Agamas
Âgamas e Tantras
"A expressão Tantra é um nome genérico para escrituras
pertencentes aos 'Âgama', 'Tantra' e 'Samhitâ' que referem-se a
tratados teológicos discutindo códigos de disciplina e culto
entre as diferentes seitas religiosas e seus pontos de vista
metafísicos e místicos." (History of Sanskrit Literature).
Segundo o Kulârnava Tantra, para cada Yuga (era), foi criado um
tipo particular de escritura:
Krte shrutyukta âcârastretâyâm smrti-sambhavah.
Dvâpare tu purânoktah, kalâvâgamasammatah.
"Se shruti (Vedas) é a escritura para a Satya-Yuga, smrti
para Treta-Yuga, os purânas para Dvâpara-Yuga, os âgamas
(Tantras) são para a presente era ou Kali-Yuga."
(Kulârnava Tantra, em A. Avalon, Shakti and Shakta, p.7)
"Os âgamas, que explicam as regras de conduta de seitas
shivaístas (e shaktas) e se referem a tradições existentes
desde tempos imemoriais, são tidos, senão em sua forma, em seu
conteúdo, como mais antigos que os Vedas.(...)Esses trabalhos
nunca foram realmente integrados aos textos sagrados do
hinduísmo arianizado. Por serem considerados textos para
iniciados, eles nunca foram amplamente divulgados. Muitos ainda
não foram publicados e são mantidos secretos. De qualquer
maneira, sua transmissão oral é a única considerada válida. A
escrita é, em muitos casos, proibida ou, pelo menos, tida como
perigosa, uma vez que certos ensinamentos só devem ser
transmitidos àqueles que são dignos deles. Além disso, a
escrita não serve à transmissão de fórmulas mágicas
(mantras). 'Porém, durante o longo período em que o shivaísmo
esteve banido, os âgamas tiveram de ser transcritos, a fim de
que os shivaístas pudessem ter textos próprios que fossem tão
sagrados quanto os Vedas dos ortodoxos, e pudessem ter regras de
disciplina bem estabelecidas relativas à religião.'
(C. V. Narayana Ayyar, Shaivism in South India, p. 71)."
(Alain Daniélou, Shiva e Dioníso, p.34)
"Nos Vedas (Rigveda X, 71.9, Atharvaveda X, 7.42), o termo
'tantra' parece ser usado para denotar uma máquina de tecelagem,
um tear. O mesmo sentido da palavra pode ser encontrado no
Taittiriya Brahmana (11.5.5.3). A palavra tantraka ocorre no
Ashtadhyayi como um derivado de tantra, e significa um tecido
tirado do tear.
No Shatapatha Brahmana e Tandya Brahmana, 'tantra' denota a parte
principal ou essência de uma coisa. Talvez, nesta época, Tantra
representasse a quintessência dos Shâstras."
(S.C. Banerji, A Brief History of Tantra Literature, p. 1)
"A palavra 'tantra' foi derivada no Kashika-Vrtti (7-2-9) da
raiz 'Tan', 'espalhar, difundir'(...)
De acordo com esta derivação Tantra é aquela escritura cujo
conhecimento é difundido:
tanyate, vistâryate jnãnam anena, iti tantram
O sufixo 'tra' vem da raiz 'salvar'. O conhecimento que é
difundido (tan) e que salva (tra).(...) O Kâmika Âgama da
tradição Shaiva Siddhanta (Tantrântara Patala) diz:
tanoti vipulân ârthân tattvamantra samanvitân
Trânanca kurute yasmât tantram ityabhidhîyate
'É chamado Tantra porque proclama grande conhecimento relativo a
Tattva e Mantra e porque salva (libera o ser humano da
escravidão)'"
(John Woodroffe, Shakti and Shakta, p. 34)
"De acordo com H. P. Shastrî, Tantra significa 'redução'.
Ele tenta reduzir, a algo parecido a fórmulas algébricas, os
mantras que, de outro modo, seriam muito longos. Alguns derivam
Tantra de 'tanu'(corpo), sendo assim chamado pois salva o corpo
através de práticas yóguicas. Outros derivam a palavra da raiz
; 'trai' (salvar) e consideram tantra o shâstra que dá
proteção a seus seguidores. Outra maneira de derivar 'tantra'
é da raiz tantri (explicar) ou tatri (entender). "
(Banerji, idem)
"No Kulârnava Tantra, Shiva diz a Pârvati que não há
diferença entre a filosofia religosa do Tantra e a verdade do
Veda:
tasmâti vedâtmakam shâstram
viddhi kaulâtmakam priye.
