O JAPÃO JÁ NÃO É MAIS COMO ANTES...

 

No Labmed, Vampira e Gambit foram colocados na mesma salinha, com os mesmos receptores, para realizarem o mesmo que Remy já havia feito, mas Vampira recebeu de Hank a seguinte missão: rejeitar as propostas dele o quanto fosse possível! Claro, no humor que estava, a sulista não teria problemas...

 

[Remy] Finalmente juntos, para que Remy possa dizer o quanto sente por tudo o que fez, chéri! – todo o seu corpo se inclinava para ela, com o seu rosto indo na direção de Vampira.

 

Pela inércia, a morena não precisou nem usar da força. Deu um passo para o lado e Gambit caiu sobre a maca:

 

[Vampira] Nunca vi ter que ficar tão perto pra conversar, gatinho... Acho que dá pra você falar o que quiser daí mesmo... – indo para o lugar oposto, naquela minúscula salinha.

 

Depois de ficar alguns segundos deitado sobre a maca, pensando em como estava realmente “ferrado” daquela vez, Remy levanta-se:

 

[Remy] Está certa, belle. Tudo o que Gambit tem para dizer, pode ser dito assim, distante... – fazendo cara de cachorro pidão – Quero dizer que estou muito feliz por ter a oportunidade de resolver tudo isso; feliz por ter descoberto que posso precisar de ajuda, antes de te perder e perder Clarisse. Sei que já perdeu as contas de todas as vezes que falei o quanto vocês são importantes per moi, mas eu não. Me lembro de todas as vezes, mesmo daquelas que gostaria de esquecer, amour... Só de pensar na possibilidade de conseguir olhar para outra mulher sem o desejo de me jogar sobre ela – o olhar de Vampira é fuzilador – é um grande alívio! – ela sorri.

 

[Vampira] Bom, ao menos já mudou o discurso, só por isso, já ganhou alguns pontos... – aproxima-se um pouco dele – Não sabe como fico nervosa com todo aquele papo furado sobre não querer fazer as coisas que faz, Remy! Clarisse precisa de você, demais! – chega mais perto e toca o rosto dele, falando bem baixo: Eu preciso de você, sempre precisei, gatinho. Você é como uma espécie de bússola pra mim... – baixa a cabeça.

 

Gambit deixa-se ser acariciado, ele lembra-se de todas as vezes, no passado, em que aquelas mesmas mãos o tocaram com luvas, algumas feitas com tecido que parecia frio. Nada comparado com o toque quente das mãos de Vampira. Uma lágrima escorre dos olhos do cajun:

 

[Vampira] Que foi, gatinho? – com os olhos verdes mostrando toda sua preocupação.

 

[Remy] Rien (nada)... Remy estava lembrando de todas as vezes que essas mãos o tocaram com luvas, chéri... – ela olha interessada – e da alegria que tomou conta dos meus dias, quando você conseguiu controlar seus poderes. Não queria chorar, mas a lágrima caiu sem querer. Tenho certeza que foi uma lágrima de felicidade, amour! Certeza! – pega nas mãos dela, fazendo carinhos.

 

Vampira sorri, pensando se Hank já tinha conseguido o que queria com aqueles testes, porque não tinha vontade nenhuma de se controlar...

 

[Vampira] Eu nunca vou esquecer da tua cara quando eu contei e encostei em você, pra provar... – sorri mais abertamente – Acho que ninguém no mundo, além de você, me entendeu naquela hora, Remy. Todos ficaram felizes, mas em nenhum deles eu vi o que vi nos seus olhos, gatão!

 

[Remy] E o que foi, ma belle? – chegando bem mais perto, segurando a cintura dela.

 

[Vampira] Não sei se eu vi o que queria, mas a verdade é que eu vi desejo, de um jeito que nunca vi em nenhum outro olhar, Gambit. Será que era um reflexo dos meus olhos nos seus? – coloca as mãos sobre os ombros dele.

 

[Remy] Acho que era um olhar se refletindo no outro, ma vie. Será que Remy pode te beijar agora? – essa última frase foi feita num suspiro, com os lábios a alguns centímetros dos de Vampira.

 

A sulista não responde com palavras, apenas aproxima mais seus lábios dos dele. Ambos beijam-se como a muito não faziam. Com uma paixão quase primitiva, dos tempos em que não podiam se tocar. Aquilo serviu para renovar o amor dos dois como nenhuma terapia de casais faria. Era a real felicidade por estarem juntos e uma afirmação de que não erraram ao decidir por isso.

Assim que saem a expressão de Hank não é das melhores, ele sorria, mas tinha uma decepção por não terem cumprido o que ele pediu.

 

[Hank] Acho que não poderei me fiar nos resultados do teste de vocês, não é? – levantando-se e indo numa das telas do computador.

 

[Vampira] Ah! Qualé! Até que eu tentei... Mas não consigo resistir ao charme do meu maridão, Hank! – abraçando-se mais forte em Remy.

 

[Remy] Tem certeza, Hank? Se quiser, podemos voltar e tentar tudo de novo. – parando pra pensar – Mas, tenho certeza de que o resultado seria o mesmo, mon ami...

 

[Vampira] Ou pior! – ri.

 

[Hank] Bem, eu vou tentar entender, afinal, já estive apaixonado também... Mas nesse caso, esperava um pouco mais de comprometimento de ambas as partes, amigos... É para o próprio interesse de vocês! – faz uma pausa, olhando para os gráficos. Os dois abaixam a cabeça – Vampira, poderia me dizer se sua cabeça doeu em algum momento?

 

[Vampira] Não, azulão. Minha cabeça nunca dói. Por quê?

 

[Hank] Apenas para colocar no banco de dados. Mesmo com o comportamento de vocês, consegui coletar dados importantes. Podem sair, ficarei fazendo testes, cruzando dados e procurando respostas. A não ser que queiram me ajudar... – vira-se para uma parte mais afastada do Labmed onde vários compartimentos do computador central ficavam.

 

O casal faz uma careta, sabiam que seria algo muito chato e cansativo. Estavam com outros planos em mente, para “atrapalharem” desse modo um estudo tão sério!

Entendendo a expressão deles, Hank sorri e balança a cabeça, soltando um “não têm jeito mesmo!”. Os dois saem, mas, antes de cruzarem a porta, Hank pede:

 

[Hank] Por favor! Falem para Clarisse passar por aqui, sim?

 

Eles acenam positivamente e saem, deixando Hank sozinho com suas máquinas, cálculos, teorias e pesquisas.

 

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Na limusine, Logan e Ohana estavam muito bem, obrigado! O interior do carro tinha tudo o que se pensava e mais um pouco. Logan explicou que tudo isso foi por não ter mais o modelo que ele tinha pedido. Tinha recebido um telefonema algumas horas antes de saírem dizendo da falta do modelo pedido e que, por conta disso, enviariam o modelo mais novo, pelo mesmo preço! Ohana ficou muito feliz, tinha até mesmo uma jacuzzi dentro da limusine, com champanhes caros e vinhos italianos. Parecia mesmo a lua-de-mel dos sonhos!

Foram entre beijos, abraços e muitos carinhos até o aeroporto, embarcando tranqüilamente, graças ao atestado do Dr. Hank que explicava direitinho todos os “problemas de origem estrutural que levaram ao uso de próteses de metal em quase toda a superfície óssea do Sr. Logan”. Era mais ou menos assim que dizia o relatório, estudado por um médico do aeroporto e liberado, logo em seguida. Os dois se divertiram muito quando, dentro do avião, Logan contou sobre a vez que tentou ir do modo convencional ao Japão, sem um atestado. Tinha acabado ficando de cuecas no lobby do aeroporto, mostrando logo em seguida, no aparelho de raio-x onde estavam todos os quilos de metal que ele continha.

 

[Ohana] E então? O que eles fizeram? – toda interessada.

 

[Wolvie] Eles colocaram um segurança de uns dois metros na minha frente – engrossando ainda mais a voz, ele imitava o segurança – “O sr. não vai poder embarcar, de acordo com a máquina, o sr. possui lâminas cortantes com mais de cinco centímetros, o que desobedece o código de vôo internacional.” Pode, ruiva? – ele ria - Daí o Gambit falou que era mais fácil ligarmos pra uns caras que me deviam favores, pra gente conseguir chegar ao Japão e tirar Jubilee de lá! Já que ela tinha ido parar lá com a minha moto, por causa da Espiral que mandou ela pra lá depois de termos impedido o Mojo de destruir o mundo. Ô cara escroto, viu... Fico feliz que ele tenha sumido depois daquilo! O cara fazia tudo por dinheiro! Tudo que chegou ao ponto de querer mudar o fim do universo pra poder gravar! Fala sério! Tem que ter pouco cérebro pra isso, não?

