JOVENS E BIPOLARES: DESORDEM MENTAL COMEÇA A ATINGIR AS CRIANÇAS

ver também seu filho é bipolar?

Antes chamada de distúrbio maníaco-depressivo, a desordem bipolar só atingia os adultos. Agora está atingindo as crianças. Por quê? Por Jeff Kluger e Sora Song

Não era todo dia que Patricia Torres corria pela ruas de Miami a 110 quilômetros por hora. Mas não era todo dia que sua filha, Nicole Cabezas, tinha alucinações sérias, tentando pular do carro, arrancando suas roupas e gritando que pessoas a estavam seguindo, de forma que parecia um motivo justo para correr. Nicole, 16 anos, já enfrentava problemas há algum tempo -desde os 14 anos, quando ela começou a se trancar em seu quarto, se tornou incapaz de se socializar ou fazer sua lição de casa, e passou a pensar em suicídio.

Mas os últimos meses vinham sendo diferentes, com o fim da depressão e um estranho estado de agitação tomando seu lugar. Os pensamentos de Nicole aceleraram; sua fala passou a ser fragmentada. Às vezes ela passava dias sem dormir e não sentia nenhum incômodo com isso. Ela passou a suspeitar que seus amigos estavam se aproveitando dela, e que isso era compreensível, segundo ela, já que sem dúvida invejavam seu grande talento. "Eu era o centro do universo", diz ela tranqüilamente hoje. "Eu era a escolhida".

Finalmente, quando a escolhida foi atacada por ilusões violentas -a crença de que tinha poderes telecinéticos, que podia mudar as cores dos objetos com seu pensamento- Patricia Torres decidiu que era hora de levar Nicole ao hospital.

Os médicos do pronto-socorro examinaram a adolescente agitada, a amarraram na maca e começaram a ministrar sedativos. Ela passou duas semanas no hospital enquanto os médicos monitoravam suas oscilações de humor, ajustando seus medicamentos e conversando com ela e seus pais sobre seu mergulho na loucura. Finalmente, ela recebeu alta, com um plano de terapia e um coquetel de medicamentos. Seis meses depois, os médicos finalmente chegaram a um diagnóstico: ela estava sofrendo de desordem bipolar.

Apesar da turbulência emocional fazer parte da adolescência, Nicole Cabezas está entre um grupo crescente de crianças cujos humores instáveis não apenas oscilam, mas disparam violentamente de um extremo ao outro. A desordem bipolar -antes conhecida como desordem maníaco-depressiva, uma doença mental feroz- parece estar atacando cada vez mais as crianças, o que tem surpreendido muitos profissionais de saúde mental. Até pouco tempo a doença era considerada uma área restrita a adultos sem sorte -o empresário extremamente bem-sucedido dado à alternância de melancolia e impulsividade; o tio sem sucesso com humores misteriosos e problema com álcool; a supermãe incansável que repentinamente vai para o quarto, fecha a veneziana e chora no escuro por meses.

Mas a desordem bipolar não é tão seletiva. À medida que os médicos analisam mais profundamente a condição e começam a compreender suas causas, eles estão chegando a conclusão perturbadora de que um número cada vez maior de crianças e adolescentes também estão sofrendo do mal. A National Depressive and Manic-Depressive Association se reuniu em Orlando, Flórida, na semana passada para seu encontro anual, com médicos e terapeutas diante de uma difícil tarefa. Apesar do número oficial de americanos sofrendo de desordem bipolar parecer estar estável -cerca de 2,3 milhões, atingindo igualmente homens e mulheres- a idade média dos que sofrem do problema caiu em uma única geração da faixa dos 30 anos para o fim da adolescência.

E este número não inclui pessoas com menos de 18 anos. Diagnosticar a condição em idades muito jovens é algo novo e controverso, mas os especialistas estimam que mais 1 milhão de crianças e pré-adolescentes nos Estados Unidos podem estar sofrendo dos primeiros estágios de desordem bipolar. Além disso, quando adultos bipolares são entrevistados, quase metade relata que seus primeiros sintomas apareceram antes dos 21 anos; 1 em cada 5 diz que apareceu na infância. "Nós ainda não temos os números exatos", disse o dr. Robert Hirschfeld, chefe do departamento de psiquiatria da Universidade do Texas, em Galveston, "mas apenas sabemos que o problema existe, e que não está sendo diagnosticado".