('Portanto, Ó querida, saiba que a Escritura que é da natureza
do Veda é da natureza do Tantra')."(Mahadevan, Outlines of
Hinduism, p.180)
"Um Tantra completo geralmente consiste em quatro partes:
conhecimento (jñana), meditação (yoga), ação (kriyâ) e
conduta (charyâ). Embora não seja possível estabelecer uma
linha de demarcação entre Âgama, Tantra e Samhitâ, é comum
referir-se à escritura sagrada dos Shaivas (seguidores de Shiva)
pela expressão Âgama, enquanto Tantra é tido como a escritura
sagrada dos Shaktas (seguidores de Shakti, a Deusa) e Samhitâ
dos Vaishnavas( seguidores). (...) Os tantras vieram substituir
os Vedas quando mais tarde se descobriu que a execução de um
sacrifício de acordo com os ritos védicos era praticamente
impossível devido à sua rígida ortodoxia. Assim os Tantras
prescreviam métodos menos complexos que se adequariam não
somente às classes superiores mas também aos shudras e às
mulheres que não tinham acesso às cerimônias
védicas."(History of Classical Sanskrit literature, p.47)
"O Hinduísmo popular é grandemente influenciado pelos
Tantras. Rituais domésticos e nos templos, jejuns e festivais
seguem principalmente as indicações dadas nas escrituras
tântricas. Enquanto há restrições de casta, etc, em relação
aos ritos védicos, os Tantras não fazem tais reservas. Eles
são abertos a todas as castas e a ambos os sexos. O Gautamîya
Tantra declara:
sarva-varnâdhikârash cha
nârinâm yog ya eva cha
('Todas as castas são aptas; e as mulheres, também, são
competentes.')"
(Mahadevan, Outlines of Hinduism, p.180)
Shâkta Tantra
(T.M.P Mahadevan, Outlines of Hinduism, p. 203-206)
"De todos os cultos tântricos, a tradição dos Shâkta é
a que mais tem sofrido críticas, em razão de um entendimento e
práticas errôneos. Muitos vêem neles somente 'lascívia,
mistério e magia negra, superstições tolas e vulgares'. Mas
estudando-se mais profundamente os Shâkta Tantras com o
propósito de entendê-los, encontra-se muito sentido nos
princípios neles ensinados.
Filosoficamente, o Shâkta-darshana (filosofia, ponto de vista)
é um tipo de não-dualismo. A realidade, de acordo com ele, é
não-dual (advaita); é da natureza da
Existência-Consciência-Beatitude (saccidânanda). É nirguna,
isto é sem atributos, no sentido que não há distinções nela.
Nada é real além dela. Todas as coisas são idênticas a ela. A
realidade não-dual manifesta-se como o mundo de pluralidade
através do poder de mâyâ. Até este ponto, o Advaita do
Shaktismo está em acordo com o de Shankara (Vedanta clássico).
Mas, enquanto para Shankara mâyâ é o princípio de ilusão que
vela o verdadeiro Brahman (Ser Universal) e projeta-se no mundo
irreal, para o Shaktismo, mâyâ é um poder real,
manifestando-se na forma do universo diversificado. A esse
respeito,o ensinamento dos Shâkta é idêntico ao do Shivaísmo
de Kâshmira. Ambos consideram a realidade última como sendo
Shiva-Shakti, Consciência-Poder. Shiva é o princípio estático
da consciência enquanto Shakti é o princípio cinético. Os
Shâkta Tantras representam esta verdade pelo célebre
provérbio, 'Shiva sem Shakti é shava (cadáver)' e pela figura
de cinco cadáveres de Shiva sustentando o trono da Mãe do
Mundo, nas deslumbrantes florestas da Ilha das Pedras Preciosas
(Manidvîpa), cujas areias douradas são banhadas pelo Oceano da
Imortalidade (amrta).
Enquanto Shiva é a fundação básica da criação, Shakti é
seu princípio dinâmico, móvel. Há dois aspectos de Shakti,
vidyâ ou chit-shakti e avidyâ ou mâyâ-shakti. Chit-shakti é
da natureza da Iluminação e Consciência (prakâsha).
