O marxismo dos gagos
Amadeo Bordiga
A desinfecção a que consagramos os noventa por cento
do nosso pobre trabalho não se completará senão num futuro longínquo e
prosseguir-se-à muito tempo depois de nós. Esta desinfecção combate a epidemia,
muito difundida e sempre perigosa, dos que, por todo o lado e a todo o tempo,
revêem, põem em dia, renovam ou inovam.
Seria inútil e mesmo nocivo especificar ou
personalizar, procurar, de perto ou de longe, o lançador de bombas
bacteriológicas; trata-se de individualizar o vírus e de lhe aplicar o
antibiótico que obstinadamente afirmamos encontrar-se na continuidade da linha,
na fidelidade aos princípios, na preferência dada 999 vezes sobre mil à
ruminação catequista de preferência à aventura da descoberta científica nova,
que exige asas de águia e para a qual vulgares mosquitos se sentem atraídos
pelo destino.
Que se inquietem então os frementes voláteis quando,
terra a terra, friamente, os trouxermos à altitude modesta que nos é dado
atingir, a nós a quem todo e qualquer heroísmo, todo e qualquer romantismo, são
interditos; a nós que utilizamos a ironia em vez do lirismo e que nos vimos
contraídos a lembrar, de tempos em tempos, às pessoas demasiado fogosas: não
brinquem aos faetontes! [espécie de pássaro entre a qual se encontra o cisne —
Ndt].
Enquanto que muitas têm o histerismo do cálculo
sublime, nós experimentamo-lo com a aritmética e verificamos se sabem contar
com os dedos.
Pobres daqueles que crêem poder ser, como se diz
hoje, os porta-vozes do movimento proletário de classe e que se gabam de
exprimir a teoria revolucionária, se não digeriram e não assimilaram ainda a
mudança crucial no decurso da qual a nossa doutrina abandonou as posições
tradicionais.
Pobres de todos, mas, antes de mais, pobres dos
grupos que querem colocar-se à extrema-esquerda do movimento e personificar a
luta contra as suas degenerescências. Foi muitíssimo mais fácil aos
oportunistas e àqueles que colaboravam com a classe inimiga difamar a
«esquerda» acusando-a de ilusionismo, de sectarismo, de extremismo formal, de
incompreensão da total dialéctica do marxismo.
A resposta e a defesa da esquerda comunista
internacional consistiram e consistem em demonstrar que a recusa das
concessões, transacções e manobras não provém duma queda na mística e na
metafísica da simplória criança que, como as velhas crenças religiosas, abrem
todas as portas com a chave duma única antítese entre dois princípios opostos:
o bem e o mal. O «bem», para nós, seria igual a proletariado, o «mal» seria
igual a capitalismo: em todos os tempos, em qualquer lugar, outra bússola não
seria precisa; o capitalismo, mal absoluto, é sempre este mal — sempre único —
, sempre o mesmo, e o resto é vento.
Levámos a cabo longas lutas para demonstrar que não
raciocinávamos assim e que tínhamos compreendido «a dialéctica da História
viva», demascarando o erro do oportunismo post-leniniano e traçando de forma
suficientemente exacta a linha do seu percurso verdadeiro durante trinta anos,
da ortodoxia à renúncia.
Não nos perturbarão lembrando-nos que os termos das
antíteses se transformam em cada grande fase histórica. Aos que crêem em todas
as místicas, àqueles para quem o bem só pode ser o filho do bem, o mal filho do
mal — se não os «valores eternos» inscritos na luz do espírito tombariam — nós
retorquiremos que, pelo contrário, segundo a nossa doutrina revolucionária, o
comunismo é filho do capitalismo e que só podia ser engendrado por ele, e que,
apesar disso, e mesmo justamente por isso, o comunismo deve dar-lhe combate e
abatê-lo.
Os tempos históricos da mudança e da queda das
posições estabelecem-se pelo efeito das condições e das relações materiais,
nunca pelo efeito da vontade boba de
vigilante de homúnculos [pequeno ser sem corpo, sem sexo, dotado dum poder
sobrenatural, imaginado por feiticeiros — Ndt] ou de grupúsculos que, ridiculamente
convencidos da sua própria importância, se designaram a si próprios para
controlar que não nos enganemos de caminho.
