A POÉTICA DO PREFÁCIO
A Paulicéia Desvairada, de Mário de Andrade, 1922, abre-se com um "Prefácio Interessantíssimo", retirado aqui para análise do livro Mário de Andrade - Poesias Completas, edição crítica de Diléa Zanotto Manfio, em que o poeta declara ter fundado o desvairismo e dá um tom de que tudo será interessante, porém inútil.
Inicia tecendo comentários a respeito do porquê dessa inutilidade. No trecho a seguir, observe leitor que Mário é sagaz, ousado, e faz uma crítica a seus opositores, esclarecendo que a inutilidade dar-se-á, pois quem gosta de sua escritura a aceitará de qualquer maneira, mas os opositores não terão a necessidade de ler o livro, pois não o aceitarão. “(…) Alguns dados. Nem todos. Sem conclusões. Para quem me aceita são inúteis ambos. Os curiosos terão prazer em descobrir minhas conclusões, confrontando obra e dados. Para quem me rejeita, trabalho perdido explicar o que, antes de ler, já não aceitou”.(p.59).
Roland Barthes em O Prazer do Texto (2002, p 11), diz que o texto deve dar provas de que deseja o leitor, e que o prazer da leitura vem evidentemente de certas rupturas (ou de certas colisões). Acredito que Mário de Andrade tivesse concepções parecidas com as de Barthes, no sentido de romper com a estrutura vigente ao falar em inutilidade da obra, pois rompe com o pomposo, com os alexandrinos, com as estruturas pré-estabelecidas e introduz uma linguagem absolutamente diferente para a poesia e prosa vigentes na época, o que cria um desajuste para críticos, poetas e literários desse período, que poderiam ver a obra como algo inútil.
O movimento modernista para muitos parecia uma afronta, algo escandaloso, mas na verdade era uma ruptura, um abandono de princípios e de técnicas pré-existentes, o que nos faz retornar à fala de Barthes, que defende a idéia de romper ou chocar, para criar prazer na leitura.
Observando-se o movimento por esse ângulo, chega-se à conclusão de que Mário não poderia mesmo preocupar-se com seus opositores, pois aqueles que o repudiavam, de fato não achariam graça na sua escritura em Paulicéia Desvairada, muito pelo contrário, iriam estranhar as mudanças na forma de poetar, e com certeza criticá-la de forma feroz, pois o ser humano tem o mau hábito de criticar, de dizer que é muito ruim tudo o que não aprecia.
Há uma fábula de Fedro que pode ser usada como ilustração, "O galo e a pérola", em que o galo mais guloso do galinheiro procurava comida, mas estava sem sorte, pois os pintinhos haviam comido todos os grãos de milho. E, ao encontrar uma linda e valiosa pérola coberta de terra, disse: "É mesmo uma pena. Nem você serve para mim, nem eu sirvo para você". Muitos galos eram opositores de Mário e, sem o saber, desprezaram uma obra valiosa que estava à frente de seus olhos. Tem razão Mário ao criticá-los. Ele sim conhecia o valor de sua obra e os motivos que impunham a criação de um espírito novo e exigiam a mudança, a remodelação da inteligência nacional.
Esse tipo de prefácio faz lembrar os prefácios de Álvares de Azevedo, pois trazem à tona a consciência do poeta. O poeta modernista, no início do prefácio, escreve de Mário para Mário, num trecho no qual demonstra um certo sarcasmo: "Mestre querido (...)", fazendo para ele mesmo uma confissão sobre seus sentimentos, uma carta para ele próprio. Trava-se uma discussão entre um Mário discípulo (jovem) e o Mário mestre (mais velho), na qual ele é poeta, mas também é crítico, não só dos outros, mas de si mesmo, mostrando sua consciência crítica, "Mas não sei, mestre, se me perdoareis a distância mediada entre esses poemas e vossas altíssimas lições (...)" (p. 58). Aqui Mário mostra que não se deve julgar um texto segundo o prazer e simplesmente dizer: esse é bom, aquele é ruim, mas é preciso possuir uma consciência crítica, um objetivo tácito, um uso social, é necessário pensar na fruição do texto: "Nas muitas horas breves que me fizestes ganhar a vosso lado, dizíeis da vossa confiança pela arte livre e sincera..." Então, como deve ser lido esse texto?
O "Prefácio Interessantíssimo” de Mário de Andrade traz a possibilidade de várias leituras e discussões. É um texto que foge do padrão comum de organização. Mário de Andrade deixa espaços entre suas falas, como se faz em poesia, e esses espaços mostram a questão da fragmentação do texto. O leitor tem de ligar os pedaços. Mário vai “ambigüizando” o texto e, num determinado momento, transfere-se à descrição dos processos de estilo, que conferem à obra a medida da sua modernidade e diz: "Um pouco de teoria? Acredito que o lirismo, nascido no subconsciente, acrisolado num pensamento claro ou confuso, cria frases que são versos inteiros, sem prejuízo de medir tantas sílabas, com acentuação determinada. Entroncamento é sueto para os condenados da prisão alexandrina." (p. 63). E como ele mostra essa teoria no texto?
