Pierre Guillaume
Ideologia e luta de classes
A classe operária é ou não portadora de uma vontade e de uma
capacidade de transformação revolucionária radical? É capaz de realizar à
escala mundial a verdadeira comunidade
humana, a humanidade social?
Posto noutros termos, qual é o sentido de mais de cento e
cinquenta anos de lutas operárias, entrecortadas de vitórias exaltantes, de
derrotas amargas e de retrocessos em que tudo parece definitivamente perdido,
como aquele em vivemos depois do fracasso da revolução espanhola, e do qual mal
saímos?
Desde a origem do capitalismo, quando a classe operária era
apenas embrionária, o comunismo
surgiu desde o princípio como o objectivo, o fim último, o sentido profundo e a
tendência imanente das lutas operárias … No entanto, as primeiras expressões
ideológicas coerentes duma teoria comunista foram obra dos "socialistas
utópicos". Saint-Simon, Fourier em França, Owen na Inglaterra foram os
mais célebres. Tiveram numerosos predecessores, entre eles, o padre Meslier e
Sylvain Marechal. Herdeiros da filosofia iluminista do século XVIII, não
concebiam, no entanto, o comunismo como
o produto da luta revolucionária dos trabalhadores, nem como a tendência
inelutável da sociedade capitalista... Pelo contrário, constatavam, com o
nascimento do capitalismo, os males que este causa e por conseguinte o esboroar
das ilusões da filosofia iluminista, que tinha acreditado fundar sobre a razão
abstracta a emancipação da espécie humana. A liberdade dos filósofos não era realmente mais do que a liberdade
de os burgueses comprarem e venderem livremente, e a liberdade de os
proletários venderem a sua força de trabalho. A igualdade não era mais do que uma igualdade abstracta, a aplicação
a essa abstracção que é a Pessoa Humana de um direito igual para todos, enquanto que na realidade se aplicava a pessoas
fundamentalmente desiguais, segundo a posição que ocupam nas relações de
produção. No que diz respeito à fraternidade,
não era senão o véu pudico, a mistificação pela qual a burguesia nascente
tentava camuflar a guerra permanente que fazem entre si os diferentes burgueses
devido à concorrência e, sobretudo, o antagonismo que opõe proprietários e não
proprietários, burgueses e proletários.
A divisa revolucionária: Liberdade,
Igualdade, Fraternidade, arma da burguesia contra o mundo feudal e o estado
monárquico despótico, convertia-se imediatamente em arma da burguesia na sua
guerra dissimulada ou aberta contra o proletariado.
Longe de ser sinónimo de emancipação do homem, o estado da razão, fundado pela revolução
francesa, não emancipava mais do que uma magra camada da população, a camada
dos proprietários, a burguesia, ao mesmo tempo que emancipava o capital de
todas as peias do direito feudal. A imensa maioria caía num estado de
dependência total. Era reduzida a não ser mais do que uma mercadoria no ciclo
capitalista, a estar totalmente submetida aos proprietários dos meios de
produção, e esta submissão ia acompanhada de uma decadência material e moral
profunda e, nessa época, de uma pauperização absoluta.
"Numa palavra, comparadas com as promessas
deslumbrantes dos filósofos do século XVIII, as instituições sociais e
políticas estabelecidas pelo 'triunfo da razão' revelaram-se como caricaturas
amargamente decepcionantes. Só faltavam os homens para constatar esta decepção:
estes (os utopistas) chegaram com a viragem do século." Assim, para os
utopistas, testemunhas das misérias evidentes da sociedade, o Estado da Razão,
fundado pela revolução burguesa, não era suficientemente razoável. A Razão que o tinha fundado não era uma razão suficiente. Em consequência
empreenderam, desde o ponto de vista da razão e da justiça, uma crítica
desapiedada do mundo burguês.
Desta análise crítica da sociedade burguesa empreendida em
nome da razão, retiraram pela primeira vez a conclusão de que o comunismo é a única forma de sociedade
"racional", e a solução de todos os males de que padece a sociedade
capitalista.
"Naquela época, todavia, o modo de produção
capitalista, e, com ele, o antagonismo entre a burguesia e o proletariado, não
haviam saído ainda de sua fase incipiente. A grande indústria, que na
Inglaterra acabava de nascer, era inteiramente desconhecida
Essa situação histórica dominou também as doutrinas dos
fundadores do socialismo. Suas teorias incipientes não fazem mais do que reflectir
o estado incipiente da produção capitalista, a embrionária situação da classe.
Queria tirar do cérebro a solução dos
problemas sociais latentes ainda nas condições económicas embrionárias da
época. A sociedade não continha senão males, que a razão pensante era chamada a
remediar. Tratava-se de descobrir um novo sistema, mais perfeito, de ordem
social, a fim de impô-lo à sociedade, de
fora para dentro, por meio da propaganda, e, se possível, pregando-o com o
exemplo, mediante experiências que servissem de modelos de conduta. Esses novos
sistemas sociais nasciam condenados a mover-se no reino da utopia; quanto mais
detalhados e minuciosos mais haveriam de degenerar, forçosamente, em puras
fantasias." (“Anti-Dühring”)
Engels cita depois abundantemente as intuições geniais
contidas nos escritos dos socialistas utópicos e que o socialismo científico
desenvolverá posteriormente.
Poderia parecer, visto isto, que a teoria revolucionária, a
consciência comunista, foi elaborada exteriormente ao movimento operário, por
intelectuais que a levam depois à classe operária, e isto desmentiria, então, a
nossa afirmação preliminar segundo a qual: "o comunismo surgiu desde o
princípio como o objectivo, o fim último, o sentido profundo e a tendência
imanente das lutas operárias".
Isto é uma ilusão perigosa. E é geralmente através desta
concepção falsa que as concepções idealistas da ideologia burguesa penetram na
teoria revolucionária juntamente com todos os desvios que o jargão consagrado
qualifica de voluntarista e oportunista. (Voltaremos a isto.)