Mâyâ-shakti é a mesma consciência que oculta a si mesma e
projeta-se no mundo. É a potência do vir-a-ser, a semente da
evolução (vimarsha). Através de mâyâ, o Um torna-se Muitos,
o Infinito torna-se finito, o Supremo Espírito torna-se o mundo
de Mente, Vida e Matéria. A evolução não afeta, realmente, a
natureza de Shiva, que não é somente da forma do universo
(vishvamaya) mas está além dele (vishvottîrna).
Em um mundo dominado por conceitos masculinos e com tendências
profanas, a ênfase da filosofia Shâkta na maternidade de Deus
é fascinante. É necessário ressaltar, no entanto, que Shakti
é mulher somente figurativamente e simbólicamente. Shakti é
Deus como o princípio de produtividade; e o Shâkta dá a Ele a
forma feminina para propósitos de culto. Na verdade, segundo sua
filosofia, a realidade última nem é masculina nem feminina. Um
hino dedicado a Shakti o Mahâkâla-samhitâ diz:
'Tu não és nem menina nem donzela nem velha. Na verdade, tu
não és nem feminino nem masculino nem neutro. Tu és
inconcebível, poder imensurável, o Ser de tudo que existe,
livre de toda dualidade, o supremo Brahman, acessível somente
pela Iluminação'.
Dhyâna de Brahman
"No lótus de meu coração, eu contemplo a Divina
Inteligência,o Brahman sem distinções e diferença, que pode
ser conhecido através de Hari, Hara e Vidhi (Brahmâ), a quem os
yogîs se aproximam em meditação. Ele que destrói o medo do
nascimento e da morte, que é Existência (Sat), Inteligência
(Chit), a Raiz de todos os três mundos."
(Mahanirvana Tantra, cap.II, 50)
Dhyâna de Shiva
Em um estado tranquilo, possuindo o resplendor de dez
milhões de Luas; vestido com peles de tigre; usando o fio
sagrado feito com uma serpente; Todo o seu corpo é coberto com
cinzas; usa serpentes como ornamentos; Suas cinco faces são das
cores vermelho-escuro, amarelo, rosa, branco e vermelho, com
três olhos cada; Sua cabeça é coberta com cabelo emaranhado;
Ele é Onipresente; Sustêm Gangâ (o rio Ganges) em sua cabeça,
e tem dez braços; em Sua fronte brilha a Lua crescente; Em Sua
mão esquerda, Ele segura o crânio, o fogo, o laço, o Pinâka
(arma) e o machado, e em Sua mão direita, o tridente, o raio
(vajra), a flecha e as bençãos; Ele está sendo louvado por
todos os Deuses e os grandes Sábios; Seus olhos estão
semi-abertos pelo excesso de êxtase; Seu corpo é branco como a
neve, a flor Kunda e a Lua; Ele está sentado em um Touro; Noite
e dia, ele é rodeado em ambos os lados pelos Siddhas (libertos),
Gandharvas (músicos celestes) e Apsarâs (ninfas celestes), que
cantam hinos em Seu louvor; Ele é esposo de Ûma; o dedicado
Protetor de Seus devotos.
(Mahanirvana Tantra, cap.14, 32-38)
Dhyâna da deusa Târâ
"Firme, com o pé esquerdo à frente e sobre um
cadáver, ela gargalha. Transcendentes, suas mãos seguram uma
espada, um lótus azul, uma adaga e uma tigela de esmolar. Ela
solta seu grito de guerra: Hûm! Seu cabelo escuro trançado
está preso por serpentes azuis venenosas. É assim que a
apavorante Târâ destrói a inconsciência nos três mundos e os
leva em sua cabeça para outra guarda."
