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CRÔNICA DA DOR CRÔNICA  (Título sugerido pelo Ricardo Mainieri)
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Lendo um texto do Miguel Falabela, escrito para "O Globo" e veiculado na Net, reportei-me a todas as minhas dores. Lembrei-me do dia em que quebrei o dedo médio da mão direita, do dia em que mordi a língua em virtude de uma queda em que bati o queixo no chão e tive que levar vários pontos... das muitas dores-de-dente (criança pobre, não tinha como tratar e a solução era colocar uma pomadinha dentro do buraco e aguentar, estóica, a dor)... das queimaduras (como doem, por menores que sejam!)... do caco de espelho enfiado na batata da perna (cadê coragem pra puxar?), façanha que, além da dor, provocou uma bronca da mãe, supersticiosa: "Agora já começam os 7 anos de azar!"
Lembrei-me das dores dos partos (4) e dos abortos espontâneos (3), ainda mais doloridos porque a dor provocada por eles não era coroada pelo prêmio de um chorinho de um bebê, mas pela tristeza de havê-lo perdido.
Além das dores físicas de que o Falabela tão bem falou em sua crônica, todas elas realmente muito fortes e marcantes, lembrei-me também das dores psicológicas, como a dor da frustração por não ter conseguido algo, pelo olhar duro de alguém ferindo mais que um tapa... a dor da solidão, da indiferença, do medo... Lembrei-me de cada uma dessas dores que fazem parte da nossa trajetória, que nos acompanham no nosso dia-a-dia e com as quais nós até nos acostumamos, com o correr do tempo.
Mas a dor da saudade... ah! Como o Falabela tem razão ao falar sobre ela! A dor da saudade é dor que não pára, que não diminui, que não dá trégua e não há mesmo nenhuma outra dor que se compare a ela.
Ah, a saudade do cheiros e sons da infância, das cores da primavera da vida! Saudade difusa, quase imperceptível, mas que está lá no fundo, guardadinha, pronta a vir à tona à menor lembrança, acordada por uma nota musical, pelo cheiro da comida predileta ou de um perfume, pela simples visão de algum objeto, por um trecho de livro, um verso de um poema.
Dói sim! Como dói a tal da saudade. BANZO! Nostalgia. Sentimento às vezes tão arraigado em nós que mal nos damos conta dele, que não sabemos o porquê de sentir, mas que insiste, teima em ficar incomodando, azucrinando, latejando dentro de nós.
A saudade de quem se ama, então, é mesmo quase insuportável. Vontade de "saber de"... saber como, quando e onde o ser amado está. Saber por que terminou. Saudade que não se pode deter, que não se explica, que se esparrama e se derrama, transborda lavando os nossos olhos e os nossos momentos. Saudade que não cabe em nós.
Não cabe na mente que pensa naquela pessoa a todo instante, não cabe no coração que, a cada pulsação, grita o seu nome, não cabe no olhar que se alonga em busca da sombra do ser amado, perdida lá, no passado...

Não saber de quem se ama é uma agonia... é desesperador! Sensação terrível de impotência. Saudade é não ter como conter as lágrimas que rolam incontroláveis ao simples som de uma música, "aquela música", trilha sonora da nossa história de amor... ao sentir no ar, um certo perfume, ao vislumbrar, no meio da multidão, um balançar de ombros, um jogar de pernas, um sorriso, que tenha alguma semelhança com o seu vulto.
"Saudade é não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos." (MFalabela)
É... O Falabela soube retratar muito bem o que é saudade, essa vontade de "saber de", esta ânsia incontida de "estar com", esta impotência diante do "será que", esta angústia sem fim diante do "nunca mais".
Ele terminou a crônica dizendo que saudade era o que ele estava sentindo ao escrevê-la e o que o leitor provavelmente sentia ao término da leitura...
Suponho que saudade é o que todos nós estamos sentindo, em menor ou maior grau, neste exato momento.

BH - 27.06.03



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