Pareceria assim que, contrariamente à tese central de Marx:
"não é a consciência dos homens que determina a sua existência, é a sua
existência social que determina a sua consciência", a consciência
comunista elaborada no exterior por pensadores especializados, ou, se quiserem,
a teoria revolucionária, a linha justa, a consciência de classe, importada de
fora para dentro do proletariado, modificaria a sua existência, ou seja, a sua
prática real, desde que ALGUÉM o levasse a assimilá-la.
Analisemos, então, para resolver este enigma, qual é a
relação real entre o nascimento das teorias socialistas crítico-utópicas, e o
movimento real da historia e da classe operária.
A ideia segundo a qual as teses fundamentais do comunismo
teriam nascido no cérebro dos pensadores utopistas e levadas depois aos
trabalhadores não é senão uma ilusão de óptica. Certamente, é dessa maneira que
os próprios utopistas concebem a sua relação com a classe operária e a
história, mas trata-se duma pura e simples inversão ideológica da realidade. A
relação real é outra. Com efeito, nunca uma ideia ou invenção foi produto dum
cérebro isolado, ou de um ou vários pensadores especializados. A produção de
ideias é um processo eminentemente social. O surgimento de uma ideia nova no cérebro de um indivíduo está
condicionado ao mesmo tempo pelo conjunto da produção cultural e ideológica da
época, histórica e socialmente condicionada, e pela história desse indivíduo, a
totalidade da sua experiência humana, tomada em todas as suas determinações
concretas, de onde derivam por sua vez a sua estrutura psíquica e própria do
seu carácter, a sua perspectiva e a sua posição na circulação e produção do stock
social de ideias, de conceitos, de informações ou preconceitos, no qual bebe e
a partir do qual trabalha. (E numa sociedade de classes, as determinações
concretas do seu ser social estão condicionadas pela sua situação nas relações
de produção.) A produção de uma ideia, de um conceito, de uma ideologia ou de uma
teoria implica sempre a colaboração informal de uma multidão de produtores
anónimos e que permanecerão sempre ignorados, da mesma maneira, por outro lado,
que a produção de um automóvel.
Mas sobretudo, para que os utopistas efectuassem a sua
análise crítica tão contundente da sociedade burguesa também fazia falta que a
sociedade burguesa existisse, e para que a sua análise fosse crítica, era
necessário que as contradições e as taras desta sociedade se tivessem
manifestado. E, como se manifestam estas taras senão pela luta daqueles que as
padecem? A irracionalidade da sociedade burguesa, o fracasso do humanismo
burguês e a inumanidade da condição proletária, foram vividos previamente pelo
proletariado antes de ser pensados e teorizados. E são as greves, as revoltas e
os motins o que atraiu a atenção dos pensadores sobre a irracionalidade do sistema; não são os pensadores os que atraíram a
atenção dos proletários sobre a inumanidade da sua condição.
Não existe nenhum meio de saber se as condições de existência
dos elefantes na selva indiana não são elefantinas se os elefantes não o
manifestarem por uma revolta, ou (pelo menos para os elefantes) pela lenta
desaparição da espécie.
Assim, longe de ser o produto do cérebro de alguns
intelectuais, as ideias socialistas e comunistas foram previamente o produto da
luta da classe operária, que primeiro segregou suas ideias de maneira anónima e
informal para dar conta da sua situação e da sua luta. A partir destas ideias
produzidas social e colectivamente, os utopistas trabalharam e elaboraram o seu
sistema. Estas ideias estavam, muito antes dos utopistas, muito vivas no
proletariado que, precisamente porque mal acabava de sair das relações feudais
(corporações) ou pré-capitalistas (campesinato), sentia com uma agudeza e uma
clareza muito maior que nos nossos dias o escândalo do salariado, e o
avassalamento que significava o facto de ser um trabalhador livre, quer dizer,
juridicamente livre de todos os laços servis ou de grémio, e livre, portanto, de vender a sua força
de trabalho a quem a quisesse, mas livre também de tudo, isto é, despojado de
tudo e por conseguinte, separado dos meios de produção convertidos em capital
nas mãos do seu possuidor. Poder-se-ia demonstrar facilmente, nisso a que se
convencionou chamar "cultura popular" e particularmente nas canções
de ofícios que o nascimento do salariado é vivido pelos proletários como um
escândalo e um desenraizamento, e que imediatamente apareceu a necessidade de pôr fim a este
desarraigamento por meio da reapropriação dos meios de produção. A comparação
possível com uma situação anterior muito próxima e que continuava estando ainda
amplamente presente na sociedade permitia captar imediatamente a diferença, muito melhor do que hoje em
dia em que o salariado acabou por ser vivido como natural. É esta
consciência difusa o que constitui o ponto de partida e a condição da
possibilidade do comunismo crítico-utópico. Os sistemas socialistas não são mais do que a cúpula de um edifício ideológico
cuja base e alicerces foram construídos por um trabalho ideológico dos próprios
trabalhadores com base na sua experiência proletária, mas à medida que o
edifício se eleva, novos artesãos contribuem com as suas preocupações e pontos
de vista diferentes. Esqueceu-se por quem e em que condições se tinha
construído a base do edifício. No cimo, alguns artistas vieram esculpir as
estátuas, algumas das quais são belas, mas eles assinaram, pondo assim a marca
da burguesia sobre o que não era senão o produto da luta de classes.
No entanto, isto não significa que estes sistemas
ideológicos são produzidos directamente pela luta de classes e não são mais do
que o reflexo do mundo objectivo e
material, como afirma o materialismo primitivo criticado por Marx (teses sobre
Feuerbach, entre outras) e no qual incorre o marxismo degenerado[1],
ou que os ideólogos não seriam mais do que porta-vozes das diferentes classes,
ou uma espécie de caixa de ressonância de ideias existentes já acabadas fora
deles e saídas não se sabe de onde ou ainda "reflectindo" o mundo
material não se sabe por que processo. As ideias, as teorias, são o produto da
actividade humana, do trabalho humano, não um reflexo passivo, e que transforma
pois, uma matéria-prima num produto humanizado, experiências e sensações em
conceitos, organiza os conceitos, transforma-os, etc.
