(Nota Biográfica traducida de Troploin http://troploin0.free.fr/biblio/biograph/
)
A Terceira Internacional deveria ser a associação do
proletariado revolucionário de todos os países em luta contra a ditadura do
capitalismo, contra o Estado burguês, pelo poder da humanidade trabalhadora,
pelo comunismo. O ter sua origem num país onde os operários já conquistaram
este poder mediante grandes esforços, ajudou a Terceira Internacional a ganhar
as simpatias do proletariado mundial. O entusiasmo por esta nova associação
mundial dos explorados é acompanhado pelo entusiasmo pela Rússia soviética e
pelo incomparável e heróico combate do proletariado russo. Mas a nova estrutura
da Terceira Internacional não tem nem teve ainda o tempo nem a oportunidade de
conseguir resultados morais como organização.
A Terceira Internacional pode ser e será uma força
moral se representar a expressão da vontade do proletariado revolucionário do
mundo, e então será indestrutível e insubstituível como Internacional da classe
proletária
Se a Terceira Internacional fosse realmente a
associação do proletariado revolucionário do mundo, este teria então o
sentimento de pertencer a ela, independentemente das formalidades da admissão.
Mas se a Terceira Internacional se apresenta como o instrumento do poder
central de um país particular, então conterá em si mesma a semente da morte e
será um obstáculo para a revolução mundial.
A revolução é uma questão do proletariado enquanto
classe; a revolução social não é uma questão de partido.
Convém sermos mais precisos ainda:
A Rússia soviética perecerá sem a ajuda de todos os
combatentes revolucionários. Todos os operários com consciência de classe (e os
sindicalistas[1], por exemplo, também fazem parte
desta categoria incondicionalmente!) estão prontos a acudir de forma activa em
seu socorro. A Terceira Internacional actuaria duma maneira criminosa e
contra-revolucionária se, em interesse de um partido, fizesse algo que pudesse
extinguir o fogo sagrado da solidariedade fraternal que arde nos corações de
todos os proletários pela Rússia soviética (e não ainda pela Terceira
Internacional como organização separada!).
É tão difícil de entender isto? É uma tolice, camarada Lenine,
que nós lhe gritemos: não somos nós que neste momento necessitamos da Terceira
Internacional, mas a Terceira Internacional que necessita de nós?
Lenine pensa, com efeito, que é uma tolice. Na obra
que acaba de lançar contra o proletariado revolucionário, O esquerdismo, doença infantil do comunismo, Lenine pensa que a
Terceira Internacional deve regular-se pelos estatutos do Partido Comunista
Russo (Bolchevique) e que o proletariado revolucionário de todos os países deve
submeter-se à autoridade da “Terceira Internacional” e, portanto, às tácticas
dos Bolcheviques. Os Bolcheviques deveriam determinar as armas que o
proletariado combatente do resto do mundo deve utilizar. E só aqueles
proletários que obedeçam incondicionalmente serão escolhidos para pertencer a
esta associação mundial. Nos Princípios do Segundo Congresso da Terceira
Internacional, Lenine formulou este postulado de um modo ainda mais claro: não
só deu instruções gerais, mas também todos os detalhes de táctica, de
organização, e inclusive prescreveu o nome que deveriam assumir os partidos em
todos os países. E para rematar:
“Todas as decisões dos congressos da Internacional Comunista,
assim como de seu Comité Executivo, são vinculativas a todos os partidos
filiados à Internacional Comunista.”
Mesmo sendo metódico, é ainda assim uma loucura!
Num país tão pequeno como a Alemanha, temos a experiência
repetida, a mais recente em Março de 1920[2], do facto de que uma táctica que conduz à vitória, por exemplo, no
Ruhr, era impossível em outra parte; que a greve geral dos operários
industriais na Alemanha Central era uma piada para a Vogtland, onde o
proletariado foi condenado ao desemprego desde Novembro de 1918. E deveria ser
Moscovo o Estado-Maior supremo para nós e para todos os outros países?
