John
Zerzan e a confusão primitiva
Alain C. com a inestimável colaboração de Marielle.
As Edições 'L'Insomniaque'
publicaram recentemente duas compilações de artigos de J. Zerzan: Futuro
Primitivo, Dezembro de 1998 (anteriormente publicado por Autonomedia,
Nova Iorque, 1994) e Nas origens da alienação, Outubro de 1999 (Elements of
refusal, Left Bank Books, Seattle, 1998).
Estes textos são uma reescrita
ideológica da história da humanidade, nos quais J. Zerzan se serve de
diferentes trabalhos de especialistas em pré-história, antropólogos e filósofos
com o fim de estabelecer uma ideia preconcebida do que é a humanidade, do que
foi e do que pode vir a ser. A ideologia de J. Zerzan é, sem dúvida alguma,
generosa, e suscita além disso problemas interessantes, mas não deixa de ser
uma ideologia.
Por outro lado, as teses de Zerzan parecem não ter suscitado
debate algum nos reduzidos meios em que foram divulgadas e não ter encontrado
mais que uma vaga aprovação ou reprovação, pelo menos ao que nós sabemos. A
finalidade deste artigo é também lançar o debate sobre bases mais concretas.
Tudo o que se conhece dos alvores da
humanidade resulta do estudo dos restos materiais que os primeiros homens
deixaram e que chegaram até nós. Estes restos são essencialmente, para os
primeiros tempos, ossos de animais e humanos, e pedras lascadas. A sua
disposição em locais particulares contribui também com valiosas informações. O
facto essencial é que se trata de restos extremamente fragmentários,
impossíveis de datar com grande precisão. A partir destes restos, os especialistas
em pré-história estabelecem hipóteses, depois formulam teorias, frequentemente
superadas por descobertas posteriores. A pré-história é um domínio do
conhecimento muito variável, sempre sujeito a mudanças: a ideia que formamos
deste período ou, melhor, destes períodos, não pode ser tão precisa como a que
temos de períodos mas recentes. As certezas são poucas, e mais genéricas que precisas.
Os últimos trinta anos, com as suas numerosas descobertas e com a evolução dos
métodos, refinaram consideravelmente a imagem caricatural da pré-história que
prevaleceu até meados do século XX.
Ao mesmo tempo, apareceram outros problemas que tenderam a
tornar as questões cada vez mas complicadas. A própria definição de homem levanta
um problema. Geralmente, contam-se para todo o período paleolítico, que se
estende aproximadamente por 2.5 ou 3 milhões de anos, quatro representantes do
género Homo: em primeiro lugar, o mais
antigo, o Homo Habilis, do qual descendem
as três espécies mais recentes, cronologicamente: o Homo Erectus (Pitecantropo), o Homo
Sapiens arcaico (Neandertal) e, por último, o homem "moderno", o
único que está hoje presente no planeta, o Homo
Sapiens Sapiens. Anteriores ao mas antigo representante do género Homo, contam-se diferentes espécies de
Australopitecos, com os quais o Homo Habilis
viveu lado a lado durante muito tempo: ele mesmo descendia de um tipo de Australopiteco
chamado grácil. Estes primatas antropóides serviam-se de utensílios de pedra e
osso e praticavam sem dúvida a caça organizada, mas não fazem parte (pelo menos
por enquanto) do clube Homo. Além
disso, é de sublinhar que mesmo pertencendo ao género Homo, o Homo Habilis
geralmente não é considerado parte da mesma espécie que o Homo Sapiens Sapiens.
Destes elementos de partida, pode-se
já perceber as manipulações operadas por Zerzan. Tendo em conta as numerosas
citações a que recorre nos seus artigos, não se pode considerar Zerzan um
ignorante do assunto de que fala. As omissões, ou melhor, a selecção que faz de
algumas teorias em detrimento de outras, assinalam por isso uma vontade
deliberada da sua parte. Zerzan quer traçar um quadro idílico dos inícios da
humanidade: vai então procurar os elementos que lhe permitirão desenhar este
quadro.
Ao nosso ideólogo, em primeiro lugar, interessa fazer
remontar a humanidade o mais longe possível no tempo, por uma razão concreta:
quanto mais o homem evolui para a sua forma "moderna", mais
incontestáveis se tornam os elementos que mostram a existência do que Zerzan
chama "alienação" (práticas artísticas e religiosas, linguagem
articulada, sentido do tempo e intenção, etc.). Convém-lhe, então, voltar-se
para os momentos mas arcaicos da evolução humana. Já os Neandertais (
Ele anuncia, aliás, qual será o seu
método no início de Futuro Primitivo:
depois de ter manifestado reservas legítimas sobre a ciência separada,
reconhece que o que chama com desprezo "literatura especializada", ou
seja científica, "pode não obstante fornecer uma ajuda altamente valiosa".
E quem mais nos poderia fornecer esta "ajuda" sem nos convertermos
nós mesmos em arqueólogos, isto é, em possuidores do horrível "saber separado"?
Será que Zerzan imagina que os primeiros humanos vão ressuscitar para
explicar-nos como viviam? A arqueologia é a única fonte disponível para quem
queira saber o que foi a humanidade nos seus primeiros tempos. Assim, independentemente
do que se lhe possa censurar, somos obrigados a raciocinar a partir das suas
descobertas. Ela não é uma "ajuda", mas sim tudo o que temos.