Se ele estiver certo, é um sinal importante para pais e médicos, já que a desordem bipolar não é uma doença que pode seguir sem tratamento. As vítimas apresentam o triplo da taxa de alcoolismo e vício em drogas do que no restante da população, e a taxa de suicídio pode se aproximar de 20%. Elas freqüentemente sofrem por uma década até sua condição ser diagnosticada, e por mais alguns anos até ser tratada apropriadamente. "Se não for diagnosticada cedo, ela piora assim como um tumor", disse o dr. Demitri Papolos, diretor de pesquisa da Juvenile Bipolar Research Foundation (fundação de pesquisa bipolar juvenil) e co-autor de "The Bipolar Child" (a criança bipolar, Broadway Books, 1999). Encontrar este tormento em um adulto é muito ruim; em uma criança, é trágico.

Determinar o motivo de estar caindo vertiginosamente a idade média dos que sofrem do problema é algo que está atraindo a atenção de muitos pesquisadores. Alguns especialistas acreditam que as crianças estão sendo levadas à desordem bipolar pelo estresse familiar e escolar, pelo uso de drogas recreativas e talvez por uma coleção de genes que se expressam mais agressivamente a cada geração. Outros argumentam que o número de crianças doentes não mudou; na verdade, o que melhorou foi o diagnóstico da doença. Se este for o caso, ainda assim é significativo, porque significaria que estas crianças passaram anos sem receber tratamento para seu problema, ou pior, foram medicadas para a doença errada. Independente de qual seja a causa, muitas crianças estão sofrendo desnecessariamente. "Pelo menos metade das pessoas que têm esta desordem não são tratadas", disse o dr. Terrence Ketter, diretor da clínica de desordem bipolar da Universidade de Stanford.

Mas os cientistas estão conseguindo avanços contra a doença. Pesquisadores genéticos estão estudando os genes em busca dos genes ou cromossomos que podem estar relacionados com a condição, e podem oferecer alvos para o desenvolvimento de medicamentos. Farmacologistas estão aperfeiçoando combinações de novos medicamentos, que cada vez mais são capazes de impedir o estados maníacos e as depressões que incapacitam. Psicólogos comportamentais e cognitivos estão desenvolvendo novas terapias e programas com base na família, que colocam o cérebro descarrilhado de volta aos trilhos e o mantém neles. "Por muito tempo temos feito um bom trabalho em conter a desordem", disse o dr. Paul Keck, vice-presidente de pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade de Cincinnati. "Agora a meta é erradicar totalmente os sintomas".

Para Lynne Broman, de Los Angeles, manter a doença sob controle já seria mais do que suficiente. Uma mãe solteira de 37 anos, ela tem três filhos, dois dos quais -Kyle, de 5 anos, e Mary Emily, de 2 anos- são bipolares. No momento é Kyle quem está causando mais problemas. Ele já foi expulso de seis pré-escolas e duas creches em sua breve carreira escolar, e deixou em desordem sua casa antes arrumada. Kyle já foi hospitalizado por surtos de violência aos 4 anos de idade e ainda exibe períodos onde apresenta um comportamento quase que totalmente selvagem. Ele já atirou um facão de açougueiro contra sua mãe, que a teria atingido se ela não tivesse se abaixado a tempo. "Aquele dia começou bem", disse Lynne, "mas então ele avançou contra mim como se fosse um cão raivoso".

Até recentemente, uma criança que se comportasse desta forma seria diagnosticada como tendo déficit de atenção por desordem de hiperatividade e déficit de atenção (Dhda) ou transtorno de oposição desafiadora. Desordem bipolar nem seria considerada. E por um bom motivo: o perfil bipolar clássico, pelo menos como aparece em adultos, quase nunca é visto em crianças.

A maioria dos adultos bipolares alternam depressão e empolgação em ciclos que podem durar meses. Durante a fase depressiva, eles experimentam desesperança, perda de interesse no trabalho e na família, e perda de libido -os mesmos sintomas da depressão tradicional, com a qual a desordem bipolar é freqüentemente confundida. A depressão pode despontar sem nenhuma causa aparente ou pode ser ativada por um evento traumático, como um acidente, doença ou a perda do emprego.

Mas na desordem bipolar, há também uma fase maníaca. Geralmente começa com uma agitação do tipo cafeinada, a sensação de que é capaz de fazer tudo. "Às vezes os pacientes acham esta fase agradável", disse o do dr. Joseph Calabrese, diretor do programa de desordens do humor da Universidade Case Western, em Cleveland. Como o motor emocional gira cada vez mais rápido, tal energia pode se tornar excessiva. Os bipolares podem rapidamente se tornar agressivos e impulsivos. Eles se tornam grandiosos, arrumam brigas, dirigem rápido demais, praticam sexo indiscriminadamente, gastam dinheiro de forma impulsiva. No final podem até se tornar alucinatoriamente insanos.