O que nos atrai para a Terceira Internacional é o
objectivo compartilhado da revolução mundial: a ditadura do proletariado, o
comunismo. A Terceira Internacional deve estar ao lado dos proletários
combatentes de todos os países, instruindo-os acerca das diversas situações e
tipos de guerra civil revolucionária. Os combatentes seriam burros em vez de
combatentes se não quisessem ter nada que ver com a tarefa de examinar as armas
usadas pelos companheiros que lutam aqui e em outros lugares. Mas seriam
cordeiros se se deixassem arrastar por caminhos que reconheceram há muito como
impraticáveis para eles e que por conseguinte abandonaram.
O ataque de Lenine contra nós é, na sua tendência e nos seus
detalhes, simplesmente monstruoso. Seu texto é superficial. Não corresponde aos
factos. É injusto. Só na sua fraseologia mostra alguma dureza. Do rigor do
Lenine pensador, que geralmente se manifestava nas suas polémicas, não há nem
um rastro.
Que pretende Lenine? Ele quer dizer ao Partido dos
Operários Comunistas da Alemanha (KAPD[3]) e ao proletariado revolucionário
de todos os outros países, que são imbecis, idiotas, e, pior ainda, que não se
ajoelham docilmente perante a sabedoria dos bonzos, já que não se deixam
dirigir de um modo extremamente centralizado por Moscovo (através de seus intermediários,
Radek e Levi). Quando a vanguarda revolucionária da Alemanha rejeitou a
participação nos parlamentos burgueses, quando esta vanguarda começou a demolir
as instituições sindicais reaccionárias, quando virou as costas aos partidos
políticos de chefes, de acordo com a palavra de ordem “a emancipação dos trabalhadores
só pode ser a obra dos próprios trabalhadores”, então esta vanguarda estava constituída
por imbecis, e caiu no “infantilismo de esquerda”, por isso teve que ser-lhe
negado o direito de filiar-se à Terceira Internacional (tal foi o resultado do
folheto de Lenine). Só quando os operários do KAPD retornem, como pecadores
arrependidos, à Liga Espártaco[4], a única fonte de salvação, se lhes
permitirá filiar-se à Terceira Internacional. Assim é como são as coisas: de
volta ao parlamentarismo! Entremos nos sindicatos de Legien[5]! Adiram ao KPD, esse partido de
chefes nas suas convulsões de morte! É isto o que Lenine grita ao proletariado
alemão consciente!
Como disse antes: um livro monstruoso! Também devo
chamar a atenção para a inutilidade dos argumentos dos anos 1880, os quais
Lenine desempoeira para persuadir os esquerdistas alemães de que ele sabe
empregar as aspas contra eles[6]. Todas as suas explicações acerca
do centralismo e do parlamentarismo estão ao nível do USPD. E o que Lenine
escreve a favor do trabalho nos sindicatos é tão extraordinariamente
oportunista que os bonzos dos sindicatos se dedicaram urgentemente a reproduzir
e distribuir como volante esta secção do trabalho de Lenine!
A polémica que Lenine dirige contra o KAPD é
escandalosamente superficial e imperdoavelmente inepta. Por exemplo, numa
passagem, diz:
“Em primeiro lugar, os comunistas "de esquerda"
alemães, como se sabe, já em Janeiro de 1919 consideravam o parlamentarismo
como "politicamente caduco", contra a opinião de dirigentes políticos
tão eminentes como Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Como é sabido, os
"esquerdistas" se equivocaram. Este facto basta para destruir de
repente e radicalmente a tese segundo a qual o parlamentarismo "caducou
politicamente".”
Isto é o que o lógico Lenine escreve! De que modo, por
favor diga-me, é "claro" que estivemos equivocados? Talvez no facto
de que, na Assembleia Constituinte nacional, Levi e Zetkin não se sentaram ao
lado dos seguidores de Crispien[7]? Talvez no facto de que este duo
comunista se encontra agora sentado no Reichstag? Como pode Lenine, tão
estupidamente e sem oferecer a sombra de uma prova, escrever que nosso “erro” é
óbvio e depois acrescentar a afirmação que “este facto basta para destruir a
tese,” etc? Absurdo! Também é absurdo o modo como Lenine responde
afirmativamente à pergunta, “devemos participar nos parlamentos burgueses?”:
“A crítica -- a mais violenta, mais implacável, mais
intransigente -- deve dirigir-se não contra o parlamentarismo ou a acção
parlamentar, mas contra os chefes que não sabem -- e mais ainda contra os que
não querem -- utilizar as eleições parlamentares e a tribuna parlamentar de
maneira revolucionária, de maneira comunista.”
