VII. INSURREIÇÃO E COMUNIZAÇÃO
A comunização
da sociedade não será gradual e tranquila mas feita de forma brusca e
insurreccional. Não se trata de um avanço tranquilo ao qual se juntarão
progressivamente as forças necessárias.
Insurreição e comunização
estão intimamente ligadas. Não se haverá, num primeiro momento, a insurreição
e, depois, possível devido a essa insurreição, a transformação da realidade
social. O processo insurreccional tira a sua força da própria comunização.
Entre o capitalismo e o comunismo
não há uma espécie de modo de produção misto e intermédio. O período de
transição ou, antes, o período de ruptura caracteriza-se pela contradição entre
os métodos absolutamente comunistas por um lado e, por outro, uma realidade
ainda completamente impregnada por mercantilismo. É nesta fase que uma
sociedade da abundância e de liberdade deve enfrentar problemas de penúria e de
poder. Terá de liquidar as sequelas humanas e materiais de uma era de
escravatura e neutralizar as forças que a ela permaneçam ligadas.
A VIOLÊNCIA
O uso da violência para atingir os
seus fins: eis o que distinguiria os revolucionários dos reformistas.
A oposição entre revolucionários e
reformistas não tem tanto a ver com a estratégia e o método como com a natureza
da transformação a efectuar. Daqui resulta evidentemente uma diferença de
método.
A história distinguiu dois tipos de
reformistas: os suaves e os duros.
Os reformistas suaves,
sociais-democratas e parlamentaristas, pensam que os seus esquemas podem
fazer-se com suavidade. Têm muitas vezes razão na medida em que as suas ilusões
estão relacionadas com a profundidade das reformas que podem aplicar. Todos os
dias, e nos quatro cantos do mundo, eles provam que os interesses vigentes
aceitam não reprimir aqueles que não os ameacem. Estes reformistas suaves
tornam-se, por vezes, duros mas a sua dureza exerce-se sobretudo contra o
proletariado.
Ao lado deles há
os verdadeiros duros isto é, os estalinistas e afins. Estes consideram-se
revolucionários e o seu propósito é apoderarem-se do Estado e controlarem a
economia substituindo os dirigentes actuais. Não têm nenhum interesse em
subestimar a capacidade de ripostar dos seus adversários. Trata-se do seu êxito
e mesmo de salvar a sua pele.
E os revolucionários?
A revolução comunista é um enorme
abalo social. Implica confrontos e violência. Mas, se a revolução é um acto de
força, o seu problema essencial não é um problema de violência e a condição do
seu êxito não é essencialmente uma questão de força militar.
Isto porque a revolução não é uma
questão de poder. Nós não disputamos o Estado nem a economia aos poderosos no
poder. Graças às posições que ocupa na economia, o comunismo será capaz de
minar as bases e de desarmar a contra-revolução militar. Evitará, dentro do possível,
um confronto directo.
A revolução comunista não faz da
violência o problema central, porque procura fazer eclodir aquilo que já existe
e não, fazer um projecto entrar à força na realidade.
Nós opomo-nos tanto aos fanáticos e
aos feiticistas da violência como aos pacifistas. Tal
como se pode e deve adoptar métodos não violentos, mesmo em relação aos
militares, também se deve rejeitar a ideologia da não-violência.
Esta ideologia veicula e apoia-se em
ilusões pedagógicas. Supõe que o conjunto das pessoas
podem ser educadas para a não-violência e podem ser mobilizadas a frio. Quer
acções de massa mas não vê que os problemas de informação e de coordenação que
põe esse tipo de acção e de contra-ataque não podem ser resolvidos sem a
possibilidade da violência. A não-violência sistemática supõe que existe um
consenso entre adversários para respeitarem certas regras e, antes de tudo, uma
liberdade de informação mínima.
A não-violência é sobretudo eficaz
enquanto método defensivo. Os seus limites aparecem quando se trata de tomar a
iniciativa e de neutralizar os inimigos. Quanto mais a revolução se ergue com
força e lucidez, mais fará respeitar e apresentará como irreversíveis as suas
opções, mais estará em condições de congregar os hesitantes e de neutralizar os
oponentes. A compreensão do papel limitado mas essencial da violência pode
evitar erros de consequências sangrentas.
O proletariado não pode renunciar a
obter, fabricar e utilizar armas. Se as armas nem sempre estão espalhadas pela
sociedade, os materiais que permitem o seu fabrico estão-no muitas vezes em
grande quantidade. É essencial contá-los e prepararmo-nos para a sua eventual
utilização, armarmo-nos e prepararmos emboscadas que façam pagar caro aos
nossos inimigos as suas intervenções. O que é ridículo e vergonhoso é incitar
as pessoas a formarem grupos de autodefesa e a munirem-se de revólveres ou de
facas para defenderem as suas fábricas e os seus bairros contra os carros de
assalto e contra os aviões.
Não se pode prever o desenrolar das futuras
insurreições mas pode-se defender de antemão e no decurso do movimento uma
estratégia. Esta estratégia assenta sobre a própria natureza da revolução
comunista e das forças de cada campo.
Os burgueses e os burocratas contam
com o exército. A força do proletariado está na sua posição económica.
O exército é vulnerável, mas não
tanto de um ponto de vista militar como pela sua dependência em relação à
economia. Depende cada vez mais directamente desta devido para as suas armas,
munições, alimentos e transportes. Integra, no seu interior, operários e
técnicos. Para fazer a guerra, e a guerra moderna é dispendiosa, é preciso que
os abastecimentos funcionem e que o país trabalhe.
A contra-revolução militar deve ser
atacada nas suas retaguardas económicas. É crucial que um exército nacional não
possa ir reprimir fora porque precisa de manter a paz social em casa.