 

Os olhos de Ohana não desgrudavam dos dele. Ela não tinha entendido qual o problema em se mudar o fim do mundo. Sentindo as dúvidas da mulher ele passa a mão no rosto dela e esclarece:

 

[Wolvie] Eu também não saquei na hora qual o problema disso, mas a doida da Espiral explicou que se você mudar o fim, o começo nunca vai ser o mesmo e, como ele queria mudar de um jeito bem drástico, não ia ter começo. Tudo ia acabar, tudo o que conhecíamos, sacou? – dando um beijo na testa dela.

 

O avião decola, a comissária de bordo chega e oferece champanhe especial, pelo fato deles estarem em lua-de-mel. Ambos aceitam e, depois de umas duas horas de vôo, o sono chega e dormem tranqüilos. Não um sono que era capaz de ser protelado, mas um sono forte, até mesmo para Logan. Ele deita segurando Ohana como quem protege um bebê. Ela já tinha adormecido e, antes de perder completamente os sentidos, ele pensa na possibilidade de estarem sendo drogados. Mas não tem nem tempo de completar o pensamento. O canadense acorda primeiro, percebendo que já tinha viajado a maior parte do caminho. Quando Ohana acorda, algumas horas depois, a comissária anunciava a chegada ao aeroporto de Tóquio. Os dois tinham dores de cabeça. A de Logan era leve e quem mais sentia era Ohana:

 

[Wolvie] Eu também não legal. O que será que aconteceu? – meio preocupado. Afinal, levar Ohana para um país onde tinha deixado tantas bagagens e inimigos, pela primeira vez, parece não ter sido uma boa idéia...

 

Ohana demora no toalete, chega bem na hora de todos apertarem os cintos, pois iam pousar. O rosto da ruiva não era normal, estava pálida. Logan já estava bem melhor, por seu fator de cura, mas ainda tinha um incômodo dentro de si, mais por pensar na loucura de trazê-la ao Japão que por qualquer outra coisa.

Wolverine pensa em comentar com a comissária sobre o estado da esposa, esperando ter algum ambulatório confiável no aeroporto, mas depois desiste. Se foi ela mesma que os drogou, que necessidade teria de pedir ajuda a ela? Ohana estaria muito melhor ao lado dele, sendo capaz de protegê-la do que quer que fosse!

Assim que pousam, descem tranqüilamente do avião. Ohana andava normalmente, mas, assim que colocam os pés no saguão, a ruiva perde o equilíbrio e Logan segurando-a pela cintura a leva até uma das cadeiras de espera.

 

[Wolvie] O que aconteceu, Ohana?! O que sentindo? – colocando a mão na testa dela e percebendo que queimava como brasa.

 

Inacreditavelmente, ela olhava para Logan com sonolência, sua boca abria e ela tentava balbuciar alguma coisa, sem sucesso. Seu olho sobe para o teto do saguão e se arregala. Logan olha imediatamente para aquela direção e vê algo que não esperava, ao menos não tão cedo! Um ninja do Tentáculo, dos mais perigosos, pois eram conhecidos como ninjas invisíveis, sumir rapidamente numa das vigas de sustentação. Segurando a mão de Ohana com uma certa força, Logan olha ao redor, o saguão estava lotado, não tinha um lugar seguro ali para onde pudesse levar a ruiva e protegê-la. Olhando para a pessoa que estava sentada ao lado dela o canadense começa a ser atacado pelos ninjas. Um soco bem dado em seu rosto o faz cair e ajoelhar-se, sem, contudo, soltar a mão de Ohana. Ele sabia que não podia perder o contato com ela, de modo algum! As pessoas começam a sair de perto dos dois, Ohana desmaia e os eventos seguintes são rápidos e acontecem ao mesmo tempo: mesmo sem ser capaz de ver os atacantes, Logan conseguiu cheirar um deles quando estava bem perto, dando um golpe preciso com suas garras e terminando de levar o pânico às pessoas que olhavam a cena surrealista do homem lutando sozinho. Pessoas gritavam que ele estava louco e o burburinho só ajudou a ser mais difícil de localizar os agressores, por parte do canadense. Mesmo que se concentrasse, não tinha como vencer com apenas uma mão livre mais de 20 ninjas invisíveis. Quando estes deixaram de ser “bonzinhos” e resolveram atacar todos de uma vez, Logan sentiu muito por ter de largar a mão de Ohana, mas uma fúria tomou conta dele e parecia não ser mais tão importante não perder o contato com a mulher, e sim, acabar com todos aqueles malditos ninjas! Os guardas do aeroporto foram mobilizados e formaram um círculo ao redor do mutante que, sem perceber, foi sendo levado para o meio do saguão, há alguns metros de onde Ohana estava.

A conversa do lado de fora era que o homem estava louco, falava sozinho e tinha começado a ficar violento. Alguns guardas chegaram a perguntar com quem falava e um senhor comentou que havia tomado o avião com ele e mesmo lá, falava sozinho. Parecia falar com uma mulher, mas não havia ninguém com ele... Claro, depois de dizer isso, o “senhor” sumiu de vista e os policiais nem puderam tomar um depoimento decente. Se tentassem, veriam que ele tinha uma interessante tatuagem em forma de mão no peito...

Depois de ter lutado e apanhado muito, inclusive com armas cortantes que, graças ao seu fator de cura, não puderam ser vistas por nenhum dos presentes, Logan lançou um olhar para a cadeira onde Ohana estava e urrou de raiva! A mulher não estava mais lá! Nem mesmo seu cheiro podia ser sentido, essa era uma especialidade dos ninjas, cobrirem qualquer pista e eles sabiam muito bem com quem estavam lidando. Os golpes foram diminuindo e em alguns minutos, não havia mais nenhum ninja ali, apesar de Logan continuar a dar golpes no ar. Respirando ofegante ele cai em si sobre sua situação atual. O saguão havia sido evacuado e mais de 30 guardas apontavam, trêmulos, suas armas para ele. Um lado seu pensava seriamente em compensar a briga matando todos os que estavam ali. Mas a maior parte dele pensava em conversar, tentar chegar a uma resolução e, mesmo a contragosto, foi o que ele fez, retraindo as garras, começando a respirar mais calmamente. Respirando o mais fundo possível e sacudindo a cabeça para tentar tirar aquelas imagens de corpos de guardas caídos por todo o saguão, num legítimo banho de sangue, ele fala:

 

[Wolvie] <Baixem as armas, eu não vou machucar ninguém.> - enquanto sorria de modo sarcástico.

 

Claro, nenhum deles se convenceu e pediram, sem nenhuma polidez característica dos orientais para que colocasse as mãos na parede e virasse de costas para eles. Obedecendo sem muita pressa, Logan vai até a parede, conseguindo sentir um cheiro de Ohana naquele local. Respirando fundo, seu sorriso aumenta ainda mais e ele vira o rosto rapidamente para o grande corredor que ia dar na saída!

 

[Wolvie] BINGO! – ele grita em inglês, correndo para a saída e respirando ainda mais. Tinha encontrado uma pista!

 

Todo o corpo de seguranças do aeroporto foi correndo para a porta, mas nenhum deles tinha conseguido alcançá-lo. Ia como uma flecha e, de longe, uma senhora com roupas pretas bem justas observava, com a sobrancelha levantada, começando a seguí-lo. Ela também, apesar da idade, tinha uma velocidade impressionante e, num dado ponto da perseguição, a mulher entrou numa rua deserta, dando com o final da rua e nenhuma pista de Logan.

 

[Mulher] <Droga!> - olhando para baixo e começando a sair do beco.

 

[Wolvie] <Procurando por mim?...> - pula em cima dela, jogando-a no chão.

 

Mas a situação logo muda, fazendo alavanca com as pernas, ela o jogou longe e ficou em posição de defesa, legitimamente ninja.

 

[Mulher] <Será que não tem uma vez que venha para cá e arranje confusão, Logan-san?>

 

O canadense não responde, corre na direção dela e uma sucessão de golpes, todos muito bem defendidos. Para quem olhasse, poderia jurar que eles estavam mesmo lutando, mas Logan estava segurando sua força em mais da metade.

 

[Wolvie] <Espero que tenha ensinado Amiko a lutar tão bem assim, Yukio.> - baixando os braços e fazendo reverência.

 

[Yukio] <Na verdade, nunca se ensina o “pulo do gato”, Logan.> - dando um chute no meio das pernas do canaadense.

 

Logan segura o chute a alguns centímetros do alvo.

 

[Wolvie] <Já apanhei demais por hoje, mas obrigado pela consideração...> - sorrindo.

 

[Yukio] <Mesmo? Quer dizer que alguns ninjas conseguiram o que todo o submundo japonês vem tentando? Que mérito eles têm?> - levanta a sobrancelha e recolhe a perna, ficando frente a frente com Logan.

 

[Wolvie] < Eram invisíveis, gata...> – esperando algum “desconto” por esse fato.

 

[Yukio] <Eles apenas vieram te dar as boas-vindas, assim como eu, Logan-san!> - sorri, um tanto sarcástica.

 

[Wolvie] <Na verdade, eles acabaram de raptar minha mulher...> - olha para ela com uma expressão de enfado.

 

[Yukio] <Então, tenho que agradecê-los, não?> - levanta uma sobrancelha.