(Târâ-Tantra, em Louis Renou, Hinduísmo, p.129-130)
Gautamîya Tantra
Pûjâ (oferenda) interior
"A maneira que o culto exterior é convertido em interior é
descrita no Gautamîya Tantra. Depois de invocar a imagem da
Deusa no lótus do coração, deve-se 'oferecer o coração como
o assento de lótus da Devatâ (Divindade); oferecer o néctar
divino do lótus (chakra) Sahasrâra (topo da cabeça) como a
água que lava Seus pés. Oferecer éter (espaço) como Suas
roupas, o princípio do olfato como perfume, a mente como flor,
as energias vitais do corpo como incenso, o princípio da luz
como luminária. Oferecer a Ela o oceano de néctar como
alimento, o inaudível som do coração como sino, o princípio
do ar como leque e abanador; oferecer a atividade dos sentidos e
as agitações da mente como dança. Para perceber o pensamento
divino, oferecer estas dez diferentes flores (do espírito):
liberdade da ilusão, do egoísmo, do apego, liberdade da
insensibilidade, do orgulho, da arrogância, da hostilidade, da
perturbação, da inveja e da voracidade. A suprema flor da
inofensividade, a flor do controle dos sentidos, da piedade, do
perdão e do Conhecimento.' Estes são os quinze sentimentos
interiores oferecidos no pûjâ."
(Philip Rawson, The Art of Tantra, p.50)
Vijñanabhairava
(versos 14-17)
traduzido por Jaideva Singh
"Onde quer que a mente vá, seja em direção ao exterior ou
em direção ao interior, em todo lugar há o estado de Shiva.
Uma vez que Shiva é onipresente, onde pode a mente ir (para
evitá-lo)?"
Bhairava descreve o aspecto transcendente (nishkala) do Supremo:
"Parâvasthâ (o estado supremo) de Bhairava é livre
(unmukta) de todas as noções a respeito de direção (dik),
tempo (kâla), nem pode ser particularizado (avisheshini) por
algum espaço definido (desha) ou designação (uddesha). Na
verdade (paramârthatah) ele não pode nem ser indicado
(vyapadeshtum ashakyâ) nem descrito em palavras (akathyâ).14
Pode-se tornar consciente dele apenas quando se está
completamente livre de todas construções-pensamentos
(vikalponmukta-gocharâ). Pode-se ter uma experiência dessa
beatitude em seu próprio
eu interno ( quando se está completamente livre do ego, e
estabelecido em pûrnâhantâ, na plenitude da consciência do
Ser).
O estado de Bhairava que é repleto de beatitude (vinda) da
não-diferença em relação ao universo (bharitâkâra) é
Bhairavî ou Shakti of Bhairava.15
Na verdade, esse estado de Bhairava deve ser conhecido como Sua
natureza essencial, imaculada (vimalam) e presente em todo o
universo (vishvapûranam). Este sendo o estado da Realidade
Suprema, quem pode ser o objeto de adoração, quem deve ser
propiciado com a adoração?16
Esse estado nishkala de Bhairava que é celebrado desta forma é
o estado supremo. É chamado Parâ Devî, a deusa suprema, parâ
ou suprema não somente pelo nome, mas por que essa é na verdade
sua forma superior (pararûpena).17"
Vishnu e Shiva são um só
"Mahavishnu e Sadashiva também são um. Como diz o
Sammohana Tantra (Ch. VIII), 'Sem Prakrti o Samsara (mundo) não
pode existir. Sem Purusha o verdadeiro conhecimento não pode ser
alcançado. Portanto ambos devem ser adorados; com Mahakali,
Mahakala.' Alguns, diz o texto, falam de Shiva, alguns de Shakti,
alguns de Narayana (Vishnu). Mas o supremo Narayana (Adinarayana)
é o supremo Shiva (Parashambu), o Nirguna Brahman, puro como
cristal. Os dois aspectos do Supremo refletem um no outro. O
Reflexo (Pratibimba) é Maya de onde nascem os Senhores do Mundo
(Lokapâlas) e os Mundos. A Âdya Lalitâ (Mahashakti) assumiu
uma vez a forma masculina de Krishna e uma outra vez a forma de
Rama. (Ch.IX) Pois todos os aspectos estão em Mahakâlî, una
com Bhairava Mahakala, que é Mahavishnu. 'É somente um tolo',
diz o texto, 'que vê alguma diferença entre Rama e
Shiva'." (Woodroffe (A.Avalon), Shakti and Shakta, p.36)
Kularnava Tantra
O Kularnava Tantra é grandemente estimado pelos
tântricos da escola Kaula. A palavra Kularnava significa 'oceano
de Kula'. Este Tantra focaliza Urdvhamnaya ou Tradição
Superior, correspondendo a uma das cinco faces de Shiva. (Mike
Magee)
"Neste mundo estão incontáveis massas de seres sofrendo
toda forma de dor. A velhice espreita como uma tigresa. A vida se
esvazia como se fosse a água de um pote quebrado. A doença mata
como os inimigos. A prosperidade é apenas um sonho; a juventude
é como uma flor. A vida é vista e se vai como o relâmpago. O
corpo nada mais é que uma bolha d'água. Como então alguém
pode saber disso e mesmo assim permanecer satisfeito? O Jivatma
passa pelos lakhs de experiência, entretanto somente como ser
humano ele pode obter a verdade. É com grande dificuldade que se
nasce ser humano. Portanto, é um suicida aquele que, tendo
obtido um excelente nascimento, não sabe o que é para seu bem.