Mas para Zerzan as descobertas científicas não constituem mais
que um meio para desenvolver a sua ideologia. É por esta razão que aborda a
ciência "com o método e a vigilância apropriados" e que se declara
"decidido a franquear os limites". Decididamente, não terá nenhum embaraço
com o que o estorvar, reservar-se-á o direito a utilizar o argumento da
autoridade científica (com mais certeza que os próprios cientistas, é preciso notá-lo)
sempre que lhe for conveniente e de rejeitá-lo quando deixa de o ser. Isto é o
essencial do método de Zerzan, que se reencontra em todos os seus textos.
Trata-se de instrumentalizar a ciência, que como não é mais que uma instituição
cultural jamais pode ser objectiva e deve ser tratada como tal. Trata-se de uma
velha concepção da actividade científica posta ao serviço de uma ideologia, que
os valentes doutores Lyssenko e Mengele ilustraram brilhantemente no decorrer
do século passado.
Estabelecido o "método",
observemos os seus desenvolvimentos.
Podemos começar pelo problema da
caça: Zerzan é não violento, provavelmente vegetariano e, portanto, considera
que comer carne é imoral, já que implica matar animais, e além disso é
prejudicial para a saúde. Por outro lado, caçar é fatigante e obriga quem o faz
a organizar-se. Portanto, a recolecção deve ter sido o estado natural da
"boa" humanidade, isto é, daquela que mais se parece com o próprio
Zerzan. Resta demonstrá-lo. Ele não o demonstra, afirma-o.
Segundo ele, "admite-se agora correntemente" que a recolecção
constituía "o principal recurso alimentar". Quem admite isto, e a
partir de quê, Zerzan não o diz. E o "principal" recurso não
significa o "único" recurso. Mas isto não é grave: esta afirmação,
imersa nas considerações sobre a não divisão sexual do trabalho (Zerzan é
também feminista, claro), permite, por um simples efeito de linguagem, dar a impressão
que os primeiros humanos eram vegetarianos.
Mas vai ainda mais longe: afirma com um tal Binford "que
nenhum rastro tangível de práticas de matança de animais indica um consumo de
produtos animais até ao aparecimento, relativamente recente, de humanos anatomicamente
modernos". Eis aqui, pois, estes Neandertais sacanas, portadores de todos os
males.
No entanto, há um problema. Como
indicamos no início, o conhecimento da pré-história apoia-se na descoberta de sítios
arqueológicos. Não sei sobre que se apoia Binford para afirmar a ausência de
consumo de carne ou, mais exactamente, de "práticas de matança"
anteriores a uma data tão "recente", mas existe pelo menos um local,
entre os mas conhecidos e antigos (1.8 milhões de anos) que demonstraria o contrário:
o sítio de Olduvaï, no norte da Tanzânia, onde se descobriram entre 1953 e 1975
os restos dos primeiros Homo Habilis,
os nossos mais distantes ancestrais, portanto. Além disso, acharam-se os restos
de um elefante, misturados com mais de 200 instrumentos que tinham servido para
desmanchar carne. Poder-se-á objectar que isto não é indicativo de caça, que
pode ser uma prática necrófaga, no entanto o desmanche não deixa de ser uma
"prática açougueira". No mesmo lugar também se descobriram três
crânios da mesma espécie de antílope com a mesma fractura, resultante de um
golpe assestado com a ajuda de um calhau ou de uma maça. Isso indica sem dúvida
uma prática de abate já codificada, seguindo regras precisas, e desmente em
todo caso a tese de um consumo de carne meramente ocasional, e ainda mais a de
um vegetarianismo generalizado até ao aparecimento do homem
"moderno".
Além disso, no sítio de Vallonnet, descoberto em 1962 e fazendo-nos
remontar a 950.000 anos atrás acharam-se os restos de uma baleia encalhada numa
praia próxima, que foi arrastada até esta gruta para ser desmanchada. Os
primeiros utensílios de pedra não foram usados unicamente, como é bastante
evidente, para o "trabalho de matérias vegetais". A citação que faz o
autor na p. 38 de Futuro Primitivo de
instrumentos reservados para este uso, não é pois válida, se for exacta, a não
ser no caso particular que ele menciona, caso particular que tenta, por um
método oratório clássico, fazer passar como uma generalidade.
O nosso objectivo neste trabalho
não é o de resolver os debates sobre a pré-história: não temos os meios nem a
vontade. Observamos simplesmente que Zerzan, que não ignora de modo nenhum o
lugar de Olduvaï, já que o menciona na p. 44 de Futuro Primitivo para elogiar a beleza do machado achelense, e
conhece também o de Vallonnet, esquece-os pura e simplesmente quando trata de
evocar teses que não lhe agradam. Quando se anuncia uma tese, tanto em
arqueologia como em outras áreas, parece evidente que pelo menos se devem citar
e melhor ainda refutar as teses que poderiam contradizer aquela que se está a
propor. Zerzan ignora a contradição ou, mais exactamente, silencia-a. Não
suscitar a contradição é uma pratica normal da mentira social organizada que
Zerzan pretende denunciar. Empregando os seus métodos, ainda que com outros
fins, Zerzan torna-se parte dessa mentira.
Também se pode evocar
a questão do feminismo de Zerzan e da sua projecção no estudo da pré-história.
