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noite desceu rapidamente sobre a floresta. Era a primeira noite de Mário
na floresta amazônica. O espírito das florestas resolveu dar-lhe
as boas vindas com tudo a que tinha direito. Chovia torrencialmente. Chovia
como só chove ali, nas baixas latitudes, na imensidão da
floresta amazônica.
Deitado na rede pendurada em estacas, protegido da chuva pelo abrigo improvisado com folhas de palmeiras, que habilmente os mateiros construíram num piscar de olhos, Mário prestava atenção a selva. A primeira coisa que registrou foi o medo do desconhecido. Havia se preparado para aquela viagem. Nem tanto era verdade, pois não tomara nenhuma vacina contra nenhuma daquelas febres todas. Mas não eram febres que agora o preocupavam, era no desconhecido que pensava. A fogueira, sufocada pela escuridão da mata, emitia uma pálida luz que não penetrava um metro sequer além do perímetro do tosco abrigo. O desconhecido estava presente. Reforçado pelo trabalho de uma mente agitada que impetuosamente construía os mais diversos temores, alimentada pelos estranhos ruídos, gritos e grunhidos que, bem reais, vinham lá da escuridão. Este desconhecido tão bem construído atemorizava tanto Mário quanto, familiar, embalava os mateiros, todos já ferrados num sono reconfortante como milhares de trabalhadores urbanos que naquele instante descansavam no abrigo de um lar. Bicho, chuva, vento, folhagem, água correndo em igarapé, tudo isso e mais nada, penetrando de uma só vez ouvidos e mente acostumados a descargas de carro, matraquear de motores, sons da cidade enfim, provocam em qualquer um fortes emoções que, apesar de moldadas nas vivências específicas de cada um, são todas canalizadas para um desafio, para um embate com a floresta, que envolvendo por completo parece, qual a Esfinge, dizer: "decifra-me ou te devoro". O primeiro amanhecer na floresta foi, para Mário, um acontecimento inesquecível sob vários aspectos. Primeiro, porque ele não despertou, uma vez que não tinha dormido. Depois, porque pode acompanhar e aprender às primeiras horas uma infinidade de coisas, com os bichos, com as árvores e com os mateiros. Não
são os raios do sol que trazem o amanhecer para o interior da floresta.
Aqui, no chão, nas áreas situadas entre as árvores
gigantescas de até 70 metros de altura, pela manhã, os raios
solares estão sempre atrasados, são os últimos a chegar.
O amanhecer é anunciado por uma algazarra de pios, urros e tosses.
Naquele
dia, o amanhecer foi anunciado pelo cantar estrepitoso do mutum, que
lá dos galhos mais altos, queria desbancar o inhambú, ave
de poucos vôos, que respondia cá do chão, isso tudo
enquanto luz artificial ainda se fazia necessário.
É
nada não. É só uma cotiara voltando pra toca.
Falou o mateiro Mucura. Ele mesmo, nome de bicho . Se semelhança
não podia guardar com a anatomia marsupial, compensava-a com
o cheiro e o olhar arisco.
No dia anterior haviam penetrado 6 Km mata a dentro até as margens do igarapé, no local onde agora estavam reunidos. Mário conferiu seus mapas, observou a bússola e concluiu: "Estamos distantes ainda 10 Km do curso d`água principal". E apontando um mapa surrado encapado por um plástico transparente, continuou: " Devemos agora estar aqui, neste afluente pela margem direita". A gente chega hoje. Daqui prá tardinha a gente faz duas léguas - falou Cássio, o mateiro mais novo do grupo. Verificadas as mochilas e completados os cantis, Mário nunca imaginou que caminhar naquele mar de umidade que era a selva amazônica desse tanta sêde, o grupo prosseguiu a caminhada. Na frente os mateiros iam abrindo caminho a terçadas, procurando manter o melhor possível o rumo definido pela bússola . O resultado era uma picada estreita de uns 1,5 metros de largura, que avançava deixando para trás um perigoso tapete de estacas pontiagudas, verdadeira armadilha para futuros caminhantes. Desenvolvia-se relativamente em linha reta, a não ser quando era preciso contornar grandes árvores ou aclives acentuados. Esforçando-se para acompanhar o ritmo daqueles homens acostumados com a floresta, Mário ia observando maravilhado a variedade de formas, cores e sons com que então tomava contato. Quase não percebia o desconforto de caminhar numa umidade de 100 %, onde o suor ao invés de evaporar ficava grudado na pele e roupa. Qualquer coisa que tivesse vazios se encharcava de água, desde as botas até a caixa de fósforos, completamente inútil na floresta. O fumante carregava o maço de cigarros e o isqueiro enrolados num saco plástico. Sem chuva, o grupo avançava mais rapidamente que no dia anterior. Por volta das 10 horas pararam para o almoço de enlatados. Mário imaginava que mesmo as paradas mais curtas deveriam ser realizadas as margens de um igarapé, providencial para o reabastecimento de água. Com um único golpe de terçado, como se o pensamento tivesse sido lido, um mateiro mostrou que na floresta amazônica, apesar dos inúmeros igarapés, existem outras maneiras de se obter água. Admirado, Mário viu o mateiro levar à boca a extremidade do talo de cipó ituá-açu, de mais ou menos 1 metro de comprimento, que acabara de ser cortado, e beber a água contida no vegetal. Da mesma
fonte saiu a água que completou os cantis de todo o grupo.