Ontem
O Manifesto Comunista teve uma difusão tardia em
Itália. No prefácio de 1/2/1893 à edição italiana, Friedrich Engels tinha evidentemente
indicado a «comum opinião» de que se tratava dum país e dum proletariado «em
atraso». Opinião tão comum e tenaz que a mínima das coisas, meio século depois,
teria ainda sido «fazer-se» o segundo Risorgimento, o segundo 1848. E Engels
recorda então 1848 para lembrar que esta revolução contemporânea do Manifesto
não foi socialista mas preparou na Europa o terreno para a revolução
socialista.
Lembramos esta época para nela procurar duas grandes
verdades que se situam ao nível do «dois mais dois quatro» mas que é preciso,
evidentemente, «re-situar». Ei-las: «O Manifesto presta inteira justiça à acção
revolucionária que o capitalismo teve no passado. — A primeira nação
capitalista foi a Itália.» Mastiguemos bem: o fim da Idade Média feudal e o
início da era capitalista são fixados por Engels na época, não de Walter
Audisio, mas de Dante.
Dissemos várias vezes que o Manifesto é uma apologia
da burguesia. E acrescentamos que hoje, após a segunda guerra mundial e após a
reabsorção da revolução russa, era preciso escrever uma segunda, não em função
das filosofias dos valores, que projectam na ideologia burguesa o implacável
economismo e o espírito merceeiro próprios à classe e à época, mas porque temos
necessidade de fazer a apologia do acusado para concluirmos que é tempo de o
condenar à pena capital.
Para o provar deveríamos citar todo o Manifesto.
Limitar-nos-emos a repor nove palavras em memória: «A burguesia teve na
História um papel eminentemente revolucionário.»
Ocupemo-nos duma passagem ulterior. Em virtude das
exigências da classe dominante, as relações de produção pré-burguesas eram, em
certo sentido, estáticas, enquanto que as relações de produção burguesas são
impetuosamente dinâmicas. A diferença deriva da ruptura dos pequenos círculos
de satisfação das necessidades, das ilhas autárquicas de produção-consumo. Eis
a tese tantas vezes enunciada mas quão nova: «Em lugar das necessidades antigas
satisfeitas pela produção local (soletre: lo-cal), outras se manifestam que
reclamam, para serem satisfeitas, os produtos de países e de climas mais
longínquos.»
O Capital de Karl Marx (que quem tiver horror do
cheiro a bafio e a múmia procure grandes textos novos) contém um parágrafo, o
4.° do capítulo I, que, numa dezena de páginas, resume toda a obra e o seu
assunto—entendamo-nos: toda a obra escrita e não escrita de Marx, e isto para
provocar algum despeito aos mija-cópias da última literatura da moda e os
dissuadir de continuarem a escrever. Este capítulo intitula-se «O carácter
fetichista da mercadoria e o seu segredo». Para o conhecer é suficiente ser um
trabalhador manual analfabeto. Mas para o intelectual que dele se quer tornar
mestre uma cinquentena de anos de escola primária podem não ser suficientes.
Como ordem-do-dia do «Parteitag» (Congresso do Partido),
em relação ao qual quebram a cabeça aqueles que querem fornecer-lhe uma base
«verdadeiramente política» (é favor aclarar a garganta), nós proporíamos:
leitura e aplicação — olhando pela janela — do parágrafo 4º, capítulo I.
Marx encontrava-se em presença duma tese já
estabelecida pela economia política clássica. Ele nomeia assim a escola que
procurou abertamente a natureza da produção capitalista nascente, sem lhe
esconder nenhum aspecto, «contrariamente à economia vulgar que se contenta com
a aparência... e se fica, de forma pedante, por erigir em sistema e proclamar
verdade eterna as ilusões mais banais e mais idiotas de que os agentes da
produção burguesa gostam de povoar o seu universo, como o melhor dos mundos
possíveis.» Escola vulgar ainda viva, à qual juntamos os grandes economistas do
género de Sombart e de Keynes. Marx aceitou por conseguinte uma tese, uma
descoberta, da economia clássica: «o valor de troca duma mercadoria é dado pelo
tempo de trabalho necessário à sua produção».