Para sustentar a tese da não divisão sexual do trabalho, Zerzan propõe o predomínio
da recolecção, sendo esta de maneira "natural" uma actividade não
dividida segundo os sexos. Apesar do que dissemos antes, o predomínio da recolecção
é mais ou menos certo. Simplesmente precisamos que este não constituía na
verdade a única actividade para obter alimento dos homens primitivos. Portanto,
que se pode saber sobre a divisão sexual nessa tarefa nessa época? Pode-se
extrapolar a partir dos caçadores-recolectores existentes hoje. Mas os
caçadores-recolectores actuais não são mais "primitivos" que nós
mesmos. Evidentemente, são tão sapiens
sapiens como nós. Tudo o que se pode dizer da cultura dos primeiros seres humanos
de há dois milhões de anos não será mais que extrapolações e suposições. É tão absurdo
supor que as condições sociais destes primeiros grupos não evoluíram ao longo
de dois milhões de anos como falar do "homem pré-histórico" como de
uma só e idêntica espécie, uma entidade única. E nem falemos sequer de evocar neste
quadro a "condição da mulher" pré-histórica.
Zerzan dá igualmente como
argumento, socorrendo-se desta vez de Joan Gero, que os "utensílios de
pedra poderiam ter sido tanto dos homens como das mulheres". Certo. Mas
isto não significa de modo nenhum que o tenham sido. Neste caso, o mais honesto
seria dizer que não se sabe nada. Mas a honestidade, como se viu, não é a
preocupação principal de Zerzan. Do mesmo modo, diz-nos desta vez Poirier, não
existe "nenhuma prova arqueológica para apoiar a teoria segundo a qual os
primeiros humanos teriam praticado uma divisão sexual do trabalho". O que,
para Poirier, não é mais que uma ausência de prova, para Zerzan claramente
constitui uma. O que simplesmente ressalta destas citações é que simplesmente não
podemos afirmar que tal divisão tenha existido. Também é possível que as mulheres
participassem das caçadas primitivas, e mesmo as crianças. O problema é que na
ausência de provas arqueológicas, não se pode afirmar nada. No quadro do seu
feminismo, Zerzan formula também uma teoria sobre a redução do dimorfismo
sexual e, em particular, sobre a diminuição do tamanho dos caninos nos machos.
Afirma que "o desaparecimento dos grandes caninos entre os machos reforça
em alto grau a tese segundo a qual a fêmea da espécie teria operado uma selecção
a favor dos machos sociáveis e dados a partilhar". Mas o desaparecimento
dos grandes caninos não vem "reforçar" nada semelhante, e menos ainda
"em alto grau". O desaparecimento dos grandes caninos é o resultado
de um processo, não existe para apoiar seja o que for. Vê-se dificilmente como
os jovens que tivessem os "dentes longos" seriam menos
"sociáveis e dados a partilhar" que os outros e, sobretudo, que o facto
de ser "sociável e partilhar" fizesse encolher os dentes. Muitos
primatas "sociáveis e que partilham" possuem ainda hoje os
"dentes longos". Mas isto, diz-nos Zerzan, é porque entre os primatas
a fêmea "não tem esta escolha". Um dos resultados da libertação da
mulher no Paleolítico teria sido encurtar os dentes aos jovens machos. Isto é
bastante confuso, mas revela sobretudo a concepção que tem Zerzan, feminista
americano, da "luta dos sexos", e a sua projecção desta concepção no
estudo da pré-história.
De passagem, e apesar de que o nosso objectivo não é discutir
teses arqueológicas, assinalaremos simplesmente que outra tese comummente admitida
considera que a diminuição do tamanho da dentição é devida nesta época ao
prolongamento da etapa da infância e da adolescência. A criança, ao estar
durante mais tempo sob a protecção dos adultos, o que lhe permite adquirir as
habilidades técnicas complexas que requer a indústria lítica, provê mais
tardiamente às suas necessidades alimentares, o que faz com que a sua dentição
cresça, ao longo de gerações, com mais lentidão. Esta teoria vale tanto como a
da selecção directa pelas mulheres. Mas é menos espectacular, menos feminista
e, sobretudo, tende a demonstrar que a organização social nestes tempos
distantes já tinha alcançado um grau de complexidade tal que, algo como uma
aprendizagem especializada se tinha tornado necessária. A tese folclórica da selecção
pelas mulheres está, pois, presente para mascarar o "problema" de uma
socialização complexa desde os inícios da humanidade.
Neste estádio da nossa análise do
texto de Zerzan, vê-se claramente que nem sequer remontando a humanidade aos
seus mais antigos representantes, ele consegue, e não sem motivo, demonstrar a
existência da "boa" humanidade que procura. Não a encontrando, sugere-a
por diferentes meios, de tipo basicamente retórico, e também dissimulando
informações que possui sem qualquer dúvida. Não dizemos que
tudo o que afirma seja falso. Dizemos que procura desenhar um quadro uniforme
da vida dos homens pré-históricos de uma maneira apriorística e fazendo projecções
da sua própria ideologia. Isto, que é um perigo essencial quando se estudam outras
culturas, e mais ainda no caso de culturas tão afastadas no tempo e acerca das
quais temos tão pouca informação como são as culturas paleolíticas, perigo este
que consiste em projectar a nossa própria cultura na dos outros, Zerzan erige-o
Os casos que estudamos, o da caça
e o da divisão sexual das tarefas, não são mais que detalhes da ideologia de
Zerzan.
Uma vez mais, pode-se admirar de que maneira se serve da
linguagem, que noutras ocasiões denuncia como instrumento de dominação. Mais
uma vez a hipótese transforma-se imediatamente
A única sombra de argumento que dá para sustentar esta tese
central, a tese da recusa consciente do progresso pela humanidade, é que
1) os seres humanos do paleolítico
eram tão "inteligentes" como nós e, portanto, dispunham dos meios
intelectuais para este progresso,
2) este progresso não ocorreu, durante
mas de dois milhões de anos.
É, pois, uma "evidência"
que os seres humanos recusaram este progresso.
