HAMBÚRGUERES versus VALOR
Escrito por Marcel, membro do grupo comunista Kämpa
Tillsammans! e por G. Dauvé[1]
Trecho
do Marcel
Este texto tem dois objectivos. O primeiro é tentar despertar o
interesse para a luta de classes que se trava diariamente em todos os locais de
trabalho. Tentarei mostrar que algo tão banal e pouco fascinante como trabalhar
num restaurante - ou melhor, as pequenas e secretas lutas contra o trabalho
assalariado que ali se travam - é parte integrante do movimento comunista[2]. O
outro objectivo é mostrar que noções teóricas como capital, comunismo, valor de
uso e valor de troca não são algo meramente abstracto e académico mas sim algo
concreto que influencia a nossa vida e que é influenciado por nós.
FAZER HAMBÚRGUERES
O meu último trabalho foi numa hamburgueria privada. Embora o
restaurante não pertencesse a nenhuma multinacional como o McDonald’s ou o Burger King
era bastante grande e estava aberto todos os dias da semana - só fechava entre
as sete e as dez da manhã. A maior parte das pessoas que lá trabalhavam eram
adolescentes ou tinham - como eu - vinte e tal anos, e eram sobretudo
raparigas. A maioria tinha outros empregos ou ainda andava a estudar enquanto
trabalhava no restaurante. Os empregados estavam sempre a entrar e a sair. Não
estavam satisfeitos com as condições de trabalho ou achavam que os salários
eram demasiado baixos. A maior parte do pessoal trabalhava ilegalmente e tinham
de trabalhar mais de um ano para poderem assinar um contrato normal e para
receberem também um salário normal. Antes disso todos eram aprendizes com
salários muito mais baixos. E ser um aprendiz significava também poder ser
despedido sempre que bem apetecesse ao patrão. A maior parte das pessoas que
ali trabalhavam não aguentavam no restaurante mais do que alguns meses.
Estávamos sempre todos à procura de outros trabalhos ou de outras maneiras de
ganhar dinheiro.
Muita gente achava que, para os empregados, as condições eram melhores
ali do que por exemplo no Macdonald’s.
E pensavam assim porque o restaurante não pertencia a nenhuma grande empresa
mas a uma única pessoa e também porque corriam boatos de que o dono dava
dinheiro a equipas de futebol e a associações de caridade. Mas nós, os que lá
trabalhávamos, sabíamos que isto não era verdade. Algumas pessoas de esquerda
chegaram a ter o atrevimento de me dizer que era bom eu trabalhar no
restaurante por este não ser nenhuma empresa multinacional e também por causa
dos boatos sobre a filantropia do proprietário. Não percebiam que o conflito
entre proletariado e capital tem lugar em todos os locais de trabalho, tanto
num restaurante como numa fábrica, nas pequenas e nas grandes empresas,
privadas ou do estado. Enquanto houver trabalho assalariado haverá sempre
capital e enquanto houver capital haverá sempre resistência a este. Esta
resistência, a luta de classes, não é visível apenas em formas dramáticas de
resistência como greves, ocupações e motins, mas também nas pequenas tentativas
de fugir ao trabalho e nas lutas secretas contra o valor como os roubos, a
sabotagem e a greve de zelo (forma de luta na qual os trabalhadores seguem
todas as regras e não fazem nenhum trabalho extra, resultando em trabalho lento
com pouca produtividade). Esta pequena e secreta resistência ao trabalho
assalariado tem sido representada como a imagem de térmitas que lentamente corroem os alicerces
sobre os quais assenta o capitalismo[3]. Na
Kämpa Tillsammans! chamamos a estas lutas “resistência sem rosto” pois uma das
suas características é não terem rosto e serem invisíveis, o que muitas vezes
as torna também invisíveis para alguns dos que se dizem revolucionários.