A ciência proletária aceita, por um lado, esta
verdade; por outro lado demonstra que, se esta verdade contém implicitamente a
convicção de que enquanto o mundo for mundo os objectos utilizados pelos homens
para satisfazer as suas necessidades terão o carácter de mercadorias, tal
«verdade científica» cai ao nível da asserção arbitrária, mística, ao nível do
fetiche, quer dizer: ao nível duma mentira, não diferindo em nada das mentiras
contidas nas ideologias e nas crenças da época pré-burguesa e que a ciência
burguesa ridiculariza. (Esta já não se ri tanto quanto se ria antes. Este
fenómeno foi previsto.)
Sigamos algumas das diligências sugestivas de Marx,
depois de termos, por nossa vez, antecipado, com um objectivo didáctico, aquilo
a que ele queria chegar. Os objectos de consumo não foram sempre mercadorias e
encontram-se afectados a um preço e a um valor de troca que provém dos tempos
de trabalho que neles são cristalizados — mas não permanecerão sempre
mercadorias; uma vez feita a análise completa do modo industrial capitalista de
produção, decorre daí não só que não é necessário que todos os objectos que
satisfazem as necessidades da nossa existência sejam mercadorias e sejam
trocados pelo seu preço e valor, mas que, pelo contrário, num certo momento,
eles deixarão de o ser.
Sabemos desde a escola primária o que este enunciado
significa «politicamente». Ele significa isto: o modo de produção capitalista
não é eterno e destruir-se-á com a vitória da classe operária. Ele terá
desaparecido quando não existirem mais nem valores de troca nem mercadorias,
quer dizer: quando deixar de existir a troca mercantil dos objectos de consumo,
tal como a moeda.
Isso significa qualquer coisa de mais preciso: não
pode existir no futuro uma economia que seja ainda mercantil e que já não seja
capitalista. Antes do capitalismo houve economias parcialmente mercantis, mas o
capitalismo é a última deste género.
Adversários obstinados da novidade nós
demonstraremos, a quem souber ler, que isto estava escrito já.
Disponho, por exemplo, duma vela e tenho necesidade
de luz. Sirvo-me da vela e acendo-a: consumi-la-ei em poucas horas. Até aqui
nada de misterioso, nem na vela, nem na luz. «O carácter místico da mercadoria
não provém por conseguinte do seu valor de uso [propriedade que tem a vela de
dar luz]. Ele não provém também dos caracteres que determinam o valor [tantos
gramas de estearina] ».
De onde provém, por conseguinte, pergunta Marx, o
carácter enigmático que toma o objecto de consumo ao revestir a forma de mercadoria?
É evidente: desta própria forma. Não se tome por banal o que é profundo.
A forma valor, quer dizer: a relação que se
estabelece entre a vela e a determinada quantia de dinheiro com que a pagamos,
não é uma relação entre coisas, entre a estearina e o sujo dinheiro
republicano; ela esconde uma relação social entre os homens que participam na
produção. A relação monetária mercantil parece ser um simples meio para trocar
a vela que acendo por, digamos, os fósforos que produzi; ela parece ser uma relação
entre produtos: na realidade é uma relação entre produtores, é uma relação
social. Mais ainda: é uma relação entre classes sociais. É aqui que Marx
desvenda o mistério do «fetiche» mercadoria.
«Todo o mistério da forma mercadoria consiste, por
conseguinte, simplesmente, em que as mercadorias devolvem aos homens o carácter
social do seu trabalho como se ele fosse (mas não é!) o carácter objectivo dos
próprios produtos do trabalho; por consequência, apresentam (ilusoriamente!) a
relação social dos produtores com a colectividade como se fosse uma relação
entre objectos existindo fora dos homens. Através deste qui pro quo
(equívoco) os produtos do trabalho tornam-se mercadorias, coisas efectivamente
«super-sensíveis», quer dizer: coisas sociais.»
Marx quer, entretanto, explicar melhor este «golpe»,
pelo qual a inocente vela (contrariamente ao ramo seco arrancado da árvore e
utilizado pelo homem primitivo na sua caverna), se torna, fazendo-se portadora
de valores de troca, a expressão da relação de exploração exercida pelo patrão
da fábrica de velas contra os seus operários. Ele faz uma comparação com a
estimulação da retina, que nos aparece como objecto existente no exterior do
olho que o vê. Mas a luz irradiada pelo objecto e a estimulação do olho são
realidades físicas, enquanto que a forma valor já não tem nada de físico, não
está nem na estearina nem na luz ou em qualquer estimulação do meu nervo
óptico. É apenas uma relação social determinada dos homens entre si, que
reveste aqui para eles a forma fantástica duma relação das coisas entre elas.
