GOTA
 
A gota de chuva caiu. Deslocou-se pelo tronco da grande árvore, demorando em suas reentrâncias, ao abrigo dos raios solares e do vento. Ajudada pela imensa úmidade do ar pôde ali ir ficando sem evaporar. Novas chuvas trouxeram então outras gotas que, unidas, arrastaram-na para baixo, desta vez buscando mesmo as gretas e os sulcos do terreno. 

Mais uma vez iniciou viagem. O destino sempre o mesmo, um só, longe, distante e para baixo, muito abaixo, gravitacionalmente abaixo. Se assim não fosse não viajaria.

Inserida em meio a massa líquida, era o pedaço e o  todo, fluia rapidamente vencendo barreiras inimagináveis, dotada de poderosa energia rasgava o terreno aumentando o sulco, alargando as margens, carregando flutuantes e arrastando imersos.

 Sentia agora, entretanto, a ineficiência do esforço, deslocava-se mas não progredia. Contida, circulava no suave remanso provocado por um obstáculo.
De repente libertou-se, uma corrente maior chegou forte lançando-a mesmo fora do pequeno leito. Sentiu a superfície atingida. Não tinha vazios que pudesse ocupar, não tinha pares a que pudesse se agregar. Ficou ali, e seu destino era com certeza, pela exposição aos raios solares, à atmosfera retornar.
Mais uma vez, contudo, conseguiu manter o seu estado. Fora preservada agora não pelo socorro de outras águas mas pelo vento suave, outro fluido,  que dobrou a folha permitindo que escorregasse até o solo.

Ai, encontrando espaços vazios, rapidamente, quase verticalmente, mergulhou. Iniciou novamente a descida impulsionada pela maravilhosa energia que permanentemente atuando quer levar todas as coisas a um só ponto.Correu ao encontro das outras que  se deslocavam para o mesmo destino, porém mais devagar, de forma mais ordenada.

A descida desenvolvia-se numa sucessão de abraços fraternos com o outro elemento. Prendia-se a ele para num instante seguinte libertar-se e imediatamente tornar a enroscar-se logo abaixo. Nessas ocasiões sentia, as vezes, que não ia resistir. Deixando um pouco de si, umedecendo um pouco os grãos de terra em cada abraço, logo desapareceria. Observou-se, e viu então que nos abraços dava mas também recebia as minúsculas porções que suas antecessoras confiaram ao solo ao descer.

Subitamente parou. Não descia mais. Não abraçava mais. Sua tragetória fora cortada. Tocava não um grão, mas pousava sobre um aglomerado de grãos fortemente ligados que constituiam um grande pedaço de rocha. Paciência, teria que ficar ali até que suas irmãs lá de baixo resolvessem subir para buscá-la, ou outras vindas de cima arrastassem-na até a borda da pedra para que juntas continuassem a descida.

 Percebeu então algo estranho. Os grãos do solo que envolviam a pedra, em todas as direções,  não estavam sossegados. Resistindo, eram invadidos e deslocados por tentáculos vegetais que além de ocuparem seus lugares absorviam sua matéria, usando como veículo a matéria dela, água.
Era evidente que se por ali se demorasse teria sua viagem interrompida definitivamente, seria parte de vegetal ou voltaria à atmosfera, ou ambos.
Queria continuar descendo, mas aquela força externa que a movia estava equilibrada pela pedra que a sustentava, era asim que tinha que ser. 
Depois de algum tempo, sentiu o movimento da pedra chacoalhando suas moléculas. 

A ação ameaçadora das raízes estava salvando-a. O solo, empurrado pelo vegetal, deslocara-se e a pedra inclinando-se permitiu que ela, gota d'água que nunca fora abandonada pela misteriosa força externa, novamente se movesse.
Alcançou a borda da laje e rapidamente, ajudada e ajudando outras companheiras, penetrou mais uma vez pelos vazios em direção ao seu destino.
O caminho agora tornava-se mais difícil. Os espaços vazios mais estreitos transformavam os abraços fraternos ao elemento terra em apertos que aprisionavam e barravam a trajetória, exigindo muito esforço para se libertar. 
Logo aprendeu que juntar-se as companheiras aumentava a força externa que as movia e assim resistiam melhor aos esforços contrários a caminhada. Prosseguiram unidas na viagem até que alcançaram o mar subterrâneo que lentamente se deslocava no interior da terra e aflorava vez por outra num olho d'água,  numa nascente, num rio, num lago.