O COMUNISMO COMO MOVIMENTO
O trabalho assalariado é sempre exploração. Claro que as condições de
trabalho num restaurante sueco são muito melhores do que, por exemplo, as
condições de trabalho de uma criança numa fábrica de sapatos da China. O
problema é que só temos um mundo, onde as condições de trabalho e a exploração
dos trabalhadores na Suécia e na China estão intimamente relacionadas. Se
queremos seriamente mudar o mundo temos de atacar as bases sobre as quais se
apoia o capital, nomeadamente o trabalho assalariado.
O problema central do capital é pôr as pessoas a trabalhar de forma a
estas poderem criar valor. Sob o capital, o trabalho enquanto actividade humana
e os meios de produção são separados dos seres humanos pela apropriação privada
e somos, assim, forçados a vender a nossa força de trabalho para sobrevivermos.
A nossa actividade humana é roubada pela economia que a separa de nós. Isto
faz-nos esquecer que somos de facto nós, através das nossas relações sociais
uns com os outros e das nossas acções, que criamos o mundo. O capital é um
monstro criado pelo homem, não é nenhum fantasma misterioso que flutua sobre as
nossas cabeças para além do nosso alcance. A crença generalizada de que as
pessoas não podem mudar o mundo e nem sequer a sua vida quotidiana advém desta
separação. O sentimento de inércia e de falta de sentido também se pode
atribuir ao facto da nossa actividade estar separada de nós e de estar virada
contra nós como uma força estranha. Como disse alguém, a noção de Marx de que a
humanidade toma consciência de si própria através desta actividade tornou-se
tão estranha que pertence a outro mundo.
Esse mundo - o comunismo - mostra-se nas lutas e nas actividades que
combatem o capital nos locais de trabalho, nas escolas, nas ruas e nos lares
não como uma sociedade, claro, mas como uma tendência - como um movimento. Se o
comunismo é um movimento que se revela mesmo à frente dos nossos olhos então temos
que o procurar.
Se somos tão cegos que não percebemos a importância da luta diária de
classes, por mais fraca e isolada que esta seja, então nunca poderemos dar-nos
conta de que a dinâmica por detrás destas permanentes lutas e actividades é
nada mais, nada menos, do que o próprio comunismo. Esta resistência diária é
até, nos piores casos, desprezada como algo que não é mesmo nada interessante.
Para aqueles que defendem esta perspectiva apenas contam as lutas heróicas e
pomposas, como as grandes greves ou as ocupações dos locais de trabalho. Ou não
se interessam pela sua importância para os trabalhadores ou não percebem estas
resistências. Não percebem que a “resistência sem rosto” é feita dia após dia
contra o capital e contra o trabalho assalariado e que por vezes pode até ser
mais eficaz do que essas “guerras abertas” e que é, também, o primeiro passo
importante na direcção de uma maior e mais vasta comunidade de resistência ao
capital. Que o comunismo esconda a sua face atrás destas lutas é algo em que
nunca acreditariam - nem mesmo nos seus sonhos mais loucos. Para eles o
comunismo é um sistema económico que se constrói, não é um movimento que nasce
do ventre da velha sociedade, nem uma actividade que fundamentalmente altera a
relação das pessoas com o mundo, com as outras pessoas, com a própria vida.
TENTATIVAS DE FUGA AO TRABALHO
Como disse antes, os empregados estavam sempre a entrar e a sair do
restaurante. A maior parte deles apenas lá trabalhava durante alguns meses e
depois desistia. Muitas vezes arranjavam outro emprego ou simplesmente
fartavam-se de ali trabalhar. Quando eu trabalhei no restaurante apenas o
patrão, o filho dele e os amigos do filho ali estavam há mais de dois anos. A
oposição entre os “novos” (a maior parte das pessoas que ali trabalhavam) e os
poucos que lá estavam há muito tempo tornou-se óbvia desde o primeiro dia de
trabalho. Isto era muito claramente visível pois era o filho do patrão e os
amigos dele que faziam os horários de trabalho e que, por isso, ficavam sempre
com os melhores turnos. Nós - os que tínhamos começado há pouco tempo - mas
também alguns empregados que já lá trabalhavam há alguns meses ou há até um ano
ficávamos com os turnos maus, principalmente com as noites, e em particular com
as noites de Sexta e de Sábado. Eles também iam contar ao patrão tudo o que nós
fazíamos e diziamos por isso cedo começaram a ser vistos como os espiões do
patrão. Também nos diziam quais as regras do restaurante - por exemplo, que não
era permitido conversarmos acerca dos salários nem compará-los uns com os
outros. Claro que isto significava que a primeira pergunta que fazíamos a
alguém novo quando o/a conhecíamos era quanto ganhava.
