III. FIM DA PROPRIEDADE
O comunismo significa o fim da
propriedade. Isto é conhecido e suscita muitas inquietudes. Algumas são, no
entanto, justificadas. Os possuidores de grandes domínios, de inúmeras e ricas
residências... serão obrigados a mudar o seu modo de vida. As fortunas
industriais e comerciais desaparecerão. Aqueles que forem expropriados, mesmo
se hoje detêm uma grande parte das riquezas da sociedade, formam apenas uma
casta reduzida e bem delimitada. Não afrontaremos no entanto, regra geral, as
pessoas, agiremos em função da natureza dos bens. Tomaremos os castelos e
deixaremos as cabanas, quer pertençam
aos pobres ou aos ricos! As inquietações que resvalaram para os cérebros
proletários e sobretudo camponeses não são justificáveis. O comunismo não trata
de tirar ao oprimido o pouco que lhe resta.
O QUE É A PROPRIEDADE
A questão não é assim tão simples de
resolver, como o testemunha a polémica que opôs Marx a
Proudhon. Este último tinha dito que “a propriedade é
o roubo”. Proudhon percebeu bem que a origem da
propriedade não é natural. É o produto de uma sociedade onde as relações de
poder, a violência e a apropriação do esforço dos outros reinam. Só que se
dissermos que a propriedade é o roubo, sendo que o roubo apenas se define em
relação à propriedade, ficamos num círculo vicioso.
O problema ainda se obscureceu mais
quando se passou da propriedade à abolição da propriedade. Será que tem de se
abolir toda a propriedade, quer ela esteja ela relacionada com os meios de
produção quer esteja relacionada com os bens pessoais? Teremos de agir de forma
selectiva? Será que se trata de substituir a propriedade privada pela
propriedade colectiva ou de estado? Tratar-se-á de acabar radicalmente com toda
a propriedade... e isso será parecido com quê?
O comunismo escolhe a última
proposição. Não se trata de nenhuma transferência de títulos de propriedade mas
sim do simples desaparecimento da propriedade. Na sociedade revolucionária não
podemos “usar e abusar” de um bem, só por sermos seus proprietários. E esta
regra não terá excepções. Um edifício, um alfinete, um terreno deixarão de
pertencer apenas a uma única pessoa ou, se quisermos, passarão a pertencer a
toda a gente. A própria ideia de propriedade depressa será considerada um
absurdo.
Então tudo passará a ser igualmente
de todos? A primeira pessoa a chegar poderá tirar-me a casa, as roupas, o pão
da boca por eu já não ser proprietário nem da casa, nem das minhas roupas nem
da minha comida? Certamente que não, a segurança material e afectiva de
toda a gente vai ficar reforçada. Simplesmente não será o direito de
propriedade a ser invocado como protecção mas directamente o interesse da
pessoa
O facto de um bem já não ser
propriedade não nos dá nenhuma indicação sobre o uso que dele fazemos. Mais
precisamente, o uso está reduzido ao uso. Uma bicicleta servirá para nos
deslocarmos e não apenas simplesmente para que Mr. Dupont, o seu legítimo proprietário, se desloque. Saber se
por razões afectivas os seres humanos, ou alguns seres humanos, precisam de um
território fixo e de objectos aos quais se possam ligar não é da ordem da
propriedade. Os dentistas podem estar descansados: não se trata de ter nenhuma
escova de dentes comum.
Opor individualismo e colectivismo,
o uso pessoal e social para tentar transformá-los em objecto de “escolha
social” é uma grande cretinice burguesa. Desse ponto de vista há que tomar um
partido muito claro a favor do caminho-de-ferro contra o veículo individual. Os
comunistas seriam a favor da orgia colectiva e os burgueses a favor da
masturbação! Esse género de debate não nos interessa mesmo nada e só pode ser
feito em função de circunstâncias práticas. Em todo o caso, não somos nós que
amontoamos as pessoas nem que as despersonalizamos.