Como se pode imaginar,
as coisas são um pouco mais complicadas que isto. Por outro lado, não é
necessário ter profundos conhecimentos no terreno da pré-história para se ver o
que tem de viciado esta "linha de raciocínio". Não se trata de que a
tese de partida seja tão absurda como isso: depois de tudo, por que não? Simplesmente
seria necessário demonstrá-la. Como se poderia demonstrar esta tese?
Simplesmente pelas descobertas arqueológicas e um raciocínio lógico a partir delas,
já que não temos nenhum outro meio para demonstrar seja o que for sobre este
período. Para poder falar de "recusa", é necessário que a pessoa (ou
o grupo) em questão tenha tido conhecimento daquilo que recusa. Só se recusa o
que se nos "propõe", o que se nos oferece. Pode-se, por exemplo,
falar do "recusa" do ofício de tecelão por parte dos operários têxteis
ingleses de 1830. Seria necessário, pois, para que se pudesse falar de recusa da
agricultura e da criação de gado, que estas práticas tivessem sido apresentadas
aos seres humanos do paleolítico, que as tivessem experimentado e depois as
tivessem recusado.
Portanto, conviria, para demonstrar esta tese, que se achasse
um sítio que demonstrasse que os seres humanos tivessem iniciado, num momento
dado da pré-história, a prática da criação de gado ou a agricultura, e
posteriormente as tivessem abandonado, para reiniciar a sua vida como caçadores-recolectores.
Neste caso, bem se poderia falar de "recusa". Mas por enquanto, tal sítio
não foi descoberto. A ter existido, Zerzan ter-se-ia apressado a assinalá-lo, e
teria tido razão. Mas não é este o caso. Efectivamente, desde que os humanos
praticaram a agricultura ou a criação de gado, jamais voltaram "atrás".
Houve casos, no início do neolítico, de seres humanos sedentários praticando também
a recolecção e a caça, mas estes grupos evoluíram rapidamente para a
agricultura em exclusivo e não destruíram, ao que sabemos, as suas casas "permanentes",
não abandonaram os seus campos nem retomaram a vida nómada.
Eis o que devia ter sido o procedimento de Zerzan: a partir
de uma hipótese inicial, buscar elementos concretos, articulados por um procedimento
lógico, que lhe permitisse confirmá-la. Pois quando nenhum elemento aparece
para demonstrá-la, uma hipótese não é mais que o que é: uma visão do espírito,
que pode ser fértil ou, pelo contrário, resultar inoperante. Por enquanto, a
hipótese de Zerzan é inoperante. Não lhe reprovamos tê-la antecipado, nem
sequer dizemos que nunca será demonstrada. Dizemos que releva duma prática
enganosa e ideológica de lançar uma hipótese como "evidente" quando
não existe o suporte de uma prova para apoiá-la.
Zerzan poderia ter
explorado também outra via para demonstrar a sua hipótese (digamos de passagem
que é bastante escandaloso que nos vejamos forçados a fazer este trabalho no
seu lugar). Há regiões, hoje ainda, onde caçadores-recolectores vagueiam, mais
ou menos próximos de agricultores sedentários. Podemos falar, por
exemplo, dos bosquímanos de África, sobre os quais alguns estudos etnológicos
revelaram que eles acham a agricultura "inútil ou esgotante". Ali
haveria uma "recusa" com conhecimento de causa. No entanto, ao que
sabemos, estes bosquímanos nunca passaram eles próprios pela agricultura, a
qual teriam rejeitado do "interior". Pode dizer-se, segundo este
ponto de vista, que antes de tudo rejeitam um modo de vida que é exterior à sua
própria cultura. É aliás notável que se os nómadas não se dirigem para os
sedentários, os sedentários jamais se dirigem para os nómadas. Que argumentos
dariam os agricultores para justificar a sua "recusa" do estado de
caçador-recolector? Zerzan diria, sem dúvida, que se acham irremediavelmente
afundados na cultura alienada e que, portanto, são incapazes de retornar à
"boa" humanidade". Talvez seja verdade, mas não temos à mão
nenhum meio para avaliar o grau de alienação de uma cultura em relação a outra,
nem pelo menos de saber se o conceito de alienação é pertinente neste caso.
O que é interessante, neste cenário, é que os grupos parecem
"estanques" uns aos outros, e que a "recusa" à renomadização
dos sedentários marca o facto de que eles "preferem" conservar a sua
própria cultura que adoptar um tipo de vida radicalmente diferente, qualquer
que seja a satisfação que individualmente lhes possa dar. A cultura sedentária,
uma vez formada, jamais é abandonada, qualquer que seja o prejuízo sofrido
pelos indivíduos que compõem esta cultura.
Além disso, Zerzan conhece o caso do contacto entre grupos
sedentários com caçadores-recolectores, já que cita o exemplo de sedentários
que buscam o auxílio de caçadores-recolectores para pedir-lhes ajuda em
períodos de penúria. No entanto, não retira daí nenhuma conclusão relativamente
à sua tese da "recusa", seja para reforçá-la ou para colocá-la
Com a passagem ao Neolítico constata-se uma verdadeira
"revolução", como se diz de forma clássica. Pode igualmente falar-se,
de maneira menos figurada, de uma gigantesca ruptura. Um modo de vida, mantido
de maneira mais ou menos estável, pelo menos nas suas grandes linhas, durante
2,5 milhões de anos, transforma-se brutalmente em outro modo de vida que,
prosseguindo a sua própria evolução, acaba por tornar-se radicalmente
diferente. Tudo isto, naturalmente, não se fez num dia, mas a rapidez de
progressão da ruptura neolítica é, comparada à "lentidão" do Paleolítico,
quase exponencial. Três ou quatro mil anos foram suficientes para a sua
generalização.
