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chuva forte era acompanhada de ventos e trovões. Apesar de cedo,
a vila estava deserta, sem aquele movimento comum de início de noite.
A rotina fora alterada. Em dias como esse só os vagabundos, os aventureiros
e os desesperados não ficam na segurança de uma casa. Preferem
cantos e bares.
No "Gato Branco", mistura de bar e pensão, lembrando aqueles "saloons" dos filmes de faroeste, a freguesia era pouca. Apenas algumas pessoas, quase imóveis, espalhadas pelas mesas, com qualquer garrafa pela frente e aquele olhar perdido nas profundezas e nos mistério de suas almas. Os vultos, animados pelos intermitentes clarões que penetravam no ambiente, conferiam para que nada faltasse ao cenário lúgubre e espectral. Quando a porta se abriu não entrou nenhuma lufada de vento, nem rajada de chuva. Nem o barulho se modificou. Apenas um vulto alto, de contornos retos e regulares, apareceu no umbral. O homem esperou um pouco até que a água escorresse pela beirada de sua capa e caminhou em direção ao balcão pedindo uma bebida. -Chove muito não é? perguntou o camarada que estava sentado na mesa mais próxima. Sem virar o rosto, o homem emitiu um som indecifrável. Se respondeu alguma coisa seu interlocutor não conseguiu entender. A atitude, no entanto, não deixou nenhuma dúvida quanto ao desprezo que o estranho tinha pelos pobres diabos daquele bar. Um cara de uma mesa qualquer, dirigindo-se para o parceiro de copo, resmungou um impropério: "Droga, essa gente de fora! Pergunta-se se chove muito e o cara não dá a mínima. Parece que nem estamos aquí. Droga! O homem do balcão virou-se e varreu todo o ambiente com o olhar. Em seguida falou alto: "Eu sei que tá todo mundo aqui querendo saber quem diabos eu sou e de onde eu vim. Como fui aparecer aqui num dia desses." Muito bem. Meu nome não interessa. De onde venho também não. Cheguei aqui pela estrada, debaixo desse aguaceiro. Meu ofício é contar estórias. Isso mesmo! Sou contador de estórias, e vou contar, agora mesmo, uma estória para vocês. Todo mundo gosta de ouvir uma estória. É excitante, é estimulante viajar com a imaginação alheia. Imaginar que novas surpresas surgirão. Acompanhar atento o desenvolvimento de cada situação esperando sempre o novo, o inédito. Cada causa, cada motivo, cada consequência narrados são tão mais maravilhosos quanto mais distintos forem do que vocês, ouvintes, puderem imaginar, antever, e principalmente do que puderem ser. O ouvinte sente-se importante, reverenciado pelo contador. Sente que todo o objetivo do contador de estórias é entretê-lo, agradá-lo, satisfazê-lo. Vocês acham isso. Vocês querem isso. Mas não é assim. O contador de estórias é cruel. Ele pode ser o que vocês querem, mas normalmente não é. Normalmente ele vai usá-los, vai consumi-los, vai marcar o íntimo de cada ouvinte. E enquanto conta uma estória vai roubando várias outras bem de dentro de cada ser. Ele brinca com os ouvintes. Com os personagens de sua estória, ele transforma cada homem no que quiser. Leva-os aos céus. Uma emoção para cada homem. Uma emoção para cada necessidade. Leva-os também aos porões infernais, fazendo com que cada um sofra o que quer sofrer. Mexe-lhes a alma deixando-a mais desgraçada que a de vocês, desgraçados de taberna. O contador de estórias é como um vampiro. Se alimenta das emoções dos ouvintes. Através de cada olhar ele recolhe as emoções que deseja, que lhe dá vida, que lhe dá matéria-prima para outras vampirizações. Um contador de estórias não se comprime dentro de legislação, credo ou raça. Ele usa tudo que seus ouvintes podem dar. Dado ou tomado, tudo ele usa para criar os mundos fantásticos que alegram, entristecem, enobrecem, corrompem. Mundos jamais imaginados por vocês ouvintes. Embora arrancados bem de dentro de cada um de vocês mesmos. Cada emoção percebida no ouvinte, a ele retorna multiplicada pela arte do contador de estórias. Aquele ali quer sofrer. Vai sofrer. O outro lá é sádico. Vai sentir dor e prazer. Quase todos são infelizes. Vão sentir satisfação. Cada um de vocês começa a ter sua estória própria. A partir da estória contada, cada um de vocês ouvintes será um contador. Estarão conscientes porém de estar apenas repetindo uma estória criada por outro. Nunca se darão conta de que a estória sempre foi só de vocês ouvintes. Desde o primeiro instante foram as suas emoções que forjaram e deram vida a estória. A mulher
da estória não é a da emoção do contador,
é a da emoção do ouvinte. As cores e dores da estória
foram misturadas pelas emoções de vocês ouvintes.
