O CONCEITO DE FORÇAS PRODUTIVAS MATERIAIS
Karl
Korsch, cap. 8 de Karl Marx
O conceito fundamental da nova teoria
revolucionária do desenvolvimento construída por Marx é o conceito de «forças
produtivas». Também ele está para Marx determinado socialmente. Não se trata
nem de uma simples inversão «materialista» da «Ideia» absoluta de Hegel nem de
uma base natural subjacente à estrutura económica da sociedade em cada caso (as
«relações de produção») que fundamentasse todo o desenvolvimento social. As
forças produtivas materiais constituem, em conjunto com as relações de produção
nas quais actuam e se desenvolvem, o todo real do que em cada modo de produção
material se pode «registrar» com a «fidelidade» da ciência natural. Este
conceito marxiano não tem nada de místico nem de metafísico. «Força produtiva»
não é senão a capacidade de trabalhar real dos homens vivos: a capacidade de
produzir por meio do seu trabalho e com a utilização de determinados meios
materiais de produção e numa forma de cooperação determinada por eles, os meios
materiais para a satisfação das necessidades sociais da vida, o que quer dizer
em condições capitalistas, a capacidade de produzir «mercadorias». Tudo o que aumenta esse efeito útil da capacidade
humana de trabalhar (e portanto, em condições capitalistas, inevitavelmente
também o lucro dos seus exploradores) é
uma nova «força produtiva» social. É preciso contar entre as forças
produtivas materiais, a par da natureza, a técnica, a ciência, e antes de tudo
também a própria organização social e as forças criadas nela por cooperação e
divisão industrial do trabalho, as quais são desde o princípio energias
sociais. Já Adam Smith falava na sua obra económica do «aumento relativo da
capacidade produtiva do trabalho», e pode-se dizer sem exagero que é precisamente
nessa ideia, enormemente ampliada e criticamente desenvolvida por Marx, que tem
a sua verdadeira origem o novo conceito básico materialista de forças
produtivas materiais[1].
O carácter dúplice da produção material, como
relação (técnico-natural) entre o homem e a natureza e, por outro lado, como
relação (histórico-social) entre os homens, é o principal ponto de partida para
a continuação e a crítica dos conceitos fundamentais da economia burguesa n’ O capital, e é-o também para a teoria
marxiana do desenvolvimento histórico da sociedade. «A produção da vida
-declara já na primeira fundamentação de seu novo princípio - aparece imediatamente
como uma relação dúplice, por um lado como relação natural, por outro como
relação social, social no sentido que por ela se entende a cooperação de vários
indivíduos, independentemente das condições, o modo e o fim da cooperação.
Disso se depreende que um determinado modo de produção ou estádio industrial
vai sempre acompanhado de um determinado modo de cooperação, ou estádio social,
e este modo de cooperação é ele mesmo uma
“força produtiva”.»[2] O verdadeiro sentido dos
desenvolvimentos ulteriores do conceito marxiano de forças produtivas consiste
pois na ênfase dada a essa «nova potência da força produtiva» em constante
aumento pela fusão, no curso do desenvolvimento da sociedade humana, de muitas
forças numa força colectiva, ou seja, em condições capitalistas, originando-se aparentemente
da produtividade do capital, mas na verdade tendo como origem o aumento da produtividade
do trabalho social[3]. Neste sentido é mesmo possível
considerar como uma força produtiva material a própria classe revolucionária dos trabalhadores, que quebram os entraves
postos pelo presente modo de produção mercantil capitalista às forças
produtivas, substituem a forma imperfeita da actual divisão burguesa do
trabalho por uma socialização directamente socialista do trabalho e assim realizam
as novas potências das forças produtivas já presentes dinamicamente no trabalho
social. « De touts les instruments de
production, le plus grand pouvoir productif, c’est la classe révolutionnaire
elle-même.[4]»
A «contradição entre as forças produtivas e as relações
de produção» como motor oculto de todo o desenvolvimento histórico da produção material
e da formação social económica baseada nela não é senão a expressão objectiva
do mesmo que Marx no Manifesto comunista
e em muitos outros lugares de sua obra expõe como oposição e luta das classes
sociais. Por isso se enganam completamente os recentes intérpretes de Marx que,
invertendo literalmente a relação admitida pelo próprio Marx, pretendem deduzir
a oposição das classes como mera forma de manifestação de uma «dialéctica» intemporal
das forças produtivas e das relações de produção. Com essa interpretação não só
retrocedem em relação ao materialismo histórico de Marx, mas também em relação
ao idealismo histórico de Hegel, colocando-se num ponto de vista metafísico e
pura e simplesmente místico[5].
