| Enquanto
caminhava entre os vestígios do que havia sido um belo bosque,
Mr. Albert, numa típica fraqueza humana, pensava em como o mundo
poderia ser diferente se algumas pessoas, ele por exemplo, fossem dotadas
de certos poderes. Poderes divinos, independentes da ação
de outros elementos, de outras razões.
Ao longo
de sua vida já presenciara inúmeros absurdos que poderiam
ter sidos evitados, se tivesse tais poderes. Se assim fosse, teria certamente
evitado muitos problemas e contribuído para a felicidade e o bem
estar de toda a sociedade. Não tinha consciência ainda, é
bem verdade, que estaria interferindo numa lei natural, divina.
Os casos
se sucediam em sua mente, numa cascata de recordações. Ali
mesmo estava uma amostra: O belo bosque que outrora embelezava a paisagem
tinha sido destruído de forma completamente ilegal. Derrubaram árvores
à beira do passeio público, nas margens do rio e em encostas
íngremes. Exibindo uma licença específica para a exploração
de volumes limitados de determinadas espécies de madeira, extrapolaram
em muito essas especificações e a própria letra da
lei. Sequer registraram a moto-serra utilizada.
Mr. Albert
lembrava da dor que sentiu ao ver os imensos pinheiros e eucaliptos tombarem.
Lutou contra aquele crime. Enquanto estava na região, incomodou
os infratores com denúncias que provocaram várias visitas
da polícia e culminaram com o embargo do corte. Mas foi pouco, e
a única coisa concreta que conseguiu foi a retaliação.
Bastou ter que se retirar por algum tempo, para que cortassem tudo, chegaram
o mais próximo possível da sua porta. Desta vez, nem a queixa
às autoridades funcionou. O caso já tinha sido registrado
pela polícia. O assunto agora era com o órgão ambiental
que por sua vez não tinha recursos materiais e menos ainda vontade
para intervir. E qual foi o resultado de tudo isso?
Onde outrora
passeava-se à sombra de uma magnífica floresta, agora tinha
que se caminhar ao sol. A fauna desaparecera e os rios estavam ameaçados.
Ao olhar
as cercas de arame farpado que infestavam a região desmatada, Mr.
Albert imaginava o que poderia ter feito se possuísse os tais
poderes: "Não pensava em machucar ninguém. Mas iria arrebentar
todos os equipamentos. Por indução eletromagnética
poderia estourar a moto-serra, os motores dos caminhões, as máquinas
da serraria. Iria acabar com tudo, muito antes que acabassem com a floresta".
Quanto mais
pensava nessas coisas mais aumentava o sentimento de impotência,
de limitação, que em maior ou menor grau todo homem carrega.
Por que
tinha que ser assim?
Buscava
ainda uma resposta quando viu a menina. Era um menininha que vinha alegremente
cantando estrada afora.
• Bom
dia princesa!
• Bom
dia Seu Alberto!
• Como
é o seu nome?
• Rosa.
Maria Rosa.
• É
um lindo nome, sabia? Agora o meu nome não é Alberto não.
É Albert. É um nome inglês.
• Ah!
Mas Alberto é mais fácil.
• Quer
dizer então que você já me conhece?
• Ora,
todo mundo por aqui conhece o senhor, Seu Alberto.
Mr. Albert
percebeu logo a espontaneidade e confiança da menina. Ela estava
tranqüila e contente. Completamente diferente de como ele estava se
sentindo.
• Qual
o motivo de tanta alegria?
• Estou
indo colher pêras lá na beira do rio. Eu gosto muito de pêras.
Também gosto muito de olhar o rio.
• E
o senhor? O que está fazendo?
• Ah!
Eu estou tentando passear um pouco, respirar um pouco.
• Mas
quando as pessoas fazem isso elas ficam alegre. E eu acho que o senhor
não está alegre não. Aconteceu alguma coisa?
• Não,
não aconteceu nada, é que.... Bem, deixa prá lá
Maria Rosa você não ia entender.
• Ia
sim Seu Alberto. Todo mundo diz que eu sou muito inteligente.
• Ora,
eu já vi que você é muito inteligente. Mas você
não vai colher pêras?
• Ué!
Não tem problema nenhum! O senhor vai comigo.
• Eu?
Colher pêras na beira do rio?
• E
o que é que tem? O senhor não gosta de pêras? Não
gosta do rio? Não acha bonito ficar olhando aquela água calminha?
• Bem,
gosto, é claro! Gosto de tudo isso. Mas...
• Mas
o quê? O senhor volta e vai comigo colher pêras. Assim nós
vamos conversando. E agora? O que é que eu não ia entender?
• Sabe
o que é. Aqui mesmo onde estamos caminhando havia um lindo bosque.
Veja! Você está vendo os tocos das árvores? Imagine
como isso aqui era lindo. Eu gostava de caminhar entre as árvores.
É por isso que estou triste.
• Não
existem mais árvores para se caminhar entre elas?
• Claro
que existem. Você não está vendo aquela floresta lá
longe?
• Então,
vá até lá e caminhe! E pare de ficar triste quando
passar por aqui.
