O DESEJO EM DOM CASMURRO
MARGARETH MIYAMOTO
“Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra que desapareceu”. (...) “ O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor nem o que foi nem o que fui”.[i]
O excerto acima nos leva a uma observação sobre o narrador-personagem de Dom Casmurro. Esse narrador possui um desejo, o desejo de voltar no tempo, ou seja, ele queria reconstruir o que havia sido destruído; assim observamos um ressentimento desse narrador contra o tempo, mas não só por não poder voltar no tempo para consertar o que errou, mas também a questão do futuro, a vaidade do querer.
Segundo Nietzsche[ii], o ressentimento da vontade contra o tempo se dá, devido ao fato de que o tempo condena a vontade a não poder querer tudo: ela só pode querer aquilo que ainda não existe, portanto somente o que está do lado do futuro, não do lado do passado. O que está adiante, não o que está atrás. O passado e sua imutabilidade, o “foi”, a impossibilidade de fazer que aquilo que existiu não tenha existido e que aquilo que existiu exista, marcam o limite que a vontade não pode transpor. Isso é o que acontece a Bento Santiago. Ele não consegue recompor o que foi no passado, não consegue reconstruir o passado, seu desejo é inútil, pois o tempo aniquila as possibilidades desse desejo se concretizar, pois o que passou, passou, não volta mais.
O tempo está o tempo todo dizendo não aos nossos desejos, assim, quando nos olhamos no espelho e dizemos: não quero envelhecer, o tempo diz: não; nós dizemos novamente: não quero cabelos brancos, o tempo diz: não; e insistimos: não quero que esse amor acabe, mas o tempo nos dá mais uma vez um não. Bentinho na tentativa de livrar-se das negativas do tempo, busca resolver esse ressentimento, a sua maneira: exila a mulher, na ânsia talvez de que o amor não acabasse, e que talvez ele pudesse esquecer o passado não a tendo por perto; deseja matar o filho, na esperança de por um fim ao sentimento de ter sido traído, mas sua vontade é dissipada por um sentimento que o próprio Bento não consegue explicar, e o tempo vai novamente interferindo em seu desejo de livrar-se do que já aconteceu: “Se eu não olhasse para Ezequiel, é provável que não estivesse aqui escrevendo este livro, porque o meu primeiro ímpeto foi correr ao café e bebê-lo. Cheguei a pegar na xícara, mas o pequeno beijava-me a mão, como de costume, e avista dele,como o gesto, deu-me outro impulso que me custa dizer aqui; mas vá lá, diga-se tudo. Chamem-me embora assassino; não serei eu que os desdiga ou contradiga; o meu segundo impulso foi criminoso. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se já tomara café”.
Nitzsche diz que: “A vontade é, para tudo aquilo que é passado, um perverso espectador”[iii], e Heidegger acrescenta: “o ressentimento não vai contra o passar, mas contra o passar que só deixa o passado existir como passado, que o deixa assim petrificar-se na rigidez do definitivo. O que importa, diz ele em Das Tarântulas, é que o homem se liberte da vingança”.[iv]
Bentinho era um homem dominado pelo espírito de vingança, pois era prisioneiro de ressentimentos, acorrentado a um processo triste, chamado ciúme, ciúme este que confere uma unidade de sentido a uma pluralidade de experiências vividas que ele engloba, e que do ponto de vista de Lagache[v],”não é somente uma maneira de viver a relação amorosa, mas uma maneira de existir”. A vida de Bento Santiago vinha marcada pelo ciúme desde a adolescência, e também pelo desejo de possuir sua primeira amiga e amada, Capitu, desejo que a todo momento o atormentava como ele mesmo diz: “Capitu deu-me as costas, voltando-se para o espelhinho. Peguei-lhe os cabelos, colhi-os todos e entrei a alisá-los com o pente, [...] Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espáduas vestidas de chita, e a sensação era um deleite. [...] Não pedi ao céu que eles fossem tão longos como os da Aurora, porque não conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois; mas desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos, [...] Se isto vos parecer enfático, desgraçado leitor, é que nunca penteaste uma pequena, nunca puseste as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa... Uma ninfa!”.[vi]
A vontade de Bentinho de livrar-se de tudo que o perturbava era perversa, pois Bento não conseguia atingir a felicidade, pois não se livrara de seus desejos. Schopenhauer fala em suas escrituras, que a felicidade para o homem é impossível, porque o homem sempre desejará, e o desejo surge a partir de uma falta, uma dor, que é o que acontece com Bentinho, todos os seus desejos de livrar-se da dor causada pelo ciúme foram se aniquilando, e a felicidade jamais veio. Então, como não consegue através de suas vinganças, livrar-se de seus desejos e atingir a felicidade, ele faz a última tentativa em busca de saciar suas vontades: escreve um livro, narrando sua história, e com isso, tentando um antídoto contra o sofrimento, pois sabe-se que a arte é um antídoto contra a dor, uma vez que ela acalma o desejo do corpo, que ela abaixa o nosso querer. Dessa maneira, escrever um livro poderia acalmar o desejo que Bentinho possuía de fazer tudo novamente, de uma maneira diferente.
