O fantástico em  Mário de Carvalho”

 

Por : Margareth Miyamoto

            O estudo de uma obra a partir da perspectiva do fantástico pressupõe o estudo do conceito de fantástico e suas delimitações. Na literatura, o fantástico se desenvolve a partir de um certo abandono da racionalidade que por muito tempo imperou com o propósito de explicar o mundo e o indivíduo. O imaginário entra na literatura como uma nova possibilidade de abordagem de elementos inquietantes e inexplicáveis da realidade. De maneira geral, a primeira idéia que se estabelece com relação ao conceito de fantástico é que ele se define em relação aos conceitos de real e de imaginário.

Desde o século XIX, foram muitas as definições formuladas, e é possível citar como exemplo alguns trechos de textos recentes extraídos da obra Le Conte Fantastique en France de Castex (1951): "O fantástico se caracteriza por uma intromissão brutal do mistério no quadro da vida real" ou "a narrativa fantástica gosta de nos apresentar, habitando o mundo real em que nos achamos, homens como nós, colocados subitamente em presença do inexplicável". Rogger Caillois em Au Coeur do fantastique (1965), diz: "Todo fantástico é ruptura da ordem estabelecida, irrupção do inadmissível no seio da inalterável legalidade cotidiana". Dentre tantas definições existentes a esse respeito podemos observar a recorrente citação de elementos como o "mistério", o "inexplicável", o "inadmissível" que se introduz na "vida real", ou no "mundo real", ou ainda na "inalterável legalidade cotidiana". Sendo assim, é possível formular a idéia de que o fantástico se estabelece quando, em uma narrativa, se dá um acontecimento inusitado que aparentemente não pode ser explicado pelas leis naturais, mas, no entanto, não deixa descartada totalmente essa possibilidade.

 

            Para Todorov (2003), o fantástico na literatura implica em uma hesitação do leitor frente a um acontecimento estranho à ordem natural da narrativa, fazendo com que ele duvide da veracidade do fato ou então procure uma explicação lógica que, pode ou não ser dada pelo narrador.  Em “A Ira de Deus”, de Mário de Carvalho (1992), o narrador-personagem depara-se logo pela manhã com um animal sapudo, grotesco, em seu banheiro, o que já cria no leitor uma hesitação, pois se pensarmos que o mundo das personagens é um mundo de criaturas vivas, hesitaremos entre uma explicação natural e uma explicação sobrenatural dos acontecimentos evocados.

            Vale lembrar que, o termo fantástico nos remete à fantasia, o que é criado pela imaginação, o que não existe na realidade, o imaginário, o fabuloso. Aplica-se muito bem à literatura, cujo universo é sempre ficcional por excelência, por mais que se queira aproximá-lo do real.

            Em seguida o narrador vai ao seu quarto para vestir-se, e diz: “Ao vestir-me, no quarto, dei por que um falcão pousava sobre a arca perto da minha gravata, muito quieto.”(...)(pg40). Desta forma, o fantástico centra-se, principalmente, na hesitação experimentada pelo leitor/ pela personagem frente a um acontecimento que rompe com o padrão natural esperado na realidade – digamos, é uma interferência de um fato que, em um primeiro momento, não se explica pela razão, mas, pelo contrário, causa um desequilíbrio na ordem natural das coisas. Observemos, que um falcão no quarto não é um fato normal de acontecer no dia-a-dia, assim temos duas soluções para o caso: aceitá-lo como um acontecimento sobrenatural, ou considerá-lo como verídico, o que o torna parte integrante da realidade, e nesse caso a realidade é regida por leis por nós desconhecidas.

            Borges (1975) diz, que no “afã de criar uma arte ilusionista (representativa, mimética), os autores se entregam às múltiplas possibilidades de combinação de ações e aos detalhes que lhes oferece a realidade”.    

