A guerra dos mil anos

 

João Bernardo

 

A revolução russa de 1917 começou europeia e acabou russa. A partir de 1916, em ambos lados das frentes de combate, em França, na Itália, na Grã-Bretanha, na

Bulgária, na Alemanha e no Império Austro-Húngaro, os motins nas trincheiras ou nos navios de guerra conjugaram-se com o aumento do número de desertores e com o alastramento das greves. Assim, a sublevação dos operários e dos camponeses russos em 1917 e a deserção maciça dos soldados, que desejavam regressar às suas aldeias para ocupar as terras dos grandes proprietários, não destoaram do que sucedia nos demais países beligerantes. O que singularizou os acontecimentos na Rússia não foi tanto o desencadear da revolução como o seu epílogo, a transformação de uma revolução internacional na consolidação de um Estado nacional.

 

Os principais chefes bolchevistas - Lenin, claramente, como era seu hábito, e Trotsky, malgrado a imagem de internacionalismo que mais tarde ele propagou a seu respeito[1] - depressa deixaram de considerar os acontecimentos na Rússia como um elemento do processo revolucionário europeu e subordinaram tudo à conservação do Estado soviético. Esta passagem do internacionalismo para o nacionalismo foi responsável pela ruptura dos bolchevistas com o outro partido governamental, os Socialistas-Revolucionários de Esquerda, e pela instauração do regime de partido único, com a consequente extinção da democracia proletária. E como a nação não é mais do que a expressão geográfica e demográfica do Estado, não custa entender que ao mesmo tempo que se desenvolvia o nacionalismo na política se desenvolvesse também o centralismo estatal na economia. As experiências de participação dos trabalhadores na gestão das empresas foram rapidamente abolidas, e em 1918 a tecnocracia recebeu de volta o controlo das indústrias e dos bancos[2]. Foi aliás por isso que ocorreu a primeira cisão no Partido Bolchevista após a tomada do poder.

 

 

 

Para os revolucionários daquela época que, apesar da sequência catastrófica dos acontecimentos, ainda se empenhavam em atacar o capitalismo tanto na forma privada como na estatal, foram duas as lições da experiência soviética: não confundir as relações sociais de trabalho vigentes na esfera económica com as relações jurídicas de propriedade e não reduzir os processos revolucionários às fronteiras de um país e aos interesses de um Estado. Mas a crise económica da década de 1930 deixou estes ensinamentos entre parêntesis. Perante o desemprego maciço os trabalhadores preocuparam-se mais em pôr o capitalismo a funcionar do que em destruí-lo, e depositaram as suas esperanças ou na planificação central staliniana ou numa reorganização centralizada da economia tal como a propunham Keynes e os tecnocratas que rodeavam Franklin Delano Roosevelt. Depois, na segunda guerra mundial, a luta contra o fascismo ficou confundida com a luta contra os invasores alemães, o que enraizou o nacionalismo na esquerda, apesar de a conjugação do nacionalismo com o movimento operário ter sido o terreno fértil onde havia surgido o fascismo.

 

A situação inverteu-se no final da década de 1950 e ao longo da década seguinte, quando alastraram praticamente por todo o mundo, desde os Estados Unidos e o Canadá até à Europa ocidental e aos regimes de tipo soviético, greves a que os dirigentes sindicais chamaram «selvagens» porque elas fugiam ao seu controlo, além de outros tipos de lutas conduzidas autonomamente pelos trabalhadores, que reataram assim com os ensinamentos extraídos do fracasso da revolução russa. Foi na China que o movimento autonomista mais se desenvolveu e foi aí que mais completamente soçobrou. Embora tivesse sido lançada por Mao Tsé-tung para compensar a falta de apoios no interior do Partido Comunista, a Revolução Cultural depressa escapou à sua direcção e converteu-se numa enorme vaga de contestação dirigida contra a burocracia e os intelectuais, considerados como uma modernização do mandarinato imperial. A ala extrema da Revolução Cultural exigia a reorganização da China segundo o modelo da Comuna de Paris e a constituição de uma federação de comunas. Para retomar o controlo, Mao teve de recorrer ao exército, que liquidou esta ultra-esquerda, e foi a partir de então que prosseguiu uma nova fase da Revolução Cultural, aquela que a memória curta dos jornalistas se limita a evocar, com as conhecidas imagens de batalhões de jovens alinhados militarmente e agitando o livrinho vermelho.

