O tempo em Dom Casmurro
MARGARETH MIYAMOTO
Hans Meyerhoff, no seu livro acerca do tempo na literatura[1], começa afirmando que o "tempo, como Kant e outros têm observado, é o modo mais característico de nossa experiência."
Mas, que é o tempo? Para o exame do conto e da novela, não foi preciso colocar a questão, seja porque o tempo ali obedece quase sempre a um esquema único, o cronológico, seja porque o leitor entendia logo de que se tratava, ao menos enquanto dado da experiência. Todavia, a complexidade do assunto é tal quando se refere ao romance, que o problema se põe. E embora permaneça insolúvel, temos de avançar umas reflexões a respeito, caso pretendamos compreender melhor o multímodo universo do romance.
"Santo Agostinho, que foi o primeiro pensador a avançar a genial teoria filosófica baseada inteiramente sobre a experiência momentânea do tempo combinado com categorias psicológicas da memória e da expectação", transformou a questão num dilema célebre: "Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicá-lo a quem me pergunta, eu não sei."[2]
Desde o filósofo cristão até os nossos dias, o tempo constitui um problema sempre aberto. Na verdade para os antigos (gregos), o tempo não tinha grande importância, "é o Cristianismo quem concede tanta importância ao tempo."[3] Quando Bergson, já nos nossos dias, o considera um "dado imediato da consciência",[4] não faz mais que buscar qualificá-lo ao invés de conceituá-lo, mas a afirmação tem feito sua carreira de convencer, informar e orientar.
O presente ensaio suscita mostrar o tempo em Dom Casmurro, pois o romance, mais do que o drama, "é senhor do espaço e do tempo em que a própria vida humana se realiza. É assim que podemos acompanhar Henry Esmond ao longo de toda a sua vida, e observar que Hamlet, poucas horas passará conosco. Em um dia de leitura podemos viver anos e anos de existência das personagens de um romance. Nas poucas horas que dura uma tragédia, pouco mais viveremos que os derradeiros momentos do herói."[5]
O romancista pode acompanhar as personagens desde o nascimento até a morte, detendo-se nos aspectos que julgar relevantes para a história que narra; abranger 8 ou 80 anos da vida de suas personagens, sem outra restrição que a imposta pela coerência interna da obra.
O tempo em literatura, sobretudo na prosa de ficção, tornou-se o tempo - obsessão do século vinte. Embora obsessão dos nossos dias, especialmente depois que Bergson, na filosofia, e Proust, na ficção, lhe conferiram primordial papel, data dos fins do século XIX a consciência de sua importância literária.
Machado de Assis projeta em seus contos e romances essa obsessão pelo tempo, certamente observada e retirada de suas leituras dos romances ingleses, de Flaubert, da Bíblia, e fruto também de suas reflexões pessoais. Depois dele, e passando pelos experimentos de Adelino de Magalhães, é com Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Osman Lins, dentre outros, que o tempo-obsessão se torna presente, simultaneamente com estudos críticos que focalizam o tempo em Machado de Assis ou o problema da memória no regionalismo nordestino.
Machado de Assis ocupa um lugar à parte na evolução da nossa literatura por uma série de razões, dentre as quais a atenção conferida ao tempo como dimensão romanesca. Em seus romances da fase romântica, o tempo da narrativa e das personagens é ainda cronológico, mas há momentos em que podemos observar reflexões que vão nos mostrando um autor interessado no tempo em si, e depois , no tempo como um ingrediente de grande importância no romance. No exemplo a seguir, do romance Helena, da primeira fase machadiana, observamos a intromissão do tempo psicológico, de maneira superficial, mas presente: " O tempo andava com o passo de costume, mas a ansiedade do mancebo afigurava-se mais longo...".[6]
Já em Dom Casmurro, quando a narrativa começa, estamos no presente atual do narrador, presente mais ou menos vago: " Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu".[7] Mas, na verdade, observando melhor, esse presente, já é um presente-passado, ainda que muito próximo, e no decorrer dos capítulos, temos o material que nos levará a entender a obra, e percebemos que esta se trata de uma memória. Ao escrever, o narrador pretende recuperar o tempo perdido, desde a recriação da paisagem física, o lugar onde o narrador viveu, até a atmosfera que havia nessa paisagem. " Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga rua de Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu".[8]
Como visto anteriormente, o narrador tenta recuperar o tempo , mas em seguida nos coloca diante de uma situação, que nos mostra que esse narrador deseja conquistar o impossível, visto que o tempo flui irreversivelmente: " O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência".[9] " Pois, senhor, não consegui recompor nem o que foi nem o que fui."[10] O narrador sente que ele se transformou e por mais que faça para reconstruir o tempo perdido, apenas alcança uma imitação grosseira, porque a peça principal, que é ele, já não é a mesma. E não é a mesma porque o tempo fluiu e tudo alterou, irrecuperavelmente.