Os militares conhecem o risco que
correriam se tentassem suprir as “fraquezas” dos trabalhadores no domínio da
produção. O exército não pode organizar a economia contra os operários; prefere
ter um adversário bem delimitado e com uma natureza igual à sua em vez de levar
a cabo tarefas que lhe são estranhas, e aí se perder e se dispersar.
O EXÉRCITO
É comum imaginar-se a revolução como
o choque entre dois exércitos. Um às ordens dos privilegiados e dos
exploradores, o outro ao serviço dos proletários. A revolução é reduzida a uma
guerra. A estratégia é a tomada de poder e o controle dos territórios. É uma
visão perigosamente falsa que se apoia na memória dos combates das guerras
civis russa e espanhola e também nas guerras de libertação nacional.
Ainda que em tal ou tal momento,
nesta ou naquela circunstância a acção revolucionária ganhe contornos
militares: intervenções de comandos, raides
aéreos... isso não mudará em nada a natureza profunda
nem o carácter global do conflito.
Encarar a revolução como um
confronto entre exércitos vermelho e branco não seria comunista, seria uma
imbecilidade tendo em conta a desproporção das forças militares presentes.
Oferecer uma guerra ao capital seria entrar no próprio jogo deste.
O exército e a polícia são o último
baluarte do capital. A sua acção pode exprimir-se directamente pela destruição
dos homens e das coisas mas também pela criação e defesa de uma situação de
penúria propícia ao desenvolvimento do egoísmo, do medo e de outros velhos
reflexos. Isto ergueria as populações necessitadas contra os revolucionários
(vistos como criadores dos problemas) e tenderia a reavivar os mecanismos
mercantis.
O exército pode ser utilizado para
fazer funcionar e controlar certos sectores estratégicos da economia.
Pela sua natureza hierarquizada, que
elimina a discussão e a contestação em benefício da obediência e da disciplina,
pela sua função e ideologia patriótica o exército tende a ser um corpo
conservador.
Mas a contra-revolução militar tem
falhas.
A impressão de segurança e o
sentimento do seu justo direito que os militares retiram da sua vida em gueto e
das suas insígnias arriscam-se a ser atingidos se não se conseguirem justificar
nem reforçar no confronto com um exército adverso num campo de batalha bem
delimitado. Há que impedir o exército de funcionar como exército, opor-lhe a
fluidez dissolvente do comunismo. Trata-se de paralisar, de contaminar, de
dividir, de desarticular as forças militares.
As nossas intervenções militares
devem acompanhar, de perto, a nossa acção de destruição e de reconstrução
social. O uso da violência não se deve transformar numa actividade autónoma que
se auto justifique. Serve para bloquear e para desbloquear situações
directamente em função da comunização que lhe dá a
sua justificação mas também a sua força.
Durante ou antes de uma fase
insurreccional, a nossa desconfiança da violência separada, do terrorismo,
nunca será demasiada. Os revolucionários, aí, dão por si presos numa engrenagem
de luta e de contra-ataque da qual o comunismo acaba por estar ausente. Quando
a violência se transforma numa violência para o comunismo, e não numa violência
que acompanha o comunismo, quando se esvazia do seu conteúdo imediato, todas as
provocações são permitidas. É fácil cometer homicídios e atentados e culpar
depois os revolucionários.
Pela transformação imediata e
radical da organização social temos de tirar o tapete de debaixo dos pés aos militares
e privá-los de uma coisa a defender. O exército é um instrumento, não consegue
fazer tudo por ele mesmo sendo apenas organização da violência. Com uma
baioneta podemos fazer tudo menos sentarmo-nos em cima dela.
Existe à esquerda um preconceito favorável
aos intelectuais e desfavorável aos militares. Quando se trata de revolução
pensa-se, muito naturalmente, que os primeiros vão ser a seu favor e os
segundos contra ela. De um lado a inteligência, do outro a força bruta.
A história mostrou a parte de erro que estes
preconceitos contêm. Desde a Comuna de Paris, altura em que o Coronel Rossel se passou para o lado dos insurrectos e foi fuzilado
por isso e em que os escritores progressistas G. Sand
e E. Zola cuspiram sobre
esses mesmos insurrectos, regularmente uma parte das forças armadas passou-se
para o lado da revolução e uma parte não menos notável dos intelectuais
voltou-se contra ela.
Tal é a revolução: por vezes
horroriza aqueles que a apoiavam e entusiasma os que a receavam.
O exército forma um corpo bastante
autónomo cujos valores são, em parte, estranhos aos valores propriamente
burgueses e mercantis. A classe burguesa não é capaz, como a classe feudal, de
se encarregar da sua própria defesa: confia-a ao exército e à polícia. Ainda que
uma parte dos dirigentes do exército identifique completamente os seus
interesses com os da classe dominante, não deixa de existir uma contradição
latente entre os interesses e os comportamentos dos militares e os da
burguesia.
Não devemos acreditar que o
exército, ou que uma parte dele, se ponha fácil e espontaneamente ao lado da
revolução. Isto só pode acontecer em função do próprio desenvolvimento da
revolução e da sua penetração no exército. O exército tornar-se-á
revolucionário na medida em que, sob a pressão dos soldados e dos polícias, a
hierarquia todo poderosa será posta em causa e a obediência cega condenada.
Os revolucionários não devem fazer
nenhuma concessão ao militarismo. Tem de se mostrar aos militares que eles não
se batem por sua própria conta e, ainda menos, por conta da Nação. Tem de se
lhes mostrar que os seus ideais são minados pelo movimento do capital. Tem,
também, que se lhes mostrar que os militares, como homens, e com as suas
qualidades e capacidades próprias têm um lugar no movimento comunista.
O nosso objectivo é a destruição do
exército. É preciso que ela se realize com o mínimo possível de confrontos com
os militares. Pouco a pouco, os grupos armados recém constituídos ou
reagrupados perderão o seu carácter próprio através da participação em tarefas
produtivas e nos conselhos de trabalhadores.
