diabos você aprendeu isso?!> - levantando-se e limpando a
poeira.
[Amiko]
<Desculpe, mãe! Não tive a intenção!!> - ajudando-a e pedindo desculpas
com o corpo - <Vi esse golpe na tevê, bastante útil, não?>
[Yukio]
<Se você pretende se voltar contra quem te criou, é mais que útil! Eu nem
percebi que você estava me seguindo! Acho que perdi meus “dons”...> -
levantando a sobrancelha e continuando a caminhar.
[Amiko]
<Claro que não! Você sempre será a minha sensei, Yukio! Acho que estava é
pensando no Logan-san, não?!> - rindo e seguindo a mestra.
Yukio nada responde,
apenas balança a mão negativamente, fazendo a jovem mulher parar de andar para
poder rir:
[Amiko]
<Não perca as esperanças! Um dia ele vai parar de correr o mundo e vai
sossegar em seus braços!>*
[Yukio]
<Ele casou, Amiko-chan! Casou e nem nos convidou! Acredita?> - parando em
frente a uma casa de classe média.
[Amiko]
<O quuuueeeeeeeee??? Casou? Com quem? Como assim? Ele não faria isso,
faria?!> - entrando e deixando os sapatos num singelo aparadouro de madeira,
na entrada da casa.
[Yukio]
<Eu não a conheci ainda, mas ele me disse que casou nos EUA e que, como
viria passar a lua-de-mel aqui, decidiu não nos convidar. Deixou claro que eu
não iria, mesmo que convidasse e eu insisti que se a tivesse convidado, você
iria!> - começando os afazeres do jantar.
[Amiko]
<Hein? Eu não iria sem você, Yu! Não, não!> – juntando a palavra negativa
ao sinal com a cabeça.
[Yukio]
<Obrigada, Amiko! Mas eu faria questão que fosse... Sei o que ele significa
para você!... Pegue o aparador, sim?>
[Amiko]
<Hai! (sim!) E eu sei o que ele sempre significou pra você, Yukio-chan! Por
isso, não teria coragem de deixá-la aqui e ir me divertir na festa de casamento
dele!> - abrindo uma das portas embutidas e pegando um belo aparador de
madeira com motivos orientais em laca.
A noite passa sem maiores
comentários sobre Logan ou sobre seu casamento. Amiko havia ficado ressentida,
era possível ver por seu olhar perdido e pelos dois copinhos de saquê que ela insistiu
em tomar, mesmo com o desagrado de Yukio. Mais cedo que de costume, ambas foram
dormir, afogando na noite seus sentimentos de desagrado e ressentimento.
Afinal, nada melhor do que um dia após o outro para apagar certas feridas...
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A caçada de Logan estava
apenas no começo. Tinha pedido para ser levado até a cena do primeiro crime:
uma mansão nos arredores de Tóquio, de um requinte e luxo somente vistos na Era
Meiji (uma Era onde os samurais estavam com os dias contados e onde o Ocidente
influenciava tanto nos modos de vestir quanto nas construções. Essa mansão era
um desses casos. Tinha um estilo arquitetônico totalmente ocidental). Como
todos os presentes haviam sido mortos, não existia interesse dos familiares em
voltarem a viver ali, naquele lugar amaldiçoado pelos deuses!
Esse era o lugar perfeito
para iniciar uma pesquisa: ninguém para atrapalhar, nenhuma papelada para
preencher. Só seria melhor se estivesse com Ohana ali... Ou, talvez não.
Definitivamente, a ruiva não iria conseguir deixá-lo compenetrado o suficiente.
O balanço de seu cabelo, os reflexos vermelhos em contraste com a pele branca e
as duas safiras incrustadas, onde Logan cismava em se perder, sempre que podia
e tinha tempo para estar com ela, não seriam as companhias ideias para alguém
que tenta desvendar um crime! Soltando um sorriso maroto, o canadense espanta
os próprios pensamentos e volta a ficar com a expressão carrancuda habitual.
Para alguém que apenas
olhasse, podia parecer que nada estava sendo feito, além de um passeio pelos
corredores da mansão. Contudo, para um observador mais atento, era fácil
perceber as nuances dos movimentos quase felinos do mutante.
Logan procurava uma pista,
qualquer que fosse, capaz de levá-lo até um comparsa, um bar ou mesmo um outro
lugar qualquer, mais sólido do que aquele estranho lugar que se negava a
mostrar seus segredos.
A cena do crime, apesar de
passado tanto tempo, ainda estava “fresca” para o canadense. Para cada poça de
sangue apagada pelo tempo, Logan sentia o cheiro da morte, podia determinar,
sem sombra de dúvida, cada um dos lugares onde mais de uma dezena de pessoas
foram mortas, entre serviçais e moradores. Podia, até mesmo, estipular o
momento da morte, de acordo com a quantidade de hormônios dispersos no ar e sua
permanência no local, após tanto tempo. Assim que sente um cheiro, milhares de
informações vão para seu cérebro, catalogadas, durante quase duas centenas de
anos, com uma rapidez digna dos mais modernos computadores.
“Foi um
trabalho mais que limpo! – pensava, feliz por não ter com quem exteriorizar
aqueles pensamentos de morte – Não consigo sentir nenhum cheiro diferente em
toda a casa! Seja quem for, nunca foi atingido! Pois, se sangrasse, um ml que
fosse, eu ia sentir... Droga! Tô num mato sem cachorro... Vou ter que ver se
tenho mais sorte no próximo lugar....” – repassando novamente o caminho,
tentando ver se não tinha deixado algum detalhe escapar.
O tempo passado na mansão
somente ficou claro ao sair e perceber os últimos raios de sol no horizonte. Ao
que parece, a Deusa Amaterasu (Deusa do Sol) estava fugindo mais uma vez,
privando os mortais de seu conforto e segurança, deixando-os à sua própria
sorte na noite que iria começar.