É Lenine quem escreve isto! Lenine de repente quer
“utilizar a democracia”, um método com o qual já tinha ajustado contas
chamando-lhe “a demanda dos renegados” (no
Estado e a Revolução, no Renegado
Kautsky… e
O proletariado revolucionário da Alemanha
distanciou-se “do parlamentarismo venal e corrupto da sociedade burguesa”,
aquele “sistema de ilusão e engano”. Este proletariado reconheceu totalmente o
grito de guerra: “todo o poder aos conselhos!”. Acabou por entender que não
pode "utilizar" o parlamento burguês. Reconheceu os sindicatos como
instituições que necessariamente conduzem a uma comunidade do trabalho entre exploradores e explorados, e por esta
razão apenas, à sabotagem da luta de classes, e é de pouca importância se os
seus membros deveriam criticar isto ou aquilo. O proletariado revolucionário da
Alemanha teve que expiar a sua submissão aos chefes com hecatombes de cadáveres
de operários. O infame Comité Central da Liga Espártaco destruiu essa ilusão. O
proletariado definitivamente já está farto de tudo isso!
E agora Lenine vem e trata de fazer-nos esquecer as
amargas lições da revolução alemã assim como as lições que ele mesmo ensinou?
Está tratando de fazer-nos esquecer que Marx ensinou que não são os indivíduos
os responsáveis? E que é contra o parlamentarismo
que é preciso lutar e não contra os parlamentares
individuais!
Vários meses passaram desde que os
"comunistas" tomaram os seus assentos no Reichstag. Leiam as minutas
das sessões parlamentares, agora que Levi-Zetkin “utilizaram” esta tribuna “de
maneira revolucionária, de maneira comunista” (na verdade, somente verborreia
jornalística sem sentido)! Você leu as minutas, camarada Lenine. Onde está a
sua “mais violenta, mais implacável, mais intransigente” crítica? Está
satisfeito com eles? . . .
É fácil de demonstrar: o KAPD utilizou com maior
efectividade a ‘luta eleitoral', no sentido de levar a cabo a agitação
revolucionária, e foi capaz de utilizá-la mais efectivamente do que os
comunistas parlamentares precisamente porque não tem nenhum ‘candidato' que persiga
a vitória eleitoral. O KAPD desmascarou a trapaça parlamentar e levou as ideias
dos conselhos às aldeias mais remotas. Mas os caçadores de votos confirmaram,
durante os poucos meses da sua actividade no parlamento, que tínhamos razão ao
ser anti-parlamentares. Camarada Lenine, nunca lhe ocorreu a ideia, uma ideia
Leninista, que num país com 40 anos de tolice parlamentar social-democrata (esse
partido também quis, no início, "utilizar" aquela tribuna unicamente
para a propaganda!), é um acto totalmente reaccionário entrar no parlamento?
Não entende que num país caracterizado pelo cretinismo parlamentar, o
parlamentarismo só pode ser estigmatizado por meio do boicote? Não há
estigmatização mais violenta, nenhuma que penetre mais profundamente na
consciência dos operários! Um parlamento desmascarado por um boicote realizado
por proletários nunca seria capaz de enganar aos proletários. Mas um discurso
‘programático' correcto, que Clara Zetkin entrega com a aprovação dos jornais
burgueses e social-democratas, e do qual a imprensa selecciona o que lhe parece
conveniente, tal discurso engendra respeito no parlamento burguês! Se os chefes
do USPD não tivessem ido à Assembleia Constituinte, a consciência dos
proletários alemães estaria muito mais desenvolvida hoje em dia.
Lenine favorece “a centralização mais estrita” e “uma
disciplina férrea”. Ele quer que a Terceira Internacional apoie as suas
opiniões e que expulse todos aqueles que, como o KAPD, se opõem criticamente à
liderança omnipotente.
Lenine quer que uma autoridade de estilo militar prevaleça
nos partidos de cada país.
As instruções do Primeiro Congresso da Terceira
Internacional tinham um sabor algo diferente! Naquelas instruções, dirigidas
contra os Independentes[8] cujo espírito de luta era incerto,
recomendava:
“. . .separar os elementos revolucionários do ‘Centro', algo
que só pode ser conseguido mediante a crítica resoluta e impiedosa dos líderes
do ‘Centro'.”