A revolução não deve ignorar a sua
força nem perder possibilidades de integrar nas suas forças, transformando-os,
órgãos de repressão da antiga sociedade. Um polícia pode estar disposto a
servir algo que já não lhe pareça subversivo mas uma nova autoridade. Pode-se
mesmo esperar que alguns não queiram continuar a ser lacaios.
De qualquer maneira, os
revolucionários e os proletários não devem deixar a outros o monopólio do
armamento. Esta questão do armamento do proletariado será um teste para julgar
o valor da ligação dos militares à revolução.
VINGANÇA
Os revolucionários não têm o gosto
do sangue, nem espírito de vingança. As revoltas do passado mostram, que do
sangue derramado, apenas uma pequena parte se deve aos insurrectos. A esperança
apaga o rancor.
Foi a contra-revolução que
massacrou, aprisionou e deportou. O sangue correu durante os combates mas,
muitas vezes, também depois, quando a vitória militar já tinha sido conseguida.
O furor assassino nasce do terror dos proprietários. A reacção deve esmagar
forças adversas. A revolução parece-lhes residir nos revolucionários. Então, há
que os destruir.
O espírito de vingança pôde
desempenhar um papel nas revoltas operárias. Mas o que foi este, comparado com
a repressão feita pelos Versalheses [na Comuna], pelo
Kuomingtang em 1927, pelos franquistas...
As revoltas operárias foram muito
menos vingativas do que as revoltas camponesas anti-feudais.
Isto porque a revolução não é um acto de desespero. As destruições de bens, as
represálias contra as pessoas são, muitas vezes, obra de quem não vê como
escapar à miséria e se contenta em aniquilar os que encarnam a opressão.
A vingança não seria apenas
mesquinha, seria estúpida. Condenar de antemão em função do passado é reforçar
nos nossos adversários, o medo e a determinação. É suscitar inimigos entre
aqueles que, com razão ou sem ela, julgam ter algo de que se recriminar. É
encorajar ajustes de contas pessoais.
Devemos oferecer aos nossos
adversários a possibilidade de mudarem de campo. Os princípios comunistas não
ditam por si sós um modo de conduta uniforme. Implicam, pelo contrário, que se
possa exprimir a diversidade de caracteres, de situações e de passados daqueles
que participam na revolução. Melhor, implicam que, mesmo se os nossos
adversários não vêem em nós senão “vermes vermelhos”, nós devemos pela parte
que nos toca continuar a reconhecer no pior dos nossos inimigos um ser humano.
Sem ilusões sobre a natureza humana.
Seria estúpido atacar-se os médicos,
os engenheiros, os camponeses, sendo que muitos deles estariam prontos para se
juntarem a nós sem que tivéssemos de fazer concessões ao mito do especialista,
à hierarquia do trabalho, à propriedade. Isto significa que os conselhos
deverão proteger, por vezes, certas situações adquiridas. Isto irá contra a
igualdade mas permitirá pressionar certas pessoas oferecendo-lhes algo a que
dão valor. Pode-se garantir ao médico, o uso da sua residência e do seu
material profissional com a condição de não emigrar e de tratar daqueles que
precisem. Determinada residência secundária, situada no campo, pode voltar para
o seu legítimo proprietário, para um parente ou para um amigo sem que por isso
se permita que algumas pessoas possam ter duas habitações enquanto outras vivem
em pardieiros.
Pelo contrário, aqueles que
procurarem preservar os privilégios ou tirar proveito da situação para encherem
os bolsos devem saber que não poderão beneficiar da piedade das suas vítimas.
Quanto mais seguros de si estiverem
os conselhos revolucionários, mais capazes serão de decretar regras claras, de
transformar rapidamente a realidade e menos necessário será o uso de violência.
RECONVERSÃO
Comunizar não significa expulsar os patrões
das empresas e das fábricas para aí nos fixarmos mas sim começar por fechar uma
boa parte destas.
A fronteira entre a contra-revolução
e a revolução passará entre aqueles que, em nome da pátria, da democracia, da
autogestão, dos conselhos operários, do Cristo-Rei ou
do arroz doce incitarem os trabalhadores-consumidores
a agarrarem-se a actividades de bestas de carga e às suas drogas e entre quem
incitar a reduzir maciçamente e a reconverter radicalmente a produção. Trata-se
de reduzir a poluição e de romper o mais depressa possível com o embrutecimento
do trabalho e com a pseudo-abundância mercantil.
Ficar dentro da fábrica, mesmo que
seja para a auto-gerir, é congelar a situação em
benefício da contra-revolução. E o resultado é o mesmo quer esta atitude seja
professada por fanáticos do trabalho, por sindicalistas ingénuos ou por
capitalistas velhacos que esperam ganhar tempo.
Os revolucionários vão ser,
provavelmente, acusados por todos esses santos apóstolos de quererem
desorganizar a produção e baixar o nível de vida do povo.
Nesta redução da produção não
devemos ver nenhum fascínio pela austeridade. Os sacrifícios exigidos serão
muito menores do que aqueles que uma outra solução imporia. Falsa solução que
apenas impediria uma ruptura decisiva com o passado e que imobilizaria forças
necessárias à luta. Falsa solução que permitiria reagrupar todos aqueles que
têm medo que as bases do seu poder se esfumem: sindicalistas empedernidos, pequenos e grandes chefes, políticos,
administradores, patrões...
Apenas parando a produção de uma
miríade de produtos pouco úteis, inúteis ou nocivos e quebrando a divisão entre
as empresas se pode concentrar as forças para produzir em abundância os
produtos indispensáveis ou necessários. Será preciso iniciar novas pesquisas e
começar um novo tipo de produção. A comunização não
significa, portanto, unicamente desmonetarização mas também transformação
rápida da produção. As duas coisas estão intimamente ligadas.
