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Assim, Maria Tomaselli, outra artista plástica gaúcha, despediu-se de Alice Brueggemann, num texto publicado no Segundo Caderno da ZH do dia 10 de março de 2001. Ainda sob o impacto da morte da amiga, Tomaselli fez o seguinte depoimento: "Só mesmo a paisagem serena no final do dia 22 de fevereiro, com as casinhas na luz do sol que se punha, a lua aparecendo por cima dos telhadinhos, os quero-queros se despedindo do dia luminoso, dando lugar aos inúmeros sapos de todas as possíveis entonações orquestrais, para dar um desfecho quase metafísico a uma vida plena de cores, figurações, odores, sons, alegrias, tristezas, prantos e festas".

Alice Brueggemann nasceu em Porto Alegre, em 1917. Formou-se no Instituto de Artes da UFRGS.
Já nos anos 50 participa de coletivas e salões, recebendo premiações e destacando-se no II Salão da Cidade de Porto Alegre, em 1965.
Mantém por três décadas, atelier com a pintora Alice Soares, e como ela, é fiel
a seus temas preferidos: figuras femininas e naturezas mortas. Em 1982, para comemorar esta "fidelidade artística"
com Alice Soares, faz exposição comemorativa de 25 anos de atelier conjunto.
Em seu currículo, constam dezenas de individuais no Estado e outras capitais. Participou, na década de 80
como artista convidada doPanorama da Arte Atual Brasileira, no Museu de Arte Moderna, em SP.
Alice Bruegemann:
arte, ofício de viver
Professora e crítica de arte
"Quando Alice começou a ter aulas de desenho e pintura no início dos anos 40, nem ela própria poderia imaginar que sua longa vida estaria para sempre imantada pela arte, numa história de persistência e fidelidade. Era ainda impossível acreditar na carreira artística como atividade capaz de prover a sobrevivência material de alguém. Para as mulheres, então, uma opção deste tipo tinha um forte caráter de diletantismo.
Entretanto, as descobertas que fez durante sua formação no Instituto de Belas Artes - especialmente como discípula de Aldo Malagoli -, numa época em que se confrontavam violentamente os valores acadêmicos e os modernos, tocaram-na, a ponto de acreditar na possibilidade de fazer do ofício de artista uma profissão. Assim, foi buscando caminhos próprios, fazendo escolhas, definindo sua identidade e dando vazão à riqueza de seu universo pessoal, sempre de modo parcimonioso. Para sustentar-se e manter a autonomia de sua pesquisa artística, trabalhou como desenhista para o SESI (Serviço Social da Indústria) durante vinte e oito anos, sem jamais perder o fio que a conduzia invariavelmente de volta para a arte.
Sua participação num sistema artística ainda não inteiramente constituído, que apenas ensaiava formas de inserção no mercado, deu-se pela fiel parceria com amigos, como Alice Soares, sua alma gêmea, com quem dividiu por mais de quatro décadas um ateliê.
(...)Embora tenha se mantido fiel à arte figurativa, aprendeu a capturar para as suas pinturas e desenhos o que havia de mais misterioso no espírito moderno. E suas obras foram sendo impregnadas por uma melancolia ímpar, por uma atmosfera onírica, que, na maturidade das últimas décadas, tornou-se metafísica. Dotou suas naturezas-mortas de tamanha imaterialidade, que delas parece emanar luz. Alguns de seus quadros são configurações de tal forma simbólicas que extrapolam a dimensão do visível.
Passagem obrigatória para quem deseja tomar contato com a melhor parcela das artes visuais rio-grandenses, a beleza da poesia de Alice Brueggemann não pode ser relegada ao esquecimento. Sua parte neste contrato ela já cumpriu: dedicou-se inteiramente a alimentar de transcendência nosso cotidiano difícil, nossa impossibilidade de comunicação com os outros, nossos dilemas diários. Deixou-nos seu olhar melancólico sobre o mundo, sua tristeza indisfarçável, sua densa introspecção.
As próximas gerações têm todo o direito de conhecer estas obras serenamente arquitetadas, que compõem um único projeto de vida. O compromisso que pesa sobre os ombros de todos os que se sentem responsáveis pela conservação e divulgação de obras de arte, como as de Alice Brueggemann, que se tornaram patrimônio público, é sempre o mesmo: fazer com que continuem existindo, com o mesmo vigor, e da forma como foram concebidas, e que possam periodicamente ser visitadas, como se visita um amigo querido, de quem temos muita saudade".