Na situação presente o direito de
propriedade é uma garantia face à destruição da vida pessoal. É uma garantia
bastante irrisória. Não impede o barulho de passar nos edifícios mal
insonorizados. Não tem grande poder face a uma expropriação. O camponês pode
ser proprietário da sua terra mas isso não impediu que os campos se
despovoassem.
Hoje, continuam a haver terrenos
incultos, casas desabitadas, riquezas de todo o tipo desaproveitadas. Tudo isso
faz bem falta. Infelizmente os proprietários não querem ou – pior, não podem
utilizá-los nem cedê-los.
A noção de propriedade recobre uma
realidade e é também, no entanto, uma mistificação. Podemos ser proprietários
sem podermos verdadeiramente controlar. A mentira é dupla: é social e
económica. Implica também as relações entre os homens e a natureza.
O direito de propriedade é
necessário ao capitalismo. A troca exige que as coisas sejam claras. Há que
saber, quando se está a negociar, quem dispõe e quem não dispõe da mercadoria.
O costume local pode ditar a questão de saber como dispor e usar as coisas.
Desde que estas coisas adquiram uma independência em relação aos homens e
possam passar de mão em mão o costume já não basta. Poucos vestígios restam
ainda no campo: direito de passagem, de canalização da água, de respiga... A
mercadoria e o capital têm necessidade de um conjunto de regras válidas
independentemente do carácter particular da situação.
Na Idade Média a propriedade da
terra, no sentido moderno, não existia. Sobre um dado domínio exerciam-se os
direitos dos servos, do senhor, do seu suserano, da Igreja... até ao século XIX um certo número de regras continuava a limitar o poder
dos proprietários que apenas podiam usufruir do primeiro corte de um prado, não
tinham o direito de murar, deviam permitir a respiga e os pastos livres.
No mundo da igualdade burguesa todos
são proprietários livres. O camponês é proprietário dos seus campos, o patrão
da sua fábrica, o operário da sua força de trabalho. Não há roubo, no entanto
algumas pessoas enriquecem e acumulam de uma forma pouco condizente com o que
lhes poderia vir do seu próprio trabalho. A propriedade oculta as relações de
exploração.
Se o camponês, transformado em
“explorador agrícola” possui a parcela que cultiva, está no entanto submetido
aos preços cuja formação lhe escapa. Trabalhando sem cessar não consegue nunca
ficar rico.
A propriedade não explica o poder da
empresa capitalista. A empresa é proprietária do capital fixo: edifícios,
máquinas. Isto não explica a importância das riquezas que lhe passam entre as
mãos e que constituem o seu volume de negócios.
A interpenetração
da economia obriga a limitar o direito de propriedade. Com efeito, aquilo que
fazemos em nossa casa acarreta o risco de consequências desagradáveis em casa
do vizinho. Não podemos desembaraçar-nos impunemente dos nossos resíduos num
rio só por sermos proprietários de uma parte dos campos.
O carácter absoluto do direito de
propriedade, este é “inviolável e sagrado” segundo a Declaração dos Direitos do
Homem, não conta com a força e os caprichos da natureza. Mesmo o mais obstinado
dos proprietários ficaria impotente se um vulcão nascesse nos seus campos. Pode
chamar a polícia que isso não vai fazer o intruso sair dali. Regra geral, os
objectos e os fenómenos naturais não nos obedecem a um estalar de dedos.
Tal como constata Nino Cochise, neto do grande Cochise,
os homens brancos passam a sua existência a disputar a terra uns aos outros. No
entanto, não são os homens que podem possuir a terra mas é, ao contrário, a
terra que possui e que alimenta os homens. Ela acaba por os enterrar a todos, mais dia menos dia.
A QUESTÃO AGRÁRIA
A questão agrária está estreitamente
ligada à solução do problema da propriedade. É uma questão vital para a
revolução. No passado, insurreições operárias foram combatidas por exércitos de
camponeses. De resto, o contrário também aconteceu: no México, por exemplo. O pequeno
camponês sempre foi facilmente mobilizado pela contra-revolução em nome da
defesa do seu direito sagrado de proprietário.