Os operários, os empregados, os
docentes serão convidados a colocar-se onde sejam verdadeiramente úteis. Estas
alterações vão basear-se, primeiro, sobre a aversão espontânea das massas pelo
trabalho e sobre a revelação das suas próprias capacidades. Não se farão sob a
égide de um centro director mas surgirão de muitas e diversas iniciativas. Isto
não significa desordem nem deixa-andar. Toda a
revolução implica uma parte de oscilação, de balbúrdia e confusão. Mas há que a
reduzir ao mínimo. É esta a tarefa dos mais radicais. Nós não somos nem contra
a ordem, nem contra a disciplina, nem contra a organização nem mesmo contra a
autoridade. Tem que se denunciar e combater aqueles que confundem revolução e
confusão tão resolutamente como se deve atacar os estatistas.
Aliás, os primeiros fazem o jogo destes últimos.
A reconversão deverá permitir
assegurar antes de mais a satisfação das necessidades mais elementares. Depois
deverá favorecer, mais do que a criação de certos produtos, a criação de
utensílios e máquinas necessários ao seu fabrico. Este material será espalhado
pela população e permitirá que cada pessoa fabrique para si o que de outro modo
teriam outros que fabricar-lhe.
Eis algumas indicações sobre as
modificações possíveis em função dos grandes sectores económicos. Nenhuma
destas transformações tem sentido por si só. O perigo de fazer propostas
concretas reside em que estas podem ser recuperadas contra o comunismo. Mas não
se pode esquecer que os revolucionários não se podem contentar com a enunciação
dos princípios gerais mas que devem, em função de uma determinada situação, avançar
com soluções concretas.
Energia: haverá uma redução
importante da produção de energia. Esta redução resulta, muito naturalmente, do
encerramento de uma parte da indústria que consome a maior parte dessa energia.
Talvez se torne obrigatória devido à dificuldade em assegurar o abastecimento
de petróleo, gás e carvão.
A distribuição de energia será
transformada. Uma parte da que era utilizada directamente pela indústria poderá
ser transferida para o consumo doméstico: aquecimento, iluminação, alimentação
de pequenas máquinas.
Utilizar-se-á, progressivamente,
novas fontes de energia. Há que desenvolver o que polua menos e gerir recursos
limitados como os combustíveis fósseis. Poder-se-á favorecer uma produção
descentralizada e intermitente de uso local. Isto não significa, apesar de
tudo, que o comunismo se oponha fundamentalmente à energia nuclear. É preciso
simplesmente garantias sérias sobre as condições de produção e as necessidades
de utilização. A curto prazo a água, o vento, o sol parecem preferíveis.
Transportes: os transportes
desperdiçam energia, poluem, concretizam as desigualdades sociais... haverá aí,
também, uma redução e uma racionalização importante que tornará possível um
reajuste do espaço. As pessoas irão organizar-se para não terem de fazer
trajectos muito longos. Terão menos ocasiões para se deslocarem contra a sua
vontade. Os horários mais livres permitirão que não se apertem às mesmas horas
dentro dos mesmos veículos.
A produção dos automóveis actuais
poderá ser parada. O número de viaturas actualmente em circulação, sendo
utilizadas de forma mais racional, permite esperar que se desenvolvam e
fabriquem máquinas melhores. Uma parte dos veículos poderá ser utilizada como
táxi, com ou sem motorista, ou servir para missões públicas.
A grande maioria dos veículos deverá
provavelmente continuar a ser utilizada de modo privado. Isto permitirá gerir
os hábitos tradicionais e interessar os utilizadores pelo bom funcionamento
daquilo que lhes continua a pertencer. Esta pertença poderá estar limitada por
certas condições de utilização que visam restringir e eliminar a circulação em
alguns sítios e permitir a melhor utilização e preenchimento possível desses
lugares.
O comboio e outros meios de
transporte com condutor deverão ser favorecidos e desenvolvidos. É nestes que
reside a melhor segurança, o melhor rendimento energético, a menor utilização
possível do solo. Estes engenhos rápidos e confortáveis poderão ser
complementados com veículos mais lentos, de uma utilização mais individual e flexível
e que estarão equipados com motores não poluentes.
Entretanto, pode-se continuar a
produzir camiões, bicicletas, patins, bons sapatos.
Para reduzir as necessidades de
deslocação, principalmente no que diz respeito aos contactos rápidos a longa
distância, há que desenvolver uma boa rede telefónica ou videofónica.
Estas permitirão, a um custo bem menor, que muito mais gente se ponha em
contacto do que hoje [já aconteceu NdT]. O avião é um engenho barulhento, que polui muito,
para homens de negócios e turistas apressados. O seu emprego é dificilmente
generalizável a toda a gente. Temos, assim, de o eliminar ou de reduzir o seu
uso a certos casos particulares.
Para os viajantes de longa
distância, porque não voltar a pôr na moda, modernizando-os os grandes
veleiros? O seu fabrico daria lugar a uma sã competição. De qualquer forma,
existirão outros meios para ir de um continente a outro: para isso não é
preciso supersónicos.
Edição: é um sector, cuja
importância revolucionária é muito fácil de entender. Quem controlará a
imprensa?
Em períodos insurreccionais muitas
vezes os operários controlaram o conteúdo dos jornais que imprimiam. Isto
voltará a acontecer por mais que desagrade aos apóstolos da liberdade de
imprensa que, muitas vezes, não passam senão de defensores da liberdade do
dinheiro. Mas isto não chega. A imprensa deverá sofrer transformações e deixará
de ser o reflexo contemplativo da realidade.
A revolução permitirá uma liberdade
de expressão impossível nos nossos dias. Uma grande quantidade de pequenas
máquinas de impressão, que pertenciam às empresas e aos administradores, serão
postas à disposição de todos.
Amanhã, um livro ou um escrito
qualquer não serão editados em função do acordo de um editor. Ficarão
directamente a cargo, e serão então impressos, por quem neles tenha interesse.
