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FONTE: www.drauziovarella.com.br Drauzio Varella entrevista Valentim Gentil, médico e professor de psiquiatria na Universidade de São Paulo. CONVERSANDO SOBRE O TRANSTORNO BIPOLARConhecendo o inimigoNo passado, o transtorno bipolar era conhecido pelo nome de psicose
maníaco-depressiva, uma doença psiquiátrica caracterizada por alternância de fases de
depressão e de hiperexcitabilidade. Nesta fase, a pessoa apresenta modificações na forma
de pensar, agir e sentir e vive num ritmo acelerado, assumindo comportamentos extravagantes
como sair comprando compulsivamente tudo o que vê pela frente.
Discutindo a nomenclaturaDrauzio - Por que, nos anos 1980, a antiga psicose maníaco-depressiva passou a chamar-se transtorno bipolar? Valentim - Analisando separadamente os elementos que compõem esse
nome, pode-se dizer que a palavra psicose carrega a conotação de estigma, isto é, de marca
infamante, vergonhosa. Maníaco, por sua vez, é um termo técnico derivado do grego e significa
loucura. De fato, na fase de hiperexcitabilidade, o indivíduo é o estereótipo do louco já
que suas atitudes destoam, e muito, do padrão normal de seu comportamento. Depressivo era
o termo mais brando dos três e que menos impacto causava. Por isso, considerou-se que a
expressão psicose maníaco-depressiva era pesada demais para designar uma doença que, de
certa forma, não era tão terrível quanto o nome fazia supor. Na verdade, trata-se de um
transtorno de humor que oscila entre o pólo da euforia, da mania ou da hipomania, do qual
faz parte esse comportamento excitado e desorganizado, e o pólo da depressão, retomando a
pessoa depois o equilíbrio sem grandes prejuízos comportamentais nem na integração das emoções
e dos pensamentos. De qualquer modo, a palavra psicose não era de todo descabida porque,
durante a crise, algumas pessoas ficam realmente psicóticas, ou seja, apresentam uma afecção
muito grave da psique com alucinações e delírios, o grau extremo desse transtorno de humor.
A partir do momento, porém, em que essa afecção grave recebe tratamento eficaz e adequado,
o quadro torna-se benigno a tal ponto que é possível conviver com pessoas portadoras de
transtorno bipolar de humor sem identificar o problema.
Euforia patológicaDrauzio - Todos atravessamos na vida fases de grande euforia e de grandes tristezas. Como diferenciar o quadro normal do patológico? Valentim - Em psiquiatria, os termos ainda não atingiram a especificidade necessária. Por exemplo, etimologicamente, a palavra euforia quer dizer humor normal, bom humor. Se o indivíduo está eufórico no carnaval, no dia do aniversário ou porque ganhou um prêmio ou um campeonato, isso nada tem de anormal nem de patológico. O que chama a atenção é a desproporção entre as circunstâncias e as reações, ou seja, o comportamento é desproporcional aos fatos ou inadequado ao ambiente. A pessoa está alegre e eufórica quando nada ao redor justifica tais sentimentos. Como sua autocrítica está comprometida, age como se estivesse (e não está) sob o efeito do álcool ou de drogas. Seu pensamento fica acelerado e desorganiza-se de tal modo que os assuntos surgem em tumulto e é difícil acompanhar sua linha de raciocínio. Drauzio - Dê um exemplo para ficar mais claro. Valentim - Existe um filme em que uma das personagens,
Mr. Jones, assume o comportamento típico desses pacientes. Nas crises de euforia,
os portadores de transtorno bipolar apresentam menor necessidade de sono. Mr. Jones
levantava-se às 4h da manhã e, sem se incomodar com o descanso alheio, ligava o rádio
bem alto como se as atividades por ele programadas para aquele dia interessassem a
todos. Noutros momentos, julgando-se dono de um poder extraordinário, subia no telhado
certo de que poderia alçar vôo. Nessas crises de agitação, mexia com as pessoas e falava
tão depressa que ninguém conseguia acompanhar seu pensamento. Às vezes, apesar da
genialidade aparente, expunha-se a riscos desnecessários e descabidos.