 

Na América do norte e na Europa ocidental, a proliferação de greves independentes das direcções sindicais e alheias ao calendário previsto pela negociação dos contratos colectivos retirou aos sindicatos a credibilidade enquanto reguladores do mercado de trabalho e ditou o fim do keynesianismo. Ao mesmo tempo encerrou-se a era do fordismo, porque se os trabalhadores eram capazes de gerir as suas lutas também se mostraram aptos a gerir as empresas que ocupavam, o que invalidou alguns dos principais postulados das teorias fordistas de administração. Maio de 1968 forneceu o paradigma desta ampla movimentação autonomista. Fundamentalmente, o que então ocorreu foi a maior greve geral da história da França, mas o lugar-comum jornalístico que salienta a componente universitária do movimento não é desprovido de veracidade.

As lutas estudantis destacaram-se em Maio de 1968 porque representaram a primeira contestação generalizada dos estudantes enquanto futuros trabalhadores. Ficou consagrado o fim da universidade de elite e a sua conversão em universidade de massas.

 

A contraofensiva dos capitalistas ocorreu naturalmente no plano em que os trabalhadores se haviam mostrado mais débeis, o da internacionalização das lutas. Data de então a importância assumida pelas empresas transnacionais, que se tornaram o principal agente da vida económica. E a partir do plano transnacional o capitalismo extraiu a lição dos acontecimentos. Não foi o governo Thatcher nem a administração Reagan quem iniciou o ataque contra os sindicatos, cuja legitimidade enquanto representantes dos trabalhadores fora já posta em causa pelas greves «selvagens». O neoliberalismo limitou-se a consagrar o declínio dos sindicatos como disciplinadores da força de trabalho e tomou as medidas adequadas à nova situação. Ao mesmo tempo, os mais lúcidos administradores de empresa perceberam que a autogestão ditara o fim do sistema fordista e descobriram no toyotismo um sistema apto a assimilar a capacidade gestorial dos trabalhadores e a usá-la ao serviço dos patrões[3].

 

Comparemos as datas. Os jovens que se sentem hoje insatisfeitos com o mundo onde vivem e compreendem que é quimérico apresentar esta sociedade como a única possível estão tão distantes do Maio de 1968 como eu, quando comecei a minha actividade política em 1962, estava distante do fim da revolução conselhista alemã; e estão tão distantes da revolução russa de 1917 como eu estava então da Comuna de Paris. Para mim e para os meus companheiros tudo aquilo era a pré-história, como certamente o serão para os jovens de hoje as datas que agora se comemoram. O futuro pesa muito mais do que o passado, porque o passado já não existe e o que resta dele está em declínio, enquanto aquilo a que chamamos futuro são as tendências vitais, se bem que ainda ignotas, contidas no presente.

 

Que uma mudança profunda e radical nas relações sociais de trabalho não se confunde com a mera alteração das formas jurídicas da propriedade, isto não é hoje segredo para ninguém. Também não é mistério que uma actividade política que os trabalhadores não controlem directamente se limita a ficar inserida na ordem dominante.

Mas compreender estas duas questões não significa encontrar-lhes a solução. Os jovens trabalhadores e os jovens estudantes que esperam ser trabalhadores - futuro duvidoso - vivem num mundo em que às antigas assimetrias se somam algumas novas.

 

1) O mercado livre-concorrencial só existe para os candidatos ao emprego, lançando cada um contra todos os outros. Do lado das empresas os mecanismos clássicos da concorrência não funcionam nem relativamente aos assalariados nem para as empresas entre elas. A conjugação da livre concorrência vigente entre os trabalhadores com o oligopolismo vigente nas empresas é uma das principais bases de sustentação do capitalismo actual.

