AUTO ENTREVISTA
Penso que a
entrevista é a nova forma de arte. Penso que se
entrevistarmos-nos a nós própios é a essência da
criatividade. Colocarmo-nos perguntas e tentar encontrar
respostas. Um escritor está apenas a responder perguntas que
não foram expressas.
É parecido com responder a perguntas na posição da testemunha.
É esse lugar estranho em que se tenta agarrar o que aconteceu no
passado e lembrar com honestidade o que estava a tentar fazer. É
um exercício mental crucial. Uma entrvista da-nos muitas vezes
oportunidade de confrontar o nosso espírito com questões, que
para mim são tudo aquilo que a arte é. Uma entrevista também
nos dá oportunidade de eliminar o mero preenchimento de espaços
em branco. . . devemos tentar ser explícitos, precisos, ir ao
cerne da questão . . . nada de tretas. A entrevista tem
antecedentes no confissionário, no debate, no interrogatório. A
partir do momento em que se diga uma coisa não se pode voltar
atrás. Já é tarde. É um momento muito vital.
Eu estou como que preso ao jogo da arte e da literatura; os meus
heróis são artistas e escritores.
Sempre quis escrever, mas sempre achei que não seria bom, a
menos que duma forma qualquer a mão pegasse na caneta e
começasse a mover-se sem eu ter realmente nada a ver com
isso.Como a escrita automática. Mas nunca aconteceu.
Escrevi algumas poemas , de fato. Acho que por volta do quinto ou
do sexto ano um poema inticulado "The Pony Express". É
o primeiro de que me lembro. Era um desses poemas tipo balada .
Contudo nunca consegui trazer à luz.
"Horse Latitudes" (Latitudes do Cavalo) , escrevi-o
quando estava no liceu. Eu tinha uma quantidade de cadernos ,
durante o tempo do liceu e da faculdade, mas quando deixei os
estudos por alguma razão estupida, ou talvez sensata, joguei
tudo fora. . . Escrevia nesses cadernos noite após noite. Mas
talvez se não o tivesse jogado fora, nunca teria escrito nada de
original, porque eles eram sobretudo acumulações de coisas que
eu tinha lido e ouvido, citações de livros. Acho que se não me
tivesse desfeito deles nunca me teria tornado livre.
Oiçam. a verdadeira poesia não diz nada apenas destaca as
possibilidades. Abre-se todas as portas. As pessoas podem
atravessar aquela que se lhes ajusta.
E. . .é por isso que sinto pela poesia este apelo tão forte,
porque é eterna. Enquanto houver pessoas, elas podem lembrar-se
de palavras ou combinações de palavras. Mas nada pode
sobreviver ao holocausto a não ser a poesia e as canções.
Ninguém se consegue lembrar de um romance inteiro. Ninguém
consegue desecrever um filme, uma escultura, uma pintura mas
enquanto houver seres humanos, as canções e a poesia
sobreviverão.
Se minha poesia pretende atingir alguma coisa é libertar as
pessoas dos limites em que se encontram e que sentem.
JIM MORRISON( Los Angeles
1969-1971)