Mas o proletariado não esperou que pensadores
especializados, beneficiando-se da sua cultura burguesa, cheguem à conclusão
teórica, graças ao seu trabalho específico, de que a fonte de todos os males da
sociedade era a apropriação privada dos bens, e que esta apropriação privada
devia ser abolida e o comunismo instaurado... Desde que o proletariado existe,
quer dizer, uma classe de homens livres que não possuem para viver mais do que
a sua força de trabalho e constrangidos, pois, a vendê-la a troco de um salário
aos possuidores dos meios de produção, ele manifestou
com seus actos (portanto, a consciência prática,
a única que nos interessa) o juízo inequívoco que pronunciava contra a
propriedade privada, e a sua tendência espontânea (já que é conforme ao seu
ser) de apropriar-se pela violência,
e sem outro tipo de processo, daquilo de que era defraudado: as condições de
trabalho, os meios de produção, mercadorias, dinheiro. Encontra-se não só a
manifestação desta consciência prática, desta consciência em acto, e um
princípio de expressão ideológica nas greves e motins operários desde o começo
do século XVIII, mas mesmo durante o feudalismo e na antiguidade, na medida em
que existiam no interior destas sociedades dominadas por relações feudais,
esclavagistas ou de tipo asiático sectores extremamente limitados nos quais o
salariado se tinha desenvolvido.
O proletariado não tem nenhuma necessidade de ir aprender
aos livros, mesmo que sejam “marxistas”, para saber identificar os seus
inimigos, basta-lhe estar exposto a eles.
"O proletariado proclama, de modo
claro, cortante, implacável e poderoso, o seu antagonismo à sociedade da
propriedade privada. A revolta silesiana começa exactamente lá onde terminam as
revoltas dos trabalhadores franceses e ingleses, isto é, na consciência daquilo
que é a essência do proletariado. A própria acção traz este carácter superior.
Não só são destruídas as máquinas, essas rivais do trabalhador, mas também os
livros comerciais, os títulos de propriedade, e enquanto todos os outros
movimentos se voltavam primeiramente contra o senhor da indústria, o inimigo
visível, este movimento volta-se também contra o banqueiro, o inimigo oculto." (Glosas Críticas Marginais ao Artigo "O Rei da Prússia e
a Reforma Social", Marx)
Isto não significa que o proletariado teria necessariamente
e através de não se sabe que mistério, a "ciência infusa", nem que
possua uma teoria clara e adequada dos fins e dos meios. Pois o comunismo não é
"o que
pensa este ou aquele proletário, ou mesmo o que o proletariado no seu conjunto
imagine ser o seu objectivo momentaneamente, mas sim o que, em conformidade com
o seu ser se verá constrangido a fazer".
O comunismo não é, pois, um "projecto" ou um
"programa" de transformação social trazido de fora, nem sequer criado
ideologicamente pela própria classe operária e aceite no seu conjunto, o
comunismo é o produto espontâneo, a lógica imanente, interna da sua luta.
É esta luta o que constitui o fundamento e a única fonte de toda a teoria revolucionária,
por muito abstracta e geral que seja.
Deste modo, é o SER DO PROLETARIADO, sem nenhuma mediação, o
que funda histórica e teoricamente o comunismo. Da mesma maneira, por outro
lado, é o ser da burguesia, e não a Razão, quem histórica e praticamente fundou
a sociedade burguesa. Com efeito, "quando se estudam as transformações deste género (as transformações sociais) há que distinguir sempre
entra a transformação material que se opera nas condições económicas da
produção... e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas e
filosóficas, numa palavra, as formas ideológicas através das quais os homens tomam
consciência deste conflito e se esforçam por resolvê-lo." (Prefácio da Crítica da Economia
Política.)
O proletariado não denuncia a sociedade capitalista desde o
ponto de vista da Razão, denuncia-a, pela sua prática, desde o ponto de vista
do seu ser; e quando exprime conscientemente esta denúncia, o que não é “mais
que a forma ideológica através da qual toma consciência do conflito”, não faz
senão enunciar o que é e o sentido do que faz.
“Quando o proletariado denuncia a dissolução da ordem social actual,
não faz mais que enunciar o segredo da sua própria existência: pois ele mesmo
constitui a dissolução desta ordem social...” (Marx: Crítica da filosofia do direito de Hegel.)
Mas antes de ver que é este o SER DO PROLETARIADO, e
portanto, o movimento que o empurra inelutavelmente a destruir a sociedade
capitalista, e por este mesmo movimento, a criar outras relações de produção,
por conseguinte, outras relações entre os homens e entre os bens produzidos por
eles: o comunismo, voltemos atrás e analisemos o significado da inversão ideológica que acabamos de
mostrar.
Assim, vimos que o comunismo crítico-utópico não era mais do
que o produto ideológico do desenvolvimento da sociedade capitalista e dos seus
antagonismos, portanto, o produto indirecto das lutas operárias; mas que a
teoria, o sistema ideológico não era consciente ele próprio desta relação de
que acabamos de indicar apenas as mediações.
Vejamos para começar, quais são as consequências disto para
a própria teoria.
Pelo simples facto de que não é consciente desta relação, a
teoria compromete-se e afunda-se na especulação. Exceptuando algumas intuições
geniais, este "comunismo" converte-se em pura abstracção e fantasia,
bem incapaz de comprovar na prática "a realidade e a potência, a materialidade do seu
pensamento".
Por via desta separação a teoria torna-se falsa. Poder-se-ia
submetê-la a ela mesma, à crítica crítica, e mostrar que os seus
"projectos" são ao mesmo tempo irrealizáveis e estão minados por
contradições insuperáveis que, por outro lado, a prática se encarregou de
demonstrar, com a falta de respeito habitual que tem pelas ideias. Os projectos
da comunidade comunista, de falanstérios, etc, esboçados pelos utopistas, ou
nunca viram a luz do dia porque não existiam condições para a sua criação e mal
suscitavam a adesão dos trabalhadores, ou então, na medida em que foram
realizadas algumas tentativas, faliram sob a pressão de contradições externas e internas.
Mas vejamos agora quais são as consequências práticas, para
o movimento revolucionário, deste erro teórico fundamental: esta incompreensão
da relação real entre a teoria e o movimento da história.