Fatores genéticos e ambientaisDrauzio - Filhos de pessoas com transtorno bipolar apresentam possibilidade maior de desenvolver essa patologia? Valentim - Sabe-se, desde a Antiguidade, que a existência de um caso de transtorno bipolar numa família aumenta a possibilidade de que a enfermidade se manifeste em outros membros da mesma família. O desenvolvimento da genética permitiu analisar grande número de gêmeos nos quais a patologia torna-se mais evidente. Gêmeos idênticos ou monozigóticos possuem genoma absolutamente igual, mas apenas em 80% dos casos os dois irmãos apresentam quadros de euforia e depressão. Embora a porcentagem seja elevada, 20% não manifestam o problema. Cabe perguntar, então, se fatores extragenéticos interferem nesse resultado. Sim e não. Uma vez que ninguém expressa seu genoma completamente, pode-se deduzir que, apesar da carga genética idêntica, só num dos gêmeos ela encontrou as condições necessárias para o desenvolvimento da patologia que certamente depende da interação de tais fatores com o ambiente. Não se pode deixar de considerar também que, além da predisposição e vulnerabilidade geneticamente determinadas, certas situações contribuem para a eclosão ou precipitação do problema. Drauzio - Quais os fatores ambientais mais importantes? Valentim - As evidências indicam que, nos últimos anos, cresceu a
incidência desses quadros. Será que aprendemos a diagnosticá-los melhor? Pouco provável, pois
algumas descrições do transtorno bipolar datam de 2500 anos atrás, época em que os termos mania
e melancolia já eram empregados. Por outro lado, descrições de médicos, no início da era cristã,
são idênticas às que encontramos hoje nos melhores livros de psiquiatria.
Drauzio - Existe relação clara entre o uso de cafeína e o transtorno bipolar? Valentim - O uso excessivo de cafeína pode produzir convulsão
e algumas pessoas ingerem, todos os dias, quantidades absurdas dessa substância.
Cheguei a conhecer uma que tomava 14 litros de coca-cola num único dia e era difícil
distinguir seu comportamento do de um indivíduo com transtorno bipolar.
Importância do diagnóstico precoceDrauzio - O diagnóstico de transtorno bipolar em crianças e adolescentes, pouco freqüente no passado, cresceu bastante nos últimos tempos. O que justifica essa mudança? Valentim - Trabalho com transtorno do humor desde que me formei,
há 32 anos, e só me dei conta de que ele pode manifestar-se na infância há cerca de 10 anos.
Por circunstâncias diversas, os psiquiatras de adultos receberam menor treinamento em
psiquiatria infantil, uma área na qual ainda predominam conceitos talvez já superados.
Por isso, os casos de transtorno bipolar ficavam mais evidentes na adolescência quando,
em geral, era feito o diagnóstico. No entanto, se enfocarmos a história desses adolescentes
e ouvirmos seus pais, encontraremos evidências muito precoces de alteração de humor,
irritabilidade, distúrbio do sono e hiperatividade. Hoje, está em voga atribuir tais
sintomas apenas aos distúrbios de atenção e à hiperatividade e existem programas inteiros
dedicados ao reconhecimento e tratamento dessas manifestações. Em muitas crianças, porém,
eles podem estar relacionados com o transtorno bipolar, particularmente se a freqüência
dessa patologia é alta na família.
Drauzio - Nesse ponto, elas são diferentes dos adultos que apresentam ciclos de depressão e hiperatividade mais longos. Valentim - É verdade, nos adultos os ciclos são mais longos
e chama-se ciclagem rápida quando se repetem quatro vezes num ano, sinal de maior
gravidade e complexidade do quadro. Imagine, agora, uma criança que apresente 1500
ciclos por ano, porque mais de quatro ela pode ter facilmente num dia. Essa criança
de comportamento imprevisível, inquieta física e mentalmente, não tem distúrbio de
atenção, tem transtorno bipolar. Por isso, se não distinguirmos a criança apenas
rebelde e desafiadora da que tem um temperamento desfavorável, hostil e irritado
porque é portadora de transtorno de humor bipolar e quisermos educá-la com severidade
exagerada, ela reagirá negativamente. Esse transtorno requer tratamento adequado.
Provavelmente, na história da humanidade, muita gente com predisposição para a doença
e que manifestou um distúrbio de personalidade muito grave, se tivesse sido atendida
de modo conveniente, teria desenvolvido uma forma mais branda da enfermidade.
Transtorno bipolar e criatividadeDrauzio - Edgar Allan Poe, Van Gogh, Schuman, Churchill, grandes homens da história e das artes, tinham transtorno bipolar. Qual a relação entre a criatividade e essa doença? Valentim - Interessante que essa relação entre transtorno
bipolar de humor -euforia e melancolia - e criatividade já era abordada por Aristóteles
que indagava (pelo menos, a pergunta é atribuída a ele) por que tantos homens ilustres da
filosofia, da matemática e das artes apresentavam essa característica. De acordo com
alguns depoimentos, estados depressivos favorecem a percepção de um universo que em
estado normal seria impossível apreender e a euforia estimula a criatividade. No entanto,
pesquisas realizadas nos últimos 20 anos, sugerem que essa hipótese não é verdadeira.
Elas apontam que, na maioria dos casos, a criatividade é uma característica genética
encontrada também nos parentes próximos que não são doentes .