«É por tal razão que, para se encontrar uma analogia com um tal fenómeno,
devemos refugiar-nos nas regiões nebulosas do mundo religioso.»
Como, na mística, «os produtos do cérebro do homem
têm o aspecto de seres independentes», o mesmo se passa com os produtos «das
mãos do homem no mundo mercantil». «Um fetichismo semelhante é inseparável da
produção mercantil.»
Marx, que não é um literato, mas um lutador, vê
defronte de si, em cada linha que escreve, o adversário de classe. Ele não é um
«pensador», não monologa mas, pelo contrário, dialoga com o seu inimigo. Vocês
acreditaram, teóricos da burguesia, que atingiram o último grau do
desenvolvimento, limpando do espírito do homem os fetiches das crenças nas
divindades que justificavam a autoridade da classe a que sucedem. Vocês
erigiram um novo e mais triste fetiche que nós atiraremos contra os vossos
altares, os Bancos, e expulsaremos dos vossos templos, as Bolsas, por nossa
vez.
«Ora esta forma adquirida e fixa do mundo das
mercadorias, a sua forma dinheiro, em vez de revelar os caracteres sociais dos
trabalhos privados e as relações sociais dos produtores, não faz senão
escondê-los... Estas formas constituem justamente as categorias (conceitos de
base) da economia burguesa. Elas são socialmente válidas como formas mentais
objectivas para exprimir as relações de produção deste tipo de produção
historicamente determinado, a produção mercantil». Todo o misticismo se dissipa
se nos referirmos a um outro tipo de distribuição, não mercantil.
Pedimos a Marx a demonstração do carácter transitório
das formas mercantis e a confirmação da tese conexa: as formas mercantis
surgiram numa certa etapa da História e só quando terão desaparecido nos
encontraremos na etapa comunista. É então que Marx, dum só golpe, nos
transporta de Robinson Crusoé à sociedade de amanhã. É o nosso método habitual
e clássico: com dados indiscutíveis do passado, elaborar a análise do
desenvolvimento de amanhã. Que aqueles que, tendo-o lido sem o lerem, dizem que
Marx fica pela ciência prudente dos factos contemporâneos e apenas dá uma
fotografia do capitalismo da sua época (por conseguinte, o imbecil peralvilho
de 1952 sabe disso mais do que ele), que esses façam limpar as pálpebras
ramelosas; o comunismo realizado encontrá-lo-ão ao fim da página 15.
Visto a economia gostar das robinsonadas, partamos
daí, diz Marx. Robinson tem necessidades e satisfá-las com os objectos que
conseguiu juntar: salvou o tinteiro, a pena e um grande livro e deles faz o
inventário; mas fiquemos por aí. Robinson não tem actividades duplas, não
embolsa nem dispende dinheiro; à sua volta não há qualquer espécie de
mercadorias. Marx transporta-nos então da «ilha luminosa de Robinson até à
sombria Idade Média europeia». (Este dardo é para vocês, liquidadores das
vergonhas feudais, que glorificam a esplêndida civilização do néon de hoje.
Vocês compreendem apenas que a luz vem da luz: deum de deo, lumen de
lumine. Nós, pelo contrário, reconhecemos a necessidade da passagem da luz
do comunismo primitivo generoso, sem mercadorias, às sombras da sociedade
feudal, depois ao esgoto fétido da civilização burguesa, para se continuar para
além dela. Nada é fetiche para nós, nem sequer a raiva contra o capitalismo.)
Pois bem! Na Idade Média não há ainda, numa escala
geral, mercadorias; o privilégio da classe dominante é constituído por
prestações pessoais de trabalho, honestamente visíveis. A forma social do
trabalho é também a forma natural, isto é, a particularidade. Não, como na
forma mercantil, a generalidade. Procuremos compreender. Voltei o lagar para o
teu lado e tu beberás, amplamente, o copo cheio. É menos ignóbil do que comprar
no estaminé o líquido capitalista envenenado, contendo água e corante para
aumentar a margem de lucro.
