Definir o proletariado
Introdução
Para os socialistas utópicos, o comunismo surgiu do
pensamento.
Marx entende que o comunismo surgiu do próprio seio
do capitalismo e que é representado por uma força social: o proletariado. A
teoria comunista é apenas uma emanação do proletariado sendo Marx somente o
receptáculo que exprimiu teoricamente e de maneira extremamente sintética o
movimento e o objectivo da nossa classe. Marx não é, como o pretende a social-democracia
ou o estalinismo, o mestre genial do pensamento marxista, que, tendo bebido da
filosofia francesa e alemã, teria conseguido engendrar o "marxismo",
que bastaria depois insuflar a um proletariado cujo movimento próprio apenas se
restringiria à esfera económica, sindical. Marx via-se a si mesmo apenas como
um porta-voz do proletariado.
Sendo o proletariado a fonte da teoria comunista,
portador do comunismo e agente da revolução comunista, é da mais alta
importância definir correctamente o que ele é. Tanto mais que à sua definição estão certamente ligadas questões de
importância primordial: lutas ditas "reivindicativas" e lutas
revolucionárias, definição do que são os comunistas, relação entre classe e
partido, estratégia e tácticas, extrapolação sobre a transição para o comunismo
e a ditadura do proletariado...
A. Concepções falsas de proletariado
Durante a "paz social", o peso da ideologia
dominante impõe concepções falsas do que é o proletariado. Estas concepções
falsas tomam como ponto de partida a constatação da pretensa não-luta, constatação idealista incapaz de ver por detrás
da forma pela qual se exprime a realidade a própria realidade. Elas levam tanto
ao activismo como à passividade.
1. Materialismo vulgar da definição economicista do
proletariado e identificação de proletariado com classe operária.
Alguns baseiam a sua concepção de proletariado apenas
sobre a propriedade dos meios de produção. Há os burgueses, os operários, os pequeno-burgueses, os camponeses, os desempregados, os
estudantes... A sociedade é seccionada segundo categorias sociológicas cuja
multiplicidade varia em função dos critérios usados. O proletariado é então
reduzido, seja ao proletariado industrial, ou mesmo ao proletariado produtivo,
seja a um conjunto de categorias sócio-profissionais.
Em todo o caso, é definido pela sua relação com as coisas (mercadorias,
produtos, máquinas, fábricas, produção, produtividade). Esta concepção de
proletariado afirma-se como materialista. Mas o proletariado é tomado apenas na
sua dimensão de força produtiva de coisas e portanto como capital variável.
Os operários são proletários, mas nem todos os
proletários são operários, longe disso. A definição economicista de
proletariado que o identifica à classe operária, aos trabalhadores, serve o
capitalismo. A realidade e o conceito de classe proletária são negados pela
realidade e conceito de classe operária, e a confusão entre os dois exprime e
serve a contra-revolução capitalista, quer dizer, ela opõe-se ao facto de os
proletários operários se poderem servir da sua posição privilegiada na produção
para destruir o capitalismo encerrando-os na função que eles assumem no seio do
processo de produção capitalista. Com efeito, o termo operário dá relevo à função,
ao estatuto produtivo do proletário. Ora, o operário é uma figura positiva
dentro do capital e a própria classe operária aparece como uma figura
antagónica, mas positiva. A classe operária tornou-se uma potência reconhecida
no interior do sistema.
O marxismo, ao invés e contra Marx, contribuiu a
manter a confusão entre uma classe proletária com capacidade revolucionária,
mesmo não fazendo a revolução, e uma classe operária suposta capaz de adquirir força
e direitos, até eliminar por fim o capitalismo através de reformas ou mesmo
pela insurreição.
A crítica a ser feita ao economicismo
social-democrata e estalinista não deve ser que ele se afunda no sociologismo,
nem que dá uma definição exclusivamente baseada nas condições materiais de
vida. O que deve ser criticado não é o seu ponto de partida materialista mas o
facto de que se trata de um materialismo mecanicista que se concretiza na
identificação entre condições materiais de produção de coisas e produção, entre
condições materiais de vida e "economia", na sua liquidação da totalidade
e a separação que faz entre "produção" e revolução. A definição
economicista de proletariado só toma em conta o mecanismo de funcionamento do
capitalismo. Seria mesmo absurdo criticar esta definição de proletariado como
sendo exclusivamente materialista pois nem sequer é materialista consequente,
já que nega que a própria revolução é uma produção material.