Aí também dizia:
“Por outro lado, é necessário realizar um bloco com aqueles
elementos do movimento operário revolucionário que, mesmo que não tenham
pertencido antes ao partido socialista, ficam agora totalmente no terreno da
ditadura proletária sob sua forma soviética, ou seja, antes de mais os
elementos sindicalistas do movimento operário.”
Mas agora prevalece uma táctica diferente. Por outro
lado, o lema é: Abaixo os sindicalistas! Abaixo os ‘idiotas' que não se
submetem aos bonzos! O Comité Executivo está no comando, e as suas ordens são a
lei.
Lenine pensou que poderia citar Karl Liebknecht contra
"os Esquerdistas". Eu citarei Karl Liebknecht contra Lenine:
“O círculo vicioso no qual funcionam as grandes
organizações centralizadas, providas de funcionários a soldo bastante bem pagos
tendo em conta o meio sócia do qual provêm, consiste não só no facto de que
estas organizações criam, com esta burocracia profissional, uma camada social
directamente hostil aos interesses revolucionários do proletariado, mas também
no facto de que conferem o poder a um líder, que facilmente se transforma em
tirano e é eleito dentre aqueles que têm um violento interesse em opor-se à
política revolucionária do proletariado, enquanto a independência, a vontade, a
iniciativa e a acção autónoma intelectual e moral das massas são reprimidas ou
completamente eliminadas. Os parlamentares a soldo também pertencem a esta
burocracia.”
“Há só um remédio, no plano organizativo, para este mal: a
supressão da burocracia remunerada ou a sua exclusão de toda a tomada de
decisões, e a limitação da sua actividade ao trabalho administrativo técnico. A
proibição da reeleição de todos os funcionários depois de um certo tempo de
mandato, que será estabelecido de acordo com os proletários disponíveis que entretanto
se tenham tornado especialistas na administração técnica; a possibilidade de
revogar os seus mandatos em qualquer momento; a limitação do escopo de cada
cargo; descentralização; a consulta de todos os membros sobre questões
importantes (veto ou referendo). Na eleição de funcionários deve-se dar a maior
importância às provas que eles ofereçam sobre sua determinação e preparação na
acção revolucionária, do seu espírito de luta revolucionário, do seu espírito
de sacrifício ilimitado no compromisso activo de sua existência. A educação das
massas e de cada indivíduo na autonomia intelectual e moral, na sua capacidade
para questionar a autoridade, na sua própria auto-iniciativa resoluta, na
irrestrita preparação e capacidade para a acção, constitui em geral a única
base para garantir o desenvolvimento de um movimento de operários correspondente
às suas tarefas históricas, e também contém as condições essenciais para
extirpar os perigos da burocracia.”
“Toda a forma de organização que obstrua a educação
num espírito revolucionário internacional, a capacidade autónoma para a acção e
a iniciativa das massas revolucionárias, deve ser rejeitada. . . . Nenhum obstáculo para a livre
iniciativa. A tarefa educativa mais urgentemente necessária na Alemanha, um
país de obediência cega e passiva das massas, é favorecer esta iniciativa entre
as massas; e este problema deve ser resolvido ainda que correndo o risco de
expor-se ao perigo de que, momentaneamente, toda a ‘disciplina' e todas as
‘organizações sólidas' vão pelo cano (!). Deve dar-se ao indivíduo uma margem
de liberdade muito maior do que a que lhe foi atribuída até ao presente pela
tradição na Alemanha. Nenhuma importância em absoluto deve ser concedida à
profissão de fé
Sei que Lenine não se transformou num ‘renegado' ou
num social-democrata, mesmo que O
esquerdismo. . . tenha um efeito puramente social-democrata (os chefes
alemães diziam quase exactamente as mesmas coisas em 1878). Como, então, pode
explicar-se a publicação deste texto contra a revolução mundial?