Com as crianças as coisas não são t ão claras. A maioria das crianças com a desordem apresentam ciclos ultra-rápidos, alternando os estados várias vezes por dia. Papolos, que co-escreveu "The Bipolar Child", estudou 300 crianças bipolares com idades de 4 a 18 anos, e acredita ter identificado um padrão característico. Pela manhã, as crianças bipolares têm mais dificuldade para acordar do a média das crianças. Elas resistem em se levantar, em se vestir, em ir para a escola. Ficam irritadas mais facilmente, com uma tendência de reclamar e agredir, ou se fechar. Por volta do meio-dia, isto passa, e as crianças bipolares desfrutam de algumas horas normais, o que permite que possam se concentrar e participar da escola. Mas por volta das 15 ou 16 horas, alertou Papolos, "os foguetes são acionados", e a criança fica agitada, eufórica e explosiva. Elas riem alto demais quando encontram algo engraçado e continuam rindo por muito tempo depois que a piada já acabou. Suas brincadeiras têm um aspecto agressivo. Podem inventar histórias ou insistir que têm capacidades sobre-humanas. "Elas resistem a todos os esforços para acalmá-las ou apresentam acessos de cólera caso suas necessidades não sejam atendidas. Tal agitação freqüentemente prossegue noite adentro -o que contribui para a dificuldade que têm para acordar de manhã. "Elas são como o dr. Jekyll e o sr. Hyde", disse Papolos, "que é como seus pais as descrevem"

Crianças que ainda não falam e bebês não podem manifestar a desordem tão claramente, e não há acordo sobre se exibem algum sintoma. Entretanto, muitos pais de bipolares dizem ter percebido algo estranho com seu bebê quase desde o nascimento, relatando uma inquietação incomum do bebê e sua dificuldade de se acalmar. Lynne Broman insiste que sabia que seu filho Kyle era bipolar desde que ainda estava no seu útero. "Ele nunca dormia lá dentro", disse ela. "Ele estava ativo 24 horas por dia".

Para Lynne, fazer o diagnóstico pode não ter sido difícil, já que a condição, como Ketter coloca, "é altamente familiar". A própria Lynne é bipolar, apesar de sua doença só ter sido diagnosticada na idade adulta. Crianças com um pai bipolar têm de 10 a 30% de chance de desenvolver a condição; um irmão bipolar representa um risco de 20%; se ambos os pais forem bipolares, o risco sobe para até 75%. Cerca de 90% dos bipolares têm pelo menos um parente próximo com uma desordem de humor.

Apesar de tudo isto, quando a desordem aparece em uma criança, o diagnóstico geralmente é errado. Dhda é geralmente o primeiro diagnóstico, porque alguns dos sintomas maníacos se enquadram. O tratamento para Dhda costuma ser o Ritalin, um estimulante que tem a capacidade paradoxal de acalmar crianças hiperativas. Mas dar Ritalin para uma criança bipolar pode aprofundar um ciclo existente ou provocar um novo. Brandon Kent, um menino de 9 anos de La Vernia, Texas, que foi diagnosticado com Dhda no jardim de infância (eles não sabiam que ele era bipolar), tomou Ritalin e pagou o preço. "Fez ele entrar em depressão", disse sua mãe, Debbie Kent. "Em questão de meses, ele passou a ficar deitado no sofá sem se mover". Segundo algumas estimativas, até 15% das crianças diagnosticadas como tendo Dhda podem ser na verdade bipolares.

Diagnósticos errados semelhantes ocorrem quando pais e médicos observam os sintomas da depressão do ciclo bipolar e concluem que a criança está sofrendo de depressão simples. Tratar tais crianças com antidepressores como Prozac e a mudança da química do cérebro podem ativar o estado maníaco. Alguns pesquisadores acreditam que quase metade das crianças identificadas com depressão podem na verdade ser bipolares.