Os “novos” (a maior parte dos que ali trabalhavam e que ali estavam há
menos de um ano) não se identificavam com o trabalho nem com o local de
trabalho. Estávamos ali porque precisávamos de dinheiro e falávamos abertamente
acerca disto. Os novos eram também muito abertos uns com os outros acerca do
facto de todos, nas variadas formas pessoais, tentarmos fugir ao trabalho.
Eu e dois colegas criámos algo que pode ser comparado a um grupo de
afinidade. Não era algo que tivéssemos planeado, embora tivéssemos conversado como
é óbvio acerca de não gostarmos do trabalho, de acharmos os salários muito
baixos etc. Mas nunca tínhamos falado sobre a criação de actividades contra o
trabalho - isto aconteceu da forma mais espontânea possível. A primeira coisa
que fizemos juntos foi picarmos o ponto um em vez do outro. Não me lembro de
quem fez isto pela primeira vez, mas esta pequena tentativa de fuga ao trabalho
foi algo que continuámos e que passámos a planear
Os principiantes trabalhavam com outros dois colegas no turno da noite,
mas quando o patrão achava que já tínhamos aprendido o mais importante passávamos
a trabalhar apenas com mais uma pessoa, o que significava que tínhamos muito
mais trabalho. Para resistirmos a isto fazíamos muitos pequenos “erros” para
que o patrão achasse que ainda não estávamos preparados para trabalhar
Todas estas pequenas tentativas de fazer com que o dia de trabalho se
tornasse mais divertido e menos alienante eram algo que tentávamos espalhar e
fazer circular por outros colegas de trabalho com quem habitualmente não
trabalhávamos. Não o fazíamos a conversar abertamente sobre como fugir ao
trabalho, mas tentávamos fazer com que as actividades falassem por elas
próprias e depois disso podíamos ser mais abertos sobre estas. Claro que muita
gente já fazia isto. Partilhávamos gorjetas e todos tinham a sua maneira
própria de fazer com que o dia de trabalho fosse menos aborrecido e mais
divertido. Eu, por exemplo, partilhava as experiências do nosso pequeno “grupo
de afinidade” sobre como atrasar o dia de trabalho com as outras pessoas com
quem trabalhava, de forma a que o patrão pensasse que tinha de haver três
pessoas nos turnos. A maior parte de nós pensava que era melhor acabar um pouco
mais tarde do que ter de trabalhar mais arduamente durante todo o dia. Uma das
grandes fraquezas (para além de serem todas muito defensivas) das nossas
tentativas de fuga ao trabalho era que nem sequer tentámos envolver mais
pessoas, especialmente aqueles que já ali trabalhavam há mais tempo do que nós.
Admitimos simplesmente que eram todos leais ao patrão e ao local de trabalho.