Nos países industrializados o
capital fez o trabalho que acusava os “vermelhos” de quererem fazer. Expulsou a
maior parte dos camponeses das suas casas. Não pode, por isso, voltar a contar
com a sua massa amedrontada para constituir o exército da contra-revolução. O
aprovisionamento das cidades, em géneros de subsistência, continua no entanto
assente no campo. O partido da ordem ficará sempre feliz por fazer desta
situação uma arma contra a revolução.
Desde que os trabalhadores agrícolas
não sejam proprietários do solo que exploram mas simples caseiros ou
assalariados das grandes explorações, vão organizar-se para se continuarem a ocupar
da produção. Não mais terão nenhumas contas a prestar ao seu antigo patrão. A
terra será daqueles que a cultivam! Se o seu antigo patrão ou proprietário
quiser juntar-se a eles para os ajudar com os seus conhecimentos e as suas
forças isso será uma bem-vindo. Mas só o poderá fazer em pé de igualdade.
Nos sítios onde a posse e a
exploração do solo coincidem, quando o camponês tem poucos ou nenhuns
assalariados, o problema deve ser visto de forma diferente. Isto para bem do
conjunto da sociedade, que não passaria sem os agricultores descontentes. Isto
para o bem do camponês cuja condição se proletarizou, que depende, para os seus
abastecimentos e escoamentos, do sistema capitalista e que deve compreender que
só tem a ganhar com a revolução comunista.
O desenvolvimento do capital fez-se
contra a agricultura. Dela bombeou-se mão-de-obra e recursos para a indústria.
O comunismo vai inverter esta marcha. A agricultura é a menina dos seus olhos
porque ela liga-se directamente à produção de alimentos e à preservação de um
ambiente onde se possa viver. Duas coisas que o capital particularmente
negligenciou.
A propriedade, familiar ou não,
desaparecerá com o estado e o sistema jurídico que a garantiam. O uso e o
hábito de cultivar uma dada terra ficarão e deverão mesmo ser garantidos, pelas
autoridades revolucionárias. É nesta base que os camponeses poderão
reagrupar-se ou, se assim o preferirem, continuar a ocupar-se isoladamente da
sua parcela. É provável que, pelo menos durante um certo tempo, combinem os dois
métodos. Cada um permanecerá ligado à sua terra mas haverá uma ajuda mútua
maior do que a que há hoje para certos trabalhos e para o escoamento de
produtos. A herança, no sentido estrito, desaparecerá mas... quem é que tem
mais hipóteses de ter qualificações e quem está mais interessado em ser o
sucessor de um agricultor do que o próprio filho?
A regra geral será deixar os
camponeses organizarem a produção agrícola como bem o entenderem. A coacção
seria a pior e a mais custosa das soluções.
A colectivização agrária, praticada
pelo capitalismo oriental, não tem nada a ver com o comunismo. A colectivização
não foi feita por razões ideológicas mas por razões económicas e de classe.
Teve de se lutar contra o renascer espontâneo da burguesia no campo. Os camponeses
ricos enriqueciam à custa dos camponeses pobres com a agiotagem. Assim,
criava-se um pólo de acumulação de capital usurário concorrente do pólo
industrial no qual se apoiava a burocracia. Por isso foi necessário impor e
pagar o custo da colectivização agrária.
Ela custou caro. Ao princípio, na
União Soviética, os camponeses resistiram chegando mesmo a dizimar o gado. A
longo prazo, as consequências foram uma estagnação da produtividade agrícola
devido à falta de interesse dos kolkhozianos. Daí uma
política oscilante no que respeita às parcelas de terreno familiares. A
colectivização contribuiu para manter os camponeses no campo, poupando-os a uma
pressão económica directa. Isto implicou uma pressão e uma concorrência mais
reduzidas sobre o mercado de trabalho. A U.R.S.S.
conservou uma massa de camponeses excepcionalmente importante tendo em vista o
seu nível industrial. É um peso que carrega de má vontade.
Renunciando a colectivizar
renunciaremos nós a revolucionar e a comunizar o
campo? Claro que não! Muito pelo contrário! A revolução comunista é a
liquidação da economia de mercado. E isto diz respeito também ao campo.