2. Definição voluntarista
A definição voluntarista não cai no materialismo
vulgar de identificar os trabalhadores com o proletariado. Cai exclusivamente
no idealismo de considerar o proletariado como sendo os que compreendem "o
que faz falta". A revolução deixa de ser determinada pelo movimento de
oposição do proletariado para o ser pela associação/adição voluntária dos
indivíduos mais conscientes e/ou mais activos.
A constatação de um proletariado esmagado pela
contra-revolução e de uma situação onde restaria somente aos comunistas de boa
vontade e de elevada consciência o darem-se
as mãos induz ao iluminismo e ao activismo. Em vez de se explicar que a negação
negativa da classe, o triunfo da concorrência, será por sua vez negada, que, malgrado
toda a ideologia podre, o proletariado é constrangido a lutar, obrigado a
associar-se, deixa-se todo o proletariado na merda e
interpela-se os que têm a consciência. Em vez de partir-se das determinações
materiais que definem o proletariado, que o levam a associar-se, a formar-se
como classe, a constituir-se em Partido, considera-se o "Partido"
como o resultado formal da associação e da centralização dos que compreendem
"o que faz falta".
Crêem ter apreendido a dinâmica. Com razão, partem da
polarização inevitável e apreenderam que em última instância há apenas dois
partidos: o da revolução e o da reacção. Mas renunciam logo a seguir à dinâmica
real, porque fazem abstracção das contradições existentes na sociedade presente
que a determinam. "O proletariado é revolucionário ou não é nada" é
uma frase que tem todo o sentido na dinâmica social, mas somente aí. Torna-se
uma caricatura quando se pretende que apenas "os revolucionários" são
o proletariado e que o resto são burgueses.
A luta, a oposição, não é uma esfera à parte da vida
mas sim a sua totalidade. Esta oposição inultrapassável não se encontra na
"política" mas na existência mesma de classe excluída, de classe que
produz a sua própria opressão e a sua própria emancipação, que, precisamente
quando produz coisas, produz as condições sociais (logo materiais) da sua
própria exploração e da supressão dessa exploração, de classe que produz o
capital e a revolução social.
Em vez de se ver o desenvolvimento embrionário da
classe e da sua organização enquanto força social no associativismo operário
prático, em vez de se colocar em evidência que o proletariado é constrangido a
associar-se como negação prática da concorrência, em vez de se mostrar no
movimento prático a tendência em direcção à organização em força social da
classe, o movimento é desprezado em proveito de uma ideia voluntarista,
formalista e idealista da organização.
3. Adição dos erros anteriores
Há também a pseudo-superação
destas caricaturas que descrevemos. Mete-se um pouco de sociologia e um pouco
de perspectiva. Crê-se ir mais longe e repete-se o esquema social-democrata: o
proletariado é constituído pelos operários e pelos revolucionários. Na prática,
ocorre uma adição perfeitamente dualista para formar o conceito de classe: os
"revolucionários" consideram-se a si mesmos como proletários e o
resto do proletariado é, como para a social-democracia, os operários
sociológicos (adicionando-se ou não, consoante os grupos, os desempregados, os
camponeses...). É uma combinação de idealismo e de materialismo vulgar.
B. Definição materialista dialéctica de proletariado
1. O proletariado como relação social
Em vez de ignorar ou não tomar em devida conta as
condições materiais na definição de proletariado, a nossa definição afirma que
o proletariado não é senão o movimento real e social bem prático e material. Em
vez de desconsiderar o papel da produção nesta definição, trata-se de lhe dar
um sentido mais global que os materialistas vulgares.