Para a maioria das crianças, as conseqüências da não identificação da doença podem ser severas, já que o quadro bipolar piora à medida que a criança cresce. Apesar de costumarem ser hábeis verbalmente e freqüentemente criativas, os bipolares encontram dificuldade na escola, porque a desordem dificulta para elas o domínio de funções executivas como organização, planejamento e a solução de problemas. Os problemas mais sérios podem aparecer quando a criança atinge os 8 anos de idade, quando os desafios acadêmicos da escola começam a ser sentidos. "Pode ser exigido das crianças coisas em que não são muito boas", disse Papolos, "e isto se torna um golpe contra sua auto-estima". Se a escola não disparar a desordem, a puberdade geralmente o faz, com o fluxo de hormônios que agita até mesmo a mente pré-adolescente mais estável.

Mesmo assim, todos estes fatores estressantes e a nova consciência da desordem podem não ser suficientes para justificar a explosão de casos de desordem bipolar juvenil. Alguns cientistas temem que pode haver algo no ambiente ou no estilo de vida moderno que está provocando a desordem bipolar em crianças e adolescentes, que caso contrário escapariam da condição.

Um dos maiores fatores de risco são as drogas. As pessoas com predisposição genética à desordens bipolares vivem em uma instável fronteira emocional. Sacudir as coisas demais com química recreativa é suficiente para despedaçar as fundações, especialmente quando a droga empregada é a cocaína, as anfetaminas e outros estimulantes. "Nós achamos que o uso de drogas estimulantes está ajudando a reduzir a idade em que surgem os casos", disse Hirschfeld.

O estresse também pode acender o pavio bipolar. Muitas desordens emocionais latentes, da depressão e alcoolismo a quadros de ansiedade, são ativadas por eventos da vida como divórcio, morte ou até mesmo um rito de passagem feliz como entrar na faculdade. E a desordem bipolar pode também ser ativada desta forma. "A maioria de nós não acha que o estresse ambiental provoque a desordem", disse o dr. Michael Gitlin, chefe da clínica de desordens de humor da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. "Mas pode ativá-las em pessoas que já sejam vulneráveis".

Uma explicação decididamente mais complicada pode ser a freqüência genética; nem toda geração de uma família suscetível a uma doença a desenvolve da mesma forma. Freqüentemente, gerações posteriores sofrem casos piores do que os anteriores devido a um mecanismo genético conhecido como repetição seriada de trinucleotídeos. Seqüências defeituosas de genes podem se tornar maiores a cada vez que são herdadas, tornando mais provável que descendentes sofram da doença. Este fenômeno exerce um papel no mal de Huntington e pode estar envolvido na desordem bipolar. "Há uma dose genética gradual que pode aumentar o risco", teoriza Ketter.

A primeira parte para determinar como estes genes trabalham é saber onde estão escondidos, e o Instituto Nacional para Doença Mental está investigando com afinco. Os pesquisadores de oito centros de pesquisa de todo o país, trabalhando com verbas do instituto, estão estudando os genomas de 500 famílias com histórico de desordem bipolar, para descobrir que características genéticas eles compartilham. Até o momento, pelo menos 10 dos 46 cromossomos humanos apresentaram irregularidades que podem estar ligadas à condição. O mais interessante é o cromossomo 22, que tem sido implicado não apenas na desordem bipolar, mas também na esquizofrenia e em uma desordem pouco conhecida chamada de síndrome velocardiofacial, que também tem relação com a esquizofrenia. O aparente relacionamento de desordens cuja característica mais proeminente é a ilusão não passou desapercebido pelos pesquisadores, apesar de que com tanta coisa ainda desconhecida em relação ao cromossomo 22 -sem contar os outros nove aparentemente relacionados com a desordem bipolar- ninguém está preparado para apresentar qualquer conclusão. "Provavelmente há variantes genéticas que atravessam múltiplos sistemas no cérebro", disse o dr. John Kelsoe, um geneticista psiquiátrico da Universidade da Califórnia, em San Diego.

Apesar desta grande quantidade de pistas cromossômicas tornar o trabalho fascinante para os geneticistas, ela promete muito pouco para as pessoas que sofrem de desordem bipolar, pelo menos por ora. O que elas querem é alívio -e rápido. E graças aos rápidos avanços na farmacologia, elas finalmente estão conseguindo isto. Na verdade, crianças tratadas com a dieta devidamente balanceada de medicamentos, acompanhada pelo tipo certo de terapia, podem provavelmente levar uma vida absolutamente normal.