 

O canadense sorri do comentário, pois não esperava nada diferente daquela ninja que sempre sonhou em ser a esposa dele.

Abaixando o rosto e dando um longo suspiro, Logan deixa claro o quanto estava cansado de tudo aquilo, daquela vida cheia de emboscadas, daqueles desejos que outras pessoas tinham em vê-lo infeliz, enfim, de toda a parte “podre” que ser um dos X-Men mais agressivos acarretava.

Yukio apenas o observava, às vezes, levantava uma sobrancelha, outras sorria de lado, percebendo que ele não tinha brincado ao falar sobre a esposa.

 

[Yukio] <Você realmente se casou, Logan?! E nem ao menos nos convidou?> - perquiria o olhar dele, buscando uma resposta antes da palavra.

 

[Wolvie] <Sim, casei, Yukio. E não convidei vocês porque ia vir pra cá, logo depois do casamento. Eu tenho muito que falar com ela ainda... Além do mais, duvido que você fosse...> - dando de ombros e começando a sair do beco.

 

[Yukio] <Se eu ia ou não, não vem ao mérito! Com certeza sua filha iria, Logan! Sabe como ela te venera, não é?> - com uma ponta de ressentimento na voz - <Como ela é? O que ela pode fazer?>

 

[Wolvie] <Eu sei que doida pra saber de todos os pormenores, mas eu tenho uns ninjas pra quebrar a cara e não quero dar tempo deles fazerem nada que eu me arrependa com ela. Aliás, como sabia que eu vinha?> - respirando fundo e olhando para um arranha céu há alguns quilômetros de onde estavam, um grunhido baixo pode ser ouvido apenas por Yukio.

 

[Yukio] <Todo o submundo está sabendo que você vem, Logan! Afinal, sua vinda pode deixar alguns contrabandistas e vendedores de droga com a pulga atrás da orelha, não acha?> - com cara de essa ser a coisa mais óbvia do mundo.

 

[Wolvie] Merda! <Acho que o Tentáculo não faria nada a ela, não é?> - voltando a olhar para a velha ninja.

 

[Yukio] <Matsuo pode ser muitas coisas, mas ele não é um idiota completo. Se matar a sua mulher, o que provavelmente ele já sabe que ela seja, não terá mais sossego e, se eu ainda sei alguma coisa sobre ele, isto é o que ele mais quer nesses últimos anos: sossego. Até raptou pra isso, mas acho que uma pista tão óbvia dessas não seria deixada à toa. Ele quer que você o encontre, Logan. Não sei para quê, mas Matsuo Tsurayaba está mais desesperado do que qualquer chefe de clã que eu tenha conhecido... Precisa de ajuda?> - passando a mão no rosto cansado dele.

 

[Wolvie] <Acho que vou me virar sozinho, gata. Você certa, ninjas jamais deixam uma pista dessas de besteira. Ele quer ser encontrado... – respira fundo – Como está Amiko?>

 

Yukio solta um “humpft! Agora pergunta?” e sai, levantando uma mão e dizendo:

 

[Yukio] <Depois que resolver seus problemas, vá vê-la. Ela está bem e pode esperar, afinal, é só isso que ela faz...> - atravessando a rua.

 

[Wolvie] Mulheres... Quem as entende, afinal?!... – voltando a olhar para o arranha céu e dizendo um “Matsuo” entre dentes.

 

Enquanto todos esses fatos acontecem, a ruiva acordava com uma grande dor de cabeça, numa das coberturas mais caras de Tóquio. Tenta colocar a mão na cabeça e, nesse momento, sente que está com um colar um tanto pesado no pescoço. Abre os olhos devagar; a mínima diferença de iluminação fazia sua cabeça querer explodir! Aos poucos, foi conseguindo perceber vultos e via que a sala estava vazia, pois conseguia apenas perceber móveis. Estava deitada no que parecia um sofá, em sua frente, podia ver uma mesinha e mais outro sofá em frente. Aos poucos, conseguiu abrir os olhos sem problemas maiores. Por todas as obras de arte contidas naquela imensa sala ela pôde perceber que estava num lugar muito, mas muito, rico! Num dos cantos, havia uma linda armadura samurai, mais ali, um arranjo de flores (ikebana), quadros com motivos ocidentais contrastavam com biombos desenhados em papel arroz com motivos de cerejeiras e pássaros japoneses. A cor da parede era gelo e os outros objetos todos de cor muito viva. A própria armadura era de um vermelho vivo incrível! Ficando plena de sua consciência, Ohana respira fundo e senta no sofá, percebendo que não estava mais com as roupas que tinha vindo. Estava vestida como uma japonesa de algumas décadas atrás, com um quimono característico das mulheres casadas, ao contrário dos tão vistosos quimonos com manga comprida, os quimonos das mulheres casadas (tomessodê) têm a manga curta comum. Mesmo assim, Ohana estava radiante naquela vestimenta. A seda em tons de azul dava o contraste necessário ao seu cabelo vermelho e pele pálida. Olhando-se sem se reconhecer, a ruiva vê a porta do recinto abrir e dois seguranças entrarem com armas em punho, seguidos de dois homens que pareciam ninjas e, em seguida, um homem numa cadeira de rodas, com respirador artificial e várias cicatrizes além de membros artificiais. Atrás dele entraram mais dois seguranças. Após os primeiros checarem que o local estava limpo, o homem na cadeira foi até bem perto de Ohana. Ele era oriental, pelas poucas partes que deixavam perceber como ele realmente foi um dia, seus olhos não tinham raiva ou dor, apenas uma calma que contrastava com o restante do quadro...

 

[Matsuo] <Desculpe não me levantar, Srª Rogan, mas estou impossibilitado disso...> - curvando lentamente o rosto - <Meu nomme é Matsuo Tsurayaba e eu sou o chefe do Clã Tentáculo> - falava com dificuldade.

 

O rosto de Ohana era uma imensa interrogação... Seria possível que ela devesse saber de todos esses nomes, deveria conhecer esse homem?!

 

[Ohana] <O que querem de mim? O que estou fazendo aqui? E o que é isso?!> - segurando o colar com as duas mãos.

 

[Matsuo] <Ah! A senhora fala um japonês invejável! Isso é bom, já que meu inglês não é muito bom... São os problemas de pronuncia. Nunca consegui corrigi-los...> - tomando fôlego ele se aproxima mais - <Não quero nada com a senhora, está aqui apenas para que a justiça seja, finalmente, feita. Isso em seu pescoço é uma medida necessária para que seus poderes não sejam utilizados. Deve entender que estar diante de uma das maiores telecinéticas do mundo não é nada agradável para um mero mortal como eu, apesar de eu mesmo estar achando que não sou tão mero assim... Quanto um homem deve viver para pagar todos os pecados, Srª Rogan?>

 

Ohana não entendia nada. Ela resolve não dizer nada sobre não ser mais mutante, afinal, isso poderia ser útil em algum momento. Mas o que aquele homem queria dizer com justiça? Com não ser um mero mortal? Baixando a cabeça, ela apenas pensa onde estaria Logan e tem um estalo! Ele era conhecido no Japão, não era? Ele sempre ia para esse país! E lança:

 

[Ohana] <Eu não sei quem é você, mas espero que saiba com quem está se metendo... Pelo que percebi, fez uma pesquisa e tanto sobre mim e meu marido, mas será que sabe realmente quem ele é?! Quando ele chegar, vai matá-lo!> - com a voz cheia de superioridade, usando a única saída que alguém preso usaria: ameaça.

 

Não obtém uma resposta imediata, Matsuo ri a plenos pulmões, engasgando-se com seu próprio riso e falta de ar. Fica assim um bom tempo e começa a deixar Ohana altamente assustada. Passados alguns minutos, depois de longas respirações do japonês, ele finalmente fala:

 

[Matsuo] <Mas é justamente para que ele venha até aqui que a raptei! Esse seria o único meio de colocar minhas exigências... Parece bem típico de alguém como ele não lhe contar nada, não é. O que me faz questionar o que uma mulher como você viu nele. Como consegue viver com ele sem saber nada de seu passado? Pela sua cara de espanto, ficou claro que não sabe de nada, não sabe que ele me deixou assim!> - mostrando um olhar de raiva pela primeira vez. Antes ela não o tivesse visto!

 

Fechando os olhos, Ohana nega-se a pensar que Logan tenha feito isso a alguém, nega-se a acreditar que por baixo de toda aquela calma, aquele homem possa ter tanto ódio por Logan. Nega-se até mesmo a crer que estava naquele lugar, apertando os olhos, bem forte, ainda assim, ouve Matsuo falar, com a voz novamente comedida:

 

[Matsuo] <Já me consultei com os deuses, não devo mais nada, é minha hora de descansar e seu marido não me deixa ir. Não me mata, nem me permite morrer honradamente. Eu sou um guerreiro, Srª Rogan. Quero morrer como tal! Se errei em matar o antigo amor de Logan, pelos deuses! Já paguei por isso! Quero apenas morrer em paz. Seria pedir muito?> - afastando novamente a cadeira.