O próximo lugar era uma
pequena exposição de arte. Na verdade, um galpão com muito vidro e lustres,
segurança máxima e espaço para os mais badalados objetos. Se alguém da alta
sociedade japonesa quisesse um local para expor suas preciosas obras de arte
particulares, aquele seria o local perfeito! Se não se contasse com o fator:
assassino maníaco! Logan já sabia, somente de olhar, que aquele local nada
teria a acrescentar à “investigação”. Não haviam vestígios de luta, nenhum
vidro havia sido quebrado e, segundo o responsável pelo chamado daquela noite,
o tapete central – agora um felpudo pêlo de carneiro imaculado – mais parecia
um imenso mata-borrão vermelho.
[Wolvie]
<O lugar tá mexido demais, saca? Se eu não puder encontrar algum lugar que
não tenha sido mexido, fica difícil trabalhar... Que exposição estava tendo
aquela noite?> - apenas olhando pelos vidros, tentando apurar os sentidos,
mas sem parecer interessado.
[Policial]
<Eu entendo... Mas o local não estava com seus donos naquela noite. O senhor
deve entender que está diante de um dos aluguéis mais caros do Japão! Não é um
“acidente” que vai impedí-los de continuar, entende? – ao que Logan acena
positivamente – Era uma exposição de diamantes... De um colecionador
particular. Uma das maiores gemas, encontrada no Brasil, pertencia a esse sr...
Agora, ele não precisa mais dela....> - tirando o quepe.
[Wolvie]
<E pra que alguém ia roubar um negócio desses? Alguém está de olho no
mercado negro? Pode ser que ele tente vender, trocar! Sei lá! Fazer diamantes
menores!> - desistindo de olhar na galeria. Pois o lugar estava mais limpo
que pia de hospital.
[Policial]
<Já lançamos um aviso sobre isso. Mas, até agora, nada! E já se passaram dez
meses... Sabe, um amigo meu no departamento, responsável pelo perfil
psicológico me disse que essa pessoa não tem um padrão e que isso é a primeira
vez na carreira dele! Chegou-se a cogitar a possibilidade de ser mais de um,
mas o “modus operanti” é o mesmo, sem, contudo, ter uma base sólida... Ele
sempre ataca a alta sociedade. Algumas vezes, modifica os corpos para paracerem
alguma cena de cinema, outras, somente mata, sem deixar as vítimas sofrerem. Os
produtos que rouba são, aparentemente, aleatórios! E, por isso, não encontraram
um padrão! Estamos de olho em qualquer tentativa de venda das peças, ou mesmo,
na possibilidade de ser um assassino de aluguel. A nossa rede de comunicações
está em alerta! Esse é o caso número um em qualquer investigação e*
[Rádio]
<*sssssssrrrrrcccc* Chamando todos os carros! Chamando todos os carros!
*ssssrrrrrrccccc* Todas as unidades, qsl na Rua Sakura, numeral décimo oitavo
sexto! Repito, Rua Sakura, décimo oitavo sexto! Suspeita de assalto
[Policial]
<Vamos! Talvez, essa seja sua chance de conseguir uma pista mais “fresca” do
assassino!> - abrindo a porta rapidamente e já dando partida no carro.
O canadense quase não tem
tempo de pular no assento do passageiro, segurando-se como podia para não
acabar sendo jogado fora do carro
Graças à perícia do
motorista, chegaram primeiro que qualquer outra viatura e, assim que encontram
o museu em chamas, apressam-se em tentar ajudar, de algum modo, caso houvessem
sobreviventes.
O policial fez o que lhe
competia: avisar os bombeiros de que eram necessários ali. Já Logan, também fez
o que lhe competia: entrou correndo no meio dos escombros, assustando o jovem
policial:
[Policial]
<Não entre aí! O lugar todo pode desabar!> - com o alto falante da
polícia.
O mutante ouviu, mas não
se incomodou. Sabia da emergência do momento e, especialmente, queria ter a
oportunidade de encontrar com o responsável por aquilo ou, ao menos, com uma de
suas vítimas ainda viva! Várias partes de sua roupa começavam a queimar e
algumas mechas de seu cabelo também, mas o cheiro geral do incêndio não deixava
perceber esses “detalhes”. Logan teve que se controlar para não sair dali. O
cheiro forte de madeira, tinta, tecido e carne era quase insuportável para
alguém com o sentido olfativo tão desenvolvido! Tinha um leve ar de gasolina
também, comprovando que havia sido um incêndio criminoso. Como se chamas
pudessem ser tão fortes com os materiais encontrados no local. Uma ajuda
externa tinha mesmo de ter acontecido. Andando alguns metros mais para dentro
do fogo, o canadense percebeu que o sistema anti-incêndio não estava
funcionando. Nem mesmo uma gota de água estava sendo jogada sobre as caras obras
de arte e objetos antigos do local.
Olhou mais adiante, assim
que sentiu um cheiro de vida, mesmo que um cheiro tênue como aquele! Correu:
[Wolvie]
<Não se preocupe, nós chegamos e vamos te ajudar! Apenas, não se preocupe e
cuide para ficar viva!> - agachado que estava ao lado de uma mulher quase
nua, com queimaduras em várias partes do corpo.
A vítima mal conseguia
falar, com os primeiros socorros de Logan, ela conseguiu sentar-se, porém,
sentia muita dor. Não conseguia ficar parada, movimentava-se, sussurrava. O
mutante tentava acalmá-la, mas, não demorou muito para ela começar nas últimas
agonias da morte. Havia perdido muito sangue e estava também extremamente
debilitada psicologicamente:
[Mulher]
<Não... vou... viver. O-o... brigada
por tentar... Mas*
[Wolvie]
<Não diga isso! Vamos te ajudar! Você também vai nos ajudar!> -
segurando-a, mas ela tentava se soltar.