Assim, observo que, podemos reaver marcas externas do tempo (a casa, por exemplo), mas as psicológicas, que estão condicionadas a uma metamorfose perpétua, são absolutamente irrecuperáveis e independentes das horas do relógio. O tempo de Bentinho é o interior, o tempo da duração emocional, e por isso diz: " uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim".[11] Esse pensamento de Bento Santiago, me remete aos estudos de irreversibilidade da física e da matemática, pois "apesar de nosso senso comum ser ciente de que o tempo só passa em um sentido, não "voltando atrás", "levando-nos" sempre para o futuro, durante muito tempo a atividade científica adotou sistematicamente um tempo simétrico, simplificadamente simbolizado com uma variável t, que pode ser substituída por -t sem alterar os processos descritos pelas equações que dela dependem"[12]. Admitir o tempo negativo é admitir a volta ao passado, mas ao observamos Bento Santiago, notamos que essa visão de tempo negativo é incoerente, e reconhecemos a necessidade de trabalhar o conceito de irreversibilidade, associado ao fluir do tempo de maneira assimétrica, ou seja, "na natureza os processos ocorrem levando irreversivelmente à produção de calor e se um sistema é abandonado naturalmente à sua história, ele não consegue devolver toda a energia menos degradada que gerou esse calor: ocorrem perdas, algo é perdido".[13]
Essa lei da física, mostra exatamente o que ocorreu com Bentinho, algo ficou perdido, a energia que gerou o calor de sua história se perdeu no tempo e apenas pelo mergulho na memória é que, Bentinho pode voltar ao passado e para uma vida que jamais teve, porque a vida relembrada é outra, diferente da vida vivida; o que ele na verdade recupera é o sentimento impresso em seu subconsciente por toda a sua vida pregressa, e não os fatos. Esses, como sempre, pouco ou nada lhe importarão, mesmo porque não se pode ter muita certeza deles, os acontecimentos desaparecem, e só fica sua ressonância na memória. Michel de Mountaigne por exemplo, dialoga com os seus próprios escritos para compensar as falhas de memória que o tempo criou: "Para compensar um pouco as traições e as falhas da minha memória (tão má que já mais de uma vez me sucedeu tomar em mãos, como se fossem para mim novos e desconhecidos, livros que, alguns anos antes, eu lera cuidadosamente e garatujara com notas)" (...). Ele necessita “conversar” com suas anotações novamente, para compreender e reviver o que sentira no passado."[14] Assim, vemos que, não se recupera o tempo, mas a sua impressão na memória, embora deformada. O narrador só possui como certeza de sua vida pregressa, as imagens guardadas em sua memória.
A partir do terceiro capítulo de Dom Casmurro, o narrador nos dá a impressão de que vai nos contar a sua história, mas não o faz linearmente. Quando atentamos para o plano interno da narrativa, percebemos que a progressão se opera em onda e não em linha, em quadro justapostos, mas não encadeados. Sendo baseada na memória, a fabulação se constrói por acúmulo de cenas mais ou menos desordenadas, em que o antes e o depois dizem mais respeito à ordem de colocação dentro do romance que à ordem temporal dos acontecimentos. Por isso, toda ação é apresentada como se estivesse acontecendo, e não como tendo acontecido.