Se nós insistimos de tal forma neste facto de que o
proletariado é constrangido a lutar pela revolução, não é porque seja um facto
"económico", mas porque vemos a luta, a oposição, a negação (não
somente potencial, mas sempre em desenvolvimento) lá onde o sociólogo vê apenas
"indivíduos que compõem uma classe".
Assim, lá onde os estalinistas só vêem o ponto de
partida, a sociedade tal como está, os operários enquanto operários, nós vemos
um movimento e esse ponto de partida como um produto social sempre inacabado
onde se concentra a contradição de toda a sociedade entre o seu passado e o seu
futuro.
Em vez de desconsiderarmos a produção de coisas na
definição de proletariado, de renunciarmos a considerar o proletariado como
força produtiva, nós situamos este momento real numa totalidade que é a
produção e reprodução da sociedade inteira com as respectivas contradições
mortais, onde se inclui a sua superação. Assim, em vez de definirmos o
proletariado pela relação que este mantém com as coisas (mercadorias, produtos,
máquinas, fábricas), nós definimo-lo como produto dum antagonismo prático entre
os "homens" que contém no seu desenvolvimento a supressão do próprio
antagonismo.
Na produção, não vemos somente produção de coisas mas
sim, e sobretudo, produção de relações sociais. Em lugar de vermos, duma
maneira estática, o proletariado como uma simples força produtiva de coisas e
por conseguinte de capital, nós vêmo-lo, por este
mesmo acto, como força produtiva da revolução. Em vez de o considerarmos só
como um aglomerado de homens forçados a fornecer o trabalho vivo ao trabalho
morto, de o considerarmos unicamente como totalidade de homens vendendo a sua
força de trabalho, como capital variável produzindo mais-valia, nós definimo-lo
como relação social em movimento, contradição mortal do capitalismo cuja
resolução apenas se encontra na sua auto-supressão.
"O proletariado, como toda a classe social, não
se define pela sua situação económica. Define-se pelo papel que desempenha na
dinâmica social, na luta de classes. A noção de classe não deve portanto
sugerir-nos uma imagem estática, mas uma imagem dinâmica. Quando descobrimos
uma tendência social, um movimento dirigido a um dado fim, então podemos
reconhecer a existência de uma classe no verdadeiro sentido do termo."
(PCI)
Analisar o proletariado do ponto de vista da produção
de mais-valia permite compreender o mecanismo de funcionamento do capitalismo,
permite compreender o capital como valor valorizando-se e logo a sua dinâmica.
Mas o comunismo não se contenta em analisar o funcionamento do capitalismo, ele
analisa o mecanismo do seu derrube, o movimento de subversão do qual o
proletariado é o sujeito histórico. O comunismo é fundamentalmente a necrologia
do capital. "Não ver senão o mecanismo do capital é eternizá-lo" (Jean Barrot).
2. Carácter contraditório do proletariado
O proletariado não existe como um conjunto de
operários que depois têm uma prática. Pelo contrário, o proletariado existe
somente enquanto prática de oposição de luta. Mas isto não pode ser
interpretado como identificação da prática à acção revolucionária ou à acção
consciente. Definindo o proletariado pela sua prática material, pelo seu
movimento, não pretendemos acrescentar uma característica voluntária ou
política à definição de proletariado e menos ainda substituir por uma definição
política a definição economicista, mas pelo contrário, afirmar a sua
determinação materialista: o proletariado é objectivamente um movimento prático
global e contraditório, no qual se inclui tanto a reprodução desta sociedade
como a sua destruição.
"O proletariado é revolucionário ou não é
nada". Justamente! Se arrebatarmos a determinação revolucionária na
determinação da vida do proletariado e se o concebermos como simples produtor
de coisas, liquida-se toda a dinâmica que anima o proletariado desde o seu
nascimento. Mas ele não é revolucionário por ideal ou por vontade, mas
precisamente porque se auto-produz como
revolucionário ao mesmo tempo que produz capital, ou reciprocamente, porque o
capital produz o seu coveiro.