A "ideologização" da teoria não só é mortal para a
teoria, é contra-revolucionária na prática, já que desemboca necessariamente em
retirar ao proletariado a iniciativa histórica, para situá-la noutro lugar. A
separação da teoria desemboca sempre na teoria da separação, e fundamenta
teoricamente esta separação.
Desta maneira, em que desembocam as concepções dos
comunistas utópicos, mesmo sendo o produto indirecto da luta de classes? Em vez
de dizer aos proletários: "Continuai a vossa luta desapiedada, e que só
agora começou, contra a sociedade burguesa, contra o capital e a mercadoria sob
todas as suas formas, e contra o Estado burguês, que não é mais do que o seu
defensor e o seu último garante. As nossas análises teóricas, para as quais
utilizámos o máximo de materiais que oferece a cultura burguesa, provam não só
que a vossa luta é justificada, que é a única via possível para os trabalhadores,
coisa que vós já sabeis, mas também que os meios de luta que criastes, a greve,
o motim, a insurreição armada, são os melhores, de qualquer maneira nós não
encontrámos nada melhor, e ao actuar assim não só vos emancipais vós mesmos mas
também toda a humanidade, pelo que nós pomos as nossas forças ao serviço do
vosso programa".
Em vez de empregar esta linguagem, empregam exactamente a
linguagem inversa: "Proletários, compreendemos as vossas lutas e por vezes
admiramos o vosso heroísmo, no entanto somos obrigados a dizer-vos que estais
no caminho errado, chocais contra a sociedade e o Estado como uma borboleta
contra o vidro, esbanjais inutilmente as vossas forças, as nossas análises
teóricas permitem-nos dizer-vos que deveríeis proceder doutra maneira..."
As receitas mudam em cada caso. Para os utopistas, tratava-se essencialmente da
criação de comunidades comunistas, falanstérios, etc, de onde a propriedade
privada, e portanto, a lógica mercantil, era desterrada por regras formais de
funcionamento.
Deste modo, toda a teoria que deixa de ser a teoria do
movimento real da história, por conseguinte, na nossa época, do desenvolvimento
da sociedade capitalista, e da luta da classe operária contra o Capital,
degenera ipso facto em ideologia e exprime interesses opostos, ou pelo
menos, estranhos, ao proletariado. Torna-se evidente que o desenvolvimento de
uma ideologia assim não depende simplesmente duma falta de capacidades
teóricas, duma falta de argúcia na análise, exprime, pelo contrário, um ponto de vista particular sobre a
sociedade e a história, portanto uma posição
particular na sociedade e na história, separada
e que se pensa como separada do proletariado.
Isto não é válido apenas quando do nascimento do movimento
operário, no momento em que os antagonismos de classe estavam pouco
desenvolvidos quantitativamente (já que qualitativamente o antagonismo Capital
-Trabalho é invariável enquanto exista saalariado), isto constitui uma constante
permanente do movimento operário, e esta análise é a pedra de toque que
permitirá descobrir o ouro da teoria revolucionária no meio das diversas
mercadorias ideológicas propostas para consumo das massas. Este método
permitirá sobretudo comprovar o carácter revolucionário das teorias e
organizações até aos nossos dias, e compreender como uma teoria, por muito
revolucionária que seja, cai na ideologia, e portanto deixa simultaneamente de
ser científica e revolucionária.
A concepção que acabámos de expor, na que não fazemos outra
coisa senão parafrasear Marx e Engels, opõe-se radicalmente às concepções
revolucionárias de Lenine e às suas versões degeneradas, chamadas de
leninistas. Para Lenine, com efeito, que repete quase palavra por palavra em
" As três fontes e as três partes
constitutivas do Marxismo" (Março de 1913), o texto de Kautsky: "
As três fontes do Marxismo"
(1908), o comunismo já não é o produto orgânico, necessário, do próprio
movimento da sociedade capitalista e da luta revolucionária do proletariado que
resulta dele, o "Comunismo", a "teoria socialista" é o
produto duma CRÍTICA teórica da sociedade capitalista e a sua forma mais
elaborada, o marxismo, seria então o produto da síntese efectuada por Marx, das
ciências naturais e psicológicas, por um lado, e do pensamento alemão, do
pensamento francês e do pensamento inglês, por outro.
Esta síntese é concebida como um movimento interno do
pensamento, devida à dinâmica da inteligência.
Para Kautsky, as ciências burguesas, tinham chegado a um
nível de desenvolvimento muito alto, mas tropeçavam com um certo número de
problemas... então veio Marx. Viu que a história é o resultado de... (sic, As três fontes, pág 9, continua)
Certamente, Kautsky apela cordialmente à "União do
movimento operário e do socialismo", é o título do 4º capítulo do seu
folheto. Lenine também: é o assunto de "Que fazer?" e a meta de toda a sua vida.
Muito amável da parte deles! Já que para eles: " O movimento operário e o
socialismo não são de modo nenhum idênticos por natureza" (Kautsky, op. cit.). Tanto para um
como para o outro: "a forma original do movimento operário é puramente económica" (Kautsky, op. cit.) enquanto que
"o
socialismo pressupõe um conhecimento profundo da sociedade moderna" (Kautsky, op. cit.), o que Lenine
desenvolve em "Que fazer?"; falando das greves de 1886-90: "Os operários não podiam
ter ainda a consciência social-democrata que apenas podia ser-lhes levada do
exterior... A história de todos os países testemunha que, entregue às suas
próprias forças, a classe operária pode apenas atingir uma consciência
sindicalista (...), etc. Quanto à doutrina socialista, ela surgiu das teorias
filosóficas, históricas, económicas elaboradas por certos representantes
instruídos das classes possuidoras, os intelectuais. Pela sua situação social,
os fundadores do socialismo, Marx e Engels, eram intelectuais burgueses. Da
mesma maneira, na Rússia a doutrina social-democrata surgiu independentemente
do crescimento espontâneo do movimento operário; foi o resultado natural e
fatal do desenvolvimento do pensamento nos intelectuais socialistas
revolucionários".
