A criação filosófica em “O Cônego ou Metaphysica do Estilo[i]

 

 

            O cônego Mathias, homem de quarenta anos, erudito respeitado, morador  do bairro da Gamboa, no Rio de Janeiro, foi convidado a pronunciar um sermão para certa festa próxima. Empenhado na composição do texto, de repente, empacou num substantivo à busca de um adjetivo preciso, que melhor conviesse ao caso.

            Assim tem início o “idílio psíquico” do cônego. O narrador transpõe o relato para o interior da cabeça de Mathias, convidando o leitor a contemplar os movimentos de Sílvio e Sílvia, nomes dados respectivamente, ao substantivo e ao adjetivo que se buscavam em meio à complexidade da vida psíquica de Mathias. Esta é composta de fragmentos desconexos de memória, de imagens confusas ou insólitas, emersas do inconsciente, e das desordenadas “circunvoluções do cérebro eclesiástico, atrás do substantivo que procura o adjetivo”.

            A isso tudo mesclam-se “fundas camadas de teologia, de filosofia, de liturgia, de geografia e de história, lições antigas, noções modernas, tudo à mistura, dogma e sintaxe”, acrescentadas de outras incontáveis recordações, sensações, sentimentos, idéias, imagens e reflexões, como por exemplo: “(...) Pois entre aqui também na cabeça do cônego. Estão justamente a suspirar d´este lado. Sabe quem é que suspira? é o substantivo de há pouco, o tal que o cônego escreveu no papel, quando suspendeu a penna. Chama por certo adjectivo, que lhe não apparece: “Vem do Líbano, vem...” E fala assim, pois está na cabeça de padre; se fosse de qualquer pessoa do século, a linguagem seria a de Romeu:” Julieta é o sol... ergue-te, lindo sol”. Mas em cérebro eclesiástico, a linguagem é das Escripturas. Ao cabo, que importam fórmulas? Namorados de Verona ou de Judá falam todos o mesmo idioma, como acontece com o thaler ou o dollar , o florim ou a libra, que é tudo mesmo dinheiro”.

           

            O conto tem um fluxo contínuo, dialógico, há um diálogo em diferentes planos no conto, como: o diálogo bíblico (uso do Cântico dos Cânticos[ii]), o diálogo com o leitor, o festeiro e o cônego. Há um narrador onisciente em terceira pessoa, mas também um “eu”, em primeira pessoa (um autor ficcional, que interfere na continuidade do texto, que reflete sobre fatos). Observemos o exemplo: “Sim, meu senhor, os adjetivos nascem de um lado, e os substantivos de outro, e toda sorte de vocábulos está assim dividida por motivo da diferença sexual... – Sexual? Sim minha senhora, sexual. As palavras têm sexo. (...) Palavra tem sexo” (p.276). A partir desse fragmento, nota-se o diálogo com o leitor, e observamos também, que o narrador formula uma teoria sobre a composição literária, isto é, uma poética.

O fundamento dessa poética é a convicção segundo a qual o amor é a força que unifica os díspares de modo harmonioso e permanente, tese de caráter geral, que encontra validade no caso particular da composição literária. As palavras que se amam procuram-se mutuamente, ao som das vozes do Cântico dos Cânticos, no caso singular de um autor eclesiástico; fosse profano, o pano de fundo seria dado pelas vozes dos amantes de Verona, Romeu e Julieta, como visto em exemplo anterior.  O autor inicia o conto com uma melodia do velho drama de Judá, com a qual a cônego Mathias começa a escrever o sermão, ou seja, “Era assim, com essa melodia do velho drama de Judá”...

O Cântico dos Cânticos de Salomão pode ser considerado uma parábola de fundo idílico com elementos alegóricos em que se mostra a sublimidade do amor mútuo entre Deus e os fiéis, mas este título é a tradução literal do hebraico para expressar um superlativo CANTO EXCELENTÌSSIMO, que em verdade trata do amor mútuo entre duas pessoas, descrito numa série de cantos alternados entre o esposo e a esposa. Segundo o título do livro da Bíblia Hebraica, este canto teria sido escrito por Salomão, mas um bom número de especialistas católicos e não católicos disto, duvida. Sua interpretação tem sido matéria de discussão entre os entendidos. Alguns o consideram meramente profano, tendo talvez algum fim moral. Contudo, tanto a tradição judaica como a cristã, dão um caráter sacro a este escrito, portanto, não pode ser considerado como mero canto profano de amor. É antes uma "ALEGORIA", uma descrição do amor ou da união do amante com a amada, para simbolizar um amor mais alto, mais sublime e religioso que estava na mente do autor ao escrever.