Os monárquicos têm o costume, com o fim de perdoar as
estupidezes (ou os crimes) de seus monarcas, de alegar sempre que suas
majestades foram “mal informadas”. Os revolucionários não podem (não têm
direito a) esgrimir tal desculpa. Somos bem conscientes, certamente, que Karl
Radek e a Liga Espártaco, com o fim de distrair a atenção de Lenine das causas
do seu fracasso político, lhes mentiram propositadamente sobre a situação e o
proletariado revolucionário na Alemanha. A carta insolente dirigida por Karl
Radek aos membros do KAPD é uma amostra de como foram apresentadas as coisas ao
camarada Lenine. Mas isto de modo algum desculpa Lenine! Em todo caso, tal
desculpa é inútil: o facto é que Lenine, com o seu estúpido folheto, complicou
a luta do proletariado revolucionário na Alemanha, mesmo que ele não tenha
abolido essa luta.
É verdade que Lenine foi desavergonhadamente enganado
sobre a questão da Liga Espártaco e do KAPD, mas no entanto ele deveria ter
dito que é um sério erro identificar a situação alemã com a situação russa.
Lenine era absolutamente capaz, apesar de Radek, de ver a diferença entre os
sindicatos alemães, que sempre tinham tido uma existência contra-revolucionária,
e os sindicatos russos. Lenine sabia perfeitamente bem que os revolucionários
russos não tiveram que lutar contra o cretinismo parlamentar porque o
parlamento não tinha nem tradição nem nenhum crédito entre o proletariado
russo. Lenine sabia (ou deveria ter sabido) que na Alemanha os líderes do
partido e dos sindicatos necessariamente provocaram o 4 de Agosto de 1914[9] "utilizando" o
parlamento! Que o carácter autoritário e militarista do partido, acompanhado
pela obediência cega, tinha sufocado as forças revolucionárias no movimento
operário alemão durante décadas. Lenine deveria ter considerado todas estas
coisas antes de empreender a sua batalha contra os “Esquerdistas”. Se ele
tivesse feito isto, um sentido de responsabilidade o teria impedido de escrever
este folheto imperdoável.
Para convencer o proletariado mundial de que O esquerdismo… indica o caminho correcto
para a revolução em cada país, Lenine apresenta o caminho que os Bolcheviques
seguiram e que conduziu á sua vitória, porque era (e é) o caminho correcto.
Aqui também, Lenine se encontra numa posição completamente
insustentável. Quando ele cita a vitória dos Bolcheviques como a prova de que o
seu partido tinha agido "correctamente" durante os quinze anos da sua
existência, está alucinando! A vitória dos Bolcheviques em Novembro de 1917 não
se deveu unicamente à força revolucionária do partido! Os Bolcheviques
assumiram o poder e conseguiram a vitória graças ao lema pacifista-burguês de
"Paz"! Só este lema derrotou os Nacional-Mencheviques, e permitiu que
os Bolcheviques conquistassem o exército para o seu lado!
Por isso, não é a sua vitória por si mesma o que pode
convencer-nos de que os Bolcheviques agiram "correctamente" no
sentido de manter a firmeza do seus princípios. Mas sim, o facto de que saibam
defender esta vitória agora, depois de quase três anos!
Mas - e esta é uma pergunta colocada pelos “Esquerdistas” – será
que os Bolcheviques sempre dirigiram a sua ditadura de partido da maneira que
Lenine em O esquerdismo… requer que o
proletariado revolucionário da Alemanha dirija o seu partido? Ou a situação dos
Bolcheviques foi tal que eles não necessitaram de cumprir com a “condição” de
Lenine, que requer que o partido revolucionário “seja capaz de misturar-se com,
confraternizar com e, se assim o deseja, até certo ponto unir-se com as massas
mais amplas dos operários, principalmente com as massas proletárias, e também
com as massas não proletárias” (O
esquerdismo…).
Até agora, os Bolcheviques foram capazes de pôr em prática, e
só tiveram sucesso em pôr em prática uma só coisa: a estrita disciplina militar
do partido, a ditadura "férrea" do centralismo de partido. Mas foram
capazes de “misturar-se com, confraternizar com, e, se assim [eles] o deseja[m],
até certo ponto unir-se” com “as massas mais amplas” das quais fala Lenine?
