A  COPA  E  OS  HERÓIS
 
 Herói : 1. Nome dado pelos gregos aos grandes homens divinizados. 2. Aquele que se distingue por seus feitos guerreiros, seu valor ou sua magnanimidade. 3. Semideus. 4. Principal personagem de uma obra literária. 5. Principal personagem de uma aventura, de um acontecimento.    

Desde a infância, a palavra herói mexe com as nossas emoções.   
Quando crianças, é muito fácil reconhecermos os heróis. Depois, fica mais difícil. É preciso mesmo recorremos aos dicionários, na tentativa de evitar um engano, quase sempre inevitável.   

Quantos heróis conhecemos?   

Para enxergarmos um herói, é preciso , em primeiro lugar, a ocorrência de um fato notável, que nos impressione favoravelmente e sobretudo nos emocione. Além disso, a pessoa merecedora de tal atributo deverá apresentar um comportamento fora do comum, deverá enquadrar-se no rol das existências raras, e deverá acima de tudo conseguir, através do consenso na grandeza dos seus feitos, um número cada vez maior de crentes e seguidores   
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Não há dúvidas de que os atos heróicos despertam sentimentos de confiança e esperança na vitória. Vitória esta na maioria das vezes associada com algum tipo de libertação.   

Quanto maior o feito, maior será o destaque, maior será a admiração e maior ainda será a fama. Não raro, será também maior o risco, a exposição ao perigo. Todo ato heróico se reveste de insensatez, na medida em que exige do herói uma permanente exposição a situações difíceis, jamais procuradas pelos simples mortais.    

Mas ao herói um sacrifício ainda maior é exigido. Destaques, bravuras e vitórias conduzem à fama mas cobram coerência. O que sustenta o herói é a coerência entre seus atos heróicos, suas palavras e seus hábitos. A coerência deverá beirar as raias do divino, transformando homens em deuses.   

A bandeira brasileira, estampada no painel do ônibus que passava, não pôde deixar de despertar minha atenção. Hoje, a seleção brasileira de futebol estréia na Copa do Mundo. Não tive nenhuma dúvida de que a iniciativa de ornamentar o ônibus tinha partido do próprio motorista.   

Quero antes de qualquer coisa, deixar claro que nada tenho contra o futebol. Devo até confessar que, sempre que posso, vou ver meu Vasco jogar.   

Apesar de nada ter contra esse nobre esporte bretão não posso me furtar a fazer algumas considerações sobre a bandeira do motorista, o futebol e as pessoas.   
Nesses dias de Copa do Mundo, a histeria popular me incomoda bastante. Parece que acordo  de ovo virado, fico de mau humor sem motivo aparente. Tanto mau humor só pode ser explicado pelo enorme desperdício de energia cívica que nesses dias cobre o país do Oiapoque ao Chuí.   

Desperdício porque a energia brota espontânea de dentro de cada um e vigorosamente é canalizada para a vitória de um time de futebol que, confundida com a vitória de um país, fantasia glórias, orgulhos e até mesmo a própria vitória esportiva.   

As ruas são pintadas, enfeitadas, correntes prá frente surgem de todos os lados, ufanismo, fé concentração e esforço espontâneo somam-se para suplantar um obstáculo. Tudo é um só coração, como já disseram antes. Parece até que o Presidente Médici vai surgir do passado e aparecer, agora em cores, no Jornal Nacional, comemorando com o radinho colado ao ouvido.   

Depois da Copa entretanto, o povo brasileiro cai, outra vez na real, na sua triste condição. Percebe que continua no mesmo lugar, ansiando por mudanças, querendo vencer os obstáculos que o separam da cidadania.   

É muito grande a confusão que se faz entre o amor a um país e a torcida por um time de futebol. A cada 4 anos, a célebre frase "... o time é a pátria de chuteiras..." recicla nossas emoções e paira atual como nunca.   

O uso generalizado dos símbolos e cores da pátria para extravasar sentimentos e alegrias reprimidos diariamente é ponto notável nesta época.   

Vocês já repararam a comemoração de uma vitória?   

Utilizando a via do futebol, o povo dá vazão a todos os seus instintos. Explode freneticamente numa cascata de afirmação, alegria, orgulho e vitória. Tenta resgatar, de uma só vez, tudo aquilo que diariamente, ano após ano, lhe é negado.   

Situação idêntica vivemos com a  alegria explosiva dos 3 dias de carnaval, que o prefeito louco, aquele que andava de capote no verão, já pensou em passar para 6 ou uma semana, sei lá!   