O esquecimento é uma forma de nos libertar da vingança, do passado, mas Bentinho não buscou essa liberdade, pois na verdade, ele não queria livrar-se do passado, o que ele desejava era recuperar seu passado, de uma outra maneira, sem angústias, sem dor. O ser humano inveja o animal, pois o animal vai progressivamente esquecendo o que lhe acontece, mas o ser humano não só é temporal, como tem consciência presente pela memória, e o futuro, por antecipação. É nessa condição que Bentinho se transforma em autor, tentando justificar seu fracasso amoroso aos olhos dos leitores da época, pois esquecer seu grande amor, sua família, o grande amigo, não poderia.
Todo amante vê seu sentimento se transformar em amargor, questionando-se sobre a necessidade de ter seguido um caminho ou outro, a partir de seus desejos. Bentinho não é diferente, pois o seu amargor está disseminado por toda a narrativa, e esse dissabor ocorre por conta de seu ciúme doentio e o desejo ardente pelo amor de Capitu, que o transtorna e, que impregna de tristezas toda a sua existência e a de sua família. Assim, ele busca ao escrever o livro, refazer seu passado, e conviver mais uma vez com aquelas figuras que permearam seu passado e, buscar um sentido a posteriori para essa existência.
Afirmar que a culpa de tudo foi de Capitu, uma mulher que o enganou desde sempre, mas a qual nenhuma outra mulher que passou por sua vida, conseguiu fazê-lo esquecer, foi uma grande estratégia para diminuir sua dor: “Agora, por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração?” [...] O resto é saber se a Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente [...] se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra como a fruta dentro da casca.[vii]
A fatalidade está em Capitu, tal a fruta dentro da casca. Os desígnios dela devem servir para preencher as lacunas da vontade dele, que sempre preso a desejos femininos (mãe/seminário, Capitu/casamento), se caracteriza invariavelmente como partícipe de tais desejos, os quais, em substância, o colocam diante da mãe, por um lado, e da mulher, por outro, a castrá-lo simbólica e parcialmente, uma vez que não lhe permitem a vida de homem ou não lhe consignam a paternidade.
De acordo com Marcel Conche[viii] , “a vontade não quer enxergar aquilo cujo conhecimento comportaria o risco de destruí-la intimamente, revelando-lhe sua própria insensatez”. Bentinho escreve um livro, porque na verdade, não quer ver seu desejo destruído, não quer se separar da amada do seu coração, mas também não quer ter sua própria insensatez revelada; ele tem o desejo de ser reconhecido, o desejo de obter a aprovação das pessoas, dos que lerem sua obra, a fim de que todos possam saber que ele, Bento Santiago, foi apenas uma vítima nas mãos de todos, principalmente nas mãos de Capitu, e assim negar à sua consciência o tempo enquanto destruição, aniquilamento, e ao mesmo tempo saciar seu desejo de imortalidade, de manter-se vivo, de continuar a existir, que é a luta constante da vontade contra o tempo.
“MATAMOS O TEMPO; O TEMPO NOS ENTERRA”.[ix]
NOTAS:
[i] Assis, Machado. Dom Casmurro ( Capítulo II – Do livro), São Paulo, Abril Cultural, 1978.
[ii] Qui est lê Zarathoustra de Nietzsche? (em Essais et conférences, trad. Fr. A Préau, Gallimard). – (in CONCHE, Marcel. Orientação Filosófica. São Paulo, Martins Fontes, 2000)
[iii] Ainsi parlait Zarathoustra, “ De la Rédemption” – (in CONCHE, Marcel. Orientação Filosófica. São Paulo, Martins Fontes, 2000)
[iv] Qu´ appelle-t-on-penser? (trad. Fr. A.Becker e G. Granel, p.78, Puf) (in CONCHE, Marcel. Orientação Filosófica. São Paulo, Martins Fontes, 2000).
[v] Lagache, Daniel. La jalousie amoureuse.Paris, Puf, 1997.
[vi] Dom Casmurro – capítulo XXXIII – “ O Penteado”
[vii] Dom Casmurro – capítulo CXLVIII – “E Bem, E O Resto”
[viii]CONCHE, Marcel. Orientação Filosófica. São Paulo, Martins Fontes, 2000.
[ix] Assis, Machado. Memórias Póstumas de Brás Cubas ( cap. CXIX – Parêntesis). São Paulo, Abril Cultural, 1978.