O seu sucesso dependerá, assim, da coragem do seu autor e dos apoios práticos
que encontre.
Hoje, uma parte considerável do
custo de um livro vai para a sua difusão e para a sua promoção publicitária. A
vantagem com o comunismo é evidente. Podemos mesmo admitir, para economizarmos
florestas, que os jornais ou os textos circulem ou sejam afixados.
O comunismo, ao favorecer a
expressão escrita, oral ou audiovisual de todos, deverá permitir a redução das
despesas da sociedade em papel e tinta.
O que será da literatura? Não há
dúvida que se transformará e que a actividade romanesca perderá pouco a pouco a
sua necessidade. Não haverá mais, mesmo se continuarmos a ocupar-nos de ficção,
um mundo dos livros oposto ao mundo real. Talvez até, com o tempo, a
comunicação escrita perca a sua importância e tenda a desaparecer.
Construção: a indústria da
construção sofrerá uma mutação. Isto não significa que os pedreiros fiquem
desempregados. A construção é uma das raras actividades que não volta atrás.
No entanto, há que tomar medidas
para limitar ou mais radicalmente para proibir a construção nas cidades e nos
subúrbios superpovoados. Mas as pessoas que se deslocam fora dos centros
urbanos têm de ser alojadas. Há que construir casas e edifícios de todo o tipo.
Há, também, que demolir e organizar a recuperação dos materiais.
Aí, como noutras actividades, mas
talvez ainda mais rapidamente, o profissionalismo será socavado.
Quem quiser ter uma casa nova terá que arregaçar as mangas. Terão a ajuda
daqueles que, por formação ou por experiência, sabem trabalhar melhor.
Os mal alojados serão imediatamente
realojados em apartamentos e residências que por qualquer motivo tenham ficado
livres. A suspensão do pagamento de rendas e de empréstimos será, naturalmente,
uma das primeiras manifestações da revolução.
Vestuário: Não podemos transformar
tudo de uma só vez. Há que continuar a produzir em função dos materiais e
máquinas existentes. Podem, certamente, dar-se muitas transformações no sentido
da qualidade e da solidez.
Um certo número de modelos de roupa
e de sapatos poderá ser produzido em grande quantidade. A par destes,
desenvolver-se-á a produção de tecidos e de pequenas máquinas para que as
pessoas confeccionem elas mesmas as roupas de que necessitam, o que permitirá
adaptar os produtos ao gosto das pessoas e permitirá, também, que a
distribuição das roupas dependa do esforço despendido.
Alimentação: A industrialização dos
produtos alimentares traduziu-se, geralmente, por uma degradação da qualidade
desses produtos. O comunismo deverá aumentar, o mais rapidamente possível, a
quantidade de alimentos produzidos, mudar a sua repartição, nomeadamente em
proveito das populações subalimentadas do terceiro mundo, e agir no sentido de
um melhoramento da qualidade.
Serão introduzidas modificações na
composição dos produtos. Há que excluir tudo o que seja prejudicial ou mesmo
inútil e que só sirva para enganar o consumidor. As embalagens serão
simplificadas.
Do ponto de vista agrícola, há que
limitar e reduzir progressivamente a utilização de produtos químicos. Não se
trata de uma posição de princípio contra tudo o que seja químico ou artificial
mas da oposição a uma deterioração e falsificação reais dos produtos agrícolas.
A monocultura deverá ceder lugar à policultura e à associação da agricultura e da criação de
gado que permite a reciclagem e a utilização do estrume e dos resíduos. Isto
permite reduzir o volume das entradas exteriores (fertilizantes químicos, etc) o que é de importância vital principalmente para os
países não industrializados.
É preferível que as forças da
sociedade sejam investidas directamente nos trabalhos da terra, em vez de o
serem nas fábricas de fertilizantes e de produtos químicos. Se se afastam braços da agricultura, é melhor que seja para se
fabricar utensílios e máquinas agrícolas. Este material deverá, principalmente,
ser introduzido nas agriculturas do terceiro mundo.
As pesquisas sobre a qualidade dos
alimentos e sobre os métodos agrícolas que estão hoje tão pouco desenvolvidas
deverão ampliar-se. Deve-se seleccionar as melhores variedades de plantas, os
métodos melhores para o solo, uma repartição das culturas adaptada às
necessidades alimentares. Há na agricultura, como noutros lados, coisas a fazer:
deve-se favorecer a produção de proteínas animais ou vegetais? Deve-se preferir
a produtividade ou a rusticidade?
A Saúde: Os problemas de saúde são,
em grande parte, causados pelas condições de vida e de trabalho. O comunismo,
ao revolucionar essas condições, fará muito pela saúde das populações.
Deve-se dar primazia às medidas de
higiene e de prevenção. A produção de medicamentos será reduzida. Certos
produtos que são inúteis ou parecem actualmente úteis serão suprimidos. Tal
como com as marcas de detergentes, há muitas mercadorias para um mesmo produto
farmacêutico. O custo da embalagem, da publicidade é acrescentado ao custo do
produto realmente activo. Tudo isso desaparecerá, evidentemente.
Trata-se de desprofissionalizar
a medicina o mais rapidamente possível, o que significa a reintrodução
de um saber médico e higiénico perdido, na população. Tornar possível a
utilização de plantas medicinais, o que significa formar uma fracção da
população para que esta possa intervir clinicamente num prazo muito curto.
Educação: O período de insurreição e
de reconversão desenvolverá a necessidade de educação e de aprendizagem. Uma
vez que uma grande parte da população deverá mudar de actividade e uma vez que
todos deverão multiplicar as suas capacidades há que aprender. Esta
aprendizagem será feita em grande parte no terreno. Cada pessoa deverá
transmitir os seus conhecimentos aos companheiros.