Estava correndo sobre a superfície do solo, com suas companheiras, mais uma vez. Primeiro num pequeno filete líquido que serpenteava o terreno encharcado. Depois junto à enorme massa de água que acomodada e tranquila deslocava-se no grande rasgo da terra. 

Agora porém, sua velocidade aumentava bastante indicando ou uma acentuada declividade do terreno ou, o que era o caso, a proximidade de uma queda.

  Mais uma vez sentiu o contato com o outro fluido. Insistindo em alisar suas moléculas, a brisa indicava que muita energia seria consumida naquele trajeto. Logo percebeu que, na realidade, não era a brisa que atuava sobre ela. Com as  companheiras lançara-se solta no espaço, não era alisada pela brisa. Alisavam, elas sim, a atmosfera que já bastante umedecida, pouco as desgatavam.
Como sempre, ao final da queda viveriam momentos de intensa turbulência, até atingir a placidez do poço ou lago que lhes acalmava, tornando-as suaves, aglutinadas e novamente amigas.

Não tivera a fecidade de suas companheiras. Durante a queda, posicionara-se, não no seio da massa líquida, mas em sua extremidade. Assim, fora aspirada e caíra novamente no solo, tendo novamente que viajar pela via mais demorada.
Os vazios do solo estando repletos retardaram seu mergulho. Quando progredia era lentamente que o fazia. Viajando em área de abundância vegetal queria alcançar logo suas companheiras que, bem perto dalí, corriam juntas e livres para o destino abaixo.

Notava, entretanto, que seus movimentos não eram, agora, regidos apenas por aquela misteriosa força que estava sempre presente. Delocava-se para baixo, através dos espaços vazios do solo, mas segundo uma resultante de forças onde predominava, podia sentir, a ação impiedosa, uma vez vital, das raízes do vegetal. Não havia alternativa,  estava capturada, escravizada e transformada em veículo de sais minerais.

Absorvida pelas raízes, a pequena gota iniciou, pelo caule, a subida que a levaria até as folhas onde participaria do complexo, divino e natural milagre da vida vegetal. 

Ali nos espaços vazios da folhas, exposta a ação da energia luminosa seus pares de moléculas sofreram a separação de seus elementos para, através de novos casamentos com o fluido capturado à atmosfera, gerarem o alimento necessário ao vegetal.

A este milagre da vida vegetal, vê a gota, entretanto, sobrepujar-se um milagre maior. Ela mesma, usada e consumida no processo, renasce também dos casamentos. Se é metade do que era não faz mal, logo encontra outra metade igual. Está novamente viva, fruto da gratidão de quem a usou, fruto da gratidão de quem os criou.

Resíduo de processo químico, a gota com suas moléculas invade e umedece as células do mesófilo foliar, onde sob ação dos raios solares evapora através dos estômatos de volta a atmosfera.

A mudança de estado que antes parecia uma violência tinha para ela agora outro significado. Não deixara de existir, participara de um milagre e estava preservada. A viagem, o destino, nada disso importava. Estava viva, iniciando novo ciclo, sabia que subindo perderia o calor adquirido, iria se resfriar, tornaria ao estado líquido, aglutinar-se-ia às companheiras e novamente iniciaria a mesma viagem. Quantas infinitas vezes, também não importava.

Aquele ciclo era divinamente natural. Energias transformavam-se rigorosamente orquestradas. Não havia excessos, não havia faltas, não havia danos, não havia insensatez. Havia apenas o atestado da divindade em cada movimento, em cada elemento, em cada parte e em tudo. 

Por quê criar mais alguma coisa?
 

 
 

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