 

Frente às palavras “antigo amor” Ohana reabre os olhos. Então era isso! Logan não estava sendo totalmente insensato, aquele homem tinha feito algo muito grave ao canadense e este o punia como achava adequado: mutilando-o. Mas, por quê?

 

[Ohana] <Eu não entendo, sr. Tsurayaba, o que pode existir de honrado em matar... É verdade que Logan não me conta muito de sua vida, de seu passado, mas eu tenho certeza que o sr. tem muito mais a esconder do que ele! Se meu marido... Se Logan fez realmente isso com o sr.>*

 

[Matsuo] <Fez não. FAZ!! – suas narinas até abrem-se e em seus olhos pode-se vislumbrar um pouco do terror que ele vive – A cada ano, seu marido vem para o Japão e decide qual parte de mim não mais terei. Mutila-me metodicamente. Cada vez eu penso: quando será a última... Você não pode imaginar o que eu venho passando nesses anos.> - aproxima mais a cadeira e pede a um dos seguranças que peça para servir o chá. Comeria ali mesmo. <Espero que não se incomode de comer comigo, srª Rogan... Aproveite e pergunte o que quiser, terei prazer em responder. Depois de anos vivendo sob o medo, começa-se a questionar a vida. No começo, a única coisa que se pensa é em vingança; depois, em proteger-se e, por fim, nada mais importa, a não ser morrer. Eu quero apenas isso: morrer...> - engolindo com dificuldade.

 

[Ohana] <Então porque não paga alguém para matá-lo! Acredito que dinheiro não seja problema...> - sentando-se com mais compostura.

 

[Matsuo] <Eu já tentei! No momento que somente pensava em vingança, ofereci uma recompensa para quem o matasse, sem sucesso; depois, ofereci uma recompensa para quem me protegesse dele, ao menos um ano. Também sem sucesso. Agora, a maior recompensa que dei foi para que me matassem. Mas assim que soube disso, Rogan avisou que mataria com requintes de crueldade quem me ferisse. Não tenho saída!...> - olhando assustado quando a porta abre e entra a empregada com o chá.

 

Ohana fica pensando no que levaria Logan a fazer algo assim. Ir todo ano para o Japão apenas para fazer sofrer quem matou seu antigo amor. Isso significa que ele ainda a amava, não? Baixando a cabeça enquanto a mulher lhe servia o chá, a ruiva pergunta, depois de pegar na cara xícara de porcelana negra:

 

[Ohana] <Apesar de o senhor tentar pintar meu marido como um demônio, eu o conheço com autoridade para saber que somente faz o que acha justo. O que aconteceu entre ele e o senhor, se me permite perguntar...> - bebendo um gole, apenas para que o ar no local não ficasse tão “insustentável”.

 

Depois de pensar alguns minutos, entre um gole e outro de chá, o japonês inicia sua narração:

 

[Matsuo] <Eu era jovem, tanto quanto você é agora, quem sabe um pouco mais. Tinha acabado de herdar de meu pai um dos maiores impérios do Japão. Assim como na América, os grandes proprietários do dinheiro são aqueles que mexem com o dito proibido. Sempre tive de meu pai a educação de que tudo é necessário e é dada ao homem a capacidade de escolher entre as coisas que deseja. Nunca vi, e não vejo, meu negócio como algo nocivo ao mundo, Srª Rogan, por mais que os outros digam ser...  Conquistei com obstinação e suor todas as riquezas que tenho e nenhuma delas veio de graça, nem mesmo as que meu pai me deixou. Nesse ramo, quem não tem a capacidade de se atualizar, morre. Por isso, modernizei todas as instalações, trouxe conhecimentos de fora e existia apenas uma coisa que me impedia de ser o número um no Japão: o clã Yashida... O velho Shingen Yashida sempre cuidou com mãos de ferro para que seu império não ruísse e eu, assim como meu pai, nunca consegui tomar os negócios dele, nem através da compra das partes, nem pela ameaça. Ele jamais rendeu, nem mesmo um milímetro do que possuía, nunca! Até o momento em que recebi a noticia de sua morte! Tinha que agir rápido, comprar o que pudesse e tomar aquilo que não fosse possível comprar. É assim que as coisas funcionam no submundo – dando uma pausa para tomar um gole de chá e respirar livremente, Matsuo recomeça – e foi assim que eu pensei que seria. Não contava com a tomada do Clã pela filha de Shingen: Mariko! E não suspeitava, naquela época que ela se apaixonaria por um gaijin! Como pode imaginar, ofereci muito dinheiro para que a imprudente abandonasse os negócios do pai e fosse tratar de sua vida, das coisas que uma mulher deve tratar. Sua recusa foi instigante, pois a principio achei que queria aumentar os preços da negociação, mas a insistência dela em manter os negócios da família foi me deixando sem escolha. Comecei pelas pontas, tomando aquilo que ela não dava mais tanta atenção: escravos e armas*>

 

[Ohana] <Escravos?!> - com o rosto em brasa pela narrativa um tanto machista.

 

[Matsuo] <Sim... Ainda existem pessoas que compram pessoas, Srª Rogan. Só que ultimamente são as pessoas que se vendem, mesmo assim, intermediamos essa “negociação”. Retomando, comecei pelas sobras dela, tentando sempre convencê-la de que esse tipo de negócio não era útil para as mulheres, até que o pai dela reaparece! Fazendo uma carnificina e consagrando que ela se casaria com um comerciante que era amigo de infância de Shingen. Fiquei aliviado, de certa forma, afinal, tudo voltaria ao normal e eu poderia ainda propor algum acordo interessante para ambos. Foi aí que conheci Rogan, nessa época, ele veio pra o Japão tentando entender porque Mariko não respondia mais suas cartas. Desafiou o próprio velho para provar-se digno da mulher. Não tendo nenhum êxito, foi deixado para morrer e, na época, lembro que fiquei muito espantado com a luta dos dois, pois nunca havia visto um mutante antes, ao menos, não que eu soubesse! Ver as garras brotando de suas mãos me deixou extremamente inseguro e mostrou minha vulnerabilidade diante do “novo mundo”. Mas isso é uma outra história – o cansado japonês filosofa -, provavelmente, eu nunca tenha como contá-la, Srª  Rogan... Achei, com toda a minha inteligência, que Rogan tivesse morrido depois da luta com o chefe do Clã Yashida e o esqueci, ficando aliviado! O fato, para encurtar a história – completa, dando uma olhada no antigo relógio da sala, um tanto preocupado pela demora do canadense -, é que novamente o clã ficou nas mãos de Mariko e eu, me vendo sem chance alguma de dissuadi-la, fingi ter uma dívida com o falecido pai dela.>

 

Tomando uma pausa maior para tomar um gole de chá e sentir o gosto de frutas do mesmo, Matsuo parece alguém que está saboreando o último gosto que sentirá na vida, sentindo cada gole. Enquanto bebe, dá uma olhada ao redor, respira fundo. Ohana pensa em como deve ter sido difícil viver todos esses anos dessa forma insegura e até mesmo sente pena por ele, imaginando que a morte de Mariko tenha sido um terrível acidente. Olhando novamente para a ruiva, ele reinicia a narrativa:

 

[Matsuo] <Aqui, especialmente no submundo japonês, usa-se muito o código dos antigos samurais e, um deles, reza que se deve cortar o mindinho caso alguém de sua família tenha sido indigno de pagar uma dívida. Foi isso o que disse a ela, sabendo que teria a decência de prosseguir com a tradição e usasse uma de minhas adagas, ou melhor, a adaga de uma de minhas seguranças, especialista em venenos, mais propriamente o do baiacu. – Ohana coloca a mão na boca e estala os olhos – A chefe do clã não poderia ter sido mais previsível, não suspeitou de nada e cortou o dedinho, sentindo logo em seguida toda a dor do veneno. Sabe, Srª Rogan, o baiacu é um dos poucos peixes com um veneno tão forte capaz de matar um ser humano com apenas algumas gotas. Acho que é esse o fato que faz dele um dos mais procurados pelos japoneses, na cozinha oriental. Buscamos a morte em cada mordida, tentando nos livrar de nossas vidas vazias e nunca conseguimos, pois os chefes de cozinha sabem como deixar o veneno em seu estado mais fraco, dando-nos a sensação inversa de que somos mais do que em realidade... Jamais pensei que seu marido não tivesse morrido e estava lá naquela tarde, vendo a mulher sofrer, pois a morte por envenenamento é uma das mais penosas, assim como era penosa minha vida sem ter o controle total do submundo. Quis dar a ela a sensação de tudo o que vivia dentro de mim e recebo a vingança de Rogan em troca!!> - batendo com uma prótese de braço sobre a mesinha de centro.

