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Firmino Rocha
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DERAM UM FUZIL AO MENINO

Adeus luares de maio
Adeus tranças de Maria
Nunca mais a inocência
Nunca mais a alegria
Nunca mais a grande música
No coração do Menino.
Agora é o tambor da morte rufando
Nos campos negros.
Agora são os pés violentos ferindo
A terra bendita.

A cantiga, onde ficou a cantiga?
No caderno de números o verso
ficou sozinho.
Adeus ribeirinhos dourados
Adeus estrelas tangíveis.
Adeus tudo que é de Deus
Deram um fuzil ao menino




O CANTO DO DIA NOVO

Descerá das estrelas
O canto do Dia Novo.

Das estrelas que velaram
insones
e piedosas
os anseios dos pastores.

Das estrelas que choraram
solidárias
e humildes
as lágrimas das que sabiam
que aquela vida
não era,
que aquela vida
era morte,
que aquela vida seria
um dia
lembrança de grande crime.

Das estrelas que expulsaram
implacáveis
e formosas
as duas estrelas
de sangue,
as duas estrelas
de ódio,
as duas estrelas malditas
que lançaram sobre as fontes,
sobre as rosas das campinas,
cinza,
fogo,
podridão.
Descera das estrelas irmãs
O Canto do Dia Novo.
     



ELA ESTÁ DORMINDO

Ela está dormindo.
Silêncio,rio.
Silêncio,grilos.
Silêncio, vozes da noite.

Ela está dormindo.
Escutemos seu sonhar.
Um cântico de Nova Aurora
Nasce o seu sonhar.
Um cântico de seu corpo nu
novas belezas mostrar.
Sorrisos de campinas.
Sol cobrindo boninas.
Ovelhinhas acordadas.

Ela está dormindo.
Silêncio,rio.
Silêncio,grilos.
Silêncio,vozes da noite.
Silêncio, do meu coração.
Silêncio, tudo que fala.
Ela está dormindo.

    


SOMENTE TU, FLOR DA INFÂNCIA

Não sonho Paris
não sonho New York
não sonho Moscou
não sonho Capri
não sonho Stambul
não sonho Shangay
nem outras terras do mundo.

Sonho tu,
somente tu,
Itabuna.

Teus arrebóis
teu rio
teus verdes
teus azuis
tuas belezas nuas
tuas belezas escondidas.

As Saudades que trazes
das ruas silentes
de neblinas e luares vestidas
das morenas infantas
das primeiras cantigas
dos mais doces tempos.

Teu chão que eu pisei
quando eu era música
e prece.

Sonho tu,
sonho tu,
Flor da infância.

      


A CANÇÃO QUE EU QUERIA

A canção que eu queria
era a das tuas mãos me chamando
em noite desnuda
isenta de bruma e medo.
Era teu corpo no meu
em leito de areia e lua.
Era teu sonho no meu
em mundo de eterno amor.




POEMA

Neste alvorecer de setembro
Sinto acordados meus rios escondidos.
Percebo que sou antigo, muito antigo.
Que nasci com a Estrela, com a montanha,
Com a criança que persegue a borboleta.
Que não escutarei mais o mambo do bar azul
Nem as vozes da rua verde.
Percebo que sou antigo, muito antigo.
Da primeira aurora.
E que a Amada também se libertou do sono negro
E vem ao meu encontro,coberta de luz e certeza.
Firmino Rocha nasceu em Itabuna em 07 de junho de 1919, na cidade de Itabuna, onde fez o curso primário. Cursou o ginasial e bacharelou-se em Ciências e Letras em Salvador.

Começou a escrever aos 10 anos. Alegre, calmo, sensível e religioso, neto de fundador da cidade de Itabuna, o Comendador Firmino Alves, esse grapiúna tinha uma crença; "so o poema pode, esta angústia afunguentar,esta tristeza exilar, esta escuridão espantar". Apaixonado pela mãe Bráulia,que quando esta faleceu a sua dor foi tão intensa, que o deixou-o atordoado pelo resto da vida.

Boêmio inveterado,nunca se casou.Dizem que devido a uma paixão secreta que nunca foi revelada .Era filho de Francisco Rocha e Bráulia Alves Rocha. Tinha três irmãos: Lurdes Rocha; Emanuel Rocha, mais conhecido como Dunga; e Germano Rocha. Sua poesia essencialmente lírica costuma ser ofuscada pelo poema DERAM UM FUZIL AO MENINO, um canto de ternura em forma de protesto  contra a guerra (1939-1945), encontra-se gravado  em bronze no mural da ONU em Nova York. Firmino Rocha morreu em 01/07/1971,aos 52 anos, deixando uma  vasta produção lírica publicada nos livros: O Canto do Dia Novo, Momentos, Poemas Com Muito Amor, entre outros.
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