Aproveitando o restante de luz natural os mateiros mais uma vez improvisaram um abrigo para aquela noite. A ausência de chuva e o fim da jornada foram benéficos aos homens. Embora cansados sentiam um certo alívio, um relaxamento gostoso que trouxe a descontração à volta da fogueira. Sentado na rede, Mário ia observando os peões. Havia tipos dos mais variados. Desde Ceará, herdeiro do nome do seu estado e considerado o peão mais corajoso do grupo, até o Luíz Lopez, este sim, verdadeiro peão de trecho. Peruano que após roubar e vender o caminhão, único ganha pão de "su padre", veio para o Amazonas fugindo do filicídio ou fratricídio, já que seu pai estava acompanhado do outro filho na empreitada de morte. Seu Raimundo, grande contador de estórias. Sabia como ninguém contar estórias da canguçu de pé virado. Onça preta, traiçoeira e violenta, o terror daquelas bandas. Bico, sujeito quieto e matreiro, com olhar desconfiado, raras vezes dormia no acampamento. Desaparecia ao anoitecer retornando pela manhã quase sempre com uma cotiara, uma paca ou outro roedor de hábitos noturnos, abatido e jogado sobre os ombros. Gostava de passar a noite na "espera". No dia seguinte começariam os trabalhos de abertura das clareiras e construção do acampamento avançado para sustentação do projeto. Duas semanas
mais tarde, quando a construção do segundo acampamento que
distava 8 Km a sudeste já ia bem adiantada Mário viveu o
primeiro momento de real perigo. O espírito das florestas havia
resolvido fazer o primeiro teste.
Enquanto
Mário parava assustado, seu Raimundo rápido embrenhava-se
mato adentro pela encosta íngreme chamando baixo: "corre,
corre, é caititu! é caititu!". Mário correu em sua
direção e esperaram agachados.
Aquela noite, como em várias outras, a volta da fogueira, os homens imaginaram um céu estrelado acima da copa das árvores. Começaram então a conversar coisas, e depois de falar dos caititus, o assunto tomou o rumo que sempre tomava em noite supostamente estrelada, mulher. Bico reafirmava que as do Saramandaia eram as melhores de toda a Manaus. Sabiam ser carinhosas e companheiras. Se não fossem competentes Dona Zeza as expulsava. Cada um falava de suas aventuras, dos presentes dados e recebidos. Nestas ocasiões Mário quase sempre era perguntado sobre a mulher e os filhos. Estranho, pensava ele, misturam minha família com as mulheres e as coisas dos bordéis, com suas coisas, e eu não me incomodo, respondo, converso e gosto. É,.....depois desse tempo juntos, expostos ao mesmo ambiente, somos amigos, temos de trocar nossas coisas, nossas melhores lembranças. Os dias passavam, o projeto andava e Mário sentia cada vez mais intimidade com a selva, com aqueles homens e com aquela vida. Já tinha descoberto a solução do enigma apresentado na primeira noite na selva. Um homem da cidade como ele só sobrevive na floresta se abandonar seus hábitos, seus jeitos, seus pudores e temores. Tem que aprender tudo de novo e integrar-se totalmente com aquele estranho mundo, onde dois reinos fantásticos ditam todas as leis. O reino vegetal, rico aqui em diversidade como talvez em nenhum outro lugar do mundo, define o ambiente físico, suas belezas, seus perigos e seus limites. Define mais, constituí também o "habitat" do segundo e igualmente importante reino, o animal. Que deslumbramento estar em contato direto com aqueles mistérios. Quantas espécies animais à volta! Quantos hábitos! Quantos ciclos vitais que, obedecendo a tantas leis naturais regulam todo esse universo, onde o homem supostamente dominador percebe de imediato sua verdadeira dimensão! Não
raro um jabuti era encontrado no meio da picada ou numa das capoeiras próximas
da área de trabalho. Então, se o homem tinha pressa e não
podia perder tempo com o bicho simplesmente colocava ele virado de pernas
para cima. Transcorrido o tempo que fosse necessário o caçador
voltava e tomava posse definitiva do quelônio. O destino final impreterivelmente
era a panela.
Outra exótica iguaria tropical apreendida por Mário foi o suco de bacaba, pequeno fruto de palmeira da cor do sapoti que, espremido, coado e dissolvido em água, se servido quente era tal qual uma xícara de chocolate. Além disso o palmito de sua palmeira igualava-se ao da palmeira do açai. Jamais se comeria novamente palmito mais fresco. Uma ou duas
ocasiões Mário teve a emoção do homem civilizado
preocupado com a exploração do seu país. Aquele sentimento
triste que pessoas esclarecidas do Terceiro Mundo experimentam ao constatar
quão pouco significa para seus dirigentes pesquisar as riquezas
nacionais. O poder econômico internacional sempre determina como
e quem pode estudar o quê.
Ao findar o projeto, Mário naturalmente era outro homem. Ansiava retornar a civilização e aos seus, sentia falta da agitação e dos afazeres da cidade. Lamentava abandonar aquele mundo que foi de desafios vencidos, vida vivida, mas que não se mostrou todo. Isto o espírito das florestas não permitia, ainda mais em uma única vivência. Era preciso primeiro nascer pedra lá, nascer mato lá, nascer bicho lá e finalmente nascer homem lá. Para ele, homem da cidade, teriam que bastar as lembranças. E eram muitas. - Estrondos
em noite chuvosa provocados pela queda de árvores gigantescas durante
tempestades de vento e relâmpagos.
De volta a civilização Mário percebeu que rapidamente seus anseios urbanos foram satisfeitos. Rapidamente falar ao telefone, resolver problemas em bancos, tomar chopp, fazer a manutenção do automóvel e todas as outras coisas deixaram de ser a satisfação de um desejo reprimido, para assumirem a forma real do simples hábito metropolitano, do hábito de interagir muito mais com o sintético do que com o natural, em qualquer escala. Durante muito tempo, sempre que a pressão era muito forte e incomodava, sempre que angústias anônimas tentavam se manifestar, Mário recolhia-se e deixava seu espírito ser novamente invadido pelo espírito das florestas. |