Por décadas, o único medicamento para pacientes de desordem bipolar -e um que ainda tem um papel importante no arsenal farmacológico- era o lítio. Ele funciona regulando uma série de neurotransmissores, incluindo a dopamina e norepinefrina, assim como quinase protéica C, uma família de substâncias que ajuda a determinar as quantidades de neurotransmissores liberados pelas células nervosas. Influindo em tantos mecanismos químicos do cérebro, o lítio pode ajudar a devolver o equilíbrio para os bipolares. Mas para 30% daqueles que sofrem da desordem, ele não tem efeito algum; para outros, os efeitos colaterais são intoleráveis. "Ele ainda é um remédio milagroso", disse Keck. "Mas algumas pessoas simplesmente não respondem a ele".

Mas novos medicamentos estão surgindo. Ao invés de depender do alívio impreciso que um único medicamento como o lítio pode fornecer, os químicos contemporâneos estão investigando uma série de outros medicamentos. Descobriu-se que o Depakote, um anticonvulsivo desenvolvido para acalmar acessos de epilepsia, também apresenta um efeito amenizador do ciclo bipolar, e foi aprovado em 1995 para o tratamento desta condição. O sucesso de um anticonvulsivo fez os pesquisadores investigarem outros, e nos últimos cinco anos, vários -incluindo Lamictal, Tegretol, Trileptal e Topamax- também passaram a ser empregados.

Os anticonvulsivos não são os únicos medicamentos que estão sendo revistos. Também promissores são os neurolépticos atípicos. O neuroléptico (antipsicótico) mais conhecido, o Thorazine, é um preparado comparativamente rudimentar que controla as ilusões ao bloquear os receptores de dopamina. Os neurolépticos atípicos funcionam mais precisamente, manipulando tanto a dopamina quanto a serotonina, e suprimindo os sintomas sem causar muitos dos problemas associados. Há vários neurolépticos atípicos disponíveis, incluindo Zyprexa, Risperdal e Haldol, e muitos estão sendo usados eficazmente em pacientes bipolares.

Para qualquer bipolar, o próprio número de opções de remédios é uma vantagem, já que o que funciona para um paciente não necessariamente funciona para outro. Quando Brandon Kent, o menino de 9 anos do Texas, começou a tomar Depakote e Risperdal, seu corpo começou a inchar. Então ele mudou para o Topamax, que o deixou letárgico. Eventualmente ele passou a tomar uma mistura de Tegretol e Risperdal, que o estabilizaram com poucos efeitos colaterais. Kyle Broman, de Los Angeles, está tendo mais dificuldade para se acalmar com a combinação de Risperdal e Celexa, um antidepressor que por ora parece não estar provocando o estado maníaco.

Mas os medicamentos só funcionam até um ponto. Igualmente importante é o que vem depois da medicação: terapias e regimes domésticos que visam ajudar os pacientes e suas famílias a lidarem com a desordem. No início do ano passado, o Instituto Nacional para Doença Mental lançou um estudo de cinco anos, orçado em US$ 22 milhões, o Programa Ampliado de Tratamento Sistemático de Desordem Bipolar (Step-db) para aprimorar os tratamentos para desordem bipolar. Cerca de 2.300 pessoas estão participando voluntariamente do programa, e o número de inscrições deve chegar a 5 mil. De todos os tratamentos que os médicos do Step-db estão estudando, o mais básico e talvez mais importante para as crianças e adolescentes envolve a administração do estilo de vida.

Desde o berço, as crianças podem facilmente ser incomodadas por interrupções em seus ciclos circadianos, como descobrem pais de recém-nascidos e crianças pequenas quando tentam mudar o horário do sono. Os bipolares, independente da idade, também reagem a mudanças de horários; muitas coisas podem desestabilizar os pacientes, mas Keck acredita que a privação de sono e mudanças de fuso horário são as mais incômodas.

Por este motivo, pede-se aos pais de crianças bipolares que adotem horários de sono rígidos e consistentes. Hora de dormir deve significar hora de dormir, e manhã deve significar manhã. Apesar disto poder ser difícil quando uma criança ativamente maníaca está apresentando acessos de cólera duas horas depois de apagadas as luzes, uma combinação de medicamentos de estabilização do humor e a aplicação de uma rotina pode colocar na linha até mesmo as crianças que apresentam mais sintomas. Os adolescentes, dos quais se espera que se autopoliciem muito mais do que as crianças pequenas, também devem assumir muito mais desta responsabilidade, mesmo que signifique a adoção sem desculpas de um toque de recolher sem exceções.