O agricultor não ganhará mais um
tostão em troca dos seus esforços se for assalariado, ou das suas mercadorias
se for um produtor independente. Fornecerá gratuitamente à sociedade o
excedente da sua produção. Em termos de reciprocidade, não terá de pagar nada
pelos bens necessários à sua subsistência e à sua actividade. Não mais será
impelido pelo gosto ou pela necessidade de dinheiro. Agirá impelido
directamente pelo interesse no trabalho, pelo amor ao seu modo de existência ou
pelo desejo de ser útil.
O camponês verá os seus esforços
reduzidos. Poderá apelar à ajuda de mão-de-obra exterior, o que se tornará
possível graças ao fecho de todo um complexo de empresas mais ou menos
parasitárias e por uma redução da mão-de-obra industrial e do sector terciário.
Será possível parar temporariamente certas produções na época dos grandes
trabalhos agrícolas, para libertar braços. Hoje, isto não se pode sequer
imaginar.
Não só a produção mas também a
distribuição será transformada. O caminho que conduz do agricultor ao
consumidor será, tanto quanto possível, reduzido. O transporte de produtos
poderá fazer-se directamente de um solo agrícola até determinada cidade onde os
interessados os receberão. Ao vermos a diferença entre o preço da produção e o
preço que o consumidor paga compreendemos o interesse de uma tal simplificação.
Os camponeses levarão a cabo,
sozinhos ou com ajuda, os trabalhos de agricultura e de criação de gado. Não o
farão independentemente do resto da sociedade. Ninguém lhes promete a liberdade
absoluta. A agricultura depende, e continuará a depender, de outros sectores. A montante, tem os seus fornecedores de adubos e de material
agrícola. A sua independência está, assim, obrigatoriamente limitada dessa
parte. Por outro lado, esta actividade ocupa um papel demasiado importante para
que todos os que dela dependem renunciem a lançar-lhe um olhar atento.
Para dar um exemplo de um caso
extremo: Se os agricultores deixam terras e gado ao abandono, por não terem
mais necessidade de ganhar dinheiro, seria ingénuo pensar que outros irão por
gentileza deixar-se morrer de fome. Numa situação dessas, seria possível em
reciprocidade deixar os preguiçosos sem víveres. Os agricultores devem poder
conservar as suas terras e viver nelas de modo agradável. Mas não os podemos
deixar tornar-se parasitas nem, principalmente, monopolizar os bens que outros
poderiam utilizar em seu lugar.
A superação da cisão entre a cidade
e campo está no programa da revolução. Esta só se poderá fazer de forma muito
progressiva, pois a separação está inscrita na pedra e no betão. Não podemos,
por um golpe de varinha mágica, fazer mover arranha-céus nem florestas. Medidas
nesse sentido podem, no entanto, ser tomadas rapidamente. Por exemplo, a
deslocação provisória ou definitiva de populações urbanas para os campos onde
se poderão instalar pequenos centros industriais como complemento e, se
possível, em relação com as actividades agrícolas. Muita gente que tenha
abandonado o campo contra a sua vontade, ou que não goste da cidade ficará
contente por ali regressar. Os jardins individuais e colectivos vão
multiplicar-se e alegrar os subúrbios e mesmo os centros urbanos. Para isso,
poderemos desempedrar as estradas que se tiverem tornado inúteis pela redução
da circulação automóvel. Isso facilitará a reciclagem de uma parte do lixo
doméstico, reduzirá os custos de transporte e fornecerá legumes frescos à
população. Um dos defeitos da agricultura capitalista é que estando afastada do
consumidor e dos seus resíduos deve compensar o desequilíbrio cada vez maior
produzido, pelos produtos químicos ou biológicos. Nesses jardins, as crianças,
os velhos, os doentes, que agora são rejeitados da produção e muitas vezes
votados ao tédio, poderão ocupar-se e sentir-se úteis. Será um magnífico
terreno de instrução para uma juventude sem escola. Enfim, isso regenerará um
ar poluído!
DA PENÚRIA À ABUNDÂNCIA
O direito e o sentimento de propriedade
vão extinguir-se na sociedade comunista, uma vez que a penúria desaparecerá.