            Para Platão (1993), o artista toma como modelo as formas segundas (que são reproduções das formas primeiras do mundo inteligível, o das idéias), operando, pois num terceiro grau de mimese, de criação. Ele imita, pois um simulacro, já que apenas conhece a aparência das coisas. Este fato distingue o poeta do filósofo, cujo principal objetivo é ascender às idéias, chegar próximo à verdade. Por esse motivo Platão condenou os poetas fantasistas, não lhes reservando um lugar de prestígio na sua república ideal.                                                                         

            Os contos de Mário de Carvalho trazem acontecimentos aparentemente sobrenaturais, como: um avião da Scandinavian Airways que foi metralhado, uma casa que desaparece, conversa de anjos num bar, tudo nos mostrando a interferência do sobrenatural na narrativa, nos levando a um completo estranhamento das ocorrências no texto. Há várias formas de se observar o fantástico na narrativa, como por exemplo:

1.      o estranho puro – encontrado nas obras nas quais são relatados acontecimentos que podem perfeitamente ser explicados pelas leis da razão, mas que se caracterizam pelo seu caráter extraordinário e singular”. Ao observarmos o conto “IgnotusDeus”, percebemos algo de estranho no conto, frades que passam por uma epidemia, gente morrendo, e um único frade , que resta daquela destruição nos relata a presença em sua igreja de figuras estranhas, pessoas com escamas, peles rugosas, com muitos membros ou sem eles, o outro frade que desaparece em um vôo. Toda essa descrição nos mostra a presença de alguma coisa estranha, mas explicável, uma vez que, esse frade poderá sofrer de uma febre que o condenará à morte, e estar nesse momento tendo alucinações. Há um caráter extraordinário na situação, porém tudo pode ser explicado pelas leis da razão.

2.      o fantástico estranho – que se caracteriza pelo insólito: são fatos aparentemente sobrenaturais que percorrem toda a história narrada e que recebem, ao final, uma explicação racional. É o caso do conto “ A inaudita guerra da Avenida Gago Coutinho”. Deuses, mouros, policiais, blindados, cavalos, árabes, piquete da companhia telefônica,  presente e  passado nos conduz  ao insólito, que  apresentado nesse conto, nos leva a pensar num fantástico estranhíssimo, que entretanto, pode ser explicado se considerarmos que tudo isso não passou de um sonho.

3.      o maravilhoso puro – no caso do maravilhoso, os elementos sobrenaturais não provocam qualquer reação particular nem nas personagens, nem no leitor implícito. O maravilhoso implica que estejamos mergulhados num mundo de leis totalmente diferentes das que existem no nosso, portanto, os acontecimentos sobrenaturais que se produzem não são absolutamente inquietantes.” É o caso dos contos de fadas. Alice no País das Maravilhas (1998), nos mostra o maravilhoso puro, pois tudo naquele país é anormal, coelhos falantes, cartas que têm o poder, maçanetas falantes, um líquido capaz de reduzir o tamanho natural de um ser humano, gatos risonhos, chapeleiro, lebre, Dom Ratinho, etc. Todos esses fatos não chamam a atenção da pequena Alice, ela passa a fazer parte daquele mundo como se tudo ali fosse natural.

                        No caso do conto “Dies Irae”, verificamos como visto anteriormente, que é um caso de fantástico-maravilhoso, pois o conto é permeado por fatos aparentemente sobrenaturais que percorrem toda a história narrada e que, terminam por uma aceitação do sobrenatural.” In Excelsum”, o primeiro conto do livro, o sobrenatural também se evidencia, bem como nos outros contos, e até a empresa na qual o escriturário trabalhava chamava-se “Rainbow and Sunshine”, e de quem era a voz ao final, seria “Deus, um anjo, apenas um sonho, a voz de um colega de trabalho...”? A partir dessas indagações, voltamos a uma observação de Coleridge: “Se um homem atravessasse o Paraíso em um sonho, e lhe dessem uma flor como prova de que havia estado ali e ao despertar encontrasse essa flor em sua mão... então, o quê?” Borges tem um texto intitulado a “Flor de Coleridge”, que pertence à obra Otras Inquisiciones (1952), na qual ele encaminha a reflexão de que não apenas o sonho é a motivação fantástica que informa o enunciado narrativo, mas também o fato insólito de alguém despertar e ter na mão uma flor -, que só existira no sonho. Nesse detalhe está o fantástico, pois o inverossímil se instala, bem como nos exemplos citados – “A ira de Deus e In Excelsum”. O sonho pode ser usado freqüentemente como explicação para experiências inverossímeis, mas o fantástico concentra-se no espaço deixado pela narrativa, que leva o leitor a perguntar: será que foi um sonho, ou não? Assim essa indagação sobre os limites da realidade e do sonho nos remete novamente ao fantástico.