As tácticas empregadas pelos camaradas russos são uma questão
que só a eles diz respeito. Protestamos, e tivemos que tratar o senhor Kautsky
como contra-revolucionário, quando ele se permitiu difamar as tácticas dos
Bolcheviques. Devemos deixar aos camaradas russos a questão da sua eleição de
armas. Mas sabemos uma coisa: na Alemanha, uma ditadura de partido é
impossível; na Alemanha, só uma ditadura de classe, a ditadura dos conselhos
operários revolucionários, é capaz de alcançar a vitória (e será vitoriosa!), e
(o que é mais importante) será capaz de defender sua vitória.
Eu poderia escrever agora, seguindo a receita de Lenine em O esquerdismo…, que isto “está claro”, e
depois mudar de tema. Mas nós não necessitamos de fugir à questão.
O proletariado alemão está organizado em diferentes partidos
políticos que são partidos de chefes com características claramente
autoritárias. Os sindicatos reaccionários, controlados pela burocracia sindical
devido à natureza estritamente centralizada de suas estruturas, estão a favor
da “democracia” e da recuperação do mundo capitalista, sem o qual eles não poderiam
existir. Uma ditadura de partido nesta Alemanha significa operários contra
operários (a era Noske [10]começou com a ditadura de partido do SPD!). Uma ditadura de partido
do KPD-Liga Espártaco (e Lenine não propõe nenhuma outra!) teria que ser
imposta contra os operários do USPD, os operários do SPD, os sindicatos, os
sindicalistas, e as Organizações de Fábrica, assim como contra a burguesia.
Karl Liebknecht nunca aspirou a tal ditadura de partido com a Liga Espártaco,
como o demonstra o conjunto de sua obra revolucionária (e como se demonstra nas
passagens que citei antes).
É indiscutível que todos os operários (inclusive os operários
que seguem cegamente Legien e Scheidemann!) devem ser partidários da nova ordem
comunista, para que a suas divisões internas não impossibilitem a repressão da
burguesia. Devemos esperar o julgamento final, quando todos os proletários, ou
só uns milhões deles, sejam membros do KPD (o qual está hoje composto somente de
um punhado de empregados e um pequeno número de gente de boa fé)? Talvez a
Terceira Internacional seja o incentivo que obrigará os operários
revolucionários a entrar no KPD (como Karl Radek e o Sr. Levi imaginaram)? Pode
o egoísmo de seus líderes permanecer ignorante do facto de que, neste preciso
momento, a maioria dos operários industriais e o proletariado rural estão
maduros e prontos a ser ganhos para a causa duma ditadura de classe?
Necessitamos um lema para convocar o proletariado alemão a
unir-se. Temo-lo: “todo o poder aos conselhos operários!”. Necessitamos um
lugar de recrutamento onde todos os operários com consciência de classe possam
encontrar-se sem a interferência dos bonzos dos partidos. Temo-lo: é o lugar de
trabalho. O lugar de trabalho, a célula reprodutora da nova comunidade, é
também a base para o recrutamento. Para a realização vitoriosa da revolução
proletária na Alemanha, não necessitamos de bonzos, mas de proletários
conscientes. Aqueles que actualmente se chamam sindicalistas ou independentes,
compartilham connosco o objectivo de destruir o Estado capitalista e realizar a
comunidade humana comunista e portanto eles são parte de nós, e “misturar-nos-emos,
confraternizaremos e nos uniremos” com eles nas Organizações de Fábrica
revolucionárias!
O Partido Operário Comunista não é, portanto, um partido no
mau sentido da palavra, porque não é um fim em sim mesmo! Faz propaganda pela
ditadura no seu sentido da palavra, porque esta ditadura não é um fim em sim
mesmo! Faz propaganda pela ditadura do proletariado, pelo comunismo. Treina os
seus combatentes nas Organizações de Fábrica, onde estão concentradas todas as
forças que abolirão o capitalismo, estabelecerão o poder dos conselhos e
permitirão a construção da nova economia comunista. As Organizações de Fábrica
confluem na União. As Organizações de Fábrica saberão garantir o domínio do
proletariado enquanto classe contra todas as manipulações dos chefes de partido,
contra todos os traidores. Só o poder da classe proporciona uma fundação ampla
e firme (como o demonstra o capitalismo)!