Não será mais necessário que ninguém se prenda a um objecto com receio que lho
roubem se o deixar só por um instante.
Através de que feitiço se pretende
fazer nascer essa fantástica era de abundância? Ironiza o burguês. Mas não há
aqui magia nenhuma. Vamos poder fazer aparecer a abundância porque esta já cá
está, debaixo dos nossos próprios pés. Não se trata de a gerar mas simplesmente
de a libertar. E é justamente o capital que, ao ter obrigado os homens e a
natureza a curvarem-se durante séculos ao seu jugo o torna possível. Não é o
comunismo que vai, de repente, produzir a abundância, o capitalismo é que
mantém artificialmente a penúria.
O formidável aumento da produtividade
do trabalho não mudou, por agora, grande coisa na sina do proletariado. Teve
até efeitos prejudiciais. O poder do capital destruiu sociedades tradicionais
do terceiro mundo sem permitir às suas populações o acesso ao mundo industrial.
Isto acrescentado a um monstruoso crescimento demográfico atirou uma grande
parte da humanidade para a maior das misérias. O estatuto de escravo
assalariado tornou-se uma verdadeira promoção em relação ao de mendigo.
O nuclear e a electrónica exerceram,
também, os seus efeitos como armas. Felizmente, os progressos da ciência
fizeram-nos sair desses tempos bárbaros em que éramos forçados a ver aqueles
que matávamos, e às vezes até mesmo a salpicar-nos com o seu sangue. Que coisa!
Mesmo os habitantes dos países
“ricos” que beneficiam desse aumento da produtividade são sugados. Os aumentos
dos salários e a progressão do consumo só servem para aumentar a deterioração
das suas condições de vida. Possuir mais objectos, ou objectos mais
aperfeiçoados, do que numa época anterior não significa que se viva melhor. O
operário tem um carro que o pai dele não tinha. Mas o seu local de trabalho e o
campo dos fins-de-semana estão mais longe. Perde nos engarrafamentos o que
tinha conquistado no tempo de trabalho e perde em fadiga nervosa o que tinha
poupado em esforço físico. O que a indústria dá por um lado já as condições do
seu desenvolvimento tinham tirado do outro. Essa mesma indústria gaba-se da
qualidade dos seus remédios mas esquece-se de dizer que inocula as doenças. O
que não é um acaso. A lógica da produção mercantil pressupõe que sejam mantidas
as condições de insatisfação. O medicamento tem necessidade da doença. Tal como
sublinhou Charles Fourier:
na civilização a penúria nasce da própria abundância e a sociedade move-se num
círculo vicioso.
O ser humano vê-se cada vez mais
relegado para o papel passivo de consumidor. O seu estatuto de morto-vivo anima-se com a vida artificial das mercadorias.
A sua miséria transforma-se no reflexo multicolorido da felicidade exposta em todas
as vitrinas e oferecida ao melhor preço.
Na sociedade comunista os bens serão
livres e gratuitos. A organização social ver-se-á livre da moeda, nos seus
próprios fundamentos.
Como impedir que as riquezas sejam
monopolizadas por algumas pessoas em detrimento de outras? Após um momento de
euforia, no qual nos serviremos das reservas existentes, não se arriscará a
nossa sociedade a resvalar para o atoleiro e a desigualdade antes de se afundar
na desordem e no terror?
Estas inquietações não são apenas as
de um punhado de privilegiados directamente interessados na manutenção do
sistema. Exprimem, também, o ponto de vista dos oprimidos que vivem no terror
de que uma alteração social agrave a sua situação. Na tempestade, os grandes
não estarão mais bem armados para se desembaraçarem do que os pequenos!
Na sociedade comunista as forças
produtivas serão suficientes para responder às necessidades. O desejo frenético
e neurótico de consumir e de monopolizar desaparecerá. O desejo de acumulação
será absurdo: não haverá mais dinheiro a embolsar nem assalariados a contratar.
Para quê acumular caixas de feijões ou dentaduras se não nos servirmos delas?