Drauzio - Que opções você me ofereceria se, na situação de Van Gogh, eu preferisse continuar pintando quadros magníficos apesar dos inconvenientes das crises a ser tratado e perder a inspiração? Valentim - Eu lhe ofereceria minha amizade e compaixão. Foi
o que fez o dr. Gachet, grande pintor e médico de Van Gogh, que só contava com Digitallis
para cuidar do amigo. Dizem até que Van Gogh usou tanto o amarelo em suas obras porque
tomou esse remédio em demasia.
Possibilidades de tratamentoDrauzio - Há tratamentos eficazes para o transtorno bipolar atualmente? Valentim - Há tratamentos tão eficazes quanto os existentes
em qualquer outra área da medicina. Sua aplicação possibilita, em poucas semanas,
reverter um quadro grave de euforia. A doença não tem cura, mas as pessoas melhoram,
recebem alta e reassumem suas atividades. Se não se expuseram demais e não ficaram
estigmatizadas pelo comportamento aberrante, serão acolhidas como alguém que teve
um desequilíbrio metabólico qualquer ou uma ausência provocada pela ingestão de drogas.
Isso se consegue com medicamentos (neurolépticos, antipsicóticos, estabilizadores do
humor) e a retirada de certas substâncias (cafeína, cocaína, anfetaminas) que agravam
o quadro. O risco de recaída ou de evoluir para depressão existe e é preciso estar
atento ao uso de medicamentos antidepressivos que, embora eficazes, podem precipitar
uma virada indesejável para a euforia ou acelerar a freqüência das crises.
Drauzio - A pessoa precisa sempre estar medicada para levar vida normal? Valentim - Por quanto tempo a pessoa deve tomar lítio para levar vida normal é discussão constante na literatura. Nos EUA, existe um centro de informações do qual constam 35000 artigos que tratam da utilização do lítio nos mais diferentes campos, entre eles, a prevenção da recorrência dos transtornos bipolares. Além disso, está provado que a associação do lítio com anticonvulsivantes e antidepressivos previne recaídas. O lastimável, porém, é que apenas uma parcela pequena da população tenha acesso a esse tratamento. Drauzio - O problema talvez não seja apenas dificuldade de acesso, mas o número insuficiente de profissionais com conhecimento e habilidade para lidar com essas drogas e atender tantos pacientes, não é? Valentim - É um problema mundial. Mesmo nos EUA, onde existem
mais recursos, os residentes de psiquiatria não aprendem a usar lítio adequadamente.
Segundo seus professores americanos, seria necessário que acompanhassem a evolução dos
pacientes durante 6 meses ou 1 ano, para inteirar-se das nuances do tratamento porque
o lítio é tóxico e, se não for usado direito, não funciona. Como isso não é possível,
eles preferem treinar os residentes para usar anticonvulsivantes que, na maioria dos
casos, são desnecessários, causam efeitos colaterais e, a longo prazo, não apresentam
os bons resultados do lítio. Por paradoxal que pareça, nem mesmo tendo representado uma
economia de 150 bilhões de dólares porque a indicação do lítio no tratamento dos
transtornos afetivos evitou internações, violência, suicídios, ele ainda não é usado
adequada e regularmente nos EUA.
Transtorno bipolar na infânciaDrauzio - Observando o comportamento dos filhos, como os pais podem identificar sinais de transtorno bipolar? Valentim - Se, desde que nasceu, a criança apresenta um
temperamento mais eufórico, é cheia de energia e criatividade, mas não perturba ninguém
nem a si mesma, isso faz parte de sua personalidade, é normal e não deve ser coibido.
Transtorno bipolar na adolescênciaDrauzio - Você disse que as crianças têm múltiplos episódios de depressão e excitação num único dia e que, nos adultos, a doença manifesta-se em ciclos bem mais longos. E na adolescência, o que acontece? Valentim - Na adolescência, o quadro clínico costuma surgir a partir
dos 15 anos e tem características muito diferentes das que se observam na infância. O pico de
incidência, porém, ocorre entre 18 e 25 anos.
Comportamento familiarDrauzio - O que deve fazer a família diante de um caso como esses? Valentim - Antes de tudo é preciso combater o medo, porque é ele que aparece primeiro. Depois, é tentar não agir agressivamente contra a pessoa na fase de euforia. No começo, ela é até engraçada, de pensamento ágil, criativa. Se os familiares não estiverem inseguros e temerosos, poderão convencê-la a procurar atendimento para um diagnóstico diferencial, a fim de eliminar possíveis causas imediatas da doença. Se a intervenção ocorrer em 48 ou 72 horas, praticamente não haverá prejuízo. O primeiro remédio que se receita hoje é uma visita a sites da internet especializados em informar as pessoas sobre a regulação do humor porque isso é fundamental na manutenção do tratamento. Drauzio - Existe, no Brasil, alguma associação de apoio a esses pacientes? Valentim - Existe a ABRATA, Associação Brasileira de
Transtornos Afetivos, que tem site na internet |