Existe por parte do leitor a hesitação entre duas possibilidades, a de interpretar o fato pelas leis naturais, considerando-o um caso de loucura, ou a de interpretá-lo como um evento sobrenatural. Assim, temos que observar que, ao abordarmos o conto pela perspectiva do leitor nos deparamos com uma outra ameaça aos limites do fantástico que se situa no nível da interpretação de texto, fazendo a devida distinção entre a linguagem alegórica e a poética.

Alguns elementos sobrenaturais, como animais falantes, em um texto narrativo não causam espanto ao leitor porque não existe questionamento quanto a veracidade do fato, ele entende o sentido da fala dos animais como algo natural inserido no universo daquela narrativa. Essa maneira de ler é considerada uma interpretação alegórica. A outra possibilidade é a de se fazer uma leitura poética, dissipando da mesma forma as características do fantástico. Nessa hipótese, o fato fantástico estaria presente como um recurso expressivo verbal, uma linguagem apenas representativa do real.

Excetuando-se essas duas possibilidades de leitura mencionadas, a alegórica e a poética, e voltando para o momento da narrativa em que nos encontramos diante da dúvida entre interpretar um fato extraordinário como sobrenatural ou não, chegamos a um outro limite do fantástico, onde acaba o fantástico e começa o que pode ser considerado um gênero "estranho" ou "maravilhoso".

O que seria, então, o fantástico na literatura? Em Introdução à literatura fantástica, Tzvetan Todorov (2004), dirá que o ponto principal do fantástico é a situação de ambigüidade. As histórias que pertencem a este gênero nos deixam as perguntas: Realidade ou Sonho? Verdade ou ilusão? Quando um leitor se depara com um mundo que é exatamente como o seu, qualquer acontecimento que fuja às leis desse mundo familiar cria a dúvida e a incerteza sobre a possibilidade do fato ser ou não real. Todorov dirá que “o fantástico ocorre nesta incerteza (...). O fantástico é a hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, diante de um acontecimento aparentemente sobrenatural. O conceito de fantástico se define, pois com relação aos de real e de imaginário...”. O autor recorrerá a outras definições de fantástico afirmando que em algumas “cabe ao leitor hesitar entre as duas possibilidades” e, em outras, esta hesitação fica a cargo da personagem. O limite entre o estranho e o maravilhoso é apenas o tempo de uma hesitação. Essa hesitação que, segundo o crítico, é comum ao leitor e à personagem, porém tem sua duração restrita ao momento da narração do fato. A hesitação não só da personagem, como também do leitor é a condição primeira do fantástico.

 

BIBLIOGRAFIA

·        BORGES, Jorge Luís – Livro de Areia. Lisboa, Editorial Estampa, 1975.

·        ________________   _ Otras Inquisiciones. Buenos Aires, Alianza. 1952.

·        CAILLOIS, Roger  _ Au Coeur du Fantastique. Paris, Gallimardi, 1965.

·        CARROL, Lewis _ Alice no País das Maravilhas. Porto Alegre, L&PM – pocket, 1998.

·        CARVALHO, Mário _ A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho.Lisboa, Caminho, 1992.

·        CASTEX, Pierre Georges  _ Lê Conte Fantastique en France. Paris, Jose Corti, 1951.

·        PLATÃO _ A República. Trad. M.H.R. Pereira. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1993.

·        TODOROV, Tzvetan – As Estruturas Narrativas. São Paulo, Perspectiva, 2003.

·        _________________ _ Introdução à Literatura Fantástica. São Paulo, Perspectiva, 2004.

 

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