Neste estádio, se ainda subsistir alguma forma de constrangimento, não residirá
na distribuição dos produtos mas na própria natureza destes, na obrigação que
impõem os valores de uso específicos. Haverá necessariamente algumas
possibilidades que serão escolhidas e outras rejeitadas, ao nível do fabrico.
Quando a sociedade revolucionária
sair dos flancos do velho mundo a situação será diferente. As autoridades
revolucionárias, os conselhos de trabalhadores, deverão definir e aplicar um
certo número de regras que servirão de protecção contra o regresso dos hábitos
e dos mecanismos mercantis. Se calhar nessa altura terá de se limitar o número
de caixotes de cenouras e de quilos de açúcar que cada pessoa pode levar para
casa. Não podemos definir, com precisão, a duração dessa fase. Variará segundo
a maior ou menor pobreza das regiões. Dependerá da autoridade e da firmeza do
partido revolucionário. Uma guerra provocada pelo partido do capital, que
acarretará estragos na produção e nos transportes, não poderá fazer mais do que
prolongar essa fase de transição. Se apenas nos basearmos no período necessário
à reconversão comunista das forças produtivas esta poderá ser bastante breve.
Veja-se a velocidade com que a economia americana se transformou numa economia
de guerra, na altura da segunda guerra mundial! Com o comunismo, o carácter da
totalidade da produção e a natureza dos objectos produzidos, sofrem uma
transformação radical. O desaparecimento do valor de troca repercute-se no
valor de uso.
TRANSFORMAÇÃO DOS PRODUTOS
As mercadorias oferecidas no mercado
formam um conjunto extremamente hierarquizado. Não há uma, ou algumas,
mercadorias para uma dada necessidade: há uma série da mesma marca ou de marcas
concorrentes. Trata-se, claro, de satisfazer o público e de responder à
variedade das suas necessidades. O cliente deve poder escolher! De facto,
apenas tem a escolha que lhe permitem os seus meios financeiros e a sua função
social. Há inúmeras mercadorias que respondem a uma mesma necessidade, mas que
se distinguem pela qualidade e pelas suas particularidades. É o caso, por
exemplo, das caçarolas. Diferentes produtos podem corresponder a utilidades
diversas. Simplesmente essas utilidades diversas não estão ao alcance dos
mesmos indivíduos. Não são as mesmas pessoas que vão resolver os seus negócios
em avião supersónico e em bicicleta.
Esta hierarquização e diferenciação
das mercadorias é o reflexo da concorrência dos grupos
e da extrema desigualdade dos salários, e das condições de existência, no mundo
capitalista. Deixa a sua marca no desenvolvimento industrial. As necessidades
dos ricos desempenham o papel de guias. Alguns bens como o automóvel perdem
grande parte da sua qualidade de uso quando deixam de ser o privilégio de uma
minoria para se tornarem propriedade de toda a gente.
O objectivo do comunismo não é
vestir todos os indivíduos com o mesmo uniforme, nem alimentá-los com o mesmo
caldo. Mas acabará com esta nefasta diversificação e hierarquização de
produtos. Alguns bens novos, e ainda escassos, serão utilizados colectivamente
ou pelos primeiros a chegar.
No domínio do vestuário podemos
imaginar que, por um lado, se produzirá uma variedade reduzida, mas suficiente
para cobrir todos os tamanhos e todos os usos habituais, de roupas de
qualidade. Estas serão produzidas em massa e do modo mais automático possível.
Paralelamente podem ser abertas oficinas onde máquinas e tecidos estarão à
disposição de quem quiser fabricar roupas diferentes para si próprio ou para os
amigos.
A famosa liberdade do consumidor não
encontra apenas limites na quantidade de dinheiro que ele possui. Pode-se pagar
caro e ser vigarizado na qualidade. Quando não temos muito dinheiro podemos
estar certos de nos serem impingidas porcarias. Embuste e mercadoria andam a
par. Do comerciante ao ladrão não vai uma grande distância. O que interessa é
que a vantagem seja aparente e se não for mais do que isso não faz mal nenhum.
