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ACORDES
lisieux
(PARÁFRASE do poema de Ângela Lara “Valsa”)
É... não deu tempo, não deu...
De eu te mostrar todas as minhas marcas
de conheceres as cicatrizes do meu corpo
e muito menos as da minha alma...
Talvez... talvez quando o ciclo se completar
e chegar de novo a estação do sol
ou a estação da chuva...
Também não deu para termos um tempo de aconchego
de ombro no ombro e cabeça no colo...
De ronronados debaixo das cobertas
numa noite fria, vendo televisão
de pipocas espalhadas e marcas no sofá...
Talvez... talvez quando o filme for reprisado na Sessão Coruja,
daqui a alguns meses... alguns anos...
Não deu tempo... não deu...
De preparar os teus quitutes preferidos,
de tomar champagne em taças de cristal
em mesa preparada com esmero, com flores e candelabro...
Ou mesmo de tomar ki-suco em copo de requeijão...
Talvez... talvez quando sentires fome...
de amor e de pão.
Não deu pra estrear os lençóis bordados, nem a colcha de veludo
azul...
Não deu tempo de reparares o quadro com paisagem campestre
nem o crucifixo na parede sobre a cabeceira da cama...
Talvez... talvez quando de novo estiveres cansado
E precisares de um colchão macio
ou de um leito de remanso.
Não deu tempo de termos entranhados nas narinas,
de reconhecermos de longe os nossos cheiros,
como animais, que se farejam
antes de se entregarem ao cio...
Talvez... quando o vento aprender a te levar,
nas suas asas,o meu perfume...
e me trazer o teu, através da minha janela,
juntamente com o cheiro de terra molhada,
em tardes de chuva...
Não deu tempo, amado... não deu tempo...
De nos tornarmos mais que amantes,
de construirmos uma história,
de colecionarmos detalhes
de sermos
apenas nós...
Talvez...
talvez quando perceberes
o quanto fui tua...
o quanto me doei
e o quanto tu deixaste de aceitar...
BH - 09.10.03 |
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