COMUNICAÇÃO, COMUNIDADE E JOGO
Falarmos uns com os outros, a comunicação, era obviamente uma forma
importante de nos divertirmos mais no local de trabalho. Para mim tornou-se
mais importante quando os outros dois rapazes do meu “grupo de afinidade”
deixaram de trabalhar no restaurante. A minha situação de trabalho alterou-se
drasticamente porque eu não sabia em quem confiar nem com quem contar. Claro
que, como expliquei, a maior parte das pessoas faziam coisas parecidas ao que
eu fazia com os meus amigos mas havia algumas que iam contar ao patrão e ao
filho dele o que se fazia contra o restaurante. Uma das melhores maneiras de
descobrir se podia confiar ou não em alguém era, claro, conversar acerca
daquilo que não podíamos falar. Como por exemplo comparar os salários ou
perguntar a alguém se trabalhava “ilegalmente” (sem pagar impostos) e se
trabalhava que percentagem do dia é que era ilegal. Quando alguém falava acerca
disto mostrava sempre de que “lado” estava. Quem não falasse no assunto não era
de confiança. Se a pessoa respondesse à pergunta podíamos continuar para o
passo seguinte. Por exemplo, eu atrevi-me a roubar dinheiro da caixa - uma
coisa que antes tinha feito quase só no meu “grupo de afinidade”, com muito
mais pessoas. Fazer estas pequenas coisas ilegais e secretas criou um sentido
de comunidade e solidariedade entre nós e uma forma de resistência que
estreitou este sentimento de comunidade e que nos uniu foi a questão de saber
quem organizava o trabalho e de como este deveria ser organizado. O patrão
geralmente vinha aos turnos e dizia-nos como devíamos trabalhar. Ele queria
dividir o trabalho para uma pessoa ficar na cozinha, outra lavar os pratos e
ainda outra fazer os hambúrgueres. Isto significava que estávamos todos
isolados uns dos outros e que fazíamos coisas sozinhos. Felizmente quase
ninguém obedecia a estas regras - mal o patrão se ia embora organizávamos as
tarefas em conjunto e ajudávamo-nos uns aos outros. Isto pode não parecer
importante, ou pode ser visto como uma semente de uma futura auto-gestão do
capital. Mas não era este o caso pois criou-se uma comunidade importante entre
nós e o dia de trabalho tornou-se mais fácil e divertido. Era uma forma de
resistência ao aborrecimento e à alienação e uma forma de se trabalhar menos.
Era um meio, não um fim. Se tivéssemos arranjado um emprego melhor ou
conseguíssemos dinheiro de outra forma, ou ainda se pudéssemos fazer parte de
um movimento mais geral e mais aberto que procurasse abolir o capital, então
penso que teríamos deixado o restaurante, não teríamos tentado organizar nós
próprios o trabalho.
Todos os que ali trabalhavam tinham diversas formas pessoais de criar um
dia de trabalho mais aliciante e divertido e de tentar criar uma espécie de
comunidade. Muitas vezes faziam-se coisas que não pareciam ter nenhum objectivo
nem nenhum significado além de serem divertidas. Mas muitas vezes estas coisas
eram um ataque indirecto ao local de trabalho. As pessoas tentavam brincar e
servir-se dos produtos no local de trabalho para proveito próprio, em vez de os
venderem. Por exemplo, alguns miúdos novos costumavam divertir-se a mergulharem
no óleo a comida que não era para ser frita assim porque achavam que era
divertido brincarem com a comida. Uma rapariga costumava brincar com a comida e
fazer uma série de números de circo bastante impressionantes com ela.
Outra fazia experiências com os molhos e punha uma série de especiarias
dentro deles, muitas vezes tantas que tinham de ser deitados fora (quando o
patrão descobriu isso ficou mesmo furioso). Todos tentavam usar os produtos à
sua maneira. Em vez de os vendermos, usávamo-los e divertíamo-nos com eles de
várias maneiras próprias, estranhas e por vezes infantis. Esta era uma pequena
tentativa de conseguirmos controlar a actividade que nos tinha sido roubada e
de animar os dias de trabalho - actos contra a alienação e o aborrecimento no
trabalho.
A LUTA CONTRA O VALOR
Na sociedade capitalista um hambúrguer é como todos as outras mercadorias,
não é valioso porque pode ser usado mas sim porque pode ser vendido. Um hambúrguer
não tem valor porque se pode comer mas porque pode ser vendido a alguém que
tenha fome. No sistema capitalista as coisas não têm apenas um valor de uso
(como o de um hambúrguer que pode ser comido) mas também têm um valor de troca
(o hambúrguer, como todas as outros mercadorias, pode ser vendido). Isto não é
algo “natural”, como o capitalismo nos quer fazer acreditar e, de facto, há um
grande conflito na sociedade entre estas duas condições.
