ELIANE
 

Embora fosse verão e o céu estivesse praticamente todo azul pincelado apenas por amigáveis nuvens brancas, o vento soprava uma brisa bastante agradável, como sempre acontecia naquela época no baixo São Francisco, contrastando com a tórrida e penosa tarde que não muito longe dali , nos interiores do alto São Francisco,  castigava tudo nela imerso, gente, bicho, vegetal e mineral.  

A "Eliane" descia devagar e silenciosamente navegando em direção a Piaçabuçu, última cidade ribeirinha antes da foz do "Velho Chico". Havia deixado Penedo a cerca de hora e meia. Daqui a pouco o mar, que displicentemente lançara sua língua salgada rio a dentro, invertendo a natureza, num ósculo repetido a cada doze horas, irá libertar a massa fluvial represada, permitindo que o imenso rio, agora em toda a sua extensão escoe normalmente do continente para o oceano. Ocasião de mistérios e perigos neste trecho de rio, que agora tão calmo como um lago, num instante desponta tenebroso e veloz como uma corredeira, coalhado de balseiros, galhos e troncos arrebatados das margens invadidas.  

Sua carga era diferente. Nos seus bancos laterais não se viam os costumeiros passageiros, que com seus amontoados de coisas viajavam de  Penedo a Piaçabuçu,  Neópolis, Propriá ou Brejo Grande. Ao redor do seu motor central não se espalhava a perigosa, mais inevitável superlotação, maior problema para a  Capitania dos Portos naquelas bandas.  

Isso porque, bafejada pelos ventos da prosperidade, a exemplo de quase toda a economia local, desde que a Petrobrás resolveu construir um gasoduto partindo de Alagoas para Sergipe, a "Eliane" fora alugada a uma empresa de engenharia.  

No espaço interior ao seus 10 metros de comprimento transportava agora correntômetros, níveis topográficos, teodolitos e toda uma parafernália tecnológica que só fazia sentido para os forasteiros, seus portadores.  

Aos fiéis e perpétuos passageiros restaram as embarcações menores, decerto bem mais vulneráveis  ao intercurso marítimo-fluvial estabelecido naquelas águas.  

De pé em frente ao leme Roberto olhou para o céu e calculou em mais 3 horas e meia de viagem até  avistarem os contornos da ilha Fitinha, em frente a Piaçabuçu. Com a maré vazante e a ajuda de Nossa Senhora estava calculando certo.  

 Sentado no canto do banco direito, na extremidade próximo a proa, seu Durval, o pai, aproveitava os últimos minutos de equilíbrio entre as correntes doce e salgada para, através de uma surrada edição "pocket" intitulada "Midway - A batalha impossível", continuar mergulhado na juventude vivenciada por temores, despreendimentos, heroísmos, garra e dedicação verdadeiros. Sentimentos  que atestam o viver e, uma vez experimentados, constituem um referencial tão forte que jamais deixam a satisfação ser atingida em outro curso.  

As palavras lidas devagar eram vida para Durval que, melhor do que ninguém, compreendia todo os seus significados, motivos, cheiros, angústias e  consequências.  

"Praça de armas do navio, B-17, Zeros, mastro trípode, convés de bombordo, sala do gerador de vante",..... tudo isso tinha sido gravado a fogo em sua alma . Fora seu único mundo quando parecia já não haver mundo. Fora sua vida, quando a vida valia tão pouco, quando a vida era menos que um sopro.  

Durval, ficou na Marinha de Guerra dos 18 aos 30 anos,  combatera na 2ª Guerra Mundial embarcado no contratorpedeiro Mariz e Barros. Em toda a sua formação nunca vivera simulações, aprendeu os segredos em tempo real, quando um descuido, ao invés de ser revisto e concertado, poderia representar simplesmente a morte. Morte de criança com fome na caatinga, morte matada com peixeira no bucho de adolescente encrenqueiro, morte na guerra de marujo descuidado.  

Marujo de mar alto, forjado em tempo de guerra, a roda do destino e das oportunidades não permitiu que se tornasse um velho lobo do mar, mas, pelo menos, era o melhor lobo  do baixo São Francisco.   

Logo após a guerra teve que dar baixa para cuidar da mãe, dos irmãos e de duas tias, uma delas entrevada .  

Com as economias e o prestígio de quem defendeu seu país contra a ameaça alemã, iniciou um pequeno negócio de canoas para a travessia entre Propriá e Penedo. Com o tempo o negócio prosperou e hoje Durval tinha duas das melhores lanchas que serviam a região, batizadas com os nomes da mulher e da filha -  "Eliane" e  "Jussara". A primeira, a maior e mais bonita delas, era a sua favorita.  

Verde e branca, ostentando na proa a carranca de um demônio nórdico estilizado a la mestre Guarany, e em seu interior um pequeno oratório dedicado a São José; a "menina dos olhos" de Durval era cobiçada por vários barqueiros da região, sendo que o mais renitente de todos, Zé do Bode, era também o seu maior concorrente.  