[Mulher]
<Vocês precisam saber *cof* uma coisa: não é... um.. um...> - desmaia.
Logan a pega no colo e
começa a sair daquele lugar sufocante, era demais pedir para que ela
conseguisse falar ali, ou mesmo, pedir para que qualquer outra coisa vivesse!
Assim que começa a chegar na parte de fora a mulher desperta, totalmente fraca
e solta, juntamente com seu último suspiro:
[Mulher]
<um homem!...> - e morre.
Deixando um mutante muito
possesso da vida, tentando reanimá-la na calçada, enquanto os guardas tentavam
chegar perto e mostrar que nada mais podia ser feito. Apontar que naquele caso,
a morte havia sido uma bênção, pois várias partes do corpo estavam severamente
queimadas. Mesmo assim, Logan tentou reanimá-la por mais de cinco minutos,
dando olhares muito raivosos para quem tentava dissuadí-lo!
Para ele, ser um X-Men
dava mais obrigação que prazer. A obrigação de cuidar das pessoas inocentes e
de tentar, a todo custo, fazer a vida prevalescer. Era difícil aceitar uma
derrota, ainda mais a de alguém tão corajoso a ponto de dar uma pista tão
importante para a polícia como a do sexo do assassino!
Voltando a entrar no
museu, agora acompanhado de uma equipe do corpo de bombeiros que o obrigou a
usar os aparatos de segurança, as chances de encontrar alguém vivo eram
remotas. Contudo, eles persistiam nas buscas, inclusive tentando recuperar
alguma peça de arte que não tivesse sido totalmente destruída. Os objetos
contidos ali eram únicos! Seu valor poderia ficar dez vezes maior se passasse
por um acidente desses e conseguisse ser recuperado. Esse fato deixava Logan
andar à margem da equipe, ele não estava interessado em nada material. Apenas
nas vidas que poderia salvar.
Passaram exaustivas horas
naquele lugar. O faro do mutante ajudava nas buscas e, ao final, contaram dez
mortes, em sua maioria de pessoas responsáveis pela segurança. O corpo da
primeira mulher foi reconhecido por uma parente como sendo o da curadora do
museu.
[Parente]
<Ela sempre ficava até mais tarde! Amava essas obras!> - abafando a voz
num choro realmente sentido e convulsivo.
Uma das enfermeiras
ajudou-a a sentar e ministrou um calmante, dando os primeiros cuidados.
O restante dos corpos foi
sendo reconhecido, pois as equipes de filmagem chegaram ao local e a notícia se
espalhou. Enchendo a rua de curiosos. A pedido da polícia, o fato do sexo da
meliante não foi revelado. Todos os corpos foram dados como encontrados sem vida
e apenas se permitiu a mídia para efeito de um maior reconhecimento das
vítimas.
Logan saiu logo que a
primeira câmera chegou. Odiava o tendencionismo da televisão e, para evitar
maiores problemas, resolveu voltar para a delegacia, pois era tarde da noite.
Veria Ohana e contaria as novidades à Hidochi, não que ele já não as soubesse,
através do rádio. Mas, alguma estratégia tinha de ser montada para que o
canadense estivesse na próxima cena do crime, antes que ele acontecesse!
A pequena jornada de volta
foi mais que monótona. O responsável para levá-lo à delegacia não era de muita
conversa, fato que Logan agradeceu, pois odiaria ter de faltar com respeito a
um oficial da lei, especialmente se este quisesse detalhes do resgate no museu.
Chegou no destino quando já era madrugada alta, poucos policiais faziam guarda.
Na sala de entrada, apenas uma mulher com um roxo nos olhos, ao lado de um
homem um pouco bêbado discutiam; num outro canto, uma prostituta estava com
cara de enfado, explicando que não estava fazendo nada errado, apenas atendendo
um cliente! Uma noite tranqüila por ser no centro de Tóquio.
Ele ia entrar sem fazer
muita cerimônia, mas ao passar por uma das portas e sentir o cheiro de Ohana
atrás dela e o silêncio da sala, parou e abriu cuidadosamente a pesada porta de
madeira; tudo para ver a mulher dormindo silenciosamente em um sofá que se
tinha pouco de confortável, não demonstrava.
Agaichando-se ao lado do rosto dela, Logan sorri pela primeira vez no dia, subtraindo da mente as partes mais complicadas do dia. Apenas olhar para aquela mulher lhe trazia uma paz ao coração que ele jamais tinha experimentado, era divino! Era assustador! Baixando a cabeça, desiste de levantar quando a respiração da ruiva fica um pouco mais pesada e seu sono deixa de ser tranqüilo para mostrar-se um pouco conturbado. Era o início de um pesadelo que se formava e tomava corpo com as palavras de Matsuo sobre a suposta maldade de Logan. Na mente de Ohana, aquela parte da mente que faz um balanço de tudo que aconteceu durante o dia e tenta codificar de maneira a ser entendido e fixado pelo cérebro, aparecia um canadense totalmente animalizado, com olhos parecendo sangue e risada de hiena, rasgando todo o ambiente ao redor com suas garras de metal, chegando cada vez mais perto dela, atacando-a. Nada do que tentasse fazer era capaz de afastá-lo, até que um outro, igual ao atacante, contudo, com olhos compreensivos e amigos aparece na cena e começa a defendê-la. Acaba ganhando da fera e sentencia que aquele momento tinha passado. Era chegado o momento da justiça e não da selvageria. Abraçando-a, o pesadelo passa e, lentamente, Ohana abre os olhos, dando de cara com Logan que a observava preocupado:
[Wolvie]
Tava tendo um pesadelo, ruiva?... – colocando a mão no ombro dela.