 

Ohana tinha os olhos rasos d’água, imaginando o quanto o canadense sofreu ao ver a mulher morrendo, tentando fazer uma pintura mental da cena, mas em toda a sua imaginação jamais conseguiria reproduzir o que é ver a pessoa que mais se ama sofrendo com convulsões horríveis, pálida, sendo chamada pela morte, mas com alguns laços que ainda a prendiam a vida, fazendo-a perder lentamente a noção de si, com a total noção da dor. Jamais conseguiria imaginar o fato de Mariko ter pedido para ser liberta dessa dor pelas garras da única pessoa que amou na vida. A única que teve a oportunidade, em seus poucos anos de vida...

Nesse momento, a porta tão bem fechada da sala quebra-se numa das metades pelo corpo de um ninja desfalecido:

 

[Wolvie] Esse calhorda esqueceu de dizer que ela NUNCA fez nada a ele!!! – rosna, entrando na sala segurando um outro ninja desmaiado pela roupa. – Também esqueceu que EU tive que acabar com o sofrimento dela e isso EU nunca vou esquecer!! – joga o ninja sobre os seguranças e ejeta as garras, olhando para todos com cara de poucos amigos.


Apenas Ohana conseguiu perceber um olhar rápido de satisfação ao vê-la e perceber que estava bem. Um olhar que ela sabia e entendia muito bem: o de preocupação disfarçada por inúmeras camadas de ódio.

O semblante de Matsuo se contorceu em dor, como se cada parte restante gritasse para permanecer ali, ou então, fizessem alguma aposta maluca de quem seria a vez. O caso é que ele foi com a cadeira de rodas para perto dos seguranças e gritou para que não fizessem nada a ele, ainda. Rapidamente, um dos ninjas voou sobre Ohana e a levou para perto de Matsuo, chamando totalmente a atenção do canadense.

Logan olhou com desdém para o japonês e estralou o pescoço, tentando entender o que ele pretendia com aquele showzinho, ainda mais quando levava sua esposa para perto dele... Mas todos perceberam que num segundo seguinte, essa expressão se dissipou e parecia que Wolverine não estava mais com vontade alguma de adivinhar charadas. Ele ouvia com nitidez os corações apavorados de todos os presentes, com exceção do coração da ruiva. Este estava um pouco mais tranqüilo do que os outros, apesar de seus olhares de medo para o ninja ao seu lado, já que este portava uma kodachi (espada parecida com uma katana, exceto pelo seu tamanho que é metade da outra) desembainhada e pelo pouco que podia ver de seus olhos, tinha toda intenção de usá-la, se fosse necessário...

Olhando exatamente para esse ninja, Logan dá um passo à frente e quando Ohana pensa que o marido não ia fazer o que ela estava pensando, ele faz, dando tempo dela abaixar-se antes que um corpo desfalecido de ninja caísse sobre seu agressor. Dando uma rápida corrida para longe deles e indo até perto da armadura vermelha a ruiva se arma de uma espada, sem saber ao certo se era possível realmente usá-la. Vendo todas as suas chances de uma barganha irem por água abaixo, Matsuo entra em total desespero e pede para os seguranças e ninjas atacarem! Sem pestanejar, nem mesmo pensarem, cada um inicia seu ataque, mas, assim que olham para o rosto do canadense, ficam um tanto receosos, ao menos os seguranças. Podia-se ver um prazer insano em seus olhos, juntamente com um sorriso que deixava à mostra seus brancos caninos, suas garras ejetam, contudo, antes de começarem a destroçar todos eles, uma voz o chama à razão:

 

[Ohana] Logan, não mate nenhum deles!! Eles estão só obedecendo ordens! – segurando a katana com uma empunhadura perfeita.

 

Olhando rapidamente para ela, Logan aceita ouvir e guarda as garras. Ele jamais saberia da dor que um bom soco com punhos de adamantium poderia dar ao oponente, mas isso parecia o suficiente por hora. Não esperando os ninjas atacarem, o velho combatente avança por sobre três, dando socos e levando também. Um dos seguranças vai na direção de Ohana e lhe aponta uma arma, pedindo para que nem mesmo ouse mover um músculo. A ruiva fica parada, com os olhos fixos no de seu oponente e quando este dá uma piscada um pouco mais demorada, a ruiva percebe ser o momento exato de agir: sem sacar a espada, ela bate com a bainha num nervo exatamente acima do dedo indicador, fazendo com que o segurança perca o domínio da arma e faça uma expressão autêntica de dor. Precipitando-se sobre a mulher como se sua masculinidade dependesse disso. Ohana não precisa nem mesmo fazer muito esforço, ficando parada até alguns segundos antes dele alcançá-la, a X-Man dá um rápido e gracioso passo para o lado, aplicando um golpe bem atrás da cabeça do brutamonte. E é aí que o estrago começa. Ele cai de cara na armadura, amassando o tórax do antigo artefato e despedaçando a armação, sem dar mostras de que iria se levantar tão cedo, o segurança permanece caído ali, coberto por alguns pedaços da armadura.

Matsuo finalmente acorda de sua fúria com todo o barulho e isso somente o faz ter ainda mais ódio de Logan e, agora, de sua esposa. Aquela armadura estava em sua família a gerações! Havia sido usada em combate e agora estava destruída! Para sempre...

 

[Matsuo] <Não! Sua maldita! Veja o que fez!! – pigarreando um pouco de sangue – Isso é de um valor inestimável!>

 

[Ohana] <Bom saber o quanto o Sr. se importa com seus seguranças pessoais... Se eu tinha pensado em ocupar o lugar de seu segurança, agora desisti!> - Ohana divertia-se com o rosto transfigurado de Matsuo por algo material e sem a mínima importância naquele momento...

 

Mesmo lutando, Logan conseguiu ouvir a conversa dos dois. Ele estava controlado, não estava vendo, como sempre que perdia o controle, somente suas vítimas a cores, ele via todos perfeitamente, cada objeto ao seu lado, cada obra de arte.

Quando Matsuo ia tentar algo contra Ohana, um som de garras foi ouvido e ambos olharam para aquela direção, temendo o pior.  Mas o que viram foi Logan destruindo um Manet legítimo, seguido de um vaso Ming enquanto com os pés e a mão restante dava conta de dois ninjas...

Os olhos do japonês se arregalaram quando olhou ao redor e viu somente a desolação. Não havia sobrado nada em pé ou inteiro, todas as peças estavam esfareladas, rasgadas, quebradas, assemelhavam-se muito ao próprio Matsuo...

 

[Wolvie] <Chega aqui, gata.> - dando um katá nno ombro do último ninja e o colocando a nocaute - <Deixa eu tirar essa coleira de você...>

 

Olhando para a frente, Ohana apenas soltou um sorriso maroto, pensando em como tudo saiu diferente daquilo que Matsuo havia planejado. Logan estava com a roupa toda rasgada e algumas partes do corpo com sangue coagulado, já sem nenhuma ferida. Seus olhos mostravam uma felicidade velada por ver a mulher sem nenhum arranhão. Assim que chega mais perto dele, os dois ouvem:

 

[Matsuo] <Se tentar tirar esse inibidor dela, Rogan, eu a mato antes!> - apontando uma arma com a mão tremida, mas com mira bem feita.

 

Balançando a cabeça negativamente, Logan se cansa dele e pergunta na lata:

 

[Wolvie] <O que tu quer, Matsuo? Morrer? Se for isso, pode deixar que eu não vou mais te perturbar. A menos que machuque minha mulher... Nesse caso, vou usar toda a tecnologia que conheço pra que tu nunca mais morra! E tu sabe que eu posso fazer isso, portanto, baixa essa maldita arma! Não em posição de ameaçar ninguém...> - essa última frase foi dita com todo o cansaço possível.

 

[Ohana] <Matsuo, eu não sou mais mutante... Seus informantes esqueceram desse pequeno detalhe. Perdi meus poderes na Lua, não posso mover nem mesmo um palito sem as mãos.> - seus olhos perscrutavam o de seu oponentee, mostrando toda sua sinceridade.

 

[Matsuo] <Não pode ser... Rogan não se arriscaria a perder outra mulher! Ele jamais casaria com uma pessoa normal! É muito perigoso!!> - bradava, sem tirar Ohana da mira.

 

[Ohana] <Eu também pensei o mesmo, Matsuo. Pensei que não era mais digna de nada depois que perdi o que mais tinha orgulho! Mas a vida não termina por isso e, mesmo tentando me afastar dele, não consegui. Logan mudou, Matsuo. Pode não ter esquecido as dores do passado, mas o que elas são além de parte de nossa personalidade?> - sua voz era sofrida, como a de quem perdeu algo muito querido, sem que Matsuo soubesse, a imagem de James também povoava seus pensamentos naquele instante. Conferindo um tom genuíno demais para alguém que estivesse mentindo.

 

[Matsuo] <Rogan, o caso não é somente morrer. Quero morrer com dignidade! Morrer pela mesma arma que vem me acossando há anos! Sou um guerreiro! Mereço isso!!>

 

Logan solta uma gargalhada:

 

[Wolvie] <Merece?! Daqui a pouco tu vai dizer que eu te DEVO isso! Um verdadeiro guerreiro não aponta uma arma pra uma dama! Um verdadeiro guerreiro não é TRAIÇOEIRO! E, acima de tudo, um verdadeiro guerreiro não precisa ficar falando isso toda hora, sua fama o precede! Isso não acontece contigo, Matsuo... Você trapaceou sua vida toda, tentando se convencer de que esse era o caminho do guerreiro, mas sabe que não passa de besteira!> - indo para a frente de Ohana.