Relações claras na noite da Idade Média. A mentira do
padre predomina? Mas «o dízimo a pagar ao padre é mais inteligível do que a
bênção do padre». A prestidigitação infecta da relação da escravatura humana,
apresentada como uma relação equitativa, recta, entre coisas trocadas, será o
particular da época burguesa ulterior.
Mas pode ele existir uma actividade humana apta a
satisfazer as necesidades essenciais sem uma tal mentira moderna, sem um tal
fetiche do mercado? Pode, diz Marx, dando o exemplo em três tempos: passado, presente,
futuro.
Passado: figura completamente abstracta, utilizada
com fins analógicos, Robinson não nos interessa. O homem para nós é a espécie
humana, não a pessoa humana: este ser estranho e solitário, e evidentemente
estéril, só conhece bens de consumo, não conhece bens de troca, e, não se
encontrando no Paraíso, afora a vantagem de passar sem Eva, obtém os bens úteis
pelo seu trabalho. O nosso exemplo do passado tomamo-lo nas comunidades
primitivas. Entre o Manifesto e O Capital a investigação arqueológica positiva
estabeleceu que não só certos povos, mas todos, tiveram na origem uma
organização baseada no trabalho de todos e na propriedade de nenhum.
Organização que é «o trabalho comum, quer dizer: o
trabalho imediato associado, sob a sua forma natural primitiva, tal como se
apresenta na primeira fase da história de todos os povos civilizados».
Presente: do trabalho em comunidade «temos um exemplo
perto de nós na indústria rústica e patriarcal duma família de camponeses que
produz para as suas próprias necessidades trigo, gado, linho, pano, vestuário,
etc. Estes diversos objectos apresentam-se para a família como produtos
diversos do seu trabalho e não como mecadorias que se trocam reciprocamente. Os
diferentes trabalhos começam por possuir... a forma de funções sociais, porque
são funções da família, a qual, tal como a produção mercantil, tem a sua
divisão do trabalho. As condições naturais (estações, idade, sexo...) regulam
para cada um a distribuição do trabalho e a sua duração».
Indicámos por várias vezes que estas ilhas de
organização autónoma existem não só nos continentes atrasados, onde o mercado
mundial não penetrou, mas também nos países burgueses: em 1914 uma dama da
Calábria, grande proprietária, podia gabar-se de dispender apenas «um centavo»
por ano em agulhas e por não comprar mais nada. Se não fossemos dalécticos
diríamos que o nosso ideal reside em tais ilhas. Pelo contrário, dizemos que é
útil que sejam o mais rapidamente possível dissipados e absorvidos, quer seja
na Calábria ou no Turquestão, pelo ciclo infernal do capital mercantil.
Futuro: «Representemo-nos enfim [o tom modesto
empregado, a fim de evitar o modo utopista, não permite às pessoas superficiais
compreender que se trata aqui do programa da revolução proletária] uma associação
de homens livres (historicamente, para nós, livre equivale a não-assalariado),
trabalhando com meios de produção comuns e dispendendo, segundo um plano
combinado, as suas numerosas forças individuais como uma mesma e só força de
trabalho social... O produto total dos trabalhadores associados é um produto
social. Uma parte serve de novo como meio de produção e permanece social; mas a
outra parte é consumida e por consequência deve repartir-se entre todos.
[Atenção: procure-se a precisão «em partes iguais» — não se a encontrará]. O
modo de repartição variará segundo o organismo produtor da sociedade e o grau
de desenvolvimento histórico dos trabalhadores».
Para bem se estabelecer que este «estado de coisas»
(qual, ó censores e distraídos, senão o comunismo, o impossível comunismo?!) é
a negação da produção mercantil, Marx faz a comparação examinando um dos modos
de repartição, quer dizer: que «a parte entregue a cada produtor o seja
proporcionalmente ao seu tempo de trabalho» (seria o estádio inferior do comunismo,
justamente a límpida ilustração de Lenine baseada na crítica de Marx ao
Programa de Gotha — outro «martelar» formidável de dados fundamentais). Pois
bem!, aqui, na organização comunista, «as relações sociais dos homens nos seus
trabalhos e com os objectos úteis que deles provêm permanecem simples e
transparentes na produção, bem como na distribuição».
A parte final do parágrafo trata das ideologias que
necessariamente reflectem os três estádios: economias pré-mercantis, economias
mercantis, organização não-mercantil ou socialista.