Pobre povo brasileiro. Estão sempre querendo lhe impor as vias indiretas. As vias das válvulas de escape.   

Pobre povo brasileiro, incapaz, ficas a mercê daqueles que cientificamente elaboram teu futuro, tornando-o cada vez mais dependente de heróis. Seja um belo herói "collorido", sejam vinte e dois heróis "canarinhos", ou toda uma turma de senhores bem vestida, diplomada e bem comportada que depois, lá em Brasília, transforma-se numa lenda oriental, com direito a anões, gênios e ladrões, só que, lamentavelmente para ti, povo brasileiro, mais real do que nunca.   

Quão vitorioso seria esse povo se conseguisse concentrar tamanha energia cívica na resolução de seus principais problemas!   

Consciente dos seus verdadeiros problemas e da força de sua ação, o povo não mais esperaria os frutos do trabalho isolado de heróis, na maioria das vezes moldados em barro e vendidos via satélite.   

A vontade existe, está mais que provado. A canalização desta vontade é que precisa ser feita de forma adequada.   

Quem poderia criar tal conscientização?   

Ninguém. A vontade tem que brotar de dentro. O homem, quando toma contato com o trabalho honesto, com a solidariedade e com a justiça, está apto a reflexão e daí então surge  a consciência.   

O estímulo, entretanto, este sim, pode ser criado, pode ser fornecido. É preciso fazer chegar a cada homem a mensagem pura e simples da vida com dignidade. Dissociada de lucros imediatos, de índices nervosos do "mercado", de qualquer tipo de segregação, de guerra de anunciantes e todas aquelas coisas fantasiosas.   

A mensagem de vida digna tem que vir através da prática de mudanças. Experimentando mudanças sociais, o homem  recebe no coração a semente e começa então a aprender sobre justiça, direitos e deveres, enfim, sobre cidadania.   

Lembram-se do lamentável acidente com o Ayrton Senna? O povo chorou, o mundo chorou, o esporte ficou de luto. Era natural e justo. Afinal,  havia desaparecido tragicamente o maior piloto de Fórmula 1 da atualidade. Segundo alguns, o maior piloto do mundo, em todos os tempos.  
   
No Brasil, o povo viveu uma Copa do Mundo às avessas, uma dor continental.    
A mídia,  competente como sempre, viu no episódio uma fonte inesgotável de lucros. Ampliou o sentimento popular e vende até hoje a perda do herói brasileiro. O Brasil perde seu herói.   

Será que Senna reivindicou para si, algum dia, o título de herói ? Até que ponto o comportamento de Senna nas pistas transcendia a vocação esportiva e gratificante do grande atleta profissional, constituindo-se espontaneamente num esforço pelo país. País com o qual, aliás, mantinha relações bastante tímidas. Senna era, na verdade, um  cidadão do mundo.  

Mas, e o Brasil? O Brasil perdeu o seu herói?  

Brecht dizia: "Infelizes os povos que precisam de heróis".   

Não. O Brasil não perdeu o seu herói.  
   
O herói deve surgir de um objetivo. Deve começar com a crença, com a fé. Acreditando. O ideal, nunca o lucro, motiva suas batalhas. Lutará quase sempre lutas desiguais. Mas continuará lutando, continuará acreditando e engajando novos heróis.  
    
Este papel está reservado a nós. Nós somos os heróis do Brasil, nós vamos lutar e nós vamos vencer. Sem dúvida, levará mais que 90 minutos para vencer o analfabetismo, mais que uma prorrogação de 30 minutos será necessária para vencer a fome.  
Certamente não será nos pênaltis que venceremos, a miséria e a doença fabricada.    

A prova é extremamente difícil, o circuito é perigoso, mas com confiança, com informação, e principalmente com a capacidade de não transferirmos à outros a solução dos nossos problemas, de não sermos presa fácil de corruptos heróis salvadores, iremos à luta pensando no coletivo e assim, com certeza, nós subiremos ao podium da esperança.   
Vamos pintar a vida, vamos ocupar este país, cuidar deste país e torná-lo berço da bem-aventurança.  

Desta forma, poderemos então desfraldar as bandeiras da cidadania. Depois, com absoluta confiança e tranqüilidade, sem histerismo, com alegria, apenas, torceremos pelo nosso time.  

E aí, então, aquele "Hino da Vitória", aquele "Tributo a um Campeão" soará muito mais bonito, fará muito mais sentido. 

 

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