O comunismo é uma actividade que, entre outras coisas, tenta suprimir o
valor de troca. Significa a criação de uma comunidade humana onde as
actividades humanas, entre outras coisas, verão as coisas como valores de uso e
não como valores de troca como acontece no capitalismo. Isto pode ser visto
claramente na luta de classes.
A luta de classes é dirigida contra a mercadoria e contra o valor de
troca. No restaurante isto tornava-se claro quando nós tentávamos usar as
coisas que ali encontrávamos directamente, sem mediação, para as nossas
necessidades, por mais estranhas que estas necessidades pudessem parecer. Por
exemplo, os miúdos que gostavam de mergulhar a comida em óleo a ferver até a
estragarem ou a rapariga que fazia malabarismo com os alimentos. Mas talvez as
alturas mais visíveis em que tentámos usar as coisas como valores de uso e não
como valores de troca tenham sido quando roubámos a comida ou outras coisas do
local de trabalho. Isto era muito arriscado porque o patrão tinha um controlo
muito apertado sobre as mercearias e sabia quanta comida se compravam cada dia,
mas de tempos a tempos havia roubos. A sabotagem no restaurante era também
dirigida contra a transformação capitalista das coisas em mercadorias e em valores
de troca. Uma vez destruímos muita comida (mercadorias, valores de troca e
naquele caso também valores de uso porque o patrão tinha sido muito irritante
para nós. Eu e outro rapaz estávamos muito zangados não só com o patrão mas com
aquela situação toda porque detestávamos o sítio, por isso fomos ao
frigorífico, tirámos de lá um monte de caixas e destruímo-las. Isto pode ser
visto como um acto bastante irracional e insignificante mas para nós, na
altura, soube muito bem e foi um grande alívio. Depois de termos feito isso
pusemos as caixas que tínhamos destruído outra vez no frigorífico e pusemos
outras caixas e mais coisas em cima delas, para que demorasse algumas semanas
até que o patrão ou outros descobrissem, e nessa altura ninguém conseguiria saber
quem tinha feito aquilo. A sabotagem e a destruição de mercadorias eram menos
comuns do que outras coisas - por exemplo, do que os roubos. Mas de cada vez
que aconteciam nós reparávamos que o patrão ficava muito intimidado e se
comportava de forma mais “correcta” para connosco depois de alguém ter
destruído algo. Outra coisa que acontecia e que era dirigida contra o valor era
registarmos o preço errado na caixa registadora. Não o fazíamos para chatear o
patrão mas sim porque pensávamos que era demasiado caro comer ali e porque essa
era outra forma de criar uma pequena comunidade entre nós. Não uma comunidade
de trabalhadores mas sim de proletários que estão fartos de serem proletários,
uma comunidade (por mais pequena e isolada que fosse) de actividades dirigidas
contra o trabalho e o valor, contra as próprias condições que tornam os seres
humanos proletários.
A luta contra o valor pode ser vista em todas as partes da sociedade,
dos roubos no trabalho e do saque de lojas até às ocupações de casas e locais
de trabalho. O comunismo é uma actividade que aspira a ser tão poderosa que
destrói o valor através da apropriação, pela humanidade, do seu trabalho e dos
meios de produção dos quais está separada.
O PATRÃO
Embora a maior parte de nós, que trabalhávamos no restaurante, não
gostássemos do patrão nem da sua maneira de nos fazer trabalhar mais, não
podíamos deixar de sentir alguma pena e simpatia por ele. Trabalhava todas as
noites da semana, e apenas tirava férias uma vez por ano durante uma semana ou
duas. Todos nós trabalhávamos às vezes com ele e ele costumava andar sempre
pelo restaurante por isso, quer quiséssemos quer não, todos tínhamos uma
ligação pessoal com ele. Para alguns – poucos - isto gerou o sentimento de que
deviam ajudá-lo e passaram a identificar-se com o local de trabalho. Sentiam
que o restaurante era deles tanto como do dono. O restaurante não andava muito
bem financeiramente e era, de facto, o dono o que trabalhava mais de nós todos.