[Ohana]
Wolvie! Você voltou! – sentando no sofá e puxando-o
para sentar-se ao lado dela. – Conseguiu resolver o caso? – abraçando-se
fortemente a ele, tendo a certeza de que ele era o vencedor de seu sonho.
[Wolvie]
Ainda não... Ao invés disso, ela atacou mais uma vez...
[Ohana]
Ela? Como você sabe que é uma mulher? – voltando e olhando atentamente para o
marido. As rugas em sua testa deixavam claro como o dia tinha sido cansativo.
[Wolvie]
Antes de morrer, uma das vítimas me contou. Tô
cansado, gata... Cansado de toda essa maldade. O tempo passa, mas o ser humano
continua fazendo o mal... – agora era a vez dele procurar
abrigo nela, deitando a cabeça no ombro da mulher.
Ohana nada diz, não existem palavras que servissem de consolo, nem que ajudassem. Ele estava certo, a maldade parecia algo patente no ser humano... Algo que não precisa de desenvolvimento, algo natural. Acariciando o cabelo do marido, Ohana deixa claro que concorda e que também está cansada disso. Passam alguns minutos assim, aninhados. Parecia que Logan tinha ido recarregar as forças na fonte que era Ohana e, depois de estar com o marcador em “cheio”, resolve prosseguir. O quanto antes desvendasse isso, o quanto antes poderia resolver seus outros problemas...
[Wolvie]
Eu tenho que falar com o Hidochi. Tenho que acabar
com isso antes que ela mate de novo! – falava da boca pra fora, mas sem mover
um músculo para levantar – Mas eu queria não precisar...
[Ohana]
Eu queria poder te ajudar, amor... Mas você deve
seguir seu coração. E eu sei que ele quer que você resolva logo isso. Senão,
você não seria um X-Men. Não é? – sorri, com
compreensão.
[Wolvie]
É... Acho que tu tá certa... Quando disse “amor” –
ele sorri e respira fundo – Eu não quero me
transformar no Scott, ruiva... Que faz as coisas porque devem ser feitas! Não
porque é isso que ele sente e quer...
[Ohana]
Você nunca vai ser como o Scott, Loggie! Você tem seu
coração pra te guiar, viveu experiências que ele nunca vai viver e, por isso,
nunca vai fazer aquilo que não acha certo, mesmo que o resto do mundo ache! –
sorri, passa a mão em sua barba – Me diz, por que você está tentando achar essa
assassina? O que está te incomodando?
[Wolvie]
O fato de o Hidochi se dar bem, politicamente, se ela
for presa. Eu não tô querendo que o cara vença pelos
meus esforços, Ohana... Mas também, não posso deixar
que outros inocentes sejam mortos por causa disso, sacou? Tô
entre dois problemas...
[Ohana]
Então, resolva os dois, oras! Prenda a assassina e faça com que esse fato seja
conhecido da mídia, deixe claro que o Hidochi não é
responsável pelo sucesso dessa missão!
[Wolvie]
Não tinha pensado nisso, gata. Até que é uma opção interessante e, com certeza,
eu faria isso, se estivesse sozinho – passa a mão no rosto dela -, mas não
quero arriscar mais nada, agora que não sou mais só responsável por mim.
[Ohana]
Você acha que ele tentaria algo contra mim?! – franzindo a sobrancelha.
[Wolvie]
Sem pestanejar! Se ele quer vencer na política, os resultados justificam os
meios. E eu sei que ele é bem determinado a ponto de fazer isso... Mas, e com você, tá
tudo legal? Como foi o depoimento?
[Ohana]
Eu estou bem. Claro, não foi bem essa lua-de-mel que imaginei – os dois riem –
mas, também não tenho do que reclamar. Me trataram
muito bem, tiraram aquelas roupas desastradas de mim – mostrando o moleton comum que vestia – e, pra completar, posso dizer
que Matsuo não vai mais atrapalhar a gente. Você
estava certo sobre o fim dele estar próximo. Foi encontrado morto, logo depois
que saímos. Foi decapitado!... Deixaram um bilhete dizendo que essa tinha sido
a vontade dele, desde o primeiro ano depois da morte de Mariko.
Ao que parece, ele havia pagado um matador de aluguel pra isso e ele era um
cara que cumpria suas promessas...
[Wolvie]
É... Não é a morte que ele quis, mas essa, eu nunca daria! Eu jamais ia dar a
mesma “honra” da Mariko pra ele, jamais... – sua voz
embargou no nome de Mariko e Ohana
não teve coragem de perguntar nada a respeito. Ela sabia que o momento para
exorcizar os espíritos chegaria, cedo ou tarde... E, aquele, ainda não era o
momento.
Treinando um levantar do sofá, parece que todos os músculos estavam contra o que sua mente mandava. Eles queriam permanecer ali, ao lado da pessoa mais importante do momento. A pessoa que Logan escolheu para ser “só sua”, não que existisse possessão nesse ato, pois ninguém é dono de ninguém, o canadense sabia muito bem disso. Mas ele a escolheu por sentir que seus pensamentos eram os mesmos, que suas ações, frente a determinadas circunstâncias, eram extremamente parecidas. Ela era “só sua”, assim como dela ele era. Sem posses, mas com entendimentos e compreensões além das meras palavras.
[Wolvie]
Eu tenho que ir, Ohana. Vou tentar resolver uma coisa
por vez – coloca a mão na coxa dela e ensaia levantar o corpo, mas acaba
virando o peso para o rosto da mulher e a beija.