Há alguns que tendo bebido o vinho da ilusão estão perdidos em
buscas terrenas, não percebem o vôo do tempo e não são
comovidos pela visão do sofrimento. Há outros que caíram no
poço profundo das Seis Filosofias - adversários fúteis
lançados ao deslumbrante oceano dos Vedas e Shastras. Eles
estudam dia e noite e aprendem palavras. Alguns ainda, fascinados
pelo conceito, falam do pensamento Umani de forma nenhuma
percebendo-o. Meras palavras e conversa não podem dispersar a
ilusão do errante. A escuridão não é dispersada pela menção
da palavra 'candeeiro' . O que há então há fazer? Os Shastras
(escrituras) são muitos, a vida é curta e há milhões de
obstáculos. Portanto, que a essência deles seja compreendida,
assim como o Hamsa (o cisne divino) separa o leite da água com a
qual estava misturado." (Kularnava Tantra, cap I, cit Shakti
and Shakta, p.293)
"Como Vishnu entre os deuses, como o sol entre as luzes
celestes, como Kashi entre os lugares sagrados de banho, como a
pedra filosofal em relação ao ouro e assim por diante, assim
como o Meru está para as montanhas, assim como o sândalo está
para as árvores, assim como Ashvamedha está para os
sacrifícios. Como um diamante está para um seixo, assim como a
doçura está para outros sabores, assim como o ouro entre os
metais, assim como a vaca está para os quadrúpedes, assim como
o cisne está para os pássaros, assim como o estado de sadhu
está para diferentes ashramas, assim como um brahmin está para
(outros) varnas, assim como um rei está para o homem, assim como
a cabeça está para os membros, assim como o musk está para as
fragrâncias, assim como Kanchi está para cidades, assim, de
todos os caminhos, o Urdvhamnaya é o melhor."
(Kularnava Tantra, cap 3, trad. Mike Magee)
"Nem a posição de lótus nem o fixar o olhar na ponta do
nariz são Yoga. É a identidade de Jivâtma (o ser individual) e
Paramâtma (o ser supremo) que é Yoga."
"Diz-se que o iogue não pode gozar (do mundo) e quem dele
goza não pode conhecer o Yoga; mas na via dos Kaula existem ao
mesmo tempo, Bhoga (gozo das experiências do mundo) e
Yoga."
No Kularnava Tantra, Shiva se refere de forma precisa ao
verdadeiro espírito do Tantra, esclarecendo os possíveis
desvios que possam surgir em seu nome: "Beber até
intoxicar-se, comer carne e contemplar um rosto formoso, naõ é
o caminho que deves seguir. Muitos pensam erroneamente em nome do
Tantra, enganados e enganando a outros, e atuam equivocando-se,
desviando-se dos preceitos dos Mestres. Se bebendo se alcançasse
a plenitude, todos os bêbados alcançariam a Perfeição. Se
comendo carne se obtivesse o Estado Supremo, os carnívoros de
todas as espécies obteriam os Méritos Sagrados. Se a
Liberação viesse pelo copular, todos os animais se libertaríam
pelo contato com o outro sexo. Não é o caminho do Tantra que
tens que denunciar, mas sim aqueles que não o seguem em seu
verdadeiro espírito".