As antigas religiões nacionais são particulares ao
primeiro estádio bárbaro e semi-bárbaro baseado em condições de despotismo e de
escravatura.
A sociedade de mercado universal encontra a sua
religião apropriada no cristianismo e, para além de tudo o mais, no seu
desenvolvimento burguês, a Reforma.
É apenas no terceiro estádio, comunista, que a vida
social rasgará o véu místico que lhe esconde o seu aspecto. Como o dissemos
outras vezes, há um «mas»: «mas isso exige que exista na sociedade um conjunto
de condições de existência materiais, as quais só podem ser, elas próprias, o
produto dum longo e doloroso desenvolvimento».
E Marx termina pelo sarcasmo final e a assimilação às
tolas superstições «do conhecimento de si-mesmo» de que é capaz a época
burguesa.
Ele escolheu Bailey, nós poderíamos escolher Einaudi.
O sábio capitalista diz: «O valor [isto é, o valor de troca] é uma propriedade
das coisas. A riqueza [valor de uso] é uma propriedade do homem». Deste modo
pode ele cientificamente deduzir que haverá mercadorias in eterno e
ricos in eterno (na significação mais imbecil, todos os homens serão
ricos).
Nós, que pela revolução aboliremos as mercadorias e
os ricos, nós demonstramos, de momento, a estes pretensos sábios, que, pelo
contrário, são as coisas que têm a propriedade de possuir um uso útil aos
homens, e que são apenas os homens e as relações actuais que têm a propriedade
mercantil, de tal forma que o valor de troca exprime um atributo dos homens, o
de serem exploradores ou explorados.
Quanto mais a opinião da ciência oficial é
esclarecida e está na moda, mais ela conclui que as relações capitalistas são
insubstituíveis e «naturais» e, por nosso lado, mais nós a consideramos como
uma traficância integral. O seu calibre é semelhante ao das idiotices que a
força cómica de Shakespeare põe na boca do seu ridículo personagem Dogberry:
«Ser um homem bem feito é um dom das circunstâncias, mas saber ler e escrever,
isso vem-nos da Natureza».
Hoje
Enquanto que a questão é tão simples (porém, o
simples conquista-se duramente, e o que é complexo está à mão dum qualquer
negociante de cultura), há pessoas que vêm dizer que é preciso «fórmulas
novas». Com que objectivo? Para explicar a Rússia e a perplexidade do edifício
marxista, pelo facto de que lá os meios de produção já não são propriedade
privada e de que, todavia, lá existe um capitalismo não diferente,
milimétricamente, dos do Ocidente! Todo o vasto bando internacional estalinista
explica, em grandes clamores, que na Rússia existe o socialismo integral. Todo
o não menos vasto bando capitalista explica a mesma coisa: o comunismo existe
lá; sendo, este último, nada mais nada menos do que a ditadura central e
estadual sobre todos os bens e sobre todos os homens (de que se tem um horror
particular no delicioso mundo livre).
Rebuscadores de fórmulas novas, venham confrontar-se
um pouco com as fórmulas antigas. Receio muito que em vez de vos acordar a
abertura do vosso instituto superior de investigação, convirá mais por-vos na
«classe dos burros».
É possível que seja verdade que Demóstenes se tenha
tornado o maior orador superando à força uma gaguez inata, rolando pedras na
boca; mas nós suspeitamos muito dos «cacagli» em marxismo. (Terão compreendido
que em dialecto meridional «cacaglio» quer dizer gago.) Uso escandaloso do
dialecto? Para Staline talvez, que nega que a língua nacional é um produto
transitório de classe. Pelo contrário, o dialecto está por vezes mais próximo
do pensamento da classe dominada. Dante fortaleceu a revolução na medida em que
os burgueses opuseram o toscano vulgar ao latim dos senhores feudais e dos
prelados. Na Rússia os aristocratas sussurravam o francês e os revolucionários
proletários dissertavam em alemão. Estaline, ignorando as duas línguas, exprime
bem o facto de que uma das características da formação do poder burguês é a
exaltação da língua nacional.
De resto, se vos horroriza passar por camponês, convém
lembrar que Stenterello[1] é um
personagem florentino. Assim refrescados no Arno [rio de Itália, que passa em
Florença e Pisa — Ndt], voltemos ao Moskova.