Ohana sente que aquele beijo era mais um desabafo que qualquer outra coisa. Tinha mais de pesaroso e pouco de carinho. Mas ele precisava e, mesmo sentindo que uma lágrima começava a se formar em seu olho, a ruiva resistiu ao choro diante da impotência de ajudá-lo e retribuiu. Pareceu funcionar, pois o canadense saiu mais leve daquele encontro, deixando a mulher um tanto acabrunhada. Nada que uma almofada apertada forte contra o peito não fizesse passar em alguns minutos...
O mutante entra sem bater na porta, sabia que Hidochi estava fumando do outro lado, muito acordado e alerta. Virando-se, totalmente tranqüilo, o Capitão deixava claro que não se assustava facilmente:
[Capitão] <Quer dizer
que conseguiu ficar na cena do crime! Espero que tenha conseguido o que queria,
sr. Rogan. Senão, foi uma
perda de tempo ter o sr. em nossas
investigações...> - soltando uma baforada do cachimbo.
[Wolvie]
<Não consegui pelo simples fato de ter dado os primeiros socorros a uma das
vítimas!> - meio ferrado com a atitude altiva e inapropriada do Capitão.
[Capitão] <Que
morreu... Sinto muito por ela, mas acabou atrasando sua investigação...>
- levantando uma sobrancelha.
[Wolvie]
<Pelo visto não avisaram que ela deu o sexo do assassino? – ao que ele
acenou negativamente – Bom, se cê tava procurando um ninja, pode mudar pra umA ninja... Ou seja lá o que for
alguém que faz tanto estrago sozinha...> - agindo como criança que sabe algo
que a outra não sabe e esnoba.
[Capitão] <E?... Isso
aumenta o número de suspeitos, já que em Tóquio temos mais mulheres que homens,
sr. Rogan... Não foi de
muita utilidade, concorda?> - voltando a fazer o jogo do “deixar nervoso pra
ver no que dá”.
O canadense nada responde; solta um largo suspiro de enfado e comenta, antes de bater a porta:
[Wolvie]
<Apenas estou avisando que dessa noite não passa. Vou voltar ao local do
crime, sozinho e começar a caçada, Hidochi. Quando eu
voltar, quero ver quem vai ficar com ar de superioridade!>
Do lado de fora, pôde ouvir o oriental dizer: “Já devia ter começado, sr. Mutante...”, ciente de que ele havia ouvido.
Para Logan, nada mais certo do que sair da cena do crime, deixar o criminoso pensando que tinha alguma vantagem. Caçar uma pessoa dessas era como estar nas montanhas canadenses, em meio à alcatéia. Sempre se deixa a presa pensar que está em vantagem para, depois, atacar sem piedade!
“O que um cara desses vai
entender de caçadas? Apesar de parecer ter mais em seu olhar do que simples
conhecimentos políticos e de escritório, eu quero mais é que ele se exploda! Assim que terminar com isso e matar essa
desgraçada, vou passar o tempo todo com Yukio e Amiko! Longe de encrencas... Se elas não vierem atrás de
mim...” – parte para o local do crime, correndo com uma velocidade incomum para
alguém daquela estatura e porte físico.
Do lado de fora, a noite já ia densa, e não demora muito tempo para Logan chegar ao local e, menos ainda, para conseguir sentir dentro daquela mescla de cheiros um bastante peculiar, pois, diferentemente dos outros, não tinha nenhuma nota de pavor, ou medo. Era uma espécie de cheiro neutro de sensações, como se fosse possível estar em uma montanha-russa e não gritar. Respirando fundo e gravando em seus registros aquela essência, a perseguição começa. Dessa vez, não mais pela rua, mas pelo telhado de casas e armazéns. Aquela área de Tóquio era totalmente deserta à noite, facilitando ainda mais o trabalho do canadense:
[Wolvie]
Hum... O cheiro acaba aqui. Tá
confuso... E cada hora eu me distancio mais do centro. Parece que ela quer ser
seguida... Acho que não sabe com quem tá lidando... –
agachado sobre o telhado de um armazém de frutos do mar.
A intenção da assassina tinha sido mesmo essa: afastar Logan do centro e deixar seu olfato confuso, afinal, ela sabia tudo sobre ele! Tudo o que tinha para se saber, até mais do que desejava!
Quando pensava em levantar-se, Logan é acertado por um chute em sua costela. Um chute muito bem dado, com uma força incomum para uma atacante feminina! Rolando na direção do impacto e levantando logo em seguida, ele nada vê e, com o cheiro de peixe, nada sente, dificultando sua defesa. Sem seus sentidos super aguçados, ele estava em desvantagem! Ainda tinha sua audição, mas foi incapaz de ouvir qualquer rumor em sua direção. Quem quer que fosse, era capaz de levitar! Pois não deixava rastro sonoro!
Tentando ao máximo captar algo, mínimo que fosse, é novamente acertado e jogado longe, por um golpe cheio de energia em suas costas.
Uma das aulas principais em defesa pessoal é: não tente absorver o golpe, deixe-se ir na direção dele e faça com que a energia dispendida pelo adversário perca-se.
Era somente isso que Logan podia fazer. Projetando o corpo para frente e sentindo gosto de sangue na boca, o mutante faz de seu corpo uma bola e pára a alguns metros distante, passando a mão na boca e sorrindo sarcástico:
[Wolvie]
<Depois dizem que os homens são covardes quando batem numa mulher. E uma
mulher que bate num homem, sem que ele possa se defender, o que é? - cuspindo o
sangue, enquanto pensava em como sair dali para poder ter seu olfato como
vantagem – Não quer ir para um lugar mais aberto? Um combate justo?>
Como resposta, uma cápsula de clarão que o cegou
momentaneamente e, depois dela, uma sucessão de golpes, todos muito bem
colocados em pontos de pressão, fazendo o mutante ajoelhar-se para que seu
corpo pudesse cuidar de se recuperar. Tentou dar alguns golpes, sem usar as
garras, apenas para ver se conseguia tocar alguma coisa.