• Ora,
mas isso não anula a maldade que fizeram por aqui.
• É
verdade, mas também faz o bosque tornar a crescer. Cada vez que
o senhor passa por aqui e fica triste Seu Alberto, o senhor está
ajudando a aumentar a maldade que fizeram.
• Que
estória é essa de ajudar a aumentar a maldade?
• Sabe
Seu Alberto, cada vez que uma coisa ruim é feita a maldade se espalha
pelo espaço. Sempre que alguém lembrar dessa coisa e se deixar
entristecer estará aumentando a maldade que anda espalhada pelo
espaço. Isso, é aumentar a maldade de uma ação.
Mr. Albert
ficou alguns segundos olhando pensativo para Maria Rosa imaginando quem
seria aquele ser que estava ali na sua frente dizendo todas aquelas coisas.
Tão pequena, tão simples e tão penetrante. O que saberia
aquela menininha que ele, com seus cinqüenta e poucos anos, seus cursos
superiores e toda a sua experiência, ainda não soubesse?
• Então
devo ficar alegre ao passar aqui e lembrar como era bonito este lugar?
• É
isso mesmo Seu Alberto! O senhor pode plantar outras árvores, por
exemplo. Assim quando passar por aqui poderá ver as árvores
crescendo e ficar imaginando como tudo será bonito novamente. Vai
se alegrar, não ficará triste nem aumentará a tristeza
do mundo. O senhor sabe que a tristeza do mundo é a soma das tristezas
de cada pessoazinha separada, não sabe?
• Então
as pessoas sofrem com alguma coisa, ficam tristes e estão erradas?
Não consigo entender!
• Olha,
eu vou explicar: Quando acontece alguma coisa ruim a alguém é
claro que esse alguém vai ficar triste. Vai ficar triste e aumentar
a tristeza do mundo. Mas o que esse alguém não deve é
ficar lembrando as coisas ruins que já passaram. E se por acaso
lembrar não deve ficar triste novamente. A tristeza é um
obstáculo para a alegria, vai tomando o lugar da alegria e aí
pode então chegar uma hora em que só se sente tristeza. Deu
para entender?
• Deu,
deu. Mas é difícil....
• Não
é difícil não Seu Alberto. Olha só aquela
flor ali. Ali, bem pertinho daquele tronco cortado que entristece o senhor.
Não é bonita? Quem pode pintar essa cor? Quem pode fabricar
esse cheiro? Ninguém, não é verdade? Mas todos podem
vê-la, se quiserem enxergá-la ao invés do tronco cortado
da antiga floresta.
Mr. Albert
abaixou-se perto da pequena flor, observou sua forma, sua cor, sentiu seu
perfume e começou a entender um pouco Maria Rosa.
Quando chegaram
na beira do rio Maria Rosa falou:
• E as
pêras, como são deliciosas. Pegue aquela ali. Veja, lá
tem outra. Vamos, vamos encher minha cestinha e depois sentar para olhar
o rio.
• Você
gosta mesmo de pêras, hein menina?
• Gosto
muito. O senhor sabia que ninguém consegue fazer o mesmo sabor?
Balas, sorvetes, bolos, essas coisas todas. Ninguém, por mais que
tente, consegue fazer alguma coisa parecida com uma fruta fresquinha, colhida
do pé.
De repente
Mr. Albert percebeu que ao dizer essas palavras Maria Rosa ficou pensativa,
quase triste.
• O quê
foi Maria Rosa. Que aconteceu? Você está meio tristinha e
eu já estava achando que isso era impossível!
• Estava
pensando nas pessoas das cidades. Lá não crescem árvores,
há muito pouco verde, elas não tem chance de colher uma fruta
no pé. Compram aquelas coisas congeladas, totalmente sem gosto ou
o que é pior, com remédio que dizem que é para não
estragar. Eu não consigo entender como pode uma fruta estragar.
• Como
assim?
• A
fruta não estraga Seu Alberto! Fruta é uma coisa que depois
que nasce só pode ser aproveitada. Não tem jeito de estragar.
• Ah!
menina, você é mesmo complicada. Então fruta não
estraga? Mais uma vez, não entendi!
• Bem,
eu explico para o senhor. Olha, ela está madurinha lá na
árvore, não está? O que pode acontecer então?
Alguém colhe e come. Isto é certo e muito bonito. Além
de muito gostoso, é claro! Se ninguém colher virão
os pássaros e a comerão. O que também é certo
e bonito. Se não forem os pássaros os insetos vão
utilizá-la para alimentação e procriação.
Isso é muito certo. E tem mais Seu Alberto. Se a fruta não
for mexida por gente, nem por pássaro, nem por inseto, sabe o que
acontece?
• Aí
ela se estraga!
• Não
senhor! Aí ela vai murchar, vai secar, vai cair no chão e
vai gerar nova árvore. E isso é muito lindo Seu Alberto.
Mr. Albert
ficou novamente espantado com as coisas que a pequena falava. Não
restava nenhuma dúvida que eles olhavam o mundo de maneira completamente
diferente. E ele estava compreendendo que o modo de Maria Rosa enxergar
o mundo era muito mais saudável, trazia alegria, vida, felicidade.