 

O chefe do clã Tentáculo assusta-se com aquelas acusações, pois elas continham uma verdade que ele sempre se recusara a ouvir. Aquela voz que todos temos em nós e nos diz o que é certo e errado. Ele nunca ouvira essa voz, desde a primeira vez, a primeira traição, ele a afundou dentro de seu cérebro, numa parte esquecida e continuou com a vida, “tentando se convencer” de que aquilo era o certo a se fazer. Mas, o que ele havia conquistado com isso? Apenas os objetos daquela sala e, assim como eles, sua alma estava quebrada. Mas isso, ela sempre esteve.

 

[Wolvie] < não vai morrer pelas minhas mãos, porque foi por elas que Mariko Yashida morreu e eu jamais usaria a mesma arma para acabar com seu carrasco!> - seu rosto se abaixa e, depois de muitos anos, novamente a imagem de Mariko passa por sua mente, fazia tempo que não adquiria tamanha nitidez. Se o mutante se esforçasse, talvez sentisse o cheiro da toxina no ar, como daquela vez...

 

[Matsuo] <NÃO!!! Eu EXIJO! Devo ser morto pelas suas garras!> - com um olhar ensandecido.

 

A cena era patética de se ver, e mesmo para os presentes, era algo estranho. Para o casal estava claro o fato de Matsuo querer culpar a outrem por todos os seus fracassos e, mesmo, por sua morte. Virando as costas, Logan empurra Ohana levemente pelo ombro, para que caminhasse para a porta.

 

<BANG! BANG!!> O canadense fecha os olhos e continua a caminhar, respirando profundamente. Seu corpo protegia totalmente a esposa e mais três tiros foram desferidos contra ele, todos no tórax. Assim que a última bala o atinge, a primeira já estava sendo expelida pelo organismo e cai logo na porta da sala, sendo seguida pelas outras, com intervalos de pouco tempo.  Matsuo estava preso pelos vários objetos que haviam sido quebrados e impediam sua cadeira de passar, gritava com veemência palavras sem sentido e chorava em voz alta. Assim que ficam fora da vista do japonês, Logan abraça Ohana pelas costas mesmo. Feliz por senti-la intacta, sem nenhum aranhão!

 

[Wolvie] Eu quase perdi o controle no aeroporto! Quase deixo meu lado animal voltar, mas acho que ele não quis voltar por você... – sorri, colocando para trás da orelha uma pequena mecha de cabelo ruivo.

 

Ohana apenas retribui o sorriso, abraçando-o com toda a força que podia, tentando encontrar um jeito agradável mesmo com a coleira.

 

[Wolvie] Vem, deixa eu tirar isso de você e destruir essa joça! - *snikt* ejeta somente uma pontinha da garra entre o indicador e o dedo médio, o suficiente para enfiar na pequena abertura da chave e quebrar, abrindo caminho para o restante da garra e a destruição do colar. – Parece uma velharia da época em que os X-Men eram tratados como lixo, como aberração... Chegaram a colocar um desses na Vampira. Ela sofreu pacas nas mãos dos verdadeiros lixos. Uns tais de “Amigos da Humanidade”! Amigos uma ova! Eram uns racistas e foram todos presos pelo governo, assim que ficou provado que nós éramos os mocinhos da história.

 

[Ohana] <Vocês passaram por tanta coisa que eu sinto ter pego somente uma pequena parte, Logan! Sempre me surpreendo com as coisas que conta! Vocês foram incríveis! Numa época em que ser mutante não era nada fácil, vocês conseguiram sobreviver!> - esquecendo-se de falar em inglês.

 

[Wolvie] A gente sobreviveu, gata, mas muita gente morreu. Gente que não tinha nada a ver com o negócio e foi pega no fogo cruzado. Gente como Mariko... – sua voz se embarga quando pronuncia esse nome.

 

“Têm preços que não valem a pena serem pagos”, o canadense pensa. Olhando para Ohana sem esperar, nem mesmo desejar que ela diga nada. Parecendo sentir o que o marido passava, a ruiva apenas pergunta, apontando com a cabeça para a sala ao lado:

 

[Ohana] O que faremos com Matsuo, Logan? Vamos deixá-lo aí?

 

[Wolvie] Não te preocupa, ruiva. Assim que souberem que eu não mais incomodado com a morte dele, muitos assassinos vão vir clamar pelo que pertence pra eles... As noticias se espalham mais rápido do que o vento. Muitos vão vir pelo que o próprio Matsuo disse que ia pagar por sua morte, outros, pelo próprio mal que ele plantou, instigando uma facção contra a outra, só pra aumentar seu próprio império. Se eu fosse ele, ia me preocupar ainda mais com o futuro. Porque agora, ele não vale mais nem um yene! – balança a cabeça, olhando com atenção, pela primeira vez, para a mulher. Apenas levantou uma sobrancelha, sorrindo de lado – consegue andar com esse tomessodê? Senão, eu não vejo problema em te levar no colo. Problema nenhum, gata!

 

Ohana ri, ainda segurando a katana e percebendo, com o canto dos olhos, como o restante do corredor era sóbrio. Um legítimo apartamento, confundível com qualquer apartamento do mundo, sem personalidade, sem decoração. Ficou claro que Matsuo passava muito tempo naquela sala onde, provavelmente, iria morrer. A ponto de transformá-la num templo das artes e do bom gosto, expondo tudo o que não tinha em si mesmo: beleza e caráter.

 

[Ohana] Isso depende: quer sair daqui muito rápido? Ou apreciar a vista? – mostrando que era impossível correr com aqueles altos tamancos de madeira, tipicamente japoneses. Cada passo devia ser dado com a total atenção, treinando o equilíbrio e a sobriedade dos movimentos, como tudo na vida dos japoneses.

 

O canadense não conseguiu permanecer indiferente, mesmo com vários problemas assolando sua mente. Um sorriso desinibido ousou brincar em seus lábios e ele fechou os olhos, respirando fundo. Sempre fazia isso quando desejava apagar as coisas ruins de sua vida, ainda mais depois que conheceu Ohana, o cheiro dela tinha a propriedade de penetrar fundo nas narinas dele, inflando seu ser de doces recordações. Recordações verdadeiras e palpáveis, onde ele era um personagem ativo; não como acontecem com os implantes, onde ele parece se ver, como num conto em terceira pessoa, sem a certeza de estar tomando aquelas decisões. Ou mesmo sem a certeza de ter sido o criador delas... Voltando a olhar para a ruiva, ele não diz nada, apenas caminha mais para perto e, segurando nas costas dela, o canadense a pega no colo, sendo agradecido por um sorriso dela. Não que andar daquele modo fosse ruim, mas era o lugar que não estava sendo agradável. Os gritos de Matsuo ainda podiam ser ouvidos, mesmo que um tanto abafados pelas grossas paredes e pelos dois cômodos que tinham passado. Assim que saem pela porta da frente não acreditam na quantidade de policiais que os esperava. Eram várias viaturas, com outros tantos a pé e todos com as miras prontas. Logan conseguiu ver alguns rostos conhecidos, e era justamente esses que tinham a mira um pouco tremida. Colocando Ohana calmamente no chão, eles não têm tempo de falar nada, o encarregado da operação grita pelo alto-falante:

 

[Encarregado] <Sr. e Srª. Rogan, vocês estão presos, acusados de invasão de domicílio, depredação e assassinato, sugiro que nos acompanhem sem reagirem, temos ordem de atirar para matar!> - a voz era certeira, firme, como alguém que não blefa ou, se o faz, está muito acostumado a isso.

 

O som chega como uma navalha nos ouvidos de Logan, não é sempre que ele é pego de surpresa assim, mas ao que parece, aquele alto-falante era um dos mais potentes que já tinha tido o desprazer de ouvir. Assim que seu ouvido se acostumou, a expressão de desagrado sai de sua face e ele olha para Ohana, desejando que ela ainda fosse mutante, pela primeira vez, para que pudessem dar uma lição naqueles policiais! Mas ele não diz nada, ao invés disso, coloca as mãos para cima, sendo acompanhado pela esposa:

 

[Ohana] “Assassinato”?!?!? Eu fui seqüestrada e eles nos acusam de assassinato?! – sua expressão era de preocupação mesclada com medo.

 

[Wolvie] Não precisa ficar com medo, ruiva! Eles estão acusando a gente, mas por saber que tu é minha esposa. Assim que souberem da verdadeira história... – não conseguiu terminar porque Ohana o cortou:

 

[Ohana] vão achar que VOCÊ é o assassino!! Logan, isso é loucura!! Você não fez mais do que se defender!