O Partido Operário Comunista da Alemanha teve que suportar O esquerdismo… de Lenine, as maldições
de Radek, e as calúnias da Liga Espártaco e todos os partidos de chefes, porque
está lutando pelo domínio de classe do proletariado, porque compartilha as
opiniões de Karl Liebknecht acerca do centralismo. O KAPD sobreviverá bastante
bem a O esquerdismo… e ao resto. E,
mesmo que Karl Radek não o entenda, e mesmo que Lenine escreva um folheto
contra nós (e contra ele): a revolução proletária na Alemanha tomará caminhos
diferentes daqueles que tomou na Rússia. Quando Lenine nos trata de
"imbecis" não somos nós, mas ele mesmo quem é visado, já que nesta questão
nós somos os Leninistas. Sabemos isto: ainda que congressos nacionais ou
internacionais prescrevam os mais detalhados itinerários para a revolução
mundial, esta seguirá no entanto o curso imposto pela história! Inclusive se o
Segundo Congresso da Terceira Internacional pronuncia uma sentença condenando o
KAPD a favor de um partido de chefes, os comunistas revolucionários da Alemanha
saberão lidar facilmente com isso e não gemerão como os bonzos do USPD. Somos
parte da Terceira Internacional, porque a Terceira Internacional não é Moscovo,
não é Lenine, não é Radek, é o proletariado mundial que luta pela sua libertação!
(Die Aktion)
[1] Por sindicalista não se deve entender neste texto o membro dum sindicato mas o partidário do Sindicalismo, corrente política que advoga a tomada do poder e a gestão da sociedade pelos trabalhadores organizados em sindicatos. (Nota de Velha Toupeira)
[2] Refere-se à reacção operária, que se traduziu em greve geral, combate de rua e criação de comités operários, contra o golpe de extrema-direita encabeçado pelo general prussiano Kapp, o qual destituiu momentaneamente o governo social-democrata. (Nota de Ricardo Fuego da CICA http://www.geocities.com/cica_web/ )
[3] A seguir aos assassinatos de Luxemburgo e Liebknecht, a maior parte do Partido Comunista Alemão (KPD), que tinha chegado a posições anti-parlamentares e anti-sindicais, foi expulsa por meio duma manobra em 1920 e formou o KAPD. (Nota de Ricardo Fuego)
[4] A Liga Espártaco foi um agrupamento de socialistas revolucionários composto por Karl Liebknecht, Rosa Luxemburgo, Franz Mehring e outros social-democratas que se separaram do partido a seguir à votação dos créditos de guerra. A Liga surge no ano novo de 1916 como Gruppe Internationale. A sua primeira declaração política foi o Folheto Junius de Rosa Luxemburgo. A Liga Espártaco constituiu o núcleo dirigente inicial do Partido Comunista Alemão (KPD), formado na sua maioria por jovens operários revolucionários e outros dissidentes da social-democracia. (Nota de Ricardo Fuego)
[5] Legien (1865-1939),
socialista governamental, Ministro em Novembro de 1918, Chanceler da República
em 1919, um dos arquitectos, juntamente com Noske e Ebert, da repressão
anti-espartaquista. (Nota na edição
[6] Sem dúvida, refere-se à oposição anti-parlamentar do SPD, sobretudo em Berlim, que, no entanto, não se organizou senão até 1889-1892 à volta do grupo “Os Jovens”. Tendências análogas surgiram durante a mesma época na Dinamarca, Suiça, Inglaterra (William Morris) e Holanda (D. Nieuwenhuis). Foi também nessa época que se consumou a divisão"Marxismo/Anarquismo". (Nota na edição em inglês)
[7] Clara Zetkin (1857-1933), membro da esquerda do SPD, mais tarde uma espartaquista, apoiou Levi.
Crispien (1875-1946), deixou o SPD para filiar-se na ala direita do USPD. Assistiu ao Segundo Congresso da Internacional Comunista, mas recusou filiar-se e mais tarde voltou ao SPD. (Nota na edição em inglês)
[8] Refere-se ao USPD. (Nota de Velha Toupeira)
[9] A Alemanha declara guerra à França. (Nota de RicardoFuego)
[10] Noske (1868-1946), Ministro de Guerra do SPD em Dezembro de 1918, organizou a colaboração entre os socialistas e os Freikorps. Arquitecto e símbolo da repressão sangrenta que se lhe seguiu. (Nota na edição inglesa)