Assim, tal como Kautsky, Lenine vê no marxismo, ou
consciência "social-democrata", um produto ideológico. Declara mesmo
que esta produção é obra específica de intelectuais revolucionários que,
seguramente, escolheram o campo da classe operária, mas que são os únicos
capazes de chegar a uma consciência revolucionária, graças à crítica teórica
que fazem do capitalismo, a partir dos elementos que a cultura burguesa da qual
são depositários, ou pelo menos, aquela à qual têm acesso, lhes fornece.
Isto parece conter, pelo menos, uma verdade histórica
evidente: o papel de intelectuais não operários, em particular de Marx, mas
também de muitos outros... na elaboração da teoria revolucionária. Mas esta
concepção é totalmente idealista. Por um lado apoia-se na ilusão de que a
consciência revolucionária é produzida por um cérebro individual (ou alguns
cérebros); por outro lado, não se põe a questão elementar: esta consciência, é
consciência DE QUÊ? Portanto a frase do
"Que fazer?" "entregue às suas próprias forças, a classe
operária pode apenas atingir uma consciência sindicalista", é na realidade apenas a ideia que
o vulgo tem sobre o movimento da classe operária. Esta formulação é espantosa,
já que estamos no direito de nos perguntarmos A QUEM tem que entregar-se a
classe operária para atingir uma consciência comunista, e DE ONDE vem essa
consciência? Esta formulação contradiz, além disso, as teses de Marx e Engels,
que demonstravam, pelo estudo dos movimentos insurreccionais do proletariado, que
a classe operária não esperou por Lenine, nem por eles próprios, para elevar-se
à consciência prática da necessidade
do comunismo.
A resposta que dá Lenine, depois de Kautsky, a esta
inquietante "constatação" é ainda mais assombrosa. Para Kautsky e Lenine,
a teoria, a consciência revolucionária, é lhes levada do exterior, pelos
intelectuais burgueses.
Esta concepção opõe-se radicalmente à crítica efectuada por
Marx do idealismo, e de todo o materialismo passado, inclusive o de Feuerbach
(Teses sobre Feuerbach, 1 e 3), enquanto que "esquece que o educador tem ele
próprio de ser educado. Ela acaba, por isso, necessariamente, por separar a
sociedade em duas partes, uma das quais fica elevada acima da sociedade".
Poder-se-ia prosseguir parafraseando a continuação da tese
nº 3. “Lenine
e Kautsky não compreendem que a coincidência do mudar das circunstâncias e do
mudar da actividade humana –ou a modificação de si mesmo - só pode ser
concebida e racionalmente entendida como prática revolucionária.”
Com efeito, Marx não opõe de uma maneira abstracta a
realidade, o mundo objectivo, por um lado, a consciência, o mundo subjectivo,
por outro, e a actividade prática que as liga. Pelo contrário, concebe-as numa
totalidade, e demonstra que estas categorias, objectivo-subjectivo-actividade
prática, concebidas de um modo abstracto de outra maneira que como momentos de
uma mesma totalidade, são o produto dum pensamento petrificado, produzido por
sua vez por uma sociedade de classes, em que a actividade humana está efectivamente
cindida pela divisão do trabalho.
Se seguimos a concepção de Marx, é simplesmente absurdo pensar que a consciência possa
ser elaborada no exterior (ou pelo
menos, uma consciência elaborada no exterior é uma consciência abstracta, uma consciência
de espectador, despojada de eficácia prática) e igualmente absurdo pensar que a
consciência possa ser introduzida desde o
exterior pela propaganda[2]; no entanto, é a
pretensão de Kautsky e Lenine, que se concebem a si mesmos como os educadores da
classe operária, antes de que os avatares da história façam de um, ministro, e
de outro um chefe genial, sorte pouco invejável, tão uma como a outra, para
quem se reivindica da teoria proletária.
A teoria leninista do partido resulta logicamente da sua concepção
de teoria e das suas relações com o movimento espontâneo da classe. Daqui
resulta inelutavelmente que se revolucionários profissionais se unem à classe
operária, não pode ser senão para dirigi-la
(no sentido dirigente-chefe, e não só de “boa direcção”, pois a teoria permite
efectivamente cimentar a “boa direcção”, mas precisamente esta “boa direcção”
inclui a liquidação dos “dirigentes” pelos meios apropriados à resistência que
apresentem).
Vê-se por isto o que motiva a moda da concepção leninista do
partido entre os nossos modernos "leninistas". Mesmo quando esquecem
mais ou menos grande parte de outros aspectos do leninismo –em particular, as
suas teses revolucionárias - ao defender a teoria do "papel dirigente do partido" apenas defendem o seu poder real
(de Brejnev a Waldeck-Rochet, passando por Gomulka e Mao) ou o seu poder mítico
(trotskistas ou maoístas em França).
Então esta concepção desemboca na necessidade de construir
um partido revolucionário, destinado a dirigir a luta do proletariado pelo bom
caminho, que o proletariado seria incapaz de encontrar por si mesmo. Isto
desembocará, portanto, em desviar os elementos mais combativos do proletariado
para este trabalho de Sísifo, e a afastá-los das suas tarefas reais. O critério
determinante deixará de ser a luta de classes em si mesma, à qual cada
trabalhador está vinculado pela sua situação, mas a "construção da organização e da direcção". A luta de classes é
concebida apenas como uma revolta elementar, à qual só o partido dará sentido.
Esta concepção priva, pois, tanto o comunismo como a teoria revolucionária do
seu fundamento, para colocá-lo nas capacidades dos seus dirigentes. As lutas
operárias passam a ser só um meio
para reforçar a organização, e nos casos mais delirantes, pretender-se-á mesmo
construir o socialismo sem ou contra o proletariado. Privada do seu fundamento,
a teoria revolucionária nada na abstracção e na metafísica. O comunismo não é
já o resultado prático das lutas revolucionárias da classe operária, mas
define-se em nome duma racionalidade abstracta, diferente consoante os casos e
a posição prática dos autores, mas de qualquer maneira, já não é o "movimento real que abole o estado de coisas
existente", ou não unicamente.
Antes de analisar os absurdos a que podem conduzir, em
Lenine, as concepções desenvolvidas previamente por Kautsky, e sem pretender
fornecer, no marco deste artigo, uma apreciação global da obra de Lenine, que
não se reduz às teses do "Que
fazer?" nem às do "Materialismo
e Empiriocriticismo", vejamos no que está equivocada esta concepção,
na sua própria raiz: a teoria da origem da consciência socialista desenvolvida
nas Três Fontes.