Zerzan assinala, citando Binford,
que "não se trata de saber por que a agricultura não se desenvolveu em
todo o lado, mas simplesmente por que se desenvolveu". E esta é, efectivamente,
a questão, à qual o nosso ideólogo se guarda muito bem de tentar responder. Seria
necessário para isso deixar de lado a questão puramente negativa da "recusa"
e entrar nos detalhes. Mas, como bem se sabe “o diabo esconde-se nos pormenores”,
isto é, a dúvida e as dificuldades. Seria preciso começar a falar dos factores
climáticos, da demografia, da própria estrutura das sociedades pré-neolíticas e
de um monte de assuntos não propriamente muito poéticos. É de notar, no entanto,
que a transição para o neolítico permanece bastante misteriosa no actual estado
dos conhecimentos. Como de costume, não há mais que teorias. Existe a teoria
de uma mudança climática que teria modificado profundamente o meio humano e que
forçou os seres humanos a "adaptar-se" praticando a agricultura. Pode
objectar-se a esta teoria o facto de que em 3 milhões de anos houve suficientes
mudanças climáticas deste tipo para permitir uma quinzena de revoluções
neolíticas, que não obstante não ocorreram.
Acerca das relações do homem com o seu meio, dispomos de
elementos interessantes. Desde o Achelense Médio (entre 400.000 e 300.000 anos,
na fronteira entre o Erectus e Sapiens arcaico), durante o período
glacial Riss, observa-se a mesma progressão no tamanho dos objectos (o famoso machado
achelense do qual tanto se ufana Zerzan), seja na Europa, na África ou no Próximo
Oriente. Isto significa, pois, que temos ali uma mesma cultura, que evolui,
pelo menos no seu aspecto técnico, independentemente das pressões do meio
natural. A famosa "harmonia com a natureza" fica, pois, seriamente posta
É preciso notar além disso, neste quadro, que as ideias de
Marx acerca do "domínio da natureza" que contribuíram para
fundamentar a ideologia progressista do antigo movimento operário, têm também
que ser postas em causa, mas de maneira diferente da forma como Zerzan o faz. O
domínio da natureza não está inscrito no destino das sociedades humanas. Quando
os seres humanos talham objectos, não procuram "dominar a matéria
inerte", mas produzir aquilo de que necessitam as suas sociedades. Não procuram
de imediato dominar o meio natural, que receberam tal como estava durante todo
o paleolítico, o que não significa que estivessem mais em harmonia com ele que
depois com a criação de gado e com a agricultura. Poder-se-ia afirmar, no limite,
que o "meio natural" não existe para as sociedades humanas, se não se
temesse cair numa extrapolação à Zerzan. As sociedades humanas parecem em todo
caso visar mais à sua própria conservação, à manutenção das suas próprias
estruturas, que ao domínio do meio que as rodeia. O que sucedeu no Neolítico
foi que a conservação das estruturas sociais passava pela dominação do meio
natural, dominação que comportava por sua vez a criação de novas estruturas.
Esta dominação não constituía, pois, a finalidade da humanidade (a sua
"tarefa histórica", como a do proletariado seria fazer a revolução),
mas a consequência de uma nova socialização.
Seguindo esta teoria, a passagem
ao Neolítico não constituiria, pois, nem uma adaptação aos constrangimentos do
meio, nem como parece sugeri-lo Zerzan, uma espécie de conspiração do Espírito
da Dominação contra o Espírito da Liberdade, mas uma mutação vinculada a uma
modificação da própria estrutura social. A que atribuir esta modificação? O factor
mais provável é um factor social interno mas também "natural" (mesmo
que se possa discutir seriamente o aspecto "natural" deste factor
para as sociedades humanas), isto é, o crescimento demográfico.
Sabe-se que as sociedades dos caçadores-recolectores, quando
as tensões internas ou a pressão sobre o ambiente se tornam muito fortes,
"cindem-se" para formar um novo grupo. É possível imaginar que num dado
momento a demografia, tendo se tornado suficientemente importante para permitir
esta "cisão", tenha imposto a sedentarização como a melhor solução.
Com a construção de casas "permanentes" dar-se-ia a primeira aparição
de espaços "privados", que permitiriam limitar as tensões dentro do
grupo, sem ter de recorrer à "cisão", transformada em algo
problemático.
Esta tese implica que os humanos se teriam primeiro sedentarizado
e não teriam praticado a agricultura e a criação de gado de imediato. Isto pode
sustentar-se do ponto de vista arqueológico graças aos sítios natufianos, na
região Sírio-Palestiniana, que remontam a cerca de 10.000 anos atrás, ao início
do Neolítico. Os natufianos construíam as suas casas para serem permanentes,
mas não praticavam, pelo menos no início da sua implantação, nem a agricultura
nem a criação de gado. Efectivamente, ainda recorriam basicamente à recolecção
e, em menor medida, à caça. Mas a aldeia transformou-se no seu ponto essencial
de ancoragem. Eram sempre caçadores-recolectores, mas sedentários. E já que
basicamente se alimentavam de cereais silvestres, podemos supor que é o
armazenamento deste grão num lugar fixo o que tornou possível a agricultura.
Também se pode pensar que uma aldeia com estas características devia atrair
animais de todo o tipo, dos quais alguns talvez se tenham auto-domesticado gradualmente.