3. Classe em si e classe para si
Uma maneira idealista, a custo disfarçada, de
conceber o proletariado, consiste em considerá-lo ainda de um lado como simples
classe do capital, como trabalhador, e por outro lado como revolucionário, como
comunista quando "luta". Isto é uma visão dualista e metafísica que
consiste em separar na cabeça uma questão que é inseparável na prática, que consiste
em fazer duas coisas na cabeça de uma só que existe na prática. É um desvio
bastante corrente do idealismo que, em última instância, tem horror das
contradições. A caricatura consiste em dizer que, quando o proletário trabalha,
ele é capital, e quando luta contra o trabalho é comunista, ou então a oposição
dualista: "classe em si", "classe para si". Os idealistas
liquidam assim a contradição entre capital e comunismo, entre burguesia e
proletariado, para a substituir por trabalhador/humanidade. Esquecem-se, no
mesmo passo, que é precisamente enquanto classe desta sociedade que ela é o seu
pólo destrutivo, ou dito concretamente, esquecem que é o mesmo processo que a
constrange a trabalhar e a suprimir o trabalho, que é apenas enquanto classe
forçada a trabalhar que ela é forçada a revoltar-se.
4. Metafísica
e dialéctica
O metafísico também sabe que existe a vida e a morte,
a produção do capital e a destruição do capital. Mas vê na morte algo exterior
à vida e na destruição algo de uma natureza totalmente diferente do
desenvolvimento do capital, quer dizer, que nos conceitos que elabora, nunca vê
a contradição, nem o seu devir, nem a sua ultrapassagem.
Pelo contrário, a dialéctica vê a morte mesmo na
vida, no desenvolvimento do capital vê o desenvolvimento das suas contradições
mortais, a destruição inevitável.
A ruptura não consiste portanto em ver a existência
de conceitos opostos vida-morte, capital-comunismo.
Mesmo o metafísico mais imbecil concebeu esta oposição. Porém vê sempre o
conceito antitético surgir do exterior da tese, de
circunstâncias exteriores à tese. A dialéctica põe precisamente em evidência
que a tese contém a antítese, que ela é contradição em desenvolvimento, ou dito
de outra maneira, que toda a afirmação dum fenómeno contém em si mesmo os
elementos da sua negação.
Contrariamente à oposição "classe em si/classe
para si", o proletariado nunca é uma ou outra destas imagens puras,
ideais, mas precisamente o processo contraditório e vivo que exclui
praticamente toda a existência destes pólos ideais. Historicamente, quando o
proletariado não pode ser senão a sua atomização completa e acabada, carne para
canhão das guerras capitalistas (realidade histórica que se aproxima mais do
conceito idealista de classe em si ou para o capital), ele não existe mais, é a
sua negação negativa.
Quando o proletariado é classe dominante
totalizadora, abolição prática de todas as classes (realidade histórica que se
aproxima mais do conceito idealista de classe para si), ele também não existe
mais, é a sua negação positiva. O proletariado não é um dos seus pólos
históricos, mesmo se os contém na prática, mas sim o processo real desta
contradição histórica.
Se, conceptualmente, falamos de classe explorada e de
classe revolucionária, isso é apenas válido como momento duma explicação desde
que não percamos de vista que a classe não é uma coisa nem outra, nem a adição
das duas; o proletariado é antes de tudo um movimento, o movimento de
destruição do velho mundo. Movimento que é determinado pela realidade de ser
explorado e de dever destruir essa exploração, movimento real produto da
contradição entre valor e necessidades humanas. O proletariado
"puramente" explorado é um mito da burguesia, o proletariado
"puramente" revolucionário é um sonho idealista que vai de encontro
aos nossos interesses e que só será real com o desaparecimento, a dissolução da
classe na humanidade, ou seja, com o comunismo.
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5. Dinâmica
contraditória global e definição das classes no antagonismo
As classes são uma prática e uma dinâmica. Mas uma
dinâmica e uma prática globais. Não se trata de adicionar a produção de coisas
(ou a propriedade ou não dos meios de produção) às ideias ou à política. É a
prática global da vida, da luta, ou melhor da luta pela vida ou da vida de
luta. A reprodução da vida (luta) é contradição, é dinâmica, é oposição global.