Não pode haver hesitação para classificar a Rússia
segundo um dos três estádios: pré-mercantil, mercantil e socialista. No tempo
de Engels o primeiro estádio tinha ainda manifestações sugestivas, não só nos
principados asiáticos como no mir, comunidade rural da Rússia europeia.
Mas será possível soldar este comunismo de ilhas fechadas, primitivo e
rudimentar, com o comunismo de toda a sociedade apetrechada de forma moderna?
Engels, que era um grande e prudente diplomata da revolução, lembrou, ao
apresentar o Manifesto aos russos, o que Marx tinha conjecturado em 1882:
talvez seja um ponto de partida, se a revolução russa anti-feudal dá o sinal à
revolução proletária no Ocidente. Se assim não fosse, ou se o sinal fosse
insuficiente, a Rússia deveria atravessar o estádio mercantil. É o que ela está
a fazer. O derrubamento da armadura feudal czarista provocou este resultado:
engolir todas as ilhas fechadas da Europa oriental e da Ásia, graças a uma industrialização
acelerada dos territórios atrasados, nas vagas irresistíveis do sistema
mercantil.
Resultado, note-se, revolucionário. Marx e Engels
pensaram sempre que um segundo 1848, já não burguês mas proletário, não poderia
ser vitorioso enquanto existisse na Rússia um poderoso exército feudal. Desde
1917 que esta situação contra-revolucionária está eliminada.
Como eles, nós pensamos que para se poder transformar
a revolução anti-feudal em revolução proletária na Rússia (linha de Lenine), a
condição indispensável era a vitória revolucionária na Europa.
Na situação de 1952, a Rússia não constrói o
socialismo, constrói o capitalismo, assim como a Alemanha, a Áustria, a Itália,
o construíam depois de 1848.
Hoje, a Inglaterra, a América, a França e os outros países
industriais já não constroem o capitalismo interior, defendem o capitalismo
mundial. As suas máquinas de Estado trabalham apenas num sentido
contra-revolucionário. Os seus Estados têm a artilharia apontada unicamente
contra o futuro e não em parte contra o passado e em parte contra o futuro.
Não insistiremos mais aqui sobre a questão da
natureza mercantil da organização económica, para podermos desenvolver em
seguida a questão da dissolução das ilhas fechadas no mar único do comércio
geral, para explicar as conclusões teóricas do facto de que, em países dados, o
processo está em acção e que no território doutros países «já não há ilhas
económicas». E demonstraremos que esta distinção se encontra nas páginas de
Marx, onde desenvolve a história da passagem do trabalho parcelar ao trabalho
associado, base necessária da revolução proletária e da organização social
comunista.
Foi anunciado que daqui a dois ou três anos a Rússia
poderia trocar com os outros países mercadorias num valor anual de 40 biliões
de rublos, o que significa 10 milhões de dólares ou 6 biliões e 300 milhões de
liras.
A propaganda atlântica tem a pretensão de fazer crer
que são verdadeiras patranhas e que, se 40 biliões são de facto dispendidos, é
com o único objectivo de fazer efeito sobre os eleitores de Trifouilli para que
elejam o presidente da câmara kominformista [pró-russo — Ndt].
Nós quereríamos que os sábios da economia ocidental
nos explicassem como é que os capitães de indústria que partiram para Moscovo
poderiam ser, não como diz romanticamente l'Unità [órgão do P.C. Italiano]
noivos à janela, mas sim noivos de Potemkine[2], quer
dizer: tipos de quem se escarnece. E valia mais que tais sábios discutissem de
outros fenómenos, como a decisão stalinista de Truman consistindo em requisicionar
a indústria siderúrgica e de fixar por decisão do Estado os preços dos
salários, visto restar uma margem útil sobre o aço de 8 dólares por tonelada.
Ou então de fenómenos como a fundação pelos capitalistas duma sociedade
financeira internacional para o desenvolvimento económico com o objectivo de
resistir às intervenções dos governos nos negócios.