Contrariamente à afirmação sumária de Kautsky: "Foi assim que (Marx e
Engels) criaram o socialismo científico moderno pela fusão de tudo o que o
pensamento inglês, o pensamento francês e o pensamento alemão tinham de grande
e fértil", repetida por
Lenine:" A sua doutrina
(de Marx) nasceu
como a continuação directa e imediata da dos maiores representantes da
filosofia, da economia política e do socialismo... O marxismo é o sucessor
natural de tudo o que a humanidade criou de melhor no século XIX, na filosofia
alemã, na economia política inglesa e no socialismo francês", a teoria de Marx NÃO É o produto
de síntese, mesmo dialéctica, do socialismo francês, da economia inglesa e da
filosofia alemã, quer dizer, a síntese ideológica de três sistemas ideológicos
criados pela burguesia.
Com certeza, Marx utilizou amplamente estas fontes e não
deixa de sublinhá-lo ele mesmo, mas também consagrou uma obra volumosa[3]
- oito volumes na edição francesa - para indicar, paralelamente ao que
utilizava delas, a ruptura radical
que o separava dos teóricos burgueses da economia política, e explica-o no
livro I do Capital. Passou a maior
parte da vida lutando teórica e politicamente contra o "socialismo francês". Quanto à
filosofia alemã, não julgou necessário publicar, vivendo ainda, uma obra comum
com Engels na que e através da qual ambos efectuavam uma ruptura radical com o
seu passado filosófico comum. Não julgaram necessário publicar A Ideologia Alemã porque consideravam
esta obra como um simples testemunho de uma evolução pessoal, e porque
consideravam esta ruptura como a condição
e o ponto de partida da teoria
revolucionária.
Inédita enquanto viveu Lenine, A Ideologia Alemã constitui
em todo o caso a refutação a posteriori da interpretação de Lenine e de
Kautsky sobre o ponto que nos interessa no presente.
No entanto, é instrutivo observar que o movimento operário
não necessitou da publicação d' “A
Ideologia Alemã” para fazer a crítica prática e teórica das posições de
Lenine, desde o seu nascimento. Trotsky, particularmente no seu texto Nossas
Tarefas Políticas mas também em textos como Balanço
e Perspectivas e Informe da Delegação
Siberiana, ou no texto menos desconhecido intitulado 1905, efectua uma
crítica das posições bolcheviques e recupera os temas, e às vezes até mesmo as
formulações, de Marx.
O facto de que o próprio Trotsky tenha acreditado, por
oportunismo táctico, dever minimizar a partir de 1917 as divergências que o
opunham a Lenine entre 1901 e 1916, não altera nada. Por mais que as diversas
variedades de trotskistas ocultem sistematicamente estes textos e não os tenham
publicado jamais em francês, eles constituem a contribuição principal de
Trotsky para a teoria revolucionária. A sua tradução e publicação, (por
não-trotskistas) é uma consequência directa do Movimento de Maio
Dito isto, não é menos certo que Marx e Engels e todos os
teóricos revolucionários sem excepção beberam abundantemente nas fontes da
ciência burguesa. Mas Kautsky e Lenine utilizam este facto, esta constatação
evidente, fenomenológica, sem ser capazes de penetrar no seu mecanismo e no seu
significado profundo, e tentam fundamentar o papel de elementos exteriores à
classe operária na elaboração da doutrina, exteriores tomado em sentido amplo,
quer dizer, não só exteriores "por casualidade” – constatamos que estes
intelectuais não são operários - mas também exteriores por essência de certa
maneira, quer dizer, utilizando elementos que, por natureza, não são nem podem
ser elaborados pela classe operária. Com efeito, como vimos, o "Socialismo
Francês" é apenas a formação ideológica pela qual se exprimem as lutas
nascentes da classe operária francesa, de maneira mistificada. O que Marx
encontra no socialismo francês não é mais do que a forma pela qual se manifesta
a Realidade da luta de classes, e só
poderá utilizá-lo com proveito na sua produção teórica depois de o submeter à
crítica e ter alcançado através dela o que constituía o seu fundamento
inconsciente: a luta proletária nas suas determinações concretas. O que esta
luta enfrenta é a realidade da sociedade burguesa, da economia capitalista, da
qual a ciência económica burguesa, através de Smith e Ricardo, é a formação
ideológica mais desenvolvida, pela qual a burguesia toma consciência do seu
próprio sistema. À medida que a luta proletária se desenvolve, encontra a
realidade capitalista e experimenta-a na sua totalidade, necessita, pois, de
uma teoria "científica", pela qual exprime a sua experiência e toma
consciência da sua prática. Esta teoria é uma formação ideológica, o produto de
um trabalho ideológico, mas não uma ideologia, no sentido em que ela mesma é
consciente da raiz prática das suas
"ideias".
É evidente que a elaboração desta teoria beberá
abundantemente (Marx não deixa de sublinhá-lo através de numerosas citações) da
ciência económica burguesa, da mesma maneira que o proletariado, apropriando-se
e para apropriar-se ao mesmo tempo de seu ser genérico, do conjunto da vida
social, e dos produtos da actividade humana presente e passada –que não existe
na sociedade capitalista a não ser sob a forma de capital oposta a ele - se
apropria ipso facto da totalidade da cultura humana, mas de outro modo.
Mas esta ciência burguesa não será utilizável a não ser ao preço duma inversão
completa de sua perspectiva.