E o que era o mais importante: fé e conhecimento da natureza das
coisas.
• Acho
que você tem razão menina. Mas vamos, o seu cesto está
cheio.
• O
senhor não quer levar umas pêras? Põe nos bolsos do
casaco!
O Mr. Albert
achou boa a idéia e começou a colocar as frutas nos bolsos
do casaco. Foi então que percebeu que um dos bolsos estava descosturado.
• Não
vou poder usar o bolso da direita não. Está furado.
• Pode
sim Seu Alberto. O senhor faz o seguinte: no bolso da esquerda o senhor
coloca as pêras e no bolso da direita, o que está furado,
o senhor vai guardando todas as suas tristezas, todas as coisas que deixam
o senhor triste. Entendeu?
• Entendi
Maria Rosa. Mais uma vez você tem razão.
E sorrindo
o Mr. Albert falou:" venha, vamos olhar o rio".
Caminharam
mais um pouco. Aquele homem de cinqüenta e pouco anos e a menininha
com aparência de onze anos mais ou menos. Encontraram um bom lugar
na margem direita do rio e sentaram. Por algum tempo ficaram observando
o suave deslizar das águas transparentes que acalmava o corpo e
a alma com sua mágica beleza. Maria Rosa foi quem primeiro falou.
• Sabe
Seu Alberto, Esse rio corre para o mar, não importa o quanto longe
ele esteja.
• Claro
que sei Maria Rosa. Todos os rios correm para o mar. Os menores vão
caindo nos maiores até que o mar seja atingido.
• As
pessoas seriam mais felizes se vivessem com a confiança dos rios.
• Espera
aí. Agora eu não entendi mesmo! O que você quer dizer
com isto?
• Não
é verdade que todos estão sempre buscando alguma coisa? Alguma
coisa que lhes dê satisfação, alegria? Pois bem, nesta
busca muitas vezes se tornam impacientes, ansiosos, medrosos e aí
o que acontece? Acabam perdendo o rumo, andando em círculos, quando
não caminham para trás, o que é o pior.
• Está
certo, mas e o rio?
• Ora
Seu Alberto, o rio está aí para ensinar. Qual é o
objetivo dele? É encontrar e se fundir com o mar, o oceano. Não
importa quanto tenha que percorrer nem quanto tempo viajar, o rio não
se desespera, não desiste nem se atrapalha. Vai sempre em frente.
• Mas
com o homem é diferente Maria Rosa. O homem tem que trabalhar, tem
que sustentar a família, tem que resolver seus problemas, tem leis
sociais a observar e cumprir.
• Eu
mesmo tenho muitas coisas importantes a fazer. Olha, eu adorei passear
com você, mas não poderia fazer isso todos os dias. Tenho
que trabalhar. Você compreende, não?
• Ah!
sim Seu Alberto, claro! O senhor não pode passear todos os
dias porque tem que trabalhar. Puxa! Esse seu trabalho deve lhe dar muito
prazer, muita alegria. Como é o seu trabalho? Fala um pouco sobre
o que o senhor faz Seu Alberto. Deve ser maravilhoso.
• Bem,
é muito importante mesmo. Eu sou dono de uma fábrica de roupas.
Tenho muitas responsabilidades com os clientes, com os fornecedores, com
os bancos, empregados e tantas outras coisas. Trabalho muito e não
posso me descuidar.
• Descuidar,
como assim?
• Na
verdade você ainda é muito pequena para entender a maldade
das pessoas. Eu tenho sócios. Essas pessoas estão sempre
esperando uma oportunidade para me enganar, para aumentar seus benefícios
de forma ilícita, prejudicando várias outras pessoas.
• E
por que o senhor não larga os seus sócios?
•
Ora não é tão simples assim! A gente tem um contrato,
a gente precisa um do outro, temos que ir agüentando. Na verdade é
muita preocupação, Muita responsabilidade.
•
Puxa Seu Alberto. O senhor ficou triste novamente! Prá quê
o senhor quer essa fábrica? Com ela o senhor não tem tempo
para passear entre as árvores, colher frutas perto do rio, não
tem tempo de conversar comigo e além do mais essa fábrica
não lhe dá nenhuma satisfação. Pior, ainda
faz o senhor ficar triste.
• O
senhor não precisa dessas preocupações para viver
Seu Alberto. Troque o nada que é sua vida importante com sua fábrica,
seus carros, seus bancos, seus sócios, suas doenças, pelo
tudo, que está na simplicidade de viver aqui, perto da natureza,
perto do senhor, perto de pessoas amigas. Aqui o senhor vai poder reparar
na beleza do azul do céu, vai admirar maravilhado as noites estreladas,
vai sentir o cheiro de mato e, toda vez que quiser, vai poder passear comigo.
Mr. Albert
ficou olhando para Maria Rosa em silêncio, com um olhar um
pouco distante, tomando gradativamente consciência de coisas importantes,
com uma leve sensação de estar nascendo de novo. |