Seja como for, este tipo de sítios parece confirmar a tese de
uma sedentarização iniciada pela modificação de determinadas estruturas
sociais, uma "revolução" ocasionada pelo perigo em que incorreram as
sociedades humanas que as impediu de voltar a reproduzir, tal como era, a
socialização precedente. Paradoxalmente, poder-se-ia dizer que o Neolítico
apareceu pela tentativa da sociedade paleolítica de preservar-se a si mesma. A
revolução neolítica foi de início o instrumento desta nova socialização, que iria
trazer as consequências que já se sabe. Seja como for, estamos num modelo que
vale o que vale, mas que de qualquer maneira tem a vantagem de poder ser
demonstrado, muito longe da tese da "recusa" de Zerzan.
Vamos deixar por aqui o Futuro
Primitivo para nos dedicarmos rapidamente à outra colectânea de artigos de
Zerzan, Aux sources de l' aliénation (Nas origens da alienação). A ideologia de
Zerzan está baseada essencialmente na concepção que tem dos primeiros tempos da
humanidade. Demonstramos com bastante clareza que esta concepção não é
imparcial, mas parcial, e que a tese central da "recusa" repousa no
ar. Com tudo isto que resta de Futuro
Primitivo? Pouca coisa. O que resta, mais ou menos, está exposto no livro
de M. Sahlins, Idade da Pedra, Idade de Abundância. E que se lerá com mais
proveito.
Para desmontar Futuro
Primitivo, não há necessidade de ser especialista em pré-história nem
2. Aux sources de l´aliénation (S.A.): uma mistura ideológica
Antes de
nos debruçarmos sobre o "fundo" da ideologia zerzaniana, observemos
um pouco a sua forma. O que primeiro salta à vista quando se folheiam os seus
livros é a quantidade de citações que emprega. Assim, em S.A., aparecem à volta
de 300, o que nos dá mais ou menos três citações por página. Quando se emprega
tão grande quantidade de citações é porque se é escrupuloso em extremo ou então
para deixar o leitor pasmado com a cultura que se tem, para lhe dar a impressão
que se absorveu uma massa de conhecimentos que lhe vão permitir saber mais que
ele e ter a última palavra. Todos nós já nos cruzamos com este tipo de
indivíduos, que levantam uma espécie de muro entre eles e o interlocutor, entrincheirando-se
atrás deste muro para evitar mostrar-se e para dominar o outro graças ao
instrumento cultural empregado como uma maça.
Zerzan serve-se destas citações para dar ao seu discurso, que de facto é
descosido, uma aparência científica. Além disso, serve-se dos autores que cita
como o ventríloquo faz com as suas marionetas: aparecem um instante, dizem o
que ele os faz dizer, e desaparecem. Os autores assim citados fornecem também a
vantagem da credibilidade: já que Fulano o disse, é inútil discuti-lo. Ele
nunca demonstra o que esses autores afirmam, as citações são sempre feitas fora
do contexto, e sobretudo, fora de qualquer linha de raciocínio. Zerzan não
produz nunca reflexões, nunca demonstra nada: ele exibe palavras. Como
No início do livro, quer "declarar, de entrada, uma intenção e uma
estratégia: a sociedade tecnológica não poderá ser dissolvida (e
impossibilitada de reciclar-se) senão anulando o tempo e a história". Vasto
programa, aliás. Ao ser humano não falta ambição, coisa que ninguém pensaria
recriminar-lhe. Mas, o que significa exactamente anular o tempo e a história?
Como pensa fazê-lo? Vai fazê-lo só ou com outros? E quem vão ser esses outros?
Não sabemos nada. Nem esta "intenção" nem esta "estratégia"
estão desenvolvidas na continuação do texto. É bastante decepcionante, mas ao
mesmo tempo característico da confusão do pensamento zerzaniano: diz uma coisa,
depois passa a outra, por associação de ideias, associação que o impele para
outra, e assim por diante. Este método evidentemente fá-lo andar às voltas. Ricocheteia
de citação em citação, de uma nota a outra, e no final do texto não se avançou nem
uma polegada, e por uma boa razão: tudo já lá estava, desde o início. E como
nunca põe nada em dúvida, tudo fica como estava. Pelo que sabemos, essa é a própria
definição de "reificação", conceito marxista de que faz um uso
abundante. Zerzan dá voltas na noite, e não consome senão o seu tempo, melhor faria
se o empregasse noutra coisa qualquer.
Esta
ausência de método também constitui um dos fundamentos da sua ideologia.
Trata-se de uma ideologia de recusa da lógica, como "consciência
alienada", que exprime citando Horkheimer e Adorno: "Mesmo a forma
dedutiva da ciência exprime hierarquia e coerção" (S.A. p.46). Por que
não, mas então, por quê tantas citações de origem científica? Zerzan gosta de
utilizar as descobertas da ciência quando estas o favorecem, mas recusa o
método científico, que é "muito restritivo" ou
"antinatural". E nisto é parecido a todos os outros consumidores, que
querem supermercados sem vacas loucas, a electrificação total sem os perigos do
nuclear, dois automóveis por família sem marés negras.