[Wolvie]
Aaaaaarrrgggggggghhhhhhh!!!
*snikt* Come isso! – e começa um ataque de fúria,
depois de apanhar por alguns minutos sem revidar.
“Ai!” – um som mudo é ouvido há alguns metros dele. Logan olha a garra e percebe um filete de sangue.
[Wolvie]
<Ah! Então cê sangra?! Isso é bom, estamos em pé
de igualdade!> - olhando para a direção do som.
Nesse momento, ele consegue divisar um vulto negro correndo, muito mais que velozmente para o lado:
[Wolvie]
<Que é? Não tá a fim de lutar contra quem consegue
te enfrentar? Prefere matar crianças e pessoas inocentes?> - tentando
deixá-la nervosa para que ela erre em seus golpes.
Mas parece que não tinha muito efeito! A cada dois minutos, com um pouco menos de força no golpe dado com as pernas, ela o acertava, sem soltar um som:
[Wolvie]
<Hum... Ao que parece, acertei sua perna, né? Ou cê tá
se cansando? Por que eu posso ficar aqui por muito tempo, garota...>
- segurando uma costela trincada e cuspiindo sangue novamente, enquanto ria da
situação e de si mesmo - <Não sabe falar? Cortaram sua língua? Foi o
Tentáculo que te mandou? Se queria chamar minha atenção com os ataques e as
mortes, conseguiu...>
Nesse momento ela pára e começa a rir, mas seu riso vinha de vários lugares, como se Logan estivesse cercado por muitas garotas:
[Atacante] <Não queria
chamar sua atenção, estava treinando, apenas. Fui treinada para te matar,
programada, mais precisamente...> - o som abafado
da máscara que ela usava mais parecia o som de um fantasma.
[Wolvie]
<Acho bom pegar sua senha e entrar na fila, gatinha... Porque tem uma porrada de caras mais durões
tentando fazer isso!> - tentando focar no som, tentando perceber um cheiro.
Percebe dois sinais luminosos vindo em sua direção. Eram duas Shuriken (estrelas de prata usadas pelos ninjas) das quais desvia, sem conseguir desviar das que vieram a seguir, sendo acertado por uma delas, de raspão. Não demora nem mesmo um minuto para sentir seu braço formigar e queimar. Ela estava envenenada! E, pela rapidez com que se espalhava, pelos sintomas, ele percebe que era um concentrado de veneno de baiacu. Sua saliva começa a secar, sente frio e calor ao mesmo tempo, seu coração bate descompassado e o mutantes sente uma falha em seus pulmões.
[Wolvie]
<Ah! Mas... que ironia!.... Com tanto... veneno no mercado,... tinha justo
que usar... de baiacu?! – com a voz cortada, prossegue
– Isso... me trás... péssimas
recordações... Me dá só um minuto... pra eu me recuperar... e... você vai ver!> - tombando de frente e apagando,
momentaneamente.
A oponente fica alerta, mantendo uma distância de segurança e tentando perceber se ele ainda estava respirando. Mas, na ânsia de cumprir sua programação, a atacante chegou perto, bem perto! Talvez, fosse a curiosidade em saber se havia cumprido seu programa ou, quem sabe, um certo arrependimento por ter drogado tanto o canadense que não daria a ele a chance de morrer com honra, lutando. Seria somente chegar lá e cortar fora sua cabeça... Fica sempre difícil precisar o que se passa na mente de alguém que sofreu lavagem cerebral, em tenra infância e passou a ser uma assassina calculista, mas a verdade é que ela se aproximou e o alvo continuava imóvel. A franzina guerreira chegou bem perto, munida de sua katana e, encostando a lâmina desta na face de Logan, fez um corte profundo nele, afundando alguns centímetros da lâmina e percebendo o rubro manchar o metal e a pele do canadense. Nem mesmo um movimento facial, nada! Estava mesmo morto e, agora, era necessário garantir sua morte.
O organismo do mutante lutava internamente pela sobrevivência, por isso o corte da espada não cicatrizou tão rápido quanto deveria.
Em sua mente, lembranças desagradáveis, suas mais comuns companheiras, apareciam vez ou outra, reforçando memórias passadas, fazendo a decepção e o ódio aparecerem novamente de uma forma ele queria esquecer! Continuamente, as palavras de Mariko apareciam em sua mente: “<me liberte, meu amor! Me liberte!>” e, assim como em seus pesadelos, durante muitos anos após esse incidente, Logan ejetou suas garras e libertou seu amor do sofrimento causado pelo veneno. Uma morte rápida para ela, totalmente penosa para ele!
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Na mansão X, uma certa ruiva estava no jardim, cuidando de algumas roseiras quando levou uma enorme pontada na parte interior do cérebro:
[Jean] Logan!
– balbucia – Está em apuros! – fecha os olhos e se concentra. Para a mente mais
poderosa do planeta, alguns quilômetros de distância nada significam. Ela
consegue sentir a falência momentânea dos órgãos do canadense, revê as ultimas
cenas da luta e prevê o que acontecerá a seguir! Utilizando a imagem de Mariko que Logan estava vendo,
Jean o induziu a abrir os olhos e ficar de prontidão!
Assim que abre os olhos, ele vê um clarão de metal em sua direção e, sua primeira ação foi bloquear o ataque com as duas mãos, segurando a katana como se fosse um pedaço de madeira! A lâmina entra um pouco em sua pele, mas pára nos ossos revestidos de adamantium e, aproveitando a perplexidade da atacante, Logan pula sobre a mesma e a imobiliza, num contundente golpe de judô. Ela tenta, desesperadamente se soltar, mas o peso do oponente e a complexidade do golpe tornam a fuga impossível:
[Atacante] <Ah! –
berrava – Me solta! Eu tenho que te matar! TENHO!!>
- debatendo-se com uma força inútil, mass incomum para alguém de sua estatura.