A televisão e a rádio poderão
permitir a transmissão, a baixos custos, daquilo que as pessoas necessitam. É
fácil difundir cursos de mecânica, de agricultura, de maçonaria que completarão
a aprendizagem prática.
O que será dos professores? Não se
trata de proibir o ensino mas não ser mais nada além de professor deve ser
desencorajado por todos os meios. De qualquer forma, uma grande parte da
cultura não será mais objecto de ensino no sentido estrito. No que diz respeito
às crianças, não se trata de retirar a sua guarda aos educadores que prezam a
sua profissão. Mas a partir do momento em que as actividades oferecidas às crianças
se multiplicam e em que estas já não são um peso para os adultos que já não
viverão acorrentados a trabalhos profissionais ou domésticos, será impossível à
escola manter-se.
O corpo docente, para assegurar o
seu bem-estar, terá todo o interesse em dedicar-se, como toda a gente, a
tarefas práticas. Se não o fizer pagará directamente o custo. Não há dúvida de
que a maior parte dos professores, que são cada vez mais máquinas de ensinar,
apreciarão um novo modo de vida que de qualquer forma não os impedirá de fazer
beneficiar os outros com os seus conhecimentos.
Religião: Alguns crentes de pouca fé
clamam que a revolução comunista fará desaparecer a religião. É duvidar do
poder do Senhor para se ocupar dos seus próprios assuntos. Quanto a nós,
deixamos isso a Seu cargo.
RUPTURA
Entre o capitalismo e o comunismo
não há uma fase de transição mas uma fase de ruptura em que os revolucionários
devem procurar aplicar medidas irremediáveis.
Há quem lamente a mercantilização e a industrialização de toda a vida social.
Queriam que as coisas mudassem mas pretendem manter-se razoáveis. Apelam às
autoridades no poder ou aos seus opositores oficiais para promoverem
alterações. Sobretudo, queriam que as coisas se transformassem dentro da ordem.
Para eles, a irrupção das massas na cena da história apenas implica a mais
inextricável desordem. Queriam a desmercantilização
progressiva da economia, desenvolvendo serviços públicos e bens gratuitos. O
trabalho assalariado seria reduzido e, a par deste, desenvolver-se-iam
actividades produtivas menos desumanas.
Os mais audaciosos prevêem, a curto
prazo, o desaparecimento da mercadoria e do salariado.
É sempre a mesma esperança de
poderem usar e amordaçar o capital. A mesma ilusão é propagada por aqueles que
querem conservar o salariado e ao mesmo tempo
eliminar as diferenças de salário ou transformar o salário na justa remuneração
da penosidade do trabalho.
O capital é fundamentalmente
expansionista e imperialista. Por isso, tende a apossar-se de toda a vida
social. Um sector não mercantil, que funcionasse ao lado do sistema mercantil,
seria rapidamente remercantilizado. Continuaria a ser
um lazer e um jogo completamente dependentes do capital como a actual bricolagem, ou ganharia importância e a sua produção
circularia e, então, reinventaria o capitalismo por si próprio. Haveria
decomposição do interior e assalto do exterior. Os produtores “livres”, os
artesãos de fim de semana que continuassem a ser
prisioneiros de um modo de vida burguês procurariam muito naturalmente tirar
rendimentos da sua produção paralela para melhorarem o seu fim de mês.
Devemos contar com o poder político
para apoiar uma tal “revolução”? É esquecer a dependência em relação à
economia. É opor, ao totalitarismo mercantil, o totalitarismo estatal.
Poderemos contar com uma
transformação das mentalidades? É acreditar que o mercantilismo é, antes de
mais, uma perversão do espírito. As mentalidades serão aquilo que a situação
lhes permitir ser.
Não podemos ter um pé no mundo novo
e continuar com a mão na carteira.
Estas concepções reformistas não
compreendem nada sobre a necessidade de uma ruptura global e sobre a natureza
da actividade proletária revolucionária. Não vêem que é na situação e na
actividade da classe dos desapossados que se encontra o verdadeiro adversário
do sistema mercantil. Acha-se que se pode tomar medidas contra o capital porque
se o considera como uma coisa cujo poder tem de se limitar, e não como uma
relação social.
O capital pode divertir-se a
libertar a actividade humana e a desmercantilizar
O sistema mercantil é um todo. Será
abatido como um todo. Não se pode comunizar, uns a
seguir aos outros, os sectores que a troca ligou intimamente. Será que se acredita,
em todo o caso, que se pode limitar os campos de intervenção de uma
insurreição? Precisamente as medidas “anti-mercantis”
que visavam restringir temporariamente ou tornarem a acção do capital menos
visível apenas podiam ter como objectivo dissuadir ou travar uma insurreição.
Seja qual for a boa vontade ou mesmo a semi-compreensão
daqueles que as propõem, elas apenas poderão servir a contra-revolução.
Num período insurreccional os
revolucionários deverão aplicar-se a denunciar as medidas falsamente radicais e
a precipitar o curso das coisas. Muitas vezes as suas acções serão denunciadas
não francamente enquanto revolucionárias mas como excessos por aqueles que se
disfarçarão de revolucionários para melhor combaterem a revolução.
A solução para os problemas importantes
colocados pela ruptura brusca com a economia mercantil repousará antes de tudo
sobre a organização conselhista da produção e da
distribuição dos bens. As descriminações devidas à raridade dos produtos não
mais serão instauradas pelo dinheiro mas, nessa fase intermédia, pelos
conselhos e comités de “consumidores” que procurarão repartir em função do
melhor uso possível. O perigo está em crer que podemos estabelecer um sistema
misto para evitar dificuldades.
Os conselhos terão de resolver
problemas difíceis mas são a única força capaz de os resolver.
Para permitir e apoiar a organização
conselhista é preciso que a ala marchante da
revolução concentre as suas forças sobre certos pontos estratégicos. Deverá
destruir o que permita a sobrevivência ou a retoma do velho sistema.