O desenvolvimento actual do capitalismo no sentido da
planificação do lucro foi previsto pela doutrina marxista. A questão está
clara: não há uma migalha de socialismo neste desenvolvimento, mas, para a
economia dialécticamente oposta, a economia burguesa, esta política dirigista é
justamente «o socialismo». Para Vilfredo Pareto, por exemplo, o socialismo não
é o que nós dizemos que é, quer dizer: a organização sem mercado e sem
comércio; bem pelo contrário, ele entende por socialismo uma intervenção
arbitrária de elementos morais e legais no facto económico natural (o marxista
sustém o inverso, isto é, a intervenção do facto económico no modo de ser do
artifício legal e moral). De qualquer forma, Pareto é lógico quando declara: os
sistemas socialistas [tal como os compreende] não diferem dos diversos sistemas
proteccionistas. Estes, acrescenta ele, representam, propriamente falando, o
socialismo dos empresários e dos capitalistas. Este socialismo, visto por
Pareto, mais de meio século antes, deixamo-lo de bom grado a Truman e a
Staline. Nunca como hoje foi tão claro que o socialismo soviético é o
socialismo dos capitães de indústria. (Mas na Rússia suprimiram-nos! Pois bem,
hoje, importam-se...).
Dez milhões de dólares representam um valor duplo do
que representam as importações da Grã-Bretanha, seis vezes mais que as
importações da Itália, igualizando as da América. Equivalem ao trabalho anual
de 26 milhões de operários e, provavelmente, ao de todos ou quase todos os
trabalhadores russos já colocados na produção (não em ilhas fechadas, mas na de
toda a população dum país desenvolvido mais a metade dos habitantes da URSS
actual). Se a metade do esforço de trabalho deste povo, não absorvido por
consumos de tipo pré-mercantil ou asiático, equilibra com o seu preço no
mercado mundial o esforço produzido pelo trabalho dos países capitalistas, não
temos necessidade de outros dados para
definir a economia russa como capitalista.
E como duvidar que se nada em pleno estádio mercantil
quando a projecção ideológica consiste numa dominação completa da religiosidade
popular, encorajada e utilizada pelo poder público?
No diálogo de troca entre a mercadoria russa e o dólar
que a paga, entre a mercadoria americana e o rublo que a paga, quase não temos
necessidade de exprimir o seu «carácter fetiche». Os objectos não falam, as
mercadorias não falam, mas onde as mercadorias, umas como as outras, são
produzidas, a relação é, na realidade, relação de exploração salarial.
Nada nos diz que neste momento a troca não seja real,
sensível e abertamente. A troca funcionou durante a guerra de 41 a 45, sob
diversas formas: armas e munições de Oeste contra esforço e trabalho industrial
e «militar» de Leste. Hoje, as indústrias respectivas desenvolvem a acumulação
do capital (facto social, mesmo em regime burguês), no sentido do armamento
para uma guerra imperialista (Truman invoca razões de defesa nacional para a
requisição das empresas e para a militarização dos grevistas) ou no sentido da
satisfação mercantil recíproca na troca internacional.
Para se ter, a propósito da Rússia, um discurso novo,
não serve para nada saber-se que é servido caviar na mesa de Staline e uma sopa
de milho no escabelo do operário. Isto poderia ser compatível com um comunismo
de estádio inferior. No estádio superior será dado caviar a toda a gente... e a
sopa de milho aos maus alunos que têm o vivo desejo de brincar aos professores.
A nós interessa-nos perguntar se tendo rublos no
bolso podemos ter caviar e sopa de milho. E se também o podemos, uma vez feito
o cálculo de troca, tendo no bolso dólares ou liras.
Depois disso, o carácter fetiche do caviar ou da sopa
de milho já não tem segredos para nós; o mesmo se passando com o carácter
supremamente simplório dos discursos novos.
(In Battaglia comunista, n.° 8, Abril 1952)
Tradução de J. Henriques
[1] Personagem da comédia florentina inventada em 1790 por Del Buono. Alusão a um outro artigo, «Partido Stenterello», Battaglia comunista, n.° 3, 1951
[2] Alusão a Catarina II da Rússia e ao seu favorito
Potemkine. Aquando duma viagem da imperatriz através dos campos russos,
Potemkine concebera uma aldeia desmontável que fazia transportar através do
país e que dava a visitar a Catarina sempre que esta queria conhecer o estado
dos camponeses, os quais eram substituídos em cada visita. A imperatriz ficou
assim com uma impressão muito favorável do estado dos campos e dos seus
subordinados.