A lógica e a dedução são talvez instrumentos imperfeitos e, sem dúvida, impregnados
da ideologia da nossa cultura, mas, pobres de nós, é tudo o que temos à
disposição. Sem estes instrumentos, sem estes métodos, nada se teria sabido nunca
sobre as condições de vida dos primeiros seres humanos, e Zerzan teria sido
condenado a calar-se, coisa a que visivelmente aspira. Ninguém, aliás, impede que
o faça. Como todos os consumidores, Zerzan deseja "viver o presente",
no "movimento multicolorido da vida". (Tentem repetir três vezes
seguidas, sem rir, estas palavras: "o movimento multicolorido da
vida"). Este "movimento multicolorido" é antes de mais o da
sucessão de vídeo-clips na MTV. Talvez, com isso esteja a pensar num grupo de
hippies com lenços garridos escorregando por uma ladeira florida ao som da
melodia da Pequena Casa da Pradaria, para irem partir os ossos no depósito de
entulho que fica por baixo.
A
afinidade de Zerzan com a espontaneidade dos hippies é afirmada pelo mesmo na
p. 4l de S.A.: "Felizmente, igualmente, nos anos 60, algumas pessoas
começaram a desaprender como viver na história deixando de lado os relógios de
pulso, tomando drogas psicadélicas e, talvez paradoxalmente, com este slogan conciso
lançado pelos insurgentes franceses do Maio 1968: " Rapidamente!"
(Vite!)
É necessário lembrar a introdução, pelos serviços secretos americanos, das
drogas psicadélicas nos campus americanos? Será preciso trazer à memória a
catástrofe que foram estes famosos "movimentos juvenis" dos anos 60,
que não tiveram outro efeito que o de formar uma nova classe especializada de
consumidores e abrir desta maneira novos mercados ao post-fordismo, sustentando
com estabilidade a sociedade no seu embrutecimento? E este " Rapidamente!"
do 68, que é senão o anúncio da débil impaciência dos consumidores de fast-food, de vídeo-clips e de pensamento pré-digerido com molho Zerzan?
Zerzan quereria fazer crer que estamos alienados pelo império da razão. E efectivamente,
o mundo capitalista está dominado pela lógica da economia e, de maneira mais
concreta, pela necessidade vital, para este mundo, da extracção sempre
crescente de mais-valia. Mas esta racionalidade dominante constrói-se sobre um
mundo de indivíduos cada vez mas privados dos instrumentos da razão, sobre o
empobrecimento da linguagem a favor do seu sucedâneo mediático e sobre o analfabetismo
que se desenvolve sob todas as formas. A sociedade capitalista empobrece-nos
não só de maneira material, tanto pela abundância falsificada como pela carência
pura e simples, mas também intelectualmente. Aquilo que Debord chamava "a
perda de toda linguagem adequado aos factos" é um dos aspectos da miséria
capitalista, e um dos aspectos que melhor estabelece a sua dominação. Deve-se
lutar contra este empobrecimento. Zerzan reivindica mais pobreza mental ainda.
Ele mesmo dá o exemplo através dos seus textos, miseráveis picadinhos de outros
anteriores, verdadeiros "zappings" do pensamento. O
"pensamento" de Zerzan é um puro produto da alienação contemporânea.
3. O comunismo não pode ser "primitivo"
A ideologia de Zerzan não é mais que a enésima aparição de um antigo romantismo
primitivista, que remonta a Rousseau e, mesmo, antes de ele, a Montaigne (cf.
Essais; Des Cannibales). Baseia-se no postulado que afirma que a nossa cultura
seria "má", já que teria perdido o "contacto com a
natureza" que constituiria a "autenticidade" das culturas
primitivas ("Os Otênticos são flores que brotam nos livros", tal como
Pagnol faz dizer ao pobre Ugolin)[1].
Esta atitude é a de um colonialismo invertido, que faz da nossa cultura a única
cultura "verdadeira", isto é, o mal encarnado.
Vimos antes que, desde o início, a humanidade não se "libertou dos
constrangimentos do meio natural", como diria uma concepção marxiano-utilitarista
das sociedades, mas desenvolveu-se independentemente dele. O que não significa
que os homens vivam sem laços com o seu ambiente, o que seria absurdo, mas são
as estruturas simbólicas das sociedades humanas as que condicionam a relação
deles com o meio natural e não o inverso. Não se pode, portanto, falar de
"proximidade" ou de "afastamento" em relação à natureza em
nenhum momento da história humana, mas apenas de diversos tipos de relações com
o meio, relações que são elas mesmo uma consequência do tipo de relações que os
seres humanos mantêm no seio das suas sociedades, do seu modo de vida no
sentido mais lato do termo.
Apresentar a vida dos caçadores-recolectores como mais "natural" que
a dos sedentários não tem nenhum sentido. O simples facto de que os caçadores-recolectores
tenham tido uma vida mas fácil, com mais "tempo livre" e mais sociabilidade
"gratuita" que os sedentários, não constitui em si um argumento. Aliás,
existem sociedades sedentárias que praticam a agricultura e dispõem de um
"tempo livre" muito comparável ao dos caçadores-recolectores,
praticando a subexploração e mantendo uma baixa densidade de população. Podemos
mencionar os Chimbu da Nova Guiné, que exploram somente 60% das terras
cultiváveis; os Yagaw das Filipinas ou os Iban de Bornéu, que mantêm a sua
população entre 30 e 40% abaixo da densidade que lhes permitiria uma
agricultura mais intensa. Nestas culturas, podemos observar "jornadas de
trabalho" muito curtas, 4 ou 5 horas, seguidas geralmente de vários dias
de descanso. Entre os Papus Kapauku, os homens consagram em média 2h. 18 min.
por dia à produção agrícola, e as mulheres 1 h. 42min. Há outros exemplos, mas
seria fastidioso citá-los a todos.
A
agricultura, contrariamente às equações simplistas do tipo agricultura/criação
de gado = domesticação da natureza = dominação social, não é portanto portadora
do "mal absoluto" que Zerzan quereria detectar.
