.....BRECHT SABIA
 
Sempre que entro naquela sala, leio um poema do Brecht, fotografado, ampliado e pendurado na parede. Nunca vi nada tão atual, nada tão brasileiro.  

Falo do poema "O analfabeto político".  

Segundo Brecht, esse é o pior analfabeto. Na sua ignorância inocente, ele até se orgulha de ser apolítico, como se esse comportamento o tornasse um ser superior, uma espécie de semi-Deus alheio às preocupações "mundanas" do cotidiano.  

Não percebe, coitado, que o desmantelamento da saúde pública, a falência do sistema educacional, as enormes distorções sociais, entre outras desgraças, só se resolvem com soluções políticas. Logo, ser apolítico significa ser também responsável pela alimentação desse estado de coisas.  

Pobre analfabeto político brasileiro! Parece que o poema foi escrito para ti. Parece que Brecht, no início do século, na Alemanha, já tinha pleno conhecimento dos pecados que irias cometer. Mas, quando me vem à lembrança tudo que já fizeste, vejo que conseguiste superar as piores expectativas. Passaste da medida com Maluf, entornaste o caldo com ACM e superaste a ti mesmo com Collor.  

De que substância és formado? De que material és composto? Como foste moldado?  

Tratados de sociologia te explicam, é verdade. Mas desconfio. É pouco. Tuas células se reproduzem segundo a genética perversa dos meios de comunicação e da mídia em geral. Sei que isso pode até te desculpar, mas não te absolve. Sei também que, sendo produto de raízes distintas, estás subdividido em duas categorias: Aqueles que não tiveram a chance de aprender e aqueles cujo conhecimento é embotado pela névoa do preconceito.  

Dos primeiros tenho pena, e penso que, com eles, muito pode ser feito. Afinal, dentro deles existe um terreno fértil a ser cultivado, um espaço enorme a ser preenchido.  

Quanto aos outros, fica difícil definir a palavra capaz de traduzir meu sentimento. Esses analfabetos estão muito próximos, bem mais próximos que os outros. São pessoas que vivem onde eu vivo, compram as mesmas coisas que eu compro, frequentam os mesmos lugares que eu frequento. Elas se misturam comigo no trabalho, no lazer,  na família.  

Não consigo entender toda a lógica que te guia, analfabeto político. Olhas para o mundo buscando vantagem. Como se vantagem fosse uma espécie de fruta colhida em árvores, como se vantagem fosse algo individual, um produto acabado que você acha em supermercados, comprável e só teu. Não percebes que obter vantagem acarreta obrigatoriamente prejuízo para alguém. Não se consegue vantagem sem prejudicar a outros.  

Mas quem seriam esses outros, os grandes prejudicados? Esses miseráveis de quem falam os jornais? Seriam os descamisados, os bóias-frias, os injustiçados socialmente?  

Quanto achas que custa um milionário num país como o nosso? Esses milionários que "vieram do nada" e com muito suor e trabalho aproveitaram a oportunidade que o Brasil, país das oportunidades, lhes deu para rapidamente enriquecerem?  

Com certeza achas que custou muita vontade e determinação. Em alguns casos podes até estar certo. Mas compreendes apenas a menor parcela desse custo. Embevecido e deslumbrado com o belo não enxergas a parcela maior que compõe esse custo. Estão aí, espalhados debaixo das pontes e viadutos, morando em caixas de papelão e bueiros, morrendo de fome nas cidades e nos sertões.  

Infelizmente tu não acreditas no que não sentes. E sentes muito pouco. Para ti essas pessoas simplesmente não existem.  

Tu não consegues conceber a possibilidade de um mundo em que todos tenham os mesmos direitos, as mesmas oportunidades de uma vida digna, as mesmas condições.  

Na tua lógica absurda, quem faria o trabalho secundário, o trabalho plebeu? Quem limparia as ruas? Quem venderia as balas que tu compras na porta do cinema? Teu raciocínio não vai mais longe e, convencido, encerras aí tuas reflexões, confundindo atividade com modo de vida.  

Para ti as coisas são como deveriam ser. Alimentação, saúde e educação, em nível adequado, são coisas acessíveis apenas aos que dispõem de condições econômicas para desfrutá-las. Os outros.....   

Fico então pensando no quanto és frágil e no quanto precisas da pobreza dos outros para te sentires vivo. Na verdade tu não acreditas em ti mesmo. Acreditas apenas naquilo que te diferencia dos outros. Precisas do preconceito, precisas da miséria; caso contrário não te sobra nada. És mais a roupa que vestes do que a alma vestida.  

Tu te satisfazes com muito pouco. Para ti, a vida se resume a investir, especular, trocar, comprar, atualizar, manter-se na linha de frente do consumo em qualquer nível.   

Ironicamente,  não percebes que até teu riso já mudou. Não é mais solto como antes. Hoje teu riso é nervoso, quase histérico, e tua alegria é cada vez mais enjaulada, é cada vez mais eletrônica e impessoal.  

Lembras da última vez que respiraste? Da última vez que pensaste no mundo que te foi dado? Da última vez em que te emocionaste com o sorriso de uma criança?  

Pobre classe média! Muitos homens já perceberam o lento suicídio que tu vens impondo a ti mesma. Muitos poetas já usaram sua arte para alertar sobre tua auto-destruição.  

Mas é bem típico de ti, principalmente em terras tupiniquins, considerar que o mal sempre acontece ao vizinho. Que uma grade aqui, um circuito interno alí ou  um violento segurança armado ao teu redor será capaz de garantir tua segurança e tua superioridade.  

Cega como sempre, não enxergas o que andas fazendo. Não percebes que recebeste um mundo, e que apesar de todas as tuas posses maravilhosas irás embora, e o mundo ficará com a tua marca, com a forma que ajudaste a moldar, e é neste mundo que teus filhos e netos viverão.  

Deixa de ser egoísta. Deixa de lado o narcisismo social que te alimenta. Olhe ao redor e melhora o mundo. Melhora o próximo. Experimenta a sensação não de servir a ti, mas de servir aos outros. Quando decidires, não penses só em ti. Pensas em todos que poderão ser ajudados. Considera tua capacidade de influenciar o mundo não como um poder utilizável apenas para gerar mais poder, mas como instrumento de equilíbrio em todos os sentidos. Essa atitude, se não sabes, é a única coisa que justifica qualquer existência.

 
 

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