 

[Wolvie] Gata, eu não matei ninguém lá em cima... Ao menos, não hoje. O que eles podem fazer é querer me cobrar num pacote, desde a primeira vez que pisei no Japão, aí sim, eu encrencado... – chegando perto de uma das viaturas.

 

[Policial1] <Não se mexam! Vocês têm o direito de, como cidadãos americanos, serem colocados em celas especiais, têm direito a um telefonema e também tudo o que disserem será usado contra vocês no tribunal. A partir de agora, são prisioneiros do Japão e vão sofrer as leis desse país, exceto por algum pedido de extradição. Entenderam?> - algemando Logan.

 

Os dois concordam e são algemados e colocados em carros separados, antes de perderem o contato visual, Logan tentou passar calma no olhar e a certeza de que tudo sairia bem. Ohana fingiu entender, passando a mesma certeza, mas por dentro estava uma pilha de nervos!

O caminho até a delegacia não foi longo, com as sirenes ligadas, o tráfego de Tóquio não era problema. Todos os carros desviavam, com os conhecidos rostos de curiosidade sendo desviados para as viaturas.

Ohana estava cansada, sentia o corpo pesado, talvez por conseqüência das sucessivas dopagens, talvez pela viagem de quase 24 horas. A verdade é que tudo a fazia perder a esperança, tudo a deixava mal e, somado a isso, um pequeno enjôo a fazia sentir a pior das criaturas! A ruiva não teve o mesmo tratamento que Logan. Como ele havia predito, ela foi presa por ser a esposa dele, mas não por estar sendo acusada de nenhum dos crimes. Na verdade, o chefe de policia queria saber o que ela fazia na mansão de Matsuo, nos mínimos detalhes! Afinal, talvez essa fosse a chance de prender um grande chefe do crime organizado e conseguir uma promoção. Com a possibilidade de ser enviado para alguma pequena província onde pudesse fazer uma pequena fortuna com subornos locais...

Enquanto Ohana ia sozinha na parte de trás do carro, o canadense tinha outro destino. Dois policiais haviam sentado com ele, cada um de um lado. Eram altos para a maioria da população e corpulentos. Pareciam freqüentar a academia militar todos os dias. Faziam piadas sobre o tamanho de Logan, sobre seu cabelo, seus olhos, seu rosto. Tudo ou qualquer coisa era motivo para piada, e Logan até que estava agüentando numa boa, pois pareciam ser duas crianças mimadas, até que:

 

[Policial1] <Cada vez que chega um gaijin aqui, temos sempre esse mesmo problema: sujeira nas ruas! E essa aqui é das grossas! Além de gaijin é o prisioneiro mais feio que já vi!> - rindo alto.

 

[Policial2] <O Japão seria um país muito melhor sem essa escória! Claro, até que a gostosinha da mulher dele podia ficar... Essa não tem nada de feia, pelo contrário!> - cutucando Logan numa das costelas.

 

[Policial1] <Você não ia ter chance com ela, é muito alto! Acho que ela é chegada em alguém mais parecido comigo, não é, gaijin?> - batendo o cacetete numa das mãos.

 

Apesar das insistentes olhadas que o motorista dava para os dois policiais pararem com a brincadeira, nada adiantava... Foi então que Logan se encheu e resolveu dar uma lição nos dois. Ejetando suas garras rápido demais para que eles pudessem fazer alguma coisa, o mutante se livra da algema e dá uma cotovelada no estômago de cada um deles, apertando, com a maior força possível, o meio da perna de cada um deles. Largando os cacetetes, eles choramingavam como crianças:

 

[Wolvie] <Se mais algum de vocês fizer qualquer gracinha sobre a minha esposa, vou cuidar pra que não tenham descendentes, sacaram!?> - parando de apertar e pegando as armas dos dois, mais rápido do que eles poderiam pensar em impedir e jogando-as para o assento da frente.

 

O motorista tinha visto tudo e, sorrindo de lado, ficou muito interessado pelo fato dele não ter tentado escapar ou mesmo matar os policiais. Ele apenas os advertiu, pegou um cigarro que um deles tinha no bolso e começou a fumar, cruzando os braços e recostando com agressividade no banco. Era essa a fama que o precedia, de alguém cônscio de seus erros e alguém em quem se podia confiar.

Os dois policiais sentaram o mais longe possível do canadense, encostando-se à porta e olhando para ele como se fosse “Hannibal Lecter” e estivesse querendo comer alguma parte deles.

Assim que o pequeno comboio chega à delegacia, alguns policiais já estavam de prontidão e fizeram um corredor para que os presos só tivessem um local para andar. Ohana fica admirada de ver a rapidez com que os policiais do carro da frente, onde Logan estava, correm e entram na delegacia, sem nem ao menos escoltá-lo. Ela sorri assim que o vê sair e caminhar até ela, mas volta a franzir o cenho quando percebe que ele não está mais com a algema:

 

[Ohana] Mas o que foi que aprontou no carro?! Onde estão suas algemas? – pergunta, não conseguindo esconder a curiosidade na voz.

 

Sorrindo, o canadense apenas diz:

 

[Wolvie] sabe que eu não sou chegado em nada que me prenda, ? – dando de ombros e passando o braço sobre o ombro da mulher.

 

Alguns policiais se entreolharam, mas assim que o motorista do carro em que Logan estava saiu, todos ficaram como estátuas e fizeram sinais de submissão, deixando claro que aquele homem ocupava um alto grau na hierarquia da polícia.  Alguns correram, outros ficaram colocando os homens em posição e, assim que ele saiu, todos puderam ver sua insígnia de capitão! Ele havia se passado por um mero motorista para poder avaliar a conduta de Logan e, também, de seus próprios comandados. Pedindo para um deles se aproximar, ele ordenou que este retirasse as armas do banco da frente e as guardasse e que os donos delas, mais para o fim da tarde, comparecessem ao seu gabinete. Acenando rapidamente, o policial correu para o interior da delegacia, depois de pegar as armas.

Eles trabalhavam como uma colméia, cada um sabia seu papel e toda conversa desnecessária era banida, sendo trocada por olhares e inclinações de cabeça. Uma coisa era certa, eram totalmente competentes e eficientes!

 

[Capitão] <Bem, Sr. Rogan, Srª. – fazendo um sinal com a cabeça – queiram, por favor, me acompanhar para dentro. Tenho algumas perguntas a fazer, consegui autorização para conduzir esse caso, a despeito da vontade do chefe de polícia local de fazê-lo. Contudo, acredito que temos muito a tratar e não quero que o lento e corrupto sistema de polícia local emperre alguma informação no caminho... – estendendo o braço para que eles fossem à frente.

 

A altivez do velho capitão era algo digno de nota! Tinha a estatura elevada, mas sem exagero de músculos. Possuía um rosto alongado e com um bigode onde a marca do tempo fez crescer pêlos acinzentados. Seu cabelo tinha o corte das escolas militares, muito bem talhado e totalmente escondido pelo quepe. Assim que o tira para entrar na delegacia, pode-se notar que tinha a mesma quantidade de cabelos grisalhos, com muitos brancos cismando em aparecer. Seu modo de andar, seu olhar vivaz, tudo era prova de que se o corpo estava seguindo o ritmo natural, o restante estava atrasando essa marcha, fazendo-o parecer um cadete a um capitão de polícia. Assim que cruzam o pequeno corredor cheio de portas numa das laterais, Logan pára em frente a uma delas, esperando que o capitão os precedesse:

 

[Capitão] <Suas habilidades são mesmo incríveis, Sr. Rogan... Além do que esperava, mas, ainda assim, abaixo do que ouvi...> - abrindo a porta e entrando.

 

Ohana olha desconfiada para Logan, mas o semblante dele era sereno, como se tudo aquilo não passasse de um passeio no parque, ou do cooper matinal. Apenas coisas que se devia fazer, nada mais...

O interior da sala tinha toda a sobriedade de seu ocupante, mas tudo era muito ocidental: madeiras escuras, miniaturas de barcos, uma escrivaninha que poderia ser uma casa, de tão grande! Não havia muitas peças pessoais, tudo muito organizado e metódico:

 

[Capitão] <Não passo muito tempo aqui, como podem ver, por isso, me perdoem a sujeira e bagunça. Passo mais tempo vigiando o sistema do que dentro de minha sala, mas isso não impediu que seu marido conseguisse perceber meu cheiro e saber que esta era minha sala, Srª Ohana. Ele é incrível!> - sentando-se numa cadeira gigantesca, estofada e pedindo para que eles sentassem na frente - <Oh! Que falta de educação a minha! Permita-me...> - andando até Ohana e retirando a algema.

 

Depois de esfregar os pulsos, a ruiva se ateve mais a pessoa que estava frente a eles. Não demorou muito para que o silêncio fosse quebrado:

 

[Wolvie] <Bom, aposto que não me trouxe aqui pra elogiar meu faro, , Hidochi?> - olhando nos olhos dele.

 

[Capitão] <Ah! Pelo visto o Sr. também me conhece, não? Quer dizer que assim como o Sr. minha fama também me precede?> - voltando a sentar-se na pesada cadeira.