Sem dúvida existirão também pessoas obcecadas pela investigação do Mal que
quererão ir encontrá-lo no armazenamento (manifestação da "consciência do
tempo e do número", segundo Zerzan), considerado por eles como a prefiguração
da acumulação capitalista e porta de entrada na vida humana do pecado da
avareza. Mas, azar, verificamos que muitos caçadores-recolectores também praticavam
a acumulação como facilmente se pode imaginar. A não ser que se tomem os
primitivos por imbecis, é difícil imaginar que se contentavam em recolher o que
achavam, satisfazendo a sua fome imediata para se deitarem logo a seguir beatificamente
à sombra da Árvore da Abundância. Bolotas, nozes, e outras castanhas silvestres
serão recolhidas pelos caçadores-recolectores em cestos e postas a secar (a
aparição tardia da cerâmica não significa que não se conhecessem anteriormente
outros tipos de recipientes, mas não dispomos de vestígios destes recipientes entrançados,
feitos de materiais perecíveis), tendo em vista um consumo posterior. A noção
zerzaniana do "presente perpétuo" recebe um golpe, já que tudo isto
significa uma antecipação a longo prazo das necessidades e a implementação de
uma estratégia para as satisfazer.
Seja lá o que isso for, o Mal absoluto não se acha nem no armazenamento, nem na
agricultura, nem nas formas de organização mais ou menos complexas ou "abstractas"
(que há mais complexo e "abstracto" que os sistemas de linhagem
transversal de parentesco em algumas culturas "primitivas"?), e ainda
menos na consciência do tempo, na matemática ou na linguagem. De facto, não há
"mal absoluto". Paremos um pouco de fazer moral.
Zerzan é um feroz inimigo de qualquer organização. Para ele, toda a acção concertada
e orientada para um fim preciso comporta forçosamente alienação. Vê feiticeiros
em todo o lado. O que o incomoda nas sociedades modernas é, basicamente, esta
organização. Que no presente seja alienada, disso não há dúvida. Mas, devemos por
isso subscrever este anarquismo bruto, que vê em todo ajuntamento de mais de
três pessoas um factor de dominação ou alienação?
Zerzan
fala de uma "sociedade do face a face", de uma "sociedade de
amantes". Nisso está com T. Kaczynski, conhecido como Unabomber, que no
seu Manifesto declara que "o indivíduo" se sente frustrado naquilo a
que chama a sua "auto-realização" logo que as decisões colectivas são
tomadas por um grupo demasiado grande para que o papel de cada elemento tenha
algum significado". Zerzan sonha com os caçadores-recolectores, Kaczynski
com os conquistadores do Oeste. Em ambos casos, pequenos grupos isolados, com
taxas de população muito fracas.
Esta ideologia assinala um desejo muito característico do individualismo de
massa: o desejo de auto-valorização, o desejo de ser reconhecido pelos outros.
Este desejo evidencia uma privação muito real, mas, como produto da alienação
que é, exprime-se na sua linguagem. É o ser humano separado quem fala assim,
pois na sua separação tudo o que lhe resta é sua própria solidão, aquilo que
Kaczynski chama a sua "individualidade". Privados como estamos de
toda acção colectiva consciente, nem sequer conseguimos imaginar que uma tal acção
seja possível.
Pelo contrário, é necessário afirmar que esse tipo de acção é possível, e que o
é porque no ponto em que hoje nos encontramos é necessária. A sociedade do
"face a face", a sociedade dos "pequenos grupos", são
produtos do individualismo magoado, do “vegetal” isolado que quer existir
"por e para si mesmo", apenas com mais alguns amigalhaços. Os
problemas que coloca hoje o capitalismo, e que este não resolverá, já que só
nós, como comunidade humana, somos capazes de resolver, não se solucionarão ao
nível do "pequeno grupo". Quando, por exemplo, a revolução tiver sido
realizada (coisa que, bem entendido, não pode demorar) ocupar-nos-emos de
reflorestar inteligentemente os milhões de hectares devastados pela agricultura
industrial e isto não será possível pela acção de "pequenos grupos
isolados". E se, enquanto indivíduo, tiver a felicidade de participar
desta acção colectiva, não me preocuparei muito em gravar o meu nome em cada árvore
que tenha plantado e que, em todo o caso, jamais verei na sua maturidade. E não
me sentirei menos indivíduo por causa disso.
O que Zerzan e Kaczynski sugerem é a muito democrática ideia segundo a qual a
organização dos grupos humanos por si mesmos seria impossível devido ao nível populacional
hoje alcançado. Como todos os democratas, não concebem de modo algum que uma
sociedade integrada por milhões de indivíduos possa ser
"administrada" de uma forma diferente da actual, isto é, pelos
Estados, por delegação, pelo controle policial.
Não
concebem a comunidade humana como superação das condições actuais nem das
situações do passado, mas como uma regressão para este passado. E o seu
pensamento, que se acha revolucionário, constitui efectivamente uma regressão.
Mas o objectivo deste texto não é propor uma nova teoria da revolução.
Simplesmente propusemo-nos fazer uma crítica do ideólogo Zerzan, e achamos que está
feita. Também nos propusemos abrir um debate sobre bases concretas. Eis as
bases, o debate pode começar.
[1] Nota do tradutor: (Les lotantiques c’est des fleurs qui poussent dans les livres). Frase de uma peça de Pagnol usada quando se ironiza sobre autenticidade devido ao jogo de palavras entre lotantique e l’authentique (o autêntico), que em francês se pronunciam da mesma maneira.