Crítica do
artigo “De quem é a
culpa?” de Anselm Jappe
Roland Simon, Fevereiro de 2009
(parte* de um artigo mais longo http://patlotch.free.fr/text/1e9b5431-1312.html)
Pode compreender-se o título como a
simples crítica da crise vista como a acção de uns quantos escroques da
Finança. De facto, este título remete a mais que isso. Remete à teoria do valor
desenvolvida pela revista Krisis em
conexão com, na Alemanha, o movimento dito da «Crítica do valor » e o
movimento « Anti-Alemão ».
Para o movimento Anti-Alemão a
exterminação dos judeus durante a segunda guerra mundial inscreve-se no
desenvolvimento do capitalismo, sendo este o movimento do valor desenvolvido,
estando a força de trabalho aí incluída como simples determinação do conceito
de valor desenvolvido, donde resulta não se poder inocentar a classe operária
alemã da política levada a cabo pela classe capitalista alemã. Adicionalmente,
daí resulta também que qualquer teoria que apenas vise no capitalismo a simples
luta contra a classe capitalista, que se queira luta de classes, acaba por
desembocar sempre na denúncia do judeu (ou um seu equivalente). Donde, no texto
de Jappe : « Arranjar, mais uma vez, bodes expiatórios – a «alta
finança judaica» ou outra –, oferecendo-os ao julgamento do «povo honesto»,
constituído pelos trabalhadores e aforradores, seria a pior das saídas
possíveis.»
Se é correcto que o capital é o valor
totalmente desenvolvido, existe um risco de ocultação da exploração e das
classes se não se acrescenta à primeira proposição, a seguinte: o valor
totalmente desenvolvido é o capital (sem
a sua recíproca, a primeira proposição é falsa). Com a “Crítica do valor”, a
teoria da implicação recíproca[1]
torna-se louca.
Esta « loucura »
encontra-se logo na continuação do texto : « Nos dias que correm,
voltou a ser moda citar Karl Marx. Mas este filósofo alemão não falou apenas da
luta de classes (sinto-me tentado a dizer que ele não falou apenas disso na
medida em que não falou senão disso, nota de Roland Simon). Ele previu também
que um dia a máquina capitalista se deterá por si própria, que a sua dinâmica
se exaurirá». Entre o «se deterá por si própria» e o «se exaurirá» há, bem
vistas as coisas, uma grande diferença (o que não impede que o problema
fundamental resida em não se compreender a baixa tendencial da taxa de lucro
como luta de classes). Alguns desenvolvimentos e umas quantas referências
teriam sido bem-vindos.
Este texto pode classificar-se na
categoria : a crise actual é a sequela da crise do início dos anos 70, não
tendo havido entre as duas senão furor terapêutico. Para ver como a coisa é
« provada », é preciso seguir a demonstração de Jappe.
a) «O modo de produção capitalista de
mercadorias contém, à partida, uma contradição interna, uma autêntica bomba (…)
Só é possível fazer frutificar o capital e, por conseguinte, acumulá-lo,
explorando a força de trabalho» OK (repare-se no entanto nesta «produção
capitalista de mercadorias» que vai permitir de seguida centrar a questão não
sobre a valorização – produção de mais-valia – mas sobre a natureza da
mercadoria). Segue-se uma breve exposição sobre a baixa tendencial da taxa de
lucro. OK
b) «O valor de cada mercadoria
singular contém, pois, uma quota-parte cada vez mais exígua de trabalho humano
– que é, no entanto, a única fonte da mais-valia e, portanto, do lucro». Não.
Todas as palavras estão lá e através duma leitura rápida ficamos a ver estrelas[2].
O valor de cada mercadoria continua apenas a conter trabalho humano (qualquer que seja a sua quantidade). O valor
da mercadoria contém o tempo de trabalho necessário, o tempo de trabalho
excedente é este presente que o trabalho vivo oferece ao capital de transmitir
à mercadoria nova o valor dos meios de produção utilizados, sendo este valor
ele mesmo trabalho humano. Desta maneira, conscientemente ou não, Jappe opera
um truque de prestidigitação teórico: o aumento da composição orgânica e a
baixa tendencial da taxa de lucro tornam-se uma diminuição do trabalho humano
no valor das mercadorias, portanto, um valor que já não é valor. Além disso,
lembremos que a diminuição do valor de cada mercadoria não é de maneira nenhuma
um problema para o modo de produção capitalista (é a artilharia que lhe permite
derrubar todas as muralhas da China – sendo a prova disso os próprios
chineses – e a isso chama-se aumento da mais-valia no seu modo relativo). O que
é um problema para este modo de produção são os próprios limites que impõem ao
crescimento da produtividade (este crescimento está inserido nos
constrangimentos da taxa de lucro, lembro que não se trata de libertar as
forças produtivas na medida em que é este constrangimento que as define: elas
são trabalho social objectivado face ao trabalho actual). «Centrar-se» no valor
e na mercadoria faz «esquecer» que o
valor é o capital (desde o número 2 de Théorie Communiste temos
levado a cabo esta crítica do procedimento de centrar a crítica do capital no
valor, procedimento este muito em voga nos meios teóricos críticos do
programatismo[3] no
início dos anos 70, na medida em que ela permitia ligar indissociavelmente
capital e classe operária e levar a cabo uma critica do trabalho).