Muitas vezes nos perguntávamos porque trabalhava ele tantas vezes e tão
duramente. Não precisava de trabalhar todas as noites para sobreviver. Chegámos
a desejar que ele passasse mais tempo com a família de quem falava a noite
inteira. Ao princípio eu só via estas coisas como uma espécie de “moralidade
escrava” burguesa e encarava-as como um obstáculo - que, num certo sentido,
eram. Todos nós estávamos ligados a ele emocionalmente. No entanto, passado um
tempo eu percebi que isto apenas afectava marginalmente as nossas actividades
contra o trabalho assalariado. Éramos guiados pelos nossos próprios interesses
e necessidades, o que não significava que não tivéssemos pena do nosso patrão e
lhe desejássemos outra vida. A nossa repulsa e a nossa resistência eram
dirigidas contra o local de trabalho em si, e não contra o patrão. A essência
do conflito era sobre o facto de termos de lá estar para recebermos dinheiro.
Queríamos fazer outras coisas, estar com aqueles de quem gostávamos, brincar na
praia ou fazer mais coisas importantes. Não queríamos trocar o nosso tempo e a
nossa vida por dinheiro. Não queríamos trabalho assalariado. Claro que o patrão
não era popular, mas o conflito nunca era uma questão de “nós” contra “ele”-
era antes uma questão de “nós” contra a relação que nos mantinha prisioneiros
no restaurante. Claro que algumas actividades eram direccionadas directamente a
ele, mas eram muito poucas. A maioria de nós pensava que seria uma consequência
triste o patrão ter de sofrer por causa das nossas actividades que eram contra
as relações sociais que nos mantinham ali presos. Não havia vencedores no
restaurante - nem o patrão nem os trabalhadores. [4]
UMA ESPÉCIE DE PEQUENO CAPITAL
O restaurante podia ser visto como um pequeno capital. No capitalismo o conflito
é sobre coisas muito mais essenciais do que a diferença entre quem possui os
meios de produção e quem os não possui, ou do que entre ricos e pobres. Claro
que há conflitos reais e diferenças entre quem possui bens e quem não os possui
e entre ricos e pobres. E quando o proletariado trava a sua luta contra o
capital, tanto escondida como aberta, terá necessariamente de entrar em
confronto com os funcionários do capital. Mas não são os capitalistas que
controlam o capital, é o capital que controla os capitalistas. Não são apenas
os proletários que são intercambiáveis (substituíveis)- os funcionários do
capital também o são. No capitalismo os seres humanos não valem nada enquanto
humanos. A única coisa importante para o capital é o papel que eles desempenham
na sociedade, um papel que pode ser usurpado por outra pessoa se não for
devidamente cumprido. A luta de classes não é um projecto à Robin dos Bosques e
o proletariado não são apenas os pobres. Dizer que o conflito é entre os ricos
e os pobres esconde a verdadeira contradição - entre o comunismo e o capital. E
também dá às pessoas uma falsa solução acerca de como o capitalismo pode ser
destruído: nomeadamente, diz que apenas temos de acabar com os ricos. Esta é
uma formulação que vira a realidade de pernas para o ar; não são os ricos que
criam o capitalismo. É o capitalismo que cria a riqueza e, consequentemente,
também a pobreza. Ficaremos livres desta diferença se nos virmos livres do
capitalismo.