O sistema bancário e financeiro
deverá ser destruído nos seus fundamentos materiais. Temos de atacar as
instituições e queimar os livros de contas, os papéis e arquivos. Tudo o que
pareça um meio de pagamento deverá ser exterminado. Há que paralisar a máquina
de Estado. Isto não significa tanto conduzir um ataque frontal ao centro do
sistema como destruir os seus múltiplos tentáculos. O Estado tem ramificações
por todo o lado e é esta a sua força e a sua fraqueza.
Tem de se atacar tudo o que permita
controlar as pessoas e, em primeiro lugar, os documentos de identificação de
todas as categorias. Tem de se dar caça aos arquivos de Estado ou privados. À
parte alguns documentos de
interesse revolucionário ou histórico há que destruir os arquivos e papéis
administrativos de todo o género.
A tomada das prisões e a libertação
dos prisioneiros, incluindo os prisioneiros políticos, estará na ordem do dia.
Eis o que não tranquilizará os mais corajosos, toda a escória da noite para o
dia na rua. As prisões não estão cheias de terríveis bandidos e e assassinos horríveis?
De facto, a maior parte dos
prisioneiros são proletários que quiseram, atacando a mercadoria e a
propriedade, sair da sua condição. Não são, na sua maior parte, pequenos santos
nem generosos revolucionários. Mas a razão das suas agressões desvanece-se com
o desaparecimento do sistema actual. Saberão, na esmagadora maioria, pôr o seu
talento ao serviço da revolução.
E a escória? Geralmente os marginais
não estão atrás das grades. Grassam, até, por vezes com a cumplicidade da
polícia. Os assassinos? Muitas vezes têm a lei do seu lado e muitos até se
encontram à cabeça dos Estados.
A libertação dos prisioneiros não
incluirá os crápulas e contra-revolucionários notórios. O fim da mercadoria, a
organização de milícias armadas permitirá reduzir o número de malfeitores.
Estas diferentes medidas não podem
ser aplicadas num contexto qualquer, nem numa qualquer relação de forças. Mas
são uma necessidade imperiosa para os revolucionários e para os anti-estatistas.
Os comités encarregues da
distribuição de bens poderão procurar juntar os pequenos comerciantes e os
gestores e utilizar as suas lojas. Se estas categorias sociais mostrarem a sua
capacidade para se reconverterem tanto melhor. Se resistirem e quiserem
continuar a ser proprietários do seu stock e das suas lojas temos de passar sem
eles. No caso das mercadorias que detenham serem importantes e necessárias,
temos de nos apoderar delas. De qualquer maneira, o seu poder é limitado porque
basta cortar o seu abastecimento.
A publicidade poderá ser
reconvertida numa anti-publicidade. Trata-se de
informar sobre as características e sobre o fabrico dos produtos, sobre o
estado das reservas, de incitar à moderação.
INTERNACIONALISMO
A revolução será mundial.
Não é um imperativo moral: todos os
homens são iguais e irmãos e a isso têm direito.
A revolução será mundial porque o
próprio capital é uma realidade mundial. Destruiu comunidades humanas, separou
indivíduos, fez de cada um o concorrente de cada qual. Mas reuniu e unificou
sob a sua acção o género humano, nesse mesmo movimento. Hoje, e pela primeira
vez na história, desde Adão e Eva, há coincidência entre a unidade genética e a
unidade social da espécie.
O nascimento da ideia nacional e dos
Estados nacionais é fruto directo do desenvolvimento capitalista, da destruição
dos grupos tradicionais, da estandardização pela troca, da desigualdade no
crescimento. Mas, se o capital se protege por detrás de fronteiras não se deixa
ali aprisionar. O seu desenvolvimento imperialista e anónimo sempre teve
tendência para conquistar e unificar os mercados. Países e zonas diferentes
foram, sucessivamente, o lugar privilegiado da acumulação do capital antes de
entrarem em declínio para dar lugar a outros.
A época contemporânea assistiu à
aceleração deste movimento. Houve uma mundialização
das relações mercantis e uma acentuação das desigualdades. A colonização, as
guerras mundiais, o desenvolvimento de novos pólos de acumulação, a
constituição de novos estados nacionais mais ou menos fantoches foram etapas
deste movimento. A multiplicação das nações e dos Estados não impediu a
unificação, nem mesmo ao nível político. Os pequenos Estados são enfeudados por
Estados mais fortes. São reagrupados em blocos militares e em zonas económicas.
Criaram instituições e forças de intervenção mundial.
Ainda mais extraordinária é a
internacionalização das trocas e a constituição de empresas multinacionais, que
ganhou em velocidade à unificação política e privou os Estados de uma grande
parte do seu poder económico. Estas firmas gigantes são mais ricas do que
muitas nações. Têm uma visão planetária das coisas e procuram produzir e vender
onde seja mais rentável sem preocupações com fronteiras.
A troca uniformiza a vida através do
mundo e é o mesmo tipo de cereais, de edifícios, de ensino que encontramos por
todo o lado. A cor local, protegida ou acrescentada, é um argumento
publicitário em atenção aos turistas e aos tradicionalistas. Nada ilustra
melhor esta idolatria da ideia nacional do que os enfeites típicos que
transportam através do mundo aviões semelhantes. Aqui come-se à francesa, ali
encontramos geishas japonesas... e um pouco por todo
o lado há piratas do ar palestinianos. Face a tudo isto os revolucionários não
apelam, evidentemente, à defesa ou à restauração da pátria como fazem todo um
conjunto de idiotas ou de demagogos. Também não defendemos os movimentos
regionalistas ou neo-nacionalistas que preconizam a
constituição de novas pátrias mais legítimas. Invocando o direito à diferença e
à autonomia, opõe-se o nacionalismo ao nacionalismo, o Estado ao Estado. Há à
partida muitas vezes uma sã reacção contra o estatismo, a uniformização e a
desigualdade de desenvolvimento do mundo contemporâneo. A única solução
possível é o fim do capital e de todos os seus Estados.