Além de lhe garantir o maior percentual do seu sustento, a "Eliane" era a sua cúmplice nas intrépidas viagens de volta a juventude. Nestas ocasiões ela transformava-se no Mariz e Barros e ele,  Durval, era o Comandante zeloso pela sua tripulação e firme no propósito de combater o inimigo, mostrando-lhe do que era capaz a marinha e o sangue brasileiros.  

As margens do São Francisco, distantes quase sempre mais de 500 metros, também cumpriam perfeitamente seu papel no roteiro do passado, dando mais a sensação de mar aberto que rio. Ainda assim, Durval tinha preferência em "viajar" à noite. No escuro a imensidão era infinita, só se ouvia o barulho das águas solapando o casco e abafando o preguiçoso choro do motor de centro. A proximidade da foz permitia que não faltasse sequer o cheiro de sal.  

Quando, por sorte, à noite viajavam com poucos passageiros e praticamente todos íntimos de Durval, quase não havia luz na "Eliane" - ah,  se não fosse a Capitania dos Portos..!   

O Mariz e Barros silencioso,  lento e completamente apagado deslocava-se pelas águas do Atlântico ora no rumo Nordesde para a França, ora no rumo Norte para o mar da Noruega. Até em águas do Mar de Barents o pequeno vaso de guerra navegou. Durval tinha o Mapa-Mundi na cabeça.  

 No convés  homens com ouvidos acostumados e atentos a qualquer ruído diferente, com olhos prontos a identificar a menor luminosidade naquele universo de breu, moviam-se em "slow motiom" numa estranha coreografia que, na hipótese do inimigo estar distante, era tão patética quanto seria providencial na hipótese contrária. Um cigarro não podia ser aceso. Uma tosse não podia escapar.  

Quando o radar lançava a dúvida entre uma enorme baleia ou um submarino alemão, um pânico prazeroso invadia os mais inquietos, aqueles que não ponderavam o destino, a sorte ou o azar, estavam ali porque eram homens e ali era a guerra. Várias vezes Durval sentiu essa coisa lá. Várias vezes  sentiu essa coisa, aqui.  

Durval compreendia e cultuava seus pânicos, inteiramente diferentes, inteiramente necessários, inteiramente vivos. O pânico da iminência do combate retesava os músculos e preparava o espírito para a ação. Durante o ataque, o pânico proporcionava ao corpo  rápidos movimentos jamais alcançados nos treinamentos.   

Suas manobras em combate ao leme da "Eliane" decerto mudaram várias vezes os rumos da História.   

Um sem número de vezes conseguiram driblar o fogo do cruzador alemão e recolher os náufragos do pequeno cargueiro francês "Mandoline". Outras tantas vezes pegaram o maldito submarino sem uma baixa sequer. Nunca sofreu aquele impacto na popa que levou 5 companheiros tragados pelas águas frias do mar da Noruega.  

Barqueiros e canoeiros do baixo São Francisco jamais imaginaram o quanto estiveram perto da "morte" nas ocasiões em que ao cruzar com a "Eliane" não entendiam o estranho bailado conduzido por Durval que, ao leme cumprimentava-os com uma cara estranha. Meio dormindo meio acordado. Nem parecia o Durval do cais, do bar, o apaixonado torcedor do CRB.  

Se mais observadores,  perceberiam que aquela era a mesma cara que o Durval fazia quando contava as histórias da guerra, bem menos freqüente agora,  passados tantos anos e que toda a Penedo já sabia de cor e salteado.  

Algumas vezes, deitado no teto da "Eliane" e observando as lavadeiras espalhadas pelas barrancas do rio, Durval transportava-se novamente ao passado, novamente aos tempos de guerra. Mas nessas ocasiões não era para bordo do Mariz e Barros que ele retornava. Via-se novamente pelas ruas e bares de New Orleans. O paraíso era no Golfo do México.  

Sentia novamente o calor sob os seus pés. Estava novamente caminhando nas ruas de pedras largas com seus sobrados avarandados, admirando as balaustradas de ferro trabalhado. Adorava acompanhar o "blues" entoado pelos músicos, na maioria negros, que naqueles tempos, como agora, tocavam em troca de alguns trocados.  

 New Orleans era uma cidade mágica; seus bares, seu passado, suas mulheres e seus mistérios. Durval nunca entendeu bem o fascínio que aquela cidade exercia sobre ele.  

Não eram apenas lembranças fragmentadas de eventuais descansos na guerra. Tampouco poderia ser atribuído apenas aos dotes físicos e carismáticos da linda mestiça Marie L. Ray, de sangue negro, antilhano e branco, que durante 12 dias nos bares, na cama, nas sessões de vodu, praticamente apenas sussurrando, lhe ensinou tudo sobre o espírito da cidade.  

Aquela cidade tinha seus próprios e insondáveis mistérios que emergiam nas suas formas, clima e povo. Durval nunca pensou isso, sentia. Trinta anos depois ainda sentia.  

Soube 12 anos depois  que  foi assim, deitado no teto da "Eliane ", que Durval foi encontrado morto. Enfarte do miocárdio enquanto dormia e, certamente sonhava com New Orleans.  

Em que outro lugar haveria de morrer comandante audaz de tantas batalhas?

 
 

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