Esta dinâmica determina as relações de oposição, as classes. Quando se fala de
relações de reprodução e de propriedade, não se trata dum conceito estático
(produção de coisas), mas sim de contradições na reprodução global da
totalidade da vida, cujo desenvolvimento inerente implica a contra-revolução e
a revolução.
Os dualistas subtis tentam distinguir entre
"operários" (económicos) e proletariado (revolucionário). Isto é
estática comparada e não dinâmica, porém tentam responder à contradição
interesses revolucionários/ ideologia contra-revolucionária.
Mas a dialéctica é todo um outro modo de pensar. A
globalidade da vida humana é, nesta sociedade, contradição, tensão, movimento.
O valor (enquanto sujeito, dinâmica) divide permanentemente a sociedade em dois
campos: aqueles que são cooptados pela propriedade (gestão, controlo da sua produção,
luta pela sua defesa) e aqueles desapossados de tudo, que, na sua vida, se
opõem à propriedade ( a venda da força de trabalho é esta oposição conciliada e
enquadrada, da mesma maneira que o são as outras formas de arranjar meios de
vida: direito ao desemprego, o roubo, ...).
As classes não existem à partida "em si"
(por elas mesmas, definidas pela produção ou pela economia) e em seguida
"lutando" (fazendo política). Existem somente enquanto forças
orgânicas opostas e antagónicas. Definem-se portanto na prática do seu
movimento de oposição e de luta inerente às relações de "produção" e
aos interesses antagónicos que elas implicam. "Produção", não no
sentido imediato referindo-se exclusivamente à produção de coisas, mas no seu
sentido global, enquanto reprodução da espécie, reprodução da exploração,
reprodução dos dois campos irreconciliáveis...
Assim pois, proletariado e burguesia definindo-se
pelo seu antagonismo mútuo: a burguesia como personificação das relações de
produção capitalista, como partido da conservação, como força reaccionária; o
proletariado, como negação de toda a sociedade presente, como partido da
destruição, portador do comunismo.
Toda a vida do proletário é apenas oposição e luta. As definições economicista e politicista
devem ser postas uma ao lado da outra e deve-se-lhes
opor uma definição global baseada na totalidade da vida prática. Mais, não
somos nós que definimos o proletariado, mas a vida total é que define o
proletariado a nós mesmos.
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C. Proletariado e comunismo
1. Determinação materialista dialéctica da existência
dos comunistas
A acção voluntária dos operários como comunistas não
é um fruto súbito duma tomada de consciência metafísica mas sim o resultado dum
conjunto de determinações tanto históricas (classe explorada e revolucionária;
concentração de todas as contradições das classes exploradas) como políticas (produto
e factor – partido - as lições da história) e evidentemente económicas: é
porque a classe operária se encontra cada vez mais na merda,
que se a constrange a trabalhar cada vez mais por menores salários..., que o
trabalho lhe parece cada vez mais embrutecedor, que ela se organiza como um
poder. Demais a mais, o lugar que ocupam os proletários produtores de
mais-valia tem importância: atribui-lhes um papel determinante na revolução.
2. Identidade essencial entre o ponto de vista do
proletariado e o ponto de vista dos comunistas
Não é que seja necessário acrescentar a política à economia. Não se
trata de "politizar" o que quer que seja. A vida dos não-proprietários, dos proletários, não pode ser outra
coisa que luta, luta pela vida, oposição viva à propriedade. A crítica
verdadeira que deve ser feita aos que defendem a introdução das ideias
socialistas nos operários (Kautskismo) parte daí. Nós
mesmos somos apenas o produto destacado (mas histórico e não imediato) dessa
oposição viva e organizamo-nos para a dirigir no sentido da sua negação
efectiva e total.
É a própria realidade, as contradições da sociedade
burguesa, o facto de que o proletariado é historicamente constrangido a fazer a
revolução que fornece estas perspectivas que os comunistas tomam a seu cargo da
maneira mais elevada possível e isso de acordo com os períodos históricos.