Se não são os ricos que controlam tudo então quem é? É a “lei do valor”
que governa o capitalismo e que força tanto os ricos como os pobres a caçarem
mais e mais dinheiro. Esta “lei” não pode ser domada - todas as tentativas para
o fazer ou falharam ou foram esmagadas. O valor tem que ser destruído ou então
vai subjugar-nos a todos. Isto era algo que se podia ver abertamente no
restaurante. Claro que o nosso patrão ganhava muito mais do que nós (e nós
queríamos mais dinheiro) mas tal como nós - os seus empregados - tínhamos de
trabalhar para sobreviver, ele era forçado a acumular valor ou ir à falência. Nas pequenas empresas o patrão
tem muitas vezes de trabalhar ao lado dos empregados, muitas vezes até mais, e
mais arduamente do que os seus empregados. O facto de ele ser o dono do
restaurante e de ganhar muito com o nosso trabalho criou um verdadeiro conflito
entre nós e ele, mas estaríamos enganados se pensássemos que todos os problemas
que encontrávamos ficariam resolvidos se simplesmente nos livrássemos do dono.
Mesmo que o restaurante pertencesse ao estado ou se nós, os que lá
trabalhávamos, o geríssemos, ainda teríamos de obedecer à tirania do valor e de
seguir as leis do mercado e da economia. Isto significa, também, que a maior
parte dos problemas que existiam quando o restaurante pertencia a um particular
continuariam a existir se este mudasse de donos. Como eu disse antes, o capital
governa os governantes e tenta reduzir todos - tanto ricos como pobres - a algo
útil para o capital. Apenas tolera aqueles que obedecem ao capital e que são
seguidores passivos da economia.
As condições do capital são simplesmente o facto da actividade humana
ter sido separada do homem e de sermos nós que alimentamos esta separação
através das nossas próprias relações sociais. De facto, se somos nós que
criamos o capital também o podemos destruir. O capital sobrevive principalmente
devido à nossa passividade (claro que não podemos mudar esta passividade
desejando-a ou concordando com ela) mas também tem instituições como a polícia,
o exército, a moralidade, e a hierarquia a protegê-lo. Até a esquerda e o
movimento dos trabalhadores o apoiam directa ou indirectamente. O programa de
esquerda trata fundamentalmente da forma como as pessoas devem gerir a
produção. Os sociais democratas e os leninistas querem uma produção controlada
pelo estado, os libertários e os conselhistas querem que esta seja possuída
pelos trabalhadores e ambos querem distribuir os lucros justa e
equitativamente. Claro que o comunismo trata do autogoverno mas é
principalmente dirigido ÁQUILO que as pessoas conseguem e têm que gerir.
Se o capital significa passividade na medida em que as nossas
actividades não nos pertencem e na medida em que as pessoas não acreditam que
podem mudar a sua própria situação, então o comunismo significa actividade e movimento.
Um movimento e uma tendência que estão presentes na luta de classes, na velha
sociedade que tenta aboli-las e uma actividade que significará o fim das
separações e das mediações e, por isso, a destruição do valor, da economia e do
trabalho. O comunismo é um mundo sem dinheiro e sem lucro (o que não significa
nenhum paraíso na terra nem que as pessoas se tenham transformado em anjos).
Significa só um mundo onde a actividade da humanidade pertence à própria
humanidade, algo que de certeza irá criar novos e imprevisíveis problemas,
conflitos e contradições.
NÓS SOMOS A CONTRADIÇÃO
Trecho de Marcel e Gilles Dauvé
O trabalho é a nossa actividade separada de nós, transformada em algo
que estimula a economia e que nos domina. E este processo pode ser alterado
porque somos nós quem o alimentamos. Nós somos a contradição. Nenhum trabalho é
apenas imposto do exterior. Supõe alguma cooperação da parte das bases, como
mostrou o trabalhador da Renault, Daniel Mothé nos seus artigos na revista Socialisme ou Barbarie dos anos
cinquenta. Aquilo que descrevemos como pequenos roubos, sabotagem de pequena
escala e divertimento (todas estas coisas implicam auto-organização) é, também,
aquilo que torna o restaurante suportável. A resistência ao trabalho é uma
forma de recuperar alguma da “humanidade” que o trabalho nos rouba: por isso
torna o nosso dia de trabalho menos alienante. Negar isto é não compreender
como o capitalismo funciona nem porque continua apesar de todos os seus
horrores. A auto-organização da vida de trabalho (e das suas lutas) é,
paradoxalmente, também a condição para uma possível revolução.