No romance temos a ilusão de que os fatos se passam à medida que a leitura progride, nesse caso, o emprego do pretérito não tem maior significado, uma vez que o leitor acede à presentividade dos acontecimentos e esquece o tempo verbal escolhido pelo ficcionista para refletir. Veja o exemplo: " Parei na varanda; ia tonto, atordoado, as pernas bambas, o coração parecendo querer sair-me pela boca fora. Não me atrevia a descer à chácara, e passar ao quintal vizinho. Comecei a andar de um lado para outro, (...)".[15]
Rememorando por ondas e por associacionismos múltiplo e dinâmico, o narrador se afasta insensivelmente do fio das coisas que pretende relatar e deriva para acontecimentos colaterais, ligados ou não às reminicências centrais. Assim se explica que sejam momentos, e não uma continuidade o que a memória capta, e estejam entelaçados por motivos superiores à vontade de quem lembra e conta, em obediência a uma espécie de lógica pré-psicológica: não é tudo que a memória traz à superfície, ao contrário, ela seleciona, separa, distingue e até classifica, como para buscar uma espécie de ordem sem a qual seria o caos, a anarquia; anarquia essa , evidente na linguagem automática dos surrealistas.
A cada lance do romance, temos a sensação de que o narrador vai realmente contar a história, ai então nos deparamos com mais uma lembrança. Esse processo de iamgem-puxa-imagem, lembrança-puxa-lembrança, prossegue até o final da narrativa, e o tempo é o psicológico, e as digressões são contínuas. O narrador remonta até o ano de 1857, mas não nos diz a partir de quando, até que no capítulo XXXVIII, nos dá um informe preciso: quarenta anos. Um tempo tão longo, mas que, entretanto, não é marcado por peripécias, episódios ou equivalentes, mas por situações, atmosferas, lembranças de sentimentos, e tudo confluindo para explicar o destino casmurro do protagonista-narrador. E de todas as situações remotas, o narrador recorda-se de duas, ou seja, de sua relação com Capitu e de sua ida para o seminário, pois delas nasceram todas as alegrias e todo o infortúnio que experimentou na vida. Por isso, trata-se de um romance de memórias, com a aplicação exata dessa faculdade, oposto ao romance histórico, que se atém à cronologia linear do relógio e à verdade indiscutível dos documentos.
Em Dom Casmurro, a cronologia flutua, porque obedece ao ritmo emocional do narrador, e sendo imprecisa a notação temporal, tudo que lhe está intimamente relacionado ( o caráter das personagens, a certeza das reações, etc) também acaba caindo no vago e no incerto.
Quanto tempo passou no âmbito da história narrada em Dom Casmurro? Não sabemos com certeza. É que o tempo, sobretudo o tempo psicológico, havia passado irreversivelmente por Bentinho. O sentimento do tempo guarda ainda um apelo à memória, visto tratar-se de um passado que se reconstrói, e de um presente que se esvai enquanto vivido. O recurso de tempo e da memória é utilizado em Dom Casmurro para compor o cenário e a trama, de forma a criar uma voz unilateral, a do narrador Bento Santiago, gerando assim a dificuldade para um julgamento crítico, e dessa forma a eterna dúvida do enigma do adultério.
Notas
[1] Hans Meyerhoff, Time in Literature, Berkeley and Los Angeles, University of California Press, 1960, p.1
[2] Idem, ibidem, pp.6 e 8.
[3] Jean Wahl, Introducción a la Filosofia, Tradução Mexicana, México, Fondo de Cultura Econômica, 1957, pp. 14 e 15.
[4] Henri Bergson, Matéria e Memória, São Paulo, Martins Fontes, 1999
[5] João Gaspar Simões, Ensaio sobre a criação do romance, Porto, Ed. Educação Nacional, 1944, p.14.
[6] Machado de Assis, Helena, São Paulo, Cultrix, 1960, p.65.
[7] Machado de Assis, Dom Casmurro, Obra Completa, Rio de Janeiro, Nova Aguilar , 2004, p.809
[8] Idem, ibidem, p.809
[9] Idem, ibidem, p.810
[10] Idem, ibidem, p.810
[11] Idem, ibidem, p.810
[12] Jorge de Albuquerque Vieira - "Tempo em Transformação"- Encontro da associação de Pesquisadores em Artes Plásticas, p.2
[13] Idem, ibidem, p.2
[14] Michel deMontaigne - Ensaios - Antologia. Introdução, tradução e notas: Rui Bertrand Romão. Clássicos, Lisboa, Relógio D´ Água, 1998.