Quando Mário de Andrade diz na página 68, "Sei construir teorias engenhosas. Quer ver? A poética está muito mais atrasada que a música. (...)" A partir daqui, ele começa a demonstrar a teoria da sua poesia e o aspecto analógico criado pela música, à qual tinha um intenso amor, que o acompanharia até a morte e que o ajudaria a organizar idéias sobre dois sistemas de compor: o melódico e o harmônico. Assim, em Paulicéia Desvairada, usa-se o verso melódico: "São Paulo é um palco de bailados russos", o verso harmônico: "a cainçalha... a bolsa... As jogatinas..."; e a polifonia poética, muito bem explicada em A escrava que não é Isaura, na qual Mário diz: "Polifonia é a união artística simultânea de duas ou mais melodias cujos efeitos passageiros de embates de sons concorrem para um efeito total final. ‘A engrenagem trépida... A bruma neva.’” Temos aqui, colocados em termos de teoria musical, os princípios de colagem (ou montagem) que caracterizavam a pintura de vanguarda da época.
A poesia da Paulicéia assumiu o papel de primeiro desvio sistemático dos velhos códigos literários em uso no Brasil de 1920. A nova situação afetava as relações humanas, os costumes e, sobretudo, a linguagem da época.
A poética do "Prefácio" foi aprofundada por Mário de Andrade em A escrava que não é Isaura, discurso sobre algumas tendências da poesia modernista, de 1924. Aí se lê a fórmula a que chegara o seu pensamento: Lirismo puro + Crítica + Palavra = Poesia, ou seja, ao que é retirado do subconsciente deve seguir-se a ação da inteligência e do meio expressivo. Com esse pensamento, Mário mostra a sua teoria forte, expressiva e cheia de convicção.
Na página 72, Mário começa a concluir seu prefácio e retoma os temas desenvolvidos durante o texto todo, fala novamente do lirismo, da linguagem etc. Ele fala de seu trabalho com um certo entusiasmo, mas também com a certeza de que talvez o livro não atinja a todos, por exemplo: "Quando uma das poesias deste livro foi publicada, muita gente me disse: ‘Não entendi’. Pessoas houve que confessaram: ‘Entendi, mas não senti’. Os meus amigos percebi mais duma vez que sentiam, mas não entendiam. Evidentemente meu livro é bom". Tenho a certeza de que nenhuma obra literária consegue atingir a todos. Seria impossível que uma criação poética pudesse alcançar, digamos metonimicamente, todos os corações. Isto não seria possível, mesmo porque as individualidades são lideradas por gostos e sabores diferenciados. Imaginem quantas pessoas apreciam o amarelo ou o belo azul, no mundo. Muita gente? Creio que não. Acho que podemos aprimorar um olhar crítico para a obra de arte e tentarmos separar o excelente do ótimo, do bom, ou do ruim. Esse crivo para perceber a obra de arte e especialmente a obra literária é algo que, penso, pode-se conquistar, mas para isso é necessário que se leia a obra muito atentamente, em todos os seus detalhes, que se consiga olhá-la de dentro para fora e não somente de forma superficial.
O "Prefácio Interessantíssimo" é uma fonte para repensarmos os conceitos teóricos de poesia e reorganizamos nossas idéias sobre a obra modernista. Para mim, esse prefácio foi um marco na descoberta do Modernismo brasileiro. Por intermédio dele, descobri um grupo cujas obras desconhecia o real valor. A partir daí, reli: Macunaíma, poesias de Mário e Oswald de Andrade, Amar, Verbo Intransitivo etc. e o fiz com consciência crítica, extraindo de cada obra e de cada poema a sua elegância e grandiosidade. Espero que no futuro o povo brasileiro possa ter acesso a esse aspecto da cultura mais facilmente do que nos dias de hoje, e que possa obter a chance de observar as transformações artísticas sem assombro, sem medo, mas com olhos de lince, fugazes, perspicazes e felizes.
MARGARETH
RAMOS TEIXEIRA MIYAMOTO
PROFESSORA DE LÍNGUA INGLESA, LITERATURA INGLESA E NORTE AMERICANA
COLÉGIO E FACULDADES ANCHIETA
ESCOLA DE ED. BÁSICA LICEU DI THIENE
FATEC MAUÁ
MESTRANDA EM LITERATURA E CRÍTICA LITERÁRIA