O autor ficcional do Cônego ou metafísica do estilo, escolheu um trecho do Cântico dos Cânticos para iniciar a narrativa, porém ele escolheu partes do cântico que o interessavam, ele fragmentou o texto para fazer o seu; assim tirou um trecho da primeira parte -Canto 4 -  versículo 8 "vem do Líbano, esposa minha, vem do Líbano, vem...; o outro trecho ele retirou do canto 7 - versículo 13 "as mandrágoras deram o seu cheiro. Nós temos às nossas portas toda a casta de pomos" e por último voltou ao meio no canto 5 - versículo 8 "Eu vos conjuro, filhas de Jerusalém, que se encontrardes ao meu amado, lhe façais saber que estou enferma de amor." Essa escolha não foi ao acaso, pois nesse conto de pura metalinguagem,  o encontro de dois significantes, um substantivo e um adjetivo,  a citação do Cântico dos Cânticos e outras referências bíblicas,  fazem parte da posição metalingüística do autor ficcional, pois a Bíblia é o primeiro livro de todos e a citação do Cântico dos Cânticos remete à atmosfera lírica e emotiva que envolve a narrativa.

Devido à forma metalingüística como é colocado o enunciado do conto e devido ao desenvolvimento da narrativa em dois planos, estamos diante de uma narrativa não convencional e de estrutura complexa.

O autor ficcional tece uma trama com o propósito de conscientizar ou despertar  consciências para uma lei oculta por meio da relação do conhecimento que o homem cria por meio da metafísica.

A metafísica[iii] do estilo é um instrumento utilizado para captar o mundo, para pensar a história e o autor ficcional cria conceitos por analogia. Por detrás do Cônego tem um conceito analógico, uma alegoria - o cântico dos cânticos também é uma alegoria, não simplesmente um canto profano de amor, mas uma descrição do amor, ou da união do amante com a amada (no conto Silvio e Silvia), para simbolizar um amor mais alto, mais sublime e religioso que estava na mente do autor ao escrever. (E a mente do cônego poderá ela conter esse pensamento sublime?).

O cérebro do cônego reflete a estrutura do pensamento religioso. “Vem do Líbano, vem...” E fala assim, pois está em cabeça de padre; se fosse de qualquer outra pessoa do século, a linguagem seria a de Romeu: “Julieta é o sol... ergue-te, lindo sol”. Mas em cérebro eclesiástico, a linguagem é a das Escrituras”, (p.277).A heresia ocorre devido aos paradoxos criados pelo autor que contrariam os dogmas da igreja representado pelo cérebro do cônego, que rompe com a estrutura do pensamento religioso. Temos a critica à fé e a filosofia. O autor ficcional critica o pensamento religioso e  a filosofia da construção do estilo. A teoria do estilo é construído metafisicamente, de forma abstrata, o que possibilita a reflexão sobre uma nova teoria do estilo.  Teoria esta absurda, mas ao mesmo tempo possível mediante a criação proposta pelo autor ficcional.

A Ironia é um traço de estilo (força da estrutura). O autor ficcional usa a teoria de Mathias para defender um conceito. O Conceito sobre a questão da criação se dá através do encontro de Silvio e Silvia [substantivo e adjetivo], que é a marca do estilo. “Sim, minha senhora, sexual. As palavras têm sexo. Estou acabando a minha grande memória psycho-lexico-lógica, em que exponho e demonstro esta descoberta. Palavra tem sexo” (p.276). O casamento dessas palavras é o que chamamos de estilo, ou seja, a memória psycho-lexico-lógica é a teoria do estilo.

O narrador, em sua ironia, conduz-nos a este traço significativo, o da impotência, porque não se trata do impossível estrutural. Ele nos coloca diante de um enigma da criação. Ironicamente, é o cônego Mathias, que por sua condição clerical deveria estar em função assexuada, quem realiza a criação. A esterilidade da criação é como que uma transgressão do desejo. A questão da criação é sexual.