"Medite no lótus do seu coração que no centro do oceano
de néctar há uma bela ilha. Na floresta de árvores Aeon, há
um bonito dossel feito de nove jóias. Ali, em um trono, em um
assento triangular no centro de um lótus está o Senhor Shiva,
decorado com o sol e a lua e Devi Ambika formando metade de seu
corpo. Bela como dezenas de milhões de deuses do amor, e como um
jovem de dezesseis anos, Ela-Ele sorri. Ela-Ele veste roupas,
ornamentos e guirlandas de flores celestiais e o corpo Dela-Dele
está untado com pasta de sândalo. Ela-Ele tem três olhos e
está sempre em êxtase."
"Aquele que é iludido por Sua Mâyâ, não vê enquanto
vê, não compreende enquanto ouve, e não sabe a verdade
enquanto lê."
Kulachudamani Tantra
No Kulachudamani cap. I, Bhairava (Shiva) pergunta a Devi
a razão pela qual, apesar de seu conhecimento das Kulasundaris,
das doutrinas e Tantras, ele não alcança o êxtase(ananda).
Bhairavi diz que Bhairava é o supremo Kula, mas é por causa da
influência de sua Maya que ele não alcança ananada*. Devi diz
a Shiva:
"Deva, quintessência do êxtase supremo, o Senhor de Kula,
da própria essência do conhecimento do oceano de Kula Tantra,
ocultado pela minha Maya.
Eu sou a Grande Natureza, consciência, êxtase, a
quintessência, exaltada com devoção. Onde Eu estou, não há
Brahma, Hara, Shambhu ou outros devas (deuses), nem há
criação, preservação ou dissolução. Onde Eu estou, não há
apego, felicidade, tristeza, liberação, bondade, fé, ateísmo,
guru ou discípulo. Quando Eu, desejando a criação, cubro a mim
mesma com minha Maya e torno-me tríplice, tornando-me extática
em meu exuberante jogo de amor, Eu sou Vikarini, dando origem às
várias coisas."
"Ó, Ser que tudo sabe, se Eu sou conhecida, que necessidade
há de escrituras reveladas e sadhana (disciplina)? Se Eu não
sou conhecida, qual a utilidade de puja (oferendas) e textos
revelados? Eu sou a essência da criação, manifestada como
mulher, inebriada com desejo sexual, a fim de conhecer-te como
guru, tu com o qual Eu sou uma. Ainda assim, Mahadeva, Minha
verdadeira natureza ainda permanece secreta." (trad. Mike
Magee)
* Banerji, A brief history of the tantric literature, p224
Mahanirvana Tantra
No Mahanirvana Tantra, Sadashiva narra a Devî a essência do
culto à Suprema Prakriti: (Ullâsa IV)
"Ouça, Ó Tu de Sorte e Destino superiores, às razões
pelas quais Tu deves ser cultuada, e como o indivíduo, através
disso, torna-se unido a Brahman. Tu és a única Parâ Prakriti
da Alma Suprema, Brahman, e de Ti nasceu todo o universo - Ó
Shivâ -
do qual tu és a Mãe. Ó Graciosa! o que quer que haja neste
mundo, as coisas com movimento e as coisas sem movimento, de
Mahat (Inteligência) até um átomo, deve sua origem e é
dependente de Ti. Tu és a Origem de todas as manifestações; Tu
és até mesmo o Nosso (Brahmâ, Vishnu, Shiva) lugar de
nascimento; Tu conheces o mundo todo, entretanto ninguém conhece
a Ti.
Tu és Kâlî, Târinî, Durgâ, Shodashî, Bhuvaneshvarî,
Dhûmâvatî. Tu és Bagalâ, Bhairavî, e Chhinnamastakâ. Tu
és Anna-purnâ (a doadora de comida), Vagdevî (a deusa da
linguagem), Kamalâlaya (aquela que vive no lôtus). Tu és a
Imagem ou Personificação de todas as Shaktis e de todos os
Devas. Tu és Sutil e Densa, Manifesta e Velada, Sem Forma e
entretanto com Forma. Quem pode Te compreender? Para a
realização do desejo do cultuador, pelo bem do mundo, e a
destruição dos Dânavas ( classe de Asuras, demônios, filhos
de Danu), Tu assumes várias formas. Tu tens quatro braços, dois
braços, seis braços, e oito braços, e seguras várias armas
para a proteção do Universo.
Tu és a Imagem de tudo, e estando acima de tudo, Tu és a Mãe
de tudo. Se Tu estás satisfeita, Ó Rainha dos Devas! então,
todos estão satisfeitos.