 

2) Os trabalhadores encontram-se divididos por países ou por blocos económicos e são punidos quando saltam as fronteiras, a tal ponto que o transporte clandestino de migrantes se transformou num dos mais rentáveis negócios do crime organizado.

Entretanto, os capitais estão completamente transnacionalizados e para eles as fronteiras não existem sequer.

 

3) O governo dos Estados Unidos legalizou o exercício de torturas piores do que as praticadas pela Pide na metrópole a partir da década de 1950 - nas colónias a situação era outra. O governo norte-americano legalizou igualmente a prisão de cidadãos estrangeiros em território estrangeiro, a sua detenção sem culpa formada por prazos indefinidos e a utilização de polícias estrangeiras para procederem aos maus tratos que os agentes norte-americanos não estejam dispostos a praticar. Estabeleceu-se, em suma, a extraterritorialidade da justiça dos Estados Unidos. E ainda que as autoridades daquele país tenham até agora distinguido os muçulmanos como vítimas da nova panóplia repressiva, apesar disto não esqueceram as pessoas de outras convicções.

Também na União Europeia as medidas antiterroristas começaram já a atingir os meios esquerdistas. É nestas condições de repressão indiscriminada e mal definida que os anticapitalistas têm hoje de actuar.

 

4) Uma tecnologia de utilização generalizada, a electrónica, permitiu que pela primeira vez na história da humanidade o processo de trabalho se confundisse com o processo de fiscalização. Pelo mero facto de executar um gesto num computador ou numa máquina electrónica o trabalhador está a accionar os mecanismos que o fiscalizam. E como a electrónica passou também a vigiar os ócios, quando não lhes serve mesmo de quadro através dos divertimentos virtuais, isto significa que, exceptuando em regiões arcaicas, a totalidade da vida dos trabalhadores está sujeita a uma fiscalização contínua, exercida indiferentemente pelos poderes públicos ou pelas empresas privadas.

 

Na longa lista de frases incisivas que os activistas de Maio de 1968 nos legaram, uma delas parece ter calado fundo na consciência popular francesa e ainda hoje se vê pintada nas paredes de Paris ou se ouve evocada como um provérbio - «metro, boulot, dodo», «metro, trabalho, cama». Já não é mais o Palácio de Inverno que os anticapitalistas pretendem tomar nem sequer se limitam a incluir os burocratas sindicais e os tecnocratas das empresas na mesma aversão inspirada pelas outras hierarquias da ordem vigente. «Metro, boulot, dodo» resta como uma denúncia perene da moderna condição inumana. É este o verdadeiro inimigo e, perante um repto de tal dimensão, a revolução russa de 1917 e o Maio de 1968 quase me parecem exercícios juvenis.



[1] Acerca das consequências da política nacionalista prosseguida pelos principais dirigentes bolchevistas após Novembro de 1917 é especialmente interessante o livro de Pierre Broué Rakovsky ou la révolution dans tous les pays (Fayard, 1996). A subordinação da revolução europeia aos interesses do Estado soviético é flagrante na obra de Trotsky Terrorisme et communisme. L’Anti-Kautsky (Union Générale d’Éditions, 1963). Ver a este respeito um interessante documento publicado em Jan M. Meijer (org.) The Trotsky Papers, 1917-1922 (Mouton, 1964-1971) vol. II, pág. 209.

[2] Encontra-se numerosa documentação na obra de Maurice Brinton Os Bolcheviques e o Controle Operário (Afrontamento, 1975).

[3] O livro de Luc Boltanski e Ève Chiapello Le Nouvel esprit du capitalisme (Gallimard, 1999) contém (págs. 243-286) um estudo fascinante da implementação do toyotismo em França como forma de recuperação patronal das reivindicações e da prática de luta prosseguidas pelo movimento operário após Maio de 1968.

Hosted by www.Geocities.ws

1