Em “O CONEGO”, temos o “inconsciente” estruturado como uma “linguagem”, que está ligada à criação. Quando Silvia e Silvio se encontram para a consumação do amor, cujos efeitos se fazem sentir no cônego, há a  realização do ato criativo, como podemos observar no exemplo a seguir: N´isto, o cônego estremece. O rosto illumina-se-lhe. A penna, cheia de commoção e respeito, completa o substantivo com o adjectivo. Sylvia caminhará agora ao pé de Sylvio, no sermão que o cônego vai pregar um dia d´estes, e irão juntinhos ao prelo, se elle colligir os seus escriptos, o que não se sabe” (p282)]. Nesse labirinto, Sílvio e Sílvia, como predestinados, finalmente, encontram-se,  e esta é a comprovação machadiana de que a criação é sexual.

“N’ esse dia, - cuido que por volta de 2222, - o paradoxo despirá as azas para vestir a japona de uma verdade commum” (p.274), observamos aqui,  que o autor ficcional levanta a hipótese de que num futuro bem distante a verdade será outra, afirmando de forma  categórica que: “As philosophias queimarão todas as doutrinas anteriores, ainda as mais definitivas, e abraçarão esta psychologia nova, única verdadeira, e tudo estará acabado”(p.274).

“Vasto mundo incógnito.(...)”(p.279-280). O autor ficcional argumenta as reminiscências da aprendizagem eclesiástica, criando conflitos, tensões, possibilitando ao cônego voltar-se para os conhecimentos aprendidos na religião, por ser o único meio possível para a concretização do seu sermão.  “Cousas e homens amalgamam-se; Platão trás os óculos de um escrivão da câmara eclesiástica; (...) livros ingleses e rosas pálidas; tão pálidas, que não parecem as mesmas que a mãe do cônego plantou quando ele era criança. Memórias pias e familiares cruzam-se e confundem. Cá estão as vozes remotas da primeira missa (...)”(p.280). E ao se referir à teologia, filosofia, liturgia, geografia, história, lições antigas, o autor ficcional novamente retoma a idéia de uma nova concepção da metafísica do estilo.

Neste conto, o autor ficcional nos leva a refletir sobre a hipótese de uma possível teoria metafísica do estilo. E ao construir esta teoria, o autor ficcional constrói um texto feito de fragmentos, a começar pela própria melodia do velho drama. Também o sermão do cônego é construído por fragmentos de outros textos.

            O leitor desempenha um papel fundamental, pois, escuta-se sua voz em diálogo com o "narrador",            e entre a ironia e o humor que norteiam o conto, mesclam-se as idéias reflexivas, as questões sobre o cônego e sua função de criador. Ele de fato cria ou ele é apenas um objeto quase, uma mera cadeira, que enfeita um ambiente, sem consciência de si. O cônego é apenas um ornamento, um objeto, como é dito no conto,  sobre o qual devemos voltar nosso olhar a 360º, revirá-lo, experimentá-lo, torná-lo um observatório de nossa  busca da metafísica do estilo.

            A metafísica do estilo, referida no título do conto, corresponde a uma aguda análise e a uma magnífica síntese ficcional da invenção artística em sua essência.


 

[i] Assis, Machado. “O Cônego ou Metaphysica do Estylo”, in Varias Historias. Livraria Garnier, Rio de Janeiro, 1896.

[ii]O Cântico dos Cânticos de Salomão  in Bíblia Sagrada – Edição Ecumênica. Tradução – Padre Antônio Pereira de Figueiredo, Barsa, 1972.

[iii] Meta – É um prefixo grego que expressa as idéias de comunicabilidade ou participação, mistura ou intermediação e sucessão, e que já se documenta em alguns compostos formados no próprio grego.

Metafísica – A ciência primeira, isto é, a ciência que tem como objeto próprio o objeto comum de todas as outras e como princípio próprio um princípio que condiciona a validade de todos os outros. Parte da filosofia, que com ela muitas vezes se confunde, e que, em perspectivas e com finalidades diversas, apresenta as seguintes características gerais, ou algumas delas: é um corpo de conhecimentos racionais ( e não de conhecimentos revelados ou empíricos) em que se procura determinar as regras fundamentais do pensamento ( aquelas que devem decorrer o conjunto de princípios de qualquer outra ciência, e a    certeza e evidência que neles reconhecemos), e que nos dá a chave do conhecimento do real, tal como este verdadeiramente é (em oposição à aparência).

 

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