Antes do Começo das coisas Tu existias na forma de Escuridão
que está além da linguagem e da mente, e de Ti, através do
desejo criativo do Supremo Brahman, nasceu o Universo. Este
Universo, a partir do grande princípio Mahat até os elementos
densos (terra, água, fogo, ar e éter), foi criado por Ti, uma
vez que Brahman, Causa de todas as causas, é apenas a Causa
Instrumental. É o Eternamente Existente, Imutável, Onipresente,
Pura Inteligência desapegada de todas as coisas e, no entanto,
envolvendo e existindo em todas as coisas. Ele não atua nem
usufrui. Não se move nem é Imóvel. É a Verdade e
Conhecimento, sem começo ou fim, Inefável e Incompreensível.
Tu, a Suprema Yoginî, movida pelo mero desejo dele, cria,
protege e destrói este mundo com tudo que nele se move e é
imóvel. Mahâkâla, o Destruidor do Universo, é Tua Imagem. Na
Dissolução das coisas, Kâla é quem tudo devorará e por causa
disso Ele é chamado Mahâkâla. Como Tu devoras o próprio
Mahâkâla, Tu és a Suprema e Primordial Kâlikâ.
Como Tu devoras Kâla, Tu és Kâlî, a forma original de todas
as coisas, e como Tu és a Origem e devoras todas as coisas, Tu
és chamada Âdya Kâlî. Retomando, depois da Dissolução, Tua
própria forma, escura e informe, Tu és a Única que permanece,
Inefável e Inconcebível. Embora tendo forma, Tu és sem forma;
embora sem começo, multiforme pelo poder de Mâyâ, Tu és o
Começo de tudo; Tu és Criadora, Protetora e Destruidora. Por
isso, Ó Afável! o mesmo fruto que é obtido através da
iniciação no Brahma-Mantra pode ser obtido através do culto a
Ti."
(Mahanirvana Tantra, cap.IV, p.47-50, trad. Arthur Avalon)
De acordo com o conhecimento humano o mundo parece ser tanto puro
como impuro, mas quando Brahma-jñana (conhecimento divino) foi
adquirido não há distinção entre puro e impuro. Para aquele
que sabe que Brahman está em todas as coisas e é eterno, o que
existe que possa ser impuro? (Mahanirvana Tantra)
"A Verdade é a aparência do Supremo Brahman; A Verdade é
a mais excelente de todas as austeridades (Tapas); cada ato é
enraizado na Verdade. Do que a verdade, não há nada mais
excelente. Portanto, foi dito por Mim que quando a idade do
pecado de Kali for dominante, as maneiras de Kaula devem ser
praticadas verdadeiramente e sem encobrimento."
(Mahanirvanatantra IV, 77-78, trad. A. Avalon)
Nirvana Tantra
"Brahma, Vishnu, Maheshvara [Shiva] e outros deuses nascem
do corpo de Kalika, sem começo e eterna, e no tempo da
dissolução, eles voltam a desaparecer Nela. Ó Devi, por esta
razão, enquanto o ser vivente não conhece a suprema verdade em
relação a Ela...seu desejo por liberação só pode dar origem
a zombaria. Apenas de uma parte de Kalika, a Shakti primordial,
surge Brahma, apenas de uma parte, surge Vishnu e a apenas de uma
parte surge Shiva. Ó Deusa de formosos olhos, assim como rios e
lagos não são capazes de atravessar um vasto mar, Brahma e
outros deuses perdem sua existência separada quando entram no
intransponível e infinito Ser da Grande Kalî. Comparada ao
vasto mar do Ser de Kalî, a existência de Brahma e dos outros
deuses nada é senão um pouco de água contida em um buraco
feito pela pata de uma vaca. Assim como é impossível um buraco
feito pela pata de uma vaca dar uma uma noção das insondáveis
profundezas do mar, também é impossível que Brahma e os outros
deuses tenham algum conhecimento da natureza de Kalî."
Bhairava Yamala
"Ela é a própria luz e transcendente. Emanando de Seu
corpo estão milhares de raios, dois mil, cem mil, dez milhões,
cem milhões; não é possível contar seus grandes números. É
por Ela e através Dela que todas as coisas móveis e imóveis
brilham. É pela luz desta Devî (Deusa) que todas as coisas se
tornam manifestas."