O comunismo não é o inimigo das
pátrias, se por amor à pátria entendermos a ligação dos homens à região, à
paisagem, aos costumes, ao modo de vida locais. Não queremos ressuscitar o
espírito de bairrismo mas somos contra o nivelamento dos países e dos seus
habitantes.
Os defensores da pátria não passam,
muitas vezes, de defensores do Estado. A sua nostalgia quer ignorar o que
destrói os valores que defendem.
O nacionalismo desenvolveu-se, paradoxalmente,
à medida que se degradava o conhecimento e a ligação do homem ao seu meio
ambiente. Valoriza não uma comunidade real mas a imagem de uma comunidade que
traduz o feiticismo débil da bandeira ou do herói nacional. A nossa época torna
todo esse bricabraque cada vez mais fora de moda. Os sentimentos que cristaliza
são cada vez mais desligados da realidade ou hipócritas.
A maior parte dos dirigentes que
exaltam a ideia nacional estão-se nas tintas para ela. As classes dirigentes e
privilegiadas provaram, muitas vezes, a pouca importância que dão ao
patriotismo. O interesse nacional só é válido quando corresponde ao interesse
do capital. Mal uma ameaça proletária aparece logo as classes dirigentes dos
diferentes países se apressam a reconciliar-se.
A revolução será mundial porque os
problemas que terá para resolver serão mundiais. A interpenetração
das diferentes economias impede-as de viverem sozinhas. De qualquer maneira, se
a revolução se desenvolver num único país ela deverá fazer frente à acção da
contra-revolução exterior. Mas esta interdependência, o desenvolvimento dos
meios de comunicação, a simultaneidade das convulsões económicas e políticas
tornarão a revolução mais contagiosa do que nunca. Cada Estado, ao fazer de
polícia noutros sítios deve ter medo de precipitar as coisas
Isto não quer dizer que os países
ricos e industrializados chupem todo o sangue ou que os países pobres fiquem
dependentes das zonas privilegiadas.
Cada região deverá, em função dos
seus problemas e dos seus recursos, da importância do seu proletariado,
encontrar formas de organização e de desenvolvimento particulares. Tanto quanto
possível todos se deverão desenrascar a partir dos recursos locais.
No entanto há que, principalmente ao
início, organizar transferências de material e de técnicos para ajudar os mais
desfavorecidos a saírem o mais depressa possível de uma miséria infame. Há que,
se necessário, reduzir ou transformar o consumo alimentar em certas regiões
para ajudar outras. Os comunistas estarão sempre na vanguarda da luta contra o
egoísmo local.
Os países subdesenvolvidos poderão
ser comunizados, apesar da fraqueza do seu
desenvolvimento. A possibilidade do comunismo estabelece-se à escala mundial.
Interessa não tanto o desenvolvimento quantitativo das forças produtivas como o
seu desenvolvimento qualitativo. Um certo nível técnico e científico engendrará uma abundância quantitativa a curto prazo. A
predominância actual dos países industrializados servirá à aurora do comunismo,
ajudando as forças proletárias locais a liquidar por toda a parte o capital.
Como promover transformações
comunistas nos países onde predominam populações agrárias? Não se pode voltar à
acumulação primitiva. O comunismo não se instalará, como o capitalismo,
abalando as estruturas sociais tradicionais. Poderá, pelo contrário, apoiar-se
sobre certas estruturas livrando-as dos seus aspectos mais negativos,
reencontrar sob o parasitismo e o feudalismo comunidades camponesas de base.
Isto não impedirá o desenvolvimento
ao seu lado de actividades modernas. No cerne dessas comunidades, a técnica
poderá ser introduzida: materiais agrícolas ligeiros, captadores de energia, métodos contraceptivos, cuidados
médicos... Não há nenhuma incompatibilidade absoluta entre o equilíbrio
comunitário tradicional e o emprego de técnicas de uso simples. Actualmente, há
casos em que as populações primitivas sabem utilizar técnicas modernas. A
verdadeira desvantagem é, antes, a desagregação destas comunidades sob a acção
do capital.
É praticamente certo que as
populações em questão e que as estruturas sociais vão evoluir. Mas essa
evolução não significa uma destruição dos homens e uma negação dos valores
comunitários.
Podemos contar com a fundação de uma
solidariedade mundial com base na classe operária? Os operários não são muitas
vezes racistas?
Muitas vezes os operários mostram-se
racistas. Racistas para com os estrangeiros e sobretudo para com trabalhadores
imigrantes ou minorias raciais. Vimos governos “operários” mostrarem-se mais
racistas, especialmente ao nível da imigração, do que os governos burgueses.
Muitas vezes são os homens de negócios que são a favor da imigração e da
abolição de leis discriminatórias.
O racismo operário corresponde, em primeiro
lugar, a uma atitude do oprimido que não podendo sair da sua condição fica
contente por se sentir superior ao seu cão, a um polícia ou a um imigrante. É a
expressão de um real interesse de classe, da classe operária enquanto
mercadoria. O intelectual pode encher a boca com discursos sobre a fraternidade
humana. O operário, principalmente o operário não qualificado, sabe muito bem
que o estrangeiro é em primeiro lugar o concorrente no mercado de trabalho. O
racismo aberto ou latente nasce da incapacidade em reconhecer que é o capital
que opõe os assalariados uns aos outros. Esta incompreensão não é a expressão
de uma simples deficiência intelectual. Corresponde a uma impotência.
Compreensão e capacidade de transformar a realidade andam juntas. À medida que
o proletariado se ergue e se unifica o racismo afunda-se. Não é preciso esperar
pela revolução: nas lutas parciais, os operários de diferentes origens rejeitam
os preconceitos e a desconfiança.