A dieta também é importante. A cafeína pode provocar o estado maníaco nos bipolares, assim os adolescentes são aconselhados a se absterem de café e chá. Crianças bipolares de todas as idades também devem tomar cuidado com alimentos cafeinados menos evidentes como refrigerantes e chocolate. Quanto aos jovens e adolescentes, se abster do álcool e das drogas é crucial. Não somente o risco de se viciar é elevado, mas o tratamento da desordem bipolar é muito mais difícil se a mente do paciente estiver turvada por substâncias químicas recreativas.

Para crianças com idade suficiente para se beneficiarem, um tratamento complementar é a terapia individual, que inclui o trabalho dos ritmos sociais -aprender a equilibrar as refeições, o sono, os estudos e a recreação. Se um incidente como um divórcio ou morte ativar a condição, o médico pode ajudar a criança a processar o fato.

O último e talvez mais difícil elemento do tratamento é a terapia familiar. A desordem bipolar, como a esquizofrenia, depressão e certos casos de ansiedade, é poderosamente influenciada pelo meio. Quando um gêmeo idêntico sofre de desordem bipolar, o outro gêmeo só apresenta 65% de chance de também desenvolvê-la. Por outro lado, crianças adotadas, sem nenhum legado genético de desordem bipolar, tem 2% de chance de desenvolver a desordem caso seja criada em um lar com um pai não-biológico bipolar. Claramente, algo mais está em ação além dos genes, e isto é o ambiente. Crie uma criança em um lar tranqüilo e estável e você reduzirá as chances da doença se desenvolver, o motivo dos conselheiros se esforçarem para ensinar pais e filhos a minimizarem as discórdias familiares.

Uma estratégia é evitar a expressão de muita energia negativa. O amor duro, por exemplo, é uma boa idéia a princípio, mas em algumas situações pode fazer mais mal do que bem, especialmente se fizer crianças que não conseguem controlar seu comportamento se sentirem piores consigo mesmas. Quando surgem discussões familiares, elas precisam ser conduzidas de um modo controlado. O professor de psicologia David Miklowitz, da Universidade do Colorado, encoraja as famílias a evitarem o que ele chama de "vôlei", uma provocação seguida por uma réplica, e então por uma tréplica. Evite o vôlei, e você evitará alguns distúrbios domésticos.

A coisa mais importante que pais e irmãs podem fazer é simplesmente servir como olhos e ouvidos da criança bipolar. Um adolescente em depressão não consegue ver a esperança além da melancolia. Uma criança em ciclo maníaco não consegue ver a realidade tranqüila além da agitação. Cabe às pessoas cujas bússolas estão funcionando de forma mais confiável intervir e apontar o caminho. O dr. Gary Sachs, diretor do Centro de Tratamento Bipolar do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, e principal pesquisador do projeto Step-db, disse: "O tratamento é baseado na 'Odisséia' de Homero. Quando Odisseu é tirado do curso, ele pede a ajuda de sua tripulação".

No futuro, as crianças devem ter mais assistência enquanto navegam. No Centro de Pesquisa Stanley, no Hospital Geral de Massachusetts, os pesquisadores estão começando um estudo com duração de um ano de pelo menos 10 medicamentos para desordem bipolar, comparando os méritos de cada e as formas como podem ser melhor combinados. Outros estão estudando tratamentos não convencionais como ácidos graxos omega-3, encontrados em óleo de peixe, que podem inibir os mesmos receptores do cérebro afetados pelo lítio. Em outros lugares, pesquisadores estão realizando escaneamentos do cérebro para determinar que lóbulos e regiões estão envolvidas na desordem bipolar e como atingi-las mais precisamente com os medicamentos. Os pesquisadores também esperam desenvolver um exame de sangue que possa permitir que a desordem bipolar seja detectada da mesma forma que, digamos, o colesterol alto, eliminando anos de diagnósticos incorretos e tratamentos errados.

Fazer todo este trabalho corretamente -e levar os tratamentos para as crianças que precisam dele- é uma das metas mais novas e mais desafiadoras da comunidade que cuida de doenças mentais. Há uma escassez de médicos capazes de reconhecer a desordem bipolar e como tratá-la. Crescer é muito difícil para crianças com desordem bipolar. A última coisa que precisamos é de diagnósticos errados e tratamento para o que não temos.

- Com reportagem de Dan Cray e Jeffrey Resssner/Los Angeles, Jeanne DeQuine/Miami, Melissa Sattley/Texas, Cristina Scalet/Nova York e Maggie Sieger/Chicago Tradução: George El Khouri Andolfato
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