[Wolvie]
<Isso – enfiando apenas uma das garras no ombro esquerdo da ninja – é por ter me envenenado!> - seus olhos brilhavam
com um estranho fervor, como se o próximo ataque fosse mortal.
[Atacante] AAAAAAAAaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhh!!!!!!
– grita, misturando dor e raiva, decepção e desânimo.
[Wolvie]
<Agora, a gente tá quites e eu quero que me
responda uma coisa. Vou perguntar UMA vez só: QUEM te mandou?!> - ejetando
as outras duas garras da mão direita.
A mulher começa a rir e fala:
[Atacante] <Ahahahah! Você é mais burro do que eu pensava! Será que não
percebe?! Sua farsa foi revelada! Eu sei TUDO sobre você! Sei como mentiu para
me impedir de te matar, mas Akatora-san abriu meus
olhos! Ele*> - Logan a solta, dando um berro:
[Wolvie]
<AKATORA?! MAS, QUEM É VOCÊ?!> - não dando tempo de ela fugir e
arrancando o capuz dela - <Não!... Não pode ser você...>
- com um começo de lágrimas nos olhos - <O que te fizeram.... AMIKO?!> -
soltando-a completamente e dando alguns passos para trás, deixando cair a espada.
[Amiko]
<O que VOCÊ me fez?! Sempre parecendo como um benfeitor, um amigo! Eu
cheguei a te considerar meu PAI! Não faz idéia de como eu fiquei quando
descobri a verdade!> - também dando uns passos para trás e colocando a mão
no ombro, tentando estancar o sangue.
O canadense estava mais perplexo do que nunca em sua vida! Ele, apesar de não ter podido criá-la como gostaria, a considerava uma filha! A primogênita! A amava, com todas as suas forças e, pelas costas, ela o traia...
[Wolvie]
<Vo-você me traiu... Co-mo?!
O que eu fiz de tão ruim pra merecer isso? Sei que não fui o pai ideal, mas Yukio, com certeza, foi sua mãe e seu pai!>
[Amiko]
<EU te traí? Você deve ter perdido totalmente o juízo! Ou é muito
dissimulado! Eu sei que VOCÊ matou minha verdadeira mãe! Eles me contaram! Akatora me contou a verdade!> - também baqueada pela
reação do mutante. Ela não esperava ver lágrimas nos olhos de um assassino...
Imagens difusas, de um passado não tão distante, mas imerso no esquecimento: uma tarde, quando Logan finalmente pôde ir visitar Amiko e Yukio; uma bicicleta de presente que nunca foi entregue; ninjas do Tentáculo no apartamento de Yukio. A caçada começa! De um lado, Logan, Yohei e a chefe do Clã Jade. Do outro, cyber ninjas e um mané metido a estrela de cinema: Akatora! Logan pensou que aquilo tinha acabado, mas, ao que parece, mesmo depois de morto, ele traria problemas...
[Wolvie]
<Como você pode pensar, depois de todos esses anos, que eu matei sua mãe, Amiko?! Eu te salvei aquele dia! Não se lembra?> - sua
voz estava embaçada pela emoção e pela vontade de chorar. Amiko
não podia crer no que via!
A ninja sacode a cabeça, tentando concatenar as idéias, tentando entender o que havia acontecido naquela tarde. Segurando a cabeça forte, como quem quer arrancá-la, ela tenta, desesperadamente, entender suas idéias e pensamentos. Entender como um assassino estava agindo daquele modo! Compreender porque ela não era capaz de terminar aquilo que foi programada para fazer?!
[Amiko]
<Não! Não pode ser! Você é mau! Não eu!! Você MATOU
minha mãe! Foi o que eles me disseram... Eles... Não!> - nada fazia sentido,
imagens reais rivalizavam com memórias impostas, não tão profundas como os
implantes de Logan, mas, ainda assim, preocupantes.
Todas as violências que ela impôs às suas vítimas passam por sua mente. Flashes de crianças, idosos, jovens. Vidas destruídas por algo que ela acreditava ser a única solução para a morte de sua mãe. O único meio de viver em paz! Todas vinham assombrá-la, negando a paz que o Tentáculo a fez crer que existisse na morte...
Novamente tomada pelo pânico, ela começa a alucinar e balbuciar palavras desconexas, tanto de momentos passados como presentes. Seus olhos batem na katana, caída a alguns metros na frente de Logan e, num movimento rápido, ela se apossa da mais perfeita arma branca já feita na Terra.
[Amiko]
<Eu não sei o que você fez comigo, mas nada vai me impedir de terminar meu
serviço! Nada!> - tomando posição de ataque.
[Wolvie]
<Cê tá certa, guria...
Se eu fui incapaz de perceber que cê precisava de
ajuda, eu mereço morrer!> - se ajoelha e fecha os olhos, inclinando a cabeça
para trás e deixando seu pescoço à mostra.
Outro baque! Ela titubeia, a espada quase cai de sua mão, seu corpo vai para o ataque, mas sua mente desvia o alvo, acertando um tubo de ventilação próximo.
[Amiko]
<AAAAHHHH! – grita, para dar o golpe – Você nunca me amou!!
Mas eu sou tão insignificante que não consigo matar você, gaijin!>
- ajoelhando-se e caindo com o rosto no chão.
O mutante sente o ar do golpe passar bem perto de si, imagina sua cabeça sendo separada do corpo e sua dor, cessando. Imagina a tristeza das poucas pessoas importantes em sua vida; pensa em Ohana como se fosse a última vez. Mas, curiosamente, nada disso acontece. Ele ouve um grito desesperado e um desabafo de alguém que nunca soube as reais limitações de ser um X-Man. Contudo, o que mais o fere é a palavra “gaijin”, proferida entre dentes, sem o mínimo de afeto. Será que era isso que ele era? Um mero estrangeiro? Um desgraçado incapaz de fazer aquela mulher na sua frente entender que, por muitos e muitos anos, ela foi a única razão para que ele continuasse vivo? Que os pouquíssimos minutos passados juntos eram o tônico para a vida daquele mutante?