 

[Wolvie] <Claro! tem prendido mais chefões de crime que nenhum outro antes de ti! Só queria saber como tu faz isso... Afinal, não são todos que escrevem e assinam uma confissão. Teus modos devem ser bem “diferentes”, não? Eu não acredito em tudo que ouço, mas no seu caso, eu vi na manchete dos jornais...>

 

[Capitão] <Meus métodos não vêm ao caso aqui... Eles até poderão ser mostrados em outro momento. O que vem ao caso é: isto tudo que aconteceu é exatamente o que preciso para colocar o Sr. Tsurayaba atrás das grades. Um incidente internacional, ainda mais envolvendo americanos. Como vocês devem saber, depois das crescentes crises internacionais, voltamos a ser inimigos e devo dizer que estou feliz por sermos os primeiros a aceitar mutantes em nosso exército...> - pegando um cachimbo na gaveta e acendendo - <Como vocês devem saber, estão sendo acusados de assassinato e*

 

[Ohana] <Mas isso é MENTIRA! Não somos assassinos, Sr. Hidochi...> - batendo as mãos no braço da confortável ccadeira.

 

[Capitão] <Ah! Claro! A Srª não é mesmo acusada de assassinato, mas não posso dizer o mesmo de seu marido. A ficha dele na polícia é bem extensa... Mas eu sou uma pessoa razoável, e acho que sua atitude no carro mostrou seu valor e sua mudança de atitude. Minha pergunta é: Ainda estaria disposto a matar para salvar os poucos humanos existentes?> - levantando uma sobrancelha.

 

[Wolvie] <Eu não sei... Tudo depende de como isso amenizaria minha “ficha criminal”... Não que eu tenha medo dela, ou ligue para ela. Mas como não estou mais sozinho, sei que isso pode ser importante, estou certo?> - olhando rapidamente para Ohana.

 

[Capitão] <Sabia que entenderia. É um homem de honra, Sr. Rogan... Prezo isso num homem...> - aperta um botão e uma policial chega - <Por favor, leve a Srª Rogan para fazer o depoimento, ela tem muito a nos contar sobre seu rapto, sim?>

 

Acenando positivamente com a cabeça, a policial caminha até Ohana e espera-a levantar-se:

 

[Wolvie] Vai ficar tudo legal, Ohana. – dando um beijo na mão dela.

 

A apreensão da ruiva dissipa um pouco e ela segue a policial, tentando manter-se em pé com aquele calçado.

 

[Wolvie] <Vamos aos negócios, Hidochi. Eu ainda quero ter um jantar romântico com minha esposa...> - chegando mais perto da escrivaninha e apooiando o cotovelo nela.

 

[Capitão] <Bem... O negócio é o seguinte...> - e começam a conversar...

 

Enquanto isso, no “outro lado do mundo”, um mutante totalmente azul e peludo estuda atenciosamente uma pequena garotinha:

 

[Hank] Tente ficar quieta, Clarisse! – tentando dar bronca, mas com um “sorriso” na voz – Desse jeito não consigo colocar os medidores...

 

[Clarisse] Mas Hank! Isso faz cócegas! Aposto que se fosse com você, também ia sentir! Não ia? – gargalhando bem gostoso!

 

Quando finalmente termina de colocar os medidores, Hank apenas diz para que ela converse com ele, sobre o que ela quisesse:

 

[Clarisse] Ah! Isso vai ser legal! Eu queria conversar sobre o que o Sr. Logan estava me contando! Ele falou de um tempo onde todos vocês tinham que lutar contra vilões pra provar que os mutantes não eram maus, é verdade?! – com os olhos faiscando de curiosidade – Eu tento falar com a minha mãe sobre isso, mas ela sempre fica triste, daí eu paro... Não gosto de deixar ela triste, Hank! – passando a mão no ombro dele pra sentir os pêlos e balançando as pernas pra frente e pra trás.

 

O velho mutante sorri como quem recorda boas batalhas e começa:

 

[Hank] É verdade, Clarisse! Foram tempos gloriosos! E o único fato de sua mãe não querer conversar sobre isso é por ter sofrido muito naquela época, pois amava seu pai e não tinha como estar com ele... – seus olhos perdem um pouco o foco, seu semblante muda e um suspiro escapa involuntariamente.

 

[Clarisse] Hank, aposto como ela não teve escolha! – parando de balançar as pernas.

 

[Hank] Ela quem, querida? – sorri, voltando à realidade.

 

[Clarisse] A pessoa que você sempre pensa quando faz esse olhar... Quem é ela, Henry?

 

A surpresa o pega, e os gráficos pulam nos computadores:

 

[Hank] Seu nome é Thish Tilby, ela é uma jornalista*

 

[Clarisse] Eu já a vi na tv!! Ela é linda, Hank!! E vocês iam formar um ótimo par, não acha?

 

[Hank] Nós já formamos, Clarisse. Já formamos... Mas nossos caminhos separaram-se quando ela não conseguiu entender meu zelo com relação aos problemas mutantes...

 

[Clarisse] Hank...

 

[Hank] Diga, anjo. – passando a mão no cabelo dela.

 

[Clarisse] O que é “zelo”? – piscando os olhos.

 

Antes de responder, o renomado geneticista solta uma gargalhada:

 

[Hank] É o mesmo que cuidado, que preocupação. Desculpe meu palavreado rebuscado, mas eu sou um amante dos livros e das citações de Sheakspeare...

 

[Clarisse] E também alguém que não consegue esconder quando não quer continuar um assunto, ?... Se não quiser, eu não falo mais.

 

[Hank] Não tem problema, pequenina. Existem coisas que nunca irão sarar, quer mechamos com elas ou não. Esse é um desses casos. Acho que o fato dela aparecer sempre na televisão reforça minha dor, contudo, não vejo um meio-termo para nós. A carreira dela vem em primeiro lugar e meu sigilo, como médico, vai de encontro a isso... Entende?

 

[Clarisse] Eu não entendo não, Hank... Sinceramente, esse negócio de gente grande que se gosta, mas fica longe não parece a coisa certa pra mim. Ou estão juntos e vivem brigando... Mas acho que é só por eu ser criança. Sabe, Hank, eu tenho medo de crescer e ficar como os adultos que vejo, sempre escondendo o que sentem e tratando mal aqueles a quem amam... Ou mesmo, como no seu caso, se tratando mal. Eu não quero crescer!! – uma ponta de lágrima pode ser vista em seus olhos lúcidos.

 

[Hank] Não chore, pequena. Não foi para isso que eu te trouxe aqui, Clarisse. Acho que crianças não deveriam tentar entender os assuntos dos adultos, já que nem mesmo nós conseguimos fazê-lo! Não concorda? – abraçando-a.

 

[Clarisse] É... – enxugando as lágrimas e aceitando o abraço peludo – Você vai conseguir ajudar meus pais? Porque eu quero muito que eles fiquem juntos sempre!

 

[Hank] Sim, Clarisse, eu prometo fazer tudo ao meu alcance para ajudá-los. Afinal, de que adiantaria todo o meu estudo e tempo passado entre os livros se não for capaz de ajudar meus amigos quando eles mais precisam?! Agora – seu olhar estava vago – se me permite, gostaria de ficar sozinho por algum tempo, sim?

 

[Clarisse] Acabamos os testes? Eu falei alguma coisa que te chateou, Henry?... – parando de ficar espoleta.

 

[Hank] Acabamos sim. Acredito que com as respostas do computador conseguiremos descobrir que tipo de mutação você possui. – retirando os medidores. Assim que a segunda pergunta o atinge, uma expressão de espanto toma conta do mutante – Não! De jeito nenhum!! Na verdade, a conversa que tivemos me reportou para tempos que pensei estarem enterrados para sempre. Renovou sensações e eu apenas não estou sabendo ao certo o que fazer com elas... Mas nada do que dissemos me chateou, Clarisse! Desde a primeira vez que nos falamos, fiquei encantado com a sua capacidade de conversação e com a capacidade de descobrir os assuntos que estão no fundo de nossa alma. E foi exatamente isso que você fez, me trazendo boas recordações. – segurando-a por debaixo do braço e colocando-a no chão.

 

[Clarisse] Eu acho que as boas recordações são partes integrantes da gente, Hank! E o que fazemos delas é o que mostra ao mundo o que somos. Eu vejo que o Sr. Logan tem muitas recordações ruins, mas ele não se apega nelas e, por isso, vive a vida tão bem; diferentemente da minha mãe... – andando com pressa para a porta, depois de dar um beijo estalado no rosto do geneticista.

 

Hank não pode deixar de pensar na grande verdade proferida pela pequena naquelas poucas palavras e elas o impelem a varar a noite tentando achar uma forma de trazer a felicidade de volta ao casal LeBeau. Foi até a cozinha e muniu-se de vários sucos e sanduíches, além de suas lembranças sobre os bons momentos passados com Trish. Seria uma longa noite...

 

*corrigido e rediagramado em 25/07/2006 – 20h21min*

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