A relação precisa do conceito marxiano de forças produtivas
sociais com a presente forma de sociedade burguesa expressa-se plena e
originariamente na obra na qual Marx e Engels elaboraram a sua concepção
materialista em contraposição à concepção ideológica da filosofia alemã e, ao
fazê-lo, construíram e fundaram detalhadamente todas aquelas novas noções que subjazem
com toda a naturalidade de modo óbvio às suas posteriores investigações: o
desenvolvimento das forças produtivas como fundamento da história da sociedade;
a contradição entre as forças produtivas e o modo de sua realização ou execução
em cada caso; a transformação da «forma do tráfico» de cada caso (ou seja,
segundo o léxico posterior de Marx, a transformação das «relações de produção»
de cada caso) de formas de desenvolvimento em entraves das forças produtivas; e
a revolução que rebenta no final necessariamente como resultado dessa
contradição básica e os «diferentes fenómenos que a acompanham, como choques
entre diversas classes, contradição da consciência, luta de ideias, etc., luta
política, etc.». «Em nenhum período anterior – diz-se neste texto sobre o novo
conceito básico materialista, tinham tomado as forças produtivas esta forma indiferente
ao tráfico dos indivíduos enquanto indivíduos» com a qual aparecem na presente
época histórica «como entidades completamente independentes e separadas dos
indivíduos, como um mundo à parte deles... e dos quais são a energia». Só nesta
época se produziu uma situação na qual «por um lado se tem uma totalidade de
forças produtivas», enquanto, ao mesmo tempo, «por outro lado... se enfrenta
com essas forças produtivas, a maioria dos indivíduos, dos quais essas forças
foram separadas e que, portanto, despojados de todo conteúdo vital real, se
transformaram em indivíduos abstractos, mas por isso mesmo se encontram em
situação de entrar em relação uns com outros enquanto indivíduos». Só agora, pois, no presente estádio de desenvolvimento
da sociedade, «se chegou ao momento em que os indivíduos se hão-de apropriar da
presente totalidade de forças produtivas não só para poder desenvolver a sua
auto-actividade, mas sim para assegurar simplesmente a sua existência»; e «a
apropriação dessas forças não é, por sua vez, mais nada que o desenvolvimento
das capacidades individuais correspondentes aos instrumentos materiais de
produção»[6].
Com a determinação rigorosamente histórica e social
do conceito de forças produtivas destrói-se a noção demasiado simplista de que
a marxiana «contradição entre as forças produtivas e as relações de produção»
não seja mais que o tão lamentado «defeito de equilíbrio entre os resultados técnicos e sua aplicação
social». O conceito marxiano de forças produtivas não tem nada a ver com as
abstracções idealistas dos «tecnocratas», que se imaginam poder registar e
medir as forças produtivas da sociedade separadas de toda a determinação
social, de um modo puramente científico-natural e tecnológico. Sem dúvida que
também para Marx se conta entre as forças produtivas, a par do carácter social
do trabalho e das formas determinadas de divisão social do trabalho, «o
desenvolvimento do trabalho intelectual, principalmente da ciência da natureza»[7]. O carácter de entrave das
presentes relações de produção capitalistas revela-se hoje também no
esbanjamento de uma parte crescente dos resultados desse trabalho intelectual
por uma classe burguesa não interessada no progresso técnico a não ser
mediatamente, sob a condição de obter lucro. Mas essa repressão de
possibilidades técnicas de progresso pelo sistema capitalista não é mais que
uma das formas pela qual se manifesta o conflito entre a tendência progressiva
das forças produtivas materiais e a tendência imobilista das relações sociais
de produção. Está fora de dúvida para o materialismo social de Marx que o mero
conhecimento tecnológico e a mentalidade «tecnocrática» não bastam para
eliminar os obstáculos materiais, não superáveis com meios puramente
intelectuais, que opõem a toda alteração radical da situação presente o poder
das relações económicas e o poder, organizado no Estado, das classes
interessadas na manutenção desta situação. A «tecnocracia», disse Trotski numa
audaz previsão de O futuro socialista da América,
«não é possível de realizar senão sob um regime soviético, uma vez derrubados
os tabiques da propriedade privada»[8].
[1] Cf. o trecho de Marx na sua primeira leitura da obra de Smith (1844), MEGA, I, 3, p. 457.
[2] Die
deutsche Ideologie, 1845-1846,
MEGA, I, 5, p. 19 (MEW,
vol. 3, pp. 29 e.).
[3] Cf. Lohnarheit und Kapital, MEGA, I, 6, pp. 482. ss. (MEW, W. 6, pp. 407 ss.) e a exposição exaustiva e precisa das forças novas e desde o
princípio sociais originadas na «cooperação», cap. 11 de Kapital, I.
[4] [«De todos os instrumentos de produção, o maior poder productivo é a
própria classe revolucionária.»] Misère de la philosophie, MEGA, I, 6, p. 227 (MEW, vol. 4, p. 181).
[5] Veja-se o meu artigo «Why I am a Marxist?», Modern Monthly, IX, n.4 2, Abril 1935,
pp. 89 ss.
[6] MEGA, I, 5, pp. 56-58 (MEW, vol. 3, pp. 67 ss). [nota do tradutor português: na 1ª parte da Ideologia Alemã]
[7] Marx, Kapital, III, 1, pp. 55-56, e Kapital, I, pp. 350-351 (MEW, vol. 25, p. 91 s., e vol. 23, pp. 407 s.).
[8] Die Sammlung, ano II, n.° 10, Junho 1935, p. 522.