Ele poderia dizer tudo isso, poderia tentar expressar-se bem, tentar explicar, todavia, o cheiro de terror que ela havia deixado ainda queimava suas narinas! Ela matou centenas de inocentes! Centenas!! Como isso poderia ser perdoado? Como eliminar da mente o fato de ter recebido ódio em paga do amor?!
[Wolvie]
<Eu acho bom você me matar, guria! Porque eu não tô
raciocinando direito! Se me deixar vivo, pode ser que a última coisa que veja
seja um gaijin!> - rosnando, tentando segurar o
ódio.
[Amiko]
<Você não entende, não é?! Eu não consigo te matar!... – soltando totalmente
a espada – Parece que todas as coisas que Akatora
disse eram mentira! Estou começando a lembrar de tudo...> - a voz emudade, ela
ajoelha-se e chora copiosamente.
[Wolvie]
<Agora tu lembrou de tudo? Depois de ter matado centenas de inocentes? Como
pode ser?! Que tipo de lavagem fizeram em você pra que matasse tanta gente e
não conseguisse me matar?> - levantando-se e indo até ela, contendo o ódio.
[Amiko]
<Acho que era esse o plano. A "vingança" maior do tentáculo: fazer
você matar, de novo, alguém que você ama... Vo-você
me ama, Rogan?> - sem ter coragem de levantar o
olhar.
O canadense é pego de surpresa pela frase e pela pergunta. Seria mesmo a vingança ideal, aliás, a vingança perfeita! Todos esses pensamentos fazem o ódio sumir devagar e restar a indignação diante das mortes inocentes.
[Wolvie]
<Se eu te amo?... Como tu pode me perguntar uma
coisa dessas, guria?! Durante anos, você foi a razão
para que eu vivesse, pra te ver crescer, te ver dar felicidade à Yukio... O fato de vir te ver, pelo menos uma vez por ano,
me fazia ter coragem, ter – até mesmo – fé... *suspiro* Jamais pensei que meu
amor fosse questionado por você. Jamais vou me perdoar por não ter visto que
você precisava de mim. Como sempre, eu falhei! Falhei contigo, com a Yukio e, por isso, comigo mesmo, pois vocês foram minha razão de viver!> - ajoelhando-se na frente da
pequenina.
[Amiko]
*chorando* <Não foi você quem falhou! Fui eu! Fiquei cega em meu ódio, no
ódio da morte de minha mãe que não percebi mais nada em volta...>
[Wolvie]
<A culpa não foi tua, foi lavagem cerebral, Amiko...
Eu sei o que isso pode fazer com uma pessoa...> -
abraçando-a.
[Amiko]
<Como você pode me entender depois de tudo que fiz? Não sou digna de sua
compaixão!> - levantando-se abruptamente e indo pegar a katana.
[Wolvie]
<Não foi você quem fez, eles usaram você; eles são os culpados! Ninguém
mais... Só que não tem mais ninguém pra ser punido, tão todos mortos, sacou?
Foi a cartada final deles, fazendo o mal mesmo da
cova... O que tu pretende com essa espada, guria?> - fazendo menção de
pega-la.
[Amiko]
<Acabar com essa vergonha do único modo que conheço, Rogan...> - colocando a
espada na direção de sua garganta.
[Wolvie]
<Essa é uma das partes que eu nunca concordei na cultura japonesa, não tem
honra nenhuma no suicídio. É fácil fugir dos problemas pela morte, Mi... A
coisa honrosa é ficar e enfrentar os problemas com dignidade, eu vou estar do
teu lado...> - completa, olhando para o lado e meio
surpreso com o que vê.
[Yukio]
<Nós vamos estar... – com os olhos banhados em lágrimas – Eu acabei seguindo
o Logan e fiquei escondida. Só que eu fiquei
escondida por muito tempo, acho que foi esse meu erro...>
- curvando-se para a mulher - <Não immporta o que nossa cultura diga,
enfrentar a Vida é muito mais honroso mesmo. Seja dona dela, senão, o Tentáculo
terá ganhado a luta. Eles estão prevendo que você faça isso, não dê esse gosto
a eles!>
[Amiko]
<E como eu irei viver com os rostos das pessoas que matei?! Velhos,
crianças, adultos?! Eu não conseguirei mais dormir! Não serei capaz de me olhar
no espelho, de estar ao lado de vocês! Sou um fardo
para esta família!> - fechando forte os olhos e
largando a katana.
O barulho seco do metal sobre o telhado parece que nunca seria ouvido. A espada demora a completar seu curso, tilintando demoradamente no pavimento e soltando reflexos de luz em cada um dos presentes.
[Wolvie]
<Você deve aceitar seus erros e aprender com eles, por algum tempo, esses
fantasmas irão te atormentar, e será necessária muita força de vontade para não
enlouquecer... Só que eu sei: tu tem essa força,
guria! Sempre teve, por isso você sobreviveu. Não fui
eu quem te salvou, foi você mesma! Vai dar essa chance pra gente? Como uma
família, vamos passar por isso!> - Abraçando Yukio
pela cintura e indo na direção de Amiko.
Os três se abraçam e as duas choram muito. Logan não tinha o que chorar, a imagem das vítimas ainda estava viva em sua mente. Cerrando os dentes e não dando a perceber, eles iniciam a longa jornada de volta ao subúrbio de Tóquio.
*corrigido e rediagramado em 25/07/2006 – 21h35min*