O significado do movimento comunista não reside em ver-se livre dos
aspectos dolorosos do trabalho ao transferir o seu fardo para máquinas que
trabalham para nós enquanto nós nos refastelamos, escrevemos poemas ou fazemos
amor. (Nos tempos antigos, quando existiam poucas máquinas, Aristóteles
justificou o trabalho manual escravo pois permitia à elite levar uma vida boa e
intelectual). O leitor perceberá que não desejamos uma sociedade onde cada
segundo seja um divertimento. Deixemos tais sonhos para Vaneigem.
Isto está relacionado com o conteúdo do trabalho concreto feito num
destes restaurantes. Todos os fast food
são a expressão de uma sociedade onde o tempo é dinheiro, e onde os actos
vitais humanos como comer têm de ser feitos no tempo mais curto (mais lucrativo)
possível. Os hambúrgueres, no entanto, são apenas um exemplo entre muitos . Os
bifes (outrora um símbolo da civilização ocidental) são outro meio de
rapidamente grelhar e despejar proteínas e calorias suficientes para mandar o
apressado homem moderno de volta à sua fábrica ou escritório. E o mesmo se pode
aplicar às saladas dos self-services que se tornaram tão populares nos últimos
vinte anos. Os bifes transmitem uma mensagem dura, de alguma forma masculina,
enquanto as saladas se associam a uma atitude supostamente mais branda, aberta
e sem género. E uma empresa multinacional de comida que queira estar na moda
pode adoptar o nome de Slow Food...
Nós somos o que comemos...É verdade, mas também somos o que fazemos. Nós
comemos tal como vivemos e seria ingénuo acreditar que poderia ou iria existir
uma maneira melhor de comer, que poderia existir uma e única comida saudável.
Mais uma vez espero que o leitor perceba que não defendemos refeições
veganas orgânicas e universais.
[1] Kämpa Tillsammans! significa "Lutemos Juntos!"
[2] Quando afirmo que o comunismo é um movimento, quero
dizer que existe como uma dinâmica subjacente à luta de classes ou como uma
tendência contida nela. Não vemos na luta de classes a sociedade comunista mas
sim um potencial para o comunismo. Qualquer luta contra o capital contém um
aspecto universal pois é um protesto contra uma vida desumana e isso é uma
semente para uma futura comunidade humana. “ Uma revolução social tem portanto
um aspecto universal, porque, embora possa ocorrer em apenas uma zona
industrial, é um protesto humano contra uma vida desumana, porque parte do
indivíduo singular real, e porque a vida social é a verdadeira vida social do
homem, a vida realmente humana.” Mas é importante entender que isto é apenas um
aspecto, e também que a semente não consegue crescer em todas as situações.
[3] Esta citação é do grupo indiano Kammunist Kranti.
Pode-se dizer que o capital sobreviveu a estes ataques porque as térmitas
também trabalham para ele. Isto é verdade, mas também é verdade que o capital
precisa e tenta controlar e destruir todas estas lutas secretas. E é também nos
conflitos no trabalho, na luta proletária contra o trabalho assalariado que
podemos encontrar a actividade emancipatória que nos pode libertar e destruir o
capital.
[4] Não quero dizer que o proletariado e os patrões têm os mesmos interesses. Todas as lutas acabam por, de uma forma ou de outra, confrontar os patrões, a polícia, os chefes ou outros funcionários do capital. Quero apenas sublinhar que não são os patrões que controlam tudo e que, no restaurante, a nossa relação com o patrão, de forma paradoxal fortaleceu a “perspectiva” comunista na luta. Tornava-se claro para todos que o inimigo não era o patrão mas que aquilo a que nos opúnhamos era ao absurdo de trabalhar por dinheiro.