Esta relação é ainda mais clara na utilização que Marx fez
do que se convencionou chamar "A filosofia alemã", e especialmente a
filosofia de Hegel. Incapaz de alcançar a realização política do seu Ser, como
a burguesia francesa através da Revolução francesa, e incapaz de alcançar a realização
económica, como a burguesia inglesa, através da formidável expansão do
capitalismo inglês no século XIX, na Alemanha retalhada política e
economicamente, travada em todos os planos, no seu desenvolvimento, por
resíduos feudais, os quais tenta sacudir, a burguesia alemã alcançará o
desenvolvimento ideológico mais elevado através da produção de sistemas
filosóficos e da vida intelectual crítica. Incapaz de varrer os obstáculos na
prática, fundamenta, com Hegel, a necessidade do seu devir, ou mais
exactamente, do seu porvir, na filosofia da história, concebida como
desenvolvimento do espírito, da ideia, que se realiza finalmente, no fim da história, representação
ideológica do reino da burguesia, através da dialéctica histórica, na qual o
espírito se perde e se volta a encontrar encarnando-se no mundo. Sem querer
aprofundar sobre um sistema que toda a apresentação sumária empobrece ao ponto
de o fazer parecer irrisório, digamos que o sistema de Hegel é, em primeiro
lugar, a História pensada. É mesmo a criação do espírito mais notável e acabada
para "pensar a História", na medida justamente em que o seu método
dialéctico lhe permite superar os falsos problemas e as antinomias do
pensamento dualista e metafísico; em particular, o do determinismo e da liberdade.
Tendo em conta que o sistema hegeliano é uma tentativa para
apreender o movimento real da História, os elementos do método, assim como os
conceitos produzidos para pensar a história são utilizáveis pela teoria
proletária, ainda que o próprio Hegel, e todo o seu sistema, tenham permanecido
no terreno do idealismo e da burguesia, da mesma maneira que certos conceitos e
elementos de método, criados por Smith e Ricardo para dar conta dos fenómenos
económicos são perfeitamente utilizáveis, sem que seja necessário reinventá-los
a partir do zero. Mas seria um erro completo, cometido, no entanto, por Kautsky
e Lenine, mesmo tendo-se Marx explicado amplamente, acreditar, sob pretexto de
que uma parte dos materiais são os mesmos, que a teoria revolucionária não é
mais do que uma continuação da teoria burguesa, ou mesmo o seu auge, como se o
“desenvolvimento fatal do pensamento” conduzisse a conclusões socialistas ante
as quais os pensadores burgueses teriam recuado. Da mesma maneira que as
mesquitas de Tunes, construídas sobre as ruínas dos templos greco-romanos
utilizando os seus blocos de mármore, não são a continuação e o acabamento do
templo e supõem, muito pelo contrário, a destruição do templo para existir.
Da mesma maneira, os melhores produtos do pensamento burguês
não só devem ser despojados de uma ganga idealista que mancharia esta fase do
pensamento humano em desenvolvimento, mas também ser transformados totalmente
em sua própria estrutura e integrados num novo conjunto, ainda que o
proveniente tal como o subministra o pensamento da classe precedente é
acessório para compreender a nova perspectiva e a nova construção. Pois não há
só “fases” num pensamento “humano” em desenvolvimento, há rupturas radicais entre
modos de pensar diferentes, porque mantêm com a realidade relações e funções
diferentes. Deste modo, há o pensamento antigo, feudal, burguês, proletário
(entre outros), o pensamento sucessivo (que nega superando), que integra ou não
integra o pensamento precedente. (Assim o pensamento burguês integra,
superando-o, o pensamento feudal, reencontra e integra o pensamento clássico, o
pensamento feudal perde o pensamento antigo, o que não quer dizer que o
pensamento antigo se perde totalmente, pois a sociedade feudal não forma e não
pode formar uma totalidade coerente. A Igreja, mesmo “feudalizada”, que lhe é
coextensiva, não é redutível ao feudalismo, a mercadoria que a atravessa e vive
em seus poros é-lhe antagónica.)
Mas a passagem de um ao outro, do pensamento antigo ao
pensamento feudal, da mesma maneira que a passagem do socialismo francês, da
economia inglesa, da filosofia alemã, à teoria revolucionaria, não é um processo interno do pensamento. A
possibilidade desta passagem está condicionada pela modificação da relação
entre o homem e a natureza, o homem e o trabalho, dito de outro
modo, já que se trata de uma sociedade de
classes, pelo desmoronamento das relações de produção e o surgimento duma
nova classe que, pela sua posição nas relações de produção, lança sobre a
natureza, a história, o trabalho (ou a linguagem matemática) um olhar
diferente. Ou mais exactamente, mantém com a natureza e a actividade produtiva
humana sob todos os seus aspectos uma relação diferente. A condição para a reviravolta operada por
Marx, a partir, é certo, de elementos fornecidos pela ideologia burguesa, para
fundamentar uma nova concepção do mundo, tem o seu fundamento e raiz na
existência prática do proletariado e na crítica prática que este faz da
sociedade burguesa. Para que Marx efectuasse, no plano teórico, a superação da
antinomia legada pelo pensamento burguês entre materialismo e idealismo,
antinomia produzida por sua vez pela cisão real introduzida na actividade
humana pela aparição da sociedade de classes e pela ruptura da comunidade
primitiva, era ainda necessário que existisse uma classe que fosse, em seu
próprio ser, a solução prática desta antinomia. O Proletariado pode dar a esta
contradição uma solução prática porque une na sua actividade fundamental (o trabalho)
o pensamento e a matéria, a “modificação da consciência e a modificação da
matéria” (ou das “Circunstâncias” na tese nº 3, isto é, do mundo objectivo),
categorias que são pensadas como separadas pelo pensamento burguês, porque são
efectivamente separadas pela burguesia.
A história do pensamento antes de Marx era efectivamente
caracterizada pela oposição irredutível entre o pensamento, o espírito, a
ideia, por um lado, e a matéria, o mundo objectivo, por outro. Para o
idealismo, o movimento interno do pensamento, da ideia, do espírito, é o motor
do movimento. O pensamento toma consciência do mundo objectivo e, pelo seu
próprio trabalho, produz o movimento. Para o materialismo, pelo contrário, é o
mundo material, objectivo, o que, pelo seu próprio movimento, arrasta o
movimento do pensamento, que “toma consciência” dele e reflecte-o. A actividade
produtiva humana é a solução em acto desta antinomia. Pensamento e acção,
teoria e prática são momentos indissociáveis desta actividade. Sem teoria, nenhuma prática, mas sem prática, nenhuma teoria. O trabalho,
a relação do homem com a natureza, é ao mesmo tempo o meio pelo qual o homem
transforma o mundo objectivo e o produz, e é o meio pelo qual se transforma e
se produz a si mesmo. Há coincidência da modificação do pensamento e da
matéria. O pensamento puro não é uma relação humana com a matéria. É a relação
do homem castrado de sua actividade propriamente humana, do homem espectador de
um mundo que não consegue transformar.