c) Resultado do truque de
prestidigitação: «O desenvolvimento da tecnologia diminui os lucros na sua
totalidade. Contudo, durante um século e meio, o alargamento da produção de
mercadorias, à escala mundial, foi capaz de compensar esta tendência para a
diminuição do valor de cada mercadoria.» E eis confundidos «diminuição dos
lucros» e «diminuição do valor de cada mercadoria» se bem que o valor de uma
mercadoria particular pode muito bem diminuir e a parte de mais-valia (tempo de
trabalho excedente que ela contém) aumentar. Através destas «aproximações» o
verdadeiro objectivo da operação é fazer passar a diminuição do valor de cada
mercadoria por uma diminuição do trabalho humano como fonte (definição) do
valor.
d) «Desde os anos 70 do século
passado, este mecanismo – que outra coisa não era senão uma fuga para a frente
– está bloqueado. (…) É então que o «capital fictício», como lhe chamou Marx,
ganha livre curso». Com efeito: «… Mas quando a produção de valor, logo de
mais-valia, estagna na economia real (…), só a finança permite aos
proprietários de capital realizarem os lucros que se tornaram impossíveis de
obter na economia real.» Que de há 35 anos para cá a produção de valor na
«economia real» estagne, isso seria preciso demonstrá-lo, mas é a relação
causal entre valor e mais-valia que aqui é interessante. A produção de valor
estagna, logo estagna também a de
mais valia. De modo nenhum: a produção de mais-valia estagna logo estagna a produção de valor (onde
se reencontra a importância de compreender que o valor desenvolvido não é senão
o capital enquanto modo de produção específico). O objectivo da produção
capitalista não é o valor mas a mais-valia que está contida nele, podíamos
acrescentar seguindo o «filósofo alemão» que não é sequer a mais-valia o
objectivo específico do capital mas a reprodução das classes na sua relação (O
Capital, t.3, pp.19-20).
Por fim, da finança como último
recurso não estamos longe da finança parasita
(com a diferença, na problemática de Jappe, que não haveria mais nada a
parasitar) mas sobretudo a reestruturação desapareceu. Como diz o texto, o
capitalismo prolongou-se desde o início dos anos 70 apoiando-se em «muletas»,
porque «ninguém o queria pôr em causa». Ninguém o queria pôr em causa porque
ninguém queria sair da engrenagem infernal, «o ciclo incessante» diz Jappe «do
trabalho que valoriza o capital e do capital que emprega o trabalho». Mesmo
que, seguindo o texto, fosse para «fazer crer». Fazer desaparecer a
reestruturação e o novo ciclo de lutas é uma condição sine qua non à persistência duma perspectiva revolucionária como
crítica do trabalho e do valor que não era senão a fase final da crise do
programatismo no início dos anos 70 (o que pode dar-nos, num outro registo,
esse estranho casamento nas publicações recentes de Echanges entre uma visão
conselhista que não mais se ousa afirmar enquanto tal como revolução e
definição do comunismo, reduzida que está a um sindicalismo autónomo radical, e
a problemática da crítica do trabalho).
O texto de Jappe conjuga duas
tendências, de um lado a do “esgotamento” do capitalismo, do outro, a do
apagamento da reestruturação e do novo ciclo de lutas. Certamente, os dois
lados estão ligados. Esta visão dum fim objectivo do capitalismo não o
compreende, na sua própria objectividade, quer dizer como economia, como luta
de classes. Sobre este ponto, a única perspectiva que podemos ter é a
caracterização da crise em termos de ciclo de lutas, de contradição entre o
proletariado e o capital no seu conteúdo e na sua estrutura. Trata-se duma
crise onde se afirma a identidade da sobreacumulação e do subconsumo, crise da
relação salarial e da implicação recíproca entre trabalho e capital, crise na
qual o proletariado se vê confrontado contra e dentro do modo de produção
capitalista à sua