As estórias de um grande amor, ou de uma grande dor, são sempre as mesmas. Vivida, invejada, desprezada, admirada, excitante, bela, triste ou sem graça, são as suas emoções ouvintes, que as tornam. Quando a estória começa vocês vão já definindo suas preferências. Escolhendo os seus heróis, seus vilões, escolhendo os seus vivos, seus mortos, seus santos, seus pecadores. E eu, contador de estórias, vou apenas recontando o que seus olhos contam para mim. Divirto-me fazendo-os sofrer com o imprevisível da narrativa. Não preciso ser fiel a suas emoções. Vocês jamais ouvem através de outro meio. E as emoções quase sempre dispensam a lógica. A estória
contada é a estória de seus sonhos, de seus desejos e angústias.
Ao ouvinte entretanto, nada mais importa quando ouve e pensa, quando ouve
e cria. Alí, naquele instante ele se liberta de seus limites, o
contador permite isso.
Vocês vão sofrer o peso de cada estória. Não importa qual estória, qual o tema, basta ser a sua estória, uma estória construída com suas emoções. Serão heróis, pois sempre existe injustiças a corrigir. Serão assassinos, pois sempre existe inimigos a massacrar. Não devem imaginar contudo que as emoções são pobres na sua originalidade. Olhem para vocês, desgraçados de bar! Poderiam mesmo achar que suas estórias são iguais? Não são! Você. Por que está aqui? Sua companheira morreu? Teus filhos não querem saber de ti? E você? Perdeu o emprego, que já não era lá grande coisa? E tu? Qual é a sua luta? Não está satisfeito com o que em ti? Desprezam os que ganham dinheiro. Os que agora estão preocupados com a aparência e com os bens. Estes são uns fracos, não são? Protegidos em casa, autômatos previsíveis e programados! Não é assim? Desprezam os fracos mas sofrem porque não são iguais a eles. Não desejam suas emoções mas desejam suas satisfações. Na estória
encontram o ponto certo, a harmonia entre as emoções dos
desgraçados, dos aventureiros e a satisfação dos fracos,
dos comuns.
"João,
filho de José e Marta, irmão de Marlene que detesta Paula,
ama Paula, filha só de Maria. Paula não ama João mas
ama Célio, marido de Vera, vizinha de Cristina, e filho de Ana e
Roberto, que gosta dela mas sente medo. Roberto já é velho
mas ama Cristina menina, que hoje não ama ninguém.
João, Paula, Roberto, Maria e todos os outros nunca existiram na vida desse contador de estórias. Sempre existiram dentro de vocês ouvintes. Por que os olhos daquele homem estão molhados? Qual a dor que padece? Dor do apaixonado assassino de seu amor? Dor da mãe sozinha? Dor do arrependimento? Ou sua dor esquecida, libertada agora por tantas dores? Apenas se ouvia o barulho da chuva quando o homem virou-se e caminhou em direção a escada que levava aos quartos. |