Poder-se-á medir o retrocesso teórico de Lenine,
particularmente em Materialismo e Empiriocriticismo.
Nesta obra, Lenine polemiza com Mach, cujo idealismo denuncia. Para isso, pega
nos pontos mais fracos, e incontestavelmente idealistas de Mach, para liquidar
os elementos mais importantes. Este procedimento de baixa polémica está
totalmente ausente na obra de Marx, que sublinha, pelo contrário, inclusive nos
seus piores adversários, os aspectos positivos. Já que o problema de Marx nunca
é liquidar um adversário, mas, pelo contrário, apropriar-se em profundidade do
pensamento do seu adversário, e liquidar não o adversário, mas, nas suas
ideias, o idealista ou o reaccionário. Poder-se-ia inclusive sustentar que
Mach, apesar do seu idealismo, está muito mais próximo de Marx, e compreende
melhor, com o seu empiriocriticismo, a actividade humana crítico-prática de que
fala Marx, do que Lenine, cujo “Materialismo” se assemelha mais ao materialismo
vulgar que às concepções de Marx.
O defeito de todo o materialismo passado (do de Lenine
também), é que o objecto, a realidade, a materialidade é tomada apenas sob a forma de objecto, mas não como
actividade sensível-humana, como prática. Por esta razão o lado activo é desenvolvido de modo abstracto,
em oposição ao materialismo, pelo idealismo, que naturalmente não conhece a
actividade real, sensível, como tal Lenine quer objectos sensíveis, realmente
distintos dos objectos ideais; mas não capta a actividade humana como
actividade objectiva. Ele considera, portanto, em Materialismo e Empiriocriticismo, que a relação teórica é a
única verdadeiramente humana, enquanto que a prática não é tomada e fixada
senão na sua forma de manifestação vulgar e judaica. Deste modo não compreende
o significado da actividade revolucionária,
crítico-prática. (Karl Marx, Tese sobre Lenine nº1, VER Teses sobre Feuerbach.)
Lenine não alcança sequer os materialistas do século XVIII,
para os quais, tal como para Lenine, o mundo das ideias, ao não ser mais do que
o reflexo do mundo objectivo, é o movimento autónomo do mundo objectivo o que
determina o movimento das ideias, e os filósofos materialistas têm por única
tarefa lutar contra as ilusões idealistas, não podem transformar o mundo: O
mundo transforma-se, a consciência reflecte esta transformação. Em Lenine, pelo
contrário, o lado activo é desenvolvido de modo abstracto e IDEALISTA. Para
Lenine, com efeito, não é a actividade subversiva e revolucionária do
proletariado, a sua actividade crítico-prática (sendo a consciência e a teoria
da qual um momento, mas nada mais do que
um momento) a que transforma o mundo. A actividade da classe não é enfocada
por Lenine senão sob a sua “forma de manifestação vulgar e judaica”, como uma
força material do mundo objectivo. Por isso, a força material com a qual Lenine
vai transformar o mundo é a Ciência, com C maiúsculo, a Ciência que conhece as
leis do mundo objectivo, a que Lenine conhece: o Marxismo, ou pelo menos a
concepção que Lenine tem dele. Esta Ciência, para converter-se numa força
material deve, claro, encarnar-se nas massas, mas esta Ciência não é a consciência do movimento real,
espontâneo, orgânico do proletariado, e simples momento da sua actividade, como
o olhar que Deus lança sobre as suas obras ao sétimo dia (mesmo a sua bíblia é
mais “marxista” do que Lenine) senão não poderia elevar-se mais que a uma consciência sindicalista, é algo mais,
que vem de... De facto, de onde vem? Lenine, que justamente tinha censurado
isto aos seus adversários pequeno-burgueses, dá por si a cavalgar entre duas
selas.
Tendo reduzido dum modo abstracto o movimento da classe
operária a uma manifestação de força bruta, comparável à água da torrente, é
óbvio que para ser utilizável, esta energia necessita da intervenção dum
engenheiro hidráulico. Mas na teoria, como não vem do proletariado, e como se
torna bastante escabroso atribuí-la pura e simplesmente ao adversário de
classe, atribui-se a ao pensamento
Pierre Guillaume
[1] Como Lenine no seu "Materialismo e Empiriocriticismo", já para não falar do cretinismo estalinista.
[2] Observo um jogador de ténis e vejo que seus golpes não são
suficientemente seguros, que não constrói suficientemente o seu jogo, que não
percebe ou não sabe responder à estratégia do seu adversário com outra
estratégia e que se contenta em devolver a bola como pode. A minha
"Consciência" não é justa nem falsa, é abstracta, despojada de
eficácia, e determinada pela minha situação de espectador. A
"Consciência" que tem o jogador é de um tipo diferente; inclui, entre
outras coisas, a percepção imediata da fadiga, das capacidades fisiológicas,
sensoriais, de percepção e de reflexo, etc. A sua consciência é um momento do
seu jogo, indissociável do seu jogo. A minha é inútil para o seu jogo. Se
depois da partida, lhe comunico as minhas conclusões, estas serão totalmente
inúteis para ele, excepto se se incluir na minha análise uma compreensão
interna das determinações concretas do jogo do jogador, por exemplo, pela minha
experiência, mas então a minha consciência já não estará simplesmente elaborada
desde o exterior, e está parcialmente "do interior" e apenas é útil a
este título, não é admissível senão nesta qualidade, e provavelmente não
contribuirá com nada de novo que o jogador não saiba já, embora de outra
maneira. No máximo, a nossa discussão desembocará, não em levar-lhe a
consciência, mas na elaboração de uma linguagem pela qual as nossas
experiências se tornam comunicáveis. É mais simpático, mas já não tenho nenhum
privilégio.
[3] “História das doutrinas económicas” (Ed. Costes. Lib. “