O que dependia da malícia do comerciante transforma-se praticamente numa regra
permanente, com o capital. Este produz a sua própria mercadoria. Pode, assim,
agir para pôr a tónica na sua imagem em vez de a pôr na sua qualidade real. Chega-se
a um ponto em que os engenheiros calculam e determinam a degradação necessária
dos objectos. Não se deve atravancar o mercado de produtos que tenham uma
duração demasiado longa!
Por outro lado, quanto mais
rapidamente um capital circula, mais rapidamente retoma a sua forma de dinheiro
para a voltar a perdê-la ao tornar-se numa mercadoria concreta, mais rende.
Reinveste-se com um lucro adicional. Esta tendência do capital leva-o a
condenar as reservas improdutivas. Tudo deve circular depressa. Até mesmo os
seus investimentos em construções e em máquinas devem ser amortizados o mais
rapidamente possível: representam dinheiro imobilizado. O capitalista sacrifica
as possibilidades da técnica no altar da finança. Investe mais a curto do que a
longo prazo. Corta-se na qualidade e eleva-se o custo dos produtos porque
cortámos nos investimentos em meios de produção. Privilegia-se uma renovação
rápida e uma alteração superficial das gamas de produtos às modificações
tecnológicas do aparelho produtivo
Quando os produtos da actividade
humana tiverem outra forma que não de capital não deixará de haver razões para
constituir reservas. Estas assegurarão a nossa segurança e suavizarão os
imperativos da produção e dos transportes desempenhando o papel de tampão. A
não ser quando é imposta pela própria natureza dos produtos, a necessidade de
pressa permanente desaparecerá. Será possível fazer projectos a longo prazo e
reunir forças para investimentos importantes e de longa duração. A técnica será
orientada de forma a permitir o fabrico de objectos duradoiros.
Hoje, os custos de circulação das
mercadorias tornaram-se cada vez mais importantes e muitas vezes superam os
custos de produção propriamente ditos. Por custos de circulação não devemos
entender simplesmente o custo de transporte mas também o de embalagem, de
marketing, da publicidade... grande parte destes custos não depende da natureza
nem do sítio de utilização do produto. É a promoção da mercadoria enquanto
mercadoria. Desaparecerá.
Mesmo para as despesas de transporte
propriamente ditas serão possíveis grandes economias. A separação cada vez mais
acentuada entre locais de produção e de consumo não é alheia à natureza
capitalista do sistema. O encaminhamento das mercadorias ver-se-á simplificado.
O grande número de empresas e de intermediários desaparecerá.
As despesas que têm a ver com a
necessidade de controlar e de vigiar aquilo que poderá ser roubado, tudo o que
se relaciona com o pagamento, perderão a razão de ser.
Neste mundo novo o homem não terá
mais de estar sempre a pagar contas para se alimentar, para se movimentar ou
para se divertir. Perderá rapidamente estes hábitos. Daí nascerá um sentimento
de se ser verdadeiramente livre. As pessoas sentir-se-ão em casa em todo o
lado. Não estando mais controladas não cairão mais na tentação de abusar. Para
quê mentir ou esconder reservas quando estamos seguros de podermos satisfazer
as nossas necessidades?
Pouco a pouco o sentimento de
propriedade desaparecerá. Olhando para trás este parecerá um pouco bizarro e
mesquinho. Para quê ligarmo-nos a um objecto ou a uma pessoa quando temos o universo inteiro?
O homem novo vai aproximar-se dos
seus antepassados caçadores-recolectores que
confiavam numa natureza que fornecia gratuitamente e muitas vezes em abundância
os meios para viver, que não se preocupava com o dia de amanhã sobre o qual, de
qualquer maneira, não tinha nenhuma influência. A natureza do homem de amanhã
será o mundo que ele formou a partir da sua actividade, a abundância nascerá
das suas próprias mãos. Estará seguro de si pois terá confiança nas suas
próprias forças e conhecerá os seus limites. Será despreocupado porque sabe que
o amanhã lhe pertence. A morte? A morte existe. Mas não convém chorar sobre o
que releva da necessidade. O que interessa é poder saborear o instante.