O ponto de vista real da nossa classe é o mesmo que o
nosso malgrado as fraquezas e a falta de rupturas mais ou menos importantes. O
ponto de vista da nossa classe (não o conjunto dos trabalhadores trabalhando em
fábricas) é a diminuição da exploração que exprime o comunismo que é o
desaparecimento da exploração. É fazer uma dicotomia imbecil dizer que as lutas
operárias não são revolucionárias, que são reformistas e isso até à chegada do Partido-Zorro.
3. Surgimento do proletariado determinado pelo arco
histórico
O proletariado é o herdeiro de todas as classes
exploradas do passado porque as suas condições de sobrevivência levam ao seu
paroxismo a inumanidade das condições de vida de todas as classes exploradas do
passado, e porque concentra em si todas as causas profundas das lutas anteriores,
No entanto, o proletariado distingue-se dessas classes oprimidas do passado
porque estas últimas não tinham um projecto social próprio e porque as suas
lutas na impossibilidade material de ultrapassar o quadro de simples reacções,
tendiam a-historicamente e utopicamente a
reconstituir a velha comunidade perdida. Com o proletariado, a luta secular
contra a exploração, contra a desumanização do homem, contra a subordinação da
vida humana à ditadura do valor, é assumida pela primeira vez na história pelo
sujeito revolucionário, quer dizer, um sujeito com um projecto social próprio,
válido para o conjunto da humanidade e em ruptura total com a civilização do
progresso: a destruição do Capital e para lá das classes, da exploração, da
propriedade privada, de todos os estados... e a instauração do comunismo.
É o arco histórico total que determina o surgimento
do proletariado como classe historicamente constrangida a impor o comunismo.
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4. O proletariado, contradição permanente entre
classe explorada e classe revolucionária, logo tendendo a organizar-se em
partido
O proletariado é a classe revolucionária porque é já
dissolução das classes no seio da sociedade de classes, porque classe de
"sem reservas", de desapossados, de homens libertados e arrancados
aos velhos laços comunitários e aos velhos laços de alienação. O seu
desapossamento alimenta o capital (de acordo com um processo de exploração
diferente do que vigorava nas sociedades anteriores) e não pode abolir-se de um
modo revolucionário senão através de uma reapropriação
da potência social, do seu produto comum que o enfrenta opondo-se-lhe
como capital. Se o capital é condição do comunismo, é primeiramente porque
produz massivamente desapossados susceptíveis de se constituir em classe
revolucionária, dissolvente das condições existentes.
Essa luta é portanto não apenas uma reacção da classe
explorada, mas também e sobretudo a acção de uma classe revolucionária
historicamente constrangida a assumir o seu programa e a constituir-se em força
organizada, em partido comunista mundial (inversão da praxis no sentido mais
global deste conceito).
A classe é uma contradição em acto (em movimento),
simultaneamente manifestação heterogénea-capital
variável e tendência a organizar-se em partido.
A classe traz em si a negação de todas as
determinações do capital, o comunismo como movimento real de destruição da
ordem social existente. O partido é a emergência desta classe enquanto
organização (não no sentido formal) superior de si mesma para a sua emancipação
e para a revolução comunista.
Que o proletariado se constitua em classe, logo em
partido e ao mesmo tempo ele seja destruído sem cessar pela concorrência, é
precisamente a dinâmica da nossa classe. Todas as tentativas de fixar este
processo reintroduzem o dualismo pela janela depois de o terem expulsado pela
porta. O proletariado, como conjunto de indivíduos, não se fixa nunca. Está em
perpétua constituição (centralização, direcção, constituição em partido), e
destruição (sempre relativa e portadora de uma nova negação). O proletariado é
a contradição viva da propriedade, mas ao mesmo tempo reprodu-la (reproduzindo
também todo o seu conteúdo, logo a concorrência, logo a sua destruição
negativa).
5. Partido e
classe, duas expressões da mesma realidade
O proletariado constitui-se em classe organizando-se
em Partido. Sem Partido (e também programa, projecto social, etc) não se pode falar de proletariado. "A classe
pressupõe o partido" (PCI, Partido e classe).
A luta do proletariado para se organizar em Partido é
o centro, determinado pelas próprias condições da exploração, de toda a sua
actividade.
O Partido não é acessório, é fundamental; sem ele o
proletariado não existe como classe, mas sim como massa de indivíduos-objectos
inertes da exploração e da barbárie capitalista.
Mas cuidado, devemos combater toda a assimilação
entre Partido e esta ou aquela organização formal do passado.
Para Kautsky, Lenine,
Luxemburgo, Panekoek, Bordiga,
etc., a classe podia ser definida em si, sem partido, e o partido sem problemas
ser definido na base de outras características essenciais, para discutir depois
a relação entre eles. No entanto, a classe não pode ser definida sem o Partido
e o Partido não faz sentido sem a classe. Sem afirmação do Partido, mesmo numa
forma embrionária, não existe proletariado. "O proletariado é
revolucionário ou não é nada".
Se se trata de substituir a
cabeça do Estado burguês por outra, se se trata de
destruir um governo e substitui-lo por outro, se se
trata de gerir a produção capitalista por comités de fábrica ou por sovietes, é
perfeitamente lógico considerar de um lado o partido e do outro a classe, de
ter uma definição para classe e outra para o partido (social-democracia em
geral, Kautsky) e ter depois a preocupação de saber
se o partido dirige e aterroriza a classe (social-democracia de linha robespierriana, estalinismo, trotsquismo
original, PCI) ou se a classe deve decidir e o partido aconselhar
(social-democracia, Kautsky depois de 1917, conselhismo, trotsquistas
actuais, CCI, democratas operários em geral).
A "relação" entre classe e partido não é
uma relação entre duas entidades. Trata-se duma mesma realidade que não admite
duas definições distintas e depois uma relação entre elas. É por isso que a
questão equivaleria a encontrar a "relação" entre o corpo humano e o
seu movimento, ou entre o corpo e a vida, sendo o corpo humano e o seu
movimento (ou a sua vida) a mesma coisa. Eis a questão absurda, porque o corpo
humano é o seu movimento, sem movimento não há corpo humano, sem corpo humano
não há movimento, sem partido a classe operária não existe, sem a constituição
do proletariado em classe não há partido comunista!
6. O partido, momento do movimento real do comunismo,
determinado historicamente
É evidente que
se pode - como relação a toda a realidade - considerar
somente um dos seus aspectos, por exemplo a classe, o corpo humano, ...mas não
se pode jamais fazer abstracção do outro aspecto: o partido, o movimento.
Assim, pode falar-se da acção da classe para se
organizar em partido e da acção das minorias na linha histórica do partido para
dirigir a formação da classe. No primeiro caso, toma-se o proletariado como
sujeito e o Partido como a sua acção, a sua obra; no segundo caso, toma-se o
partido histórico como o sujeito e a constituição da classe como a sua acção, a
sua obra.
Mesmo se se aceitar ver uma
distinção entre classe e Partido, é indispensável que se lembre sempre que
ambos são determinados pela contradição, logo pela sua ultrapassagem. Não é um
Partido mítico que é, que contém, ou que dá à classe a resolução da
contradição. O partido é apenas a formalização, ou melhor a tomada a cargo e a
organização em força desta resolução através da organização dos homens historicamente
constrangidos a resolver esta contradição: os proletários.
Mas o partido não é essa coisa ideal que se poderia
construir à força de consciência e vontade, não se saberia quando. É o produto
da síntese do trabalho preparatório dos comunistas, o qual é indispensável, e
do desenvolvimento da combatividade operária.
Na concepção do Partido como produto da consciência e
da vontade, a consciência é unicamente concebida como uma compreensão cerebral
e não como um momento da prática.
As determinações históricas fazem que aquilo que pode
parecer um acto de vontade individual dum comunista não seja senão um momento
do movimento real do comunismo.
A história não é a história das vontades assumidas e
não assumidas, mas a história determinada historicamente pela luta de classes
que se cristaliza na actividade dos indivíduos.
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Mazagan, 7 Dezembro 2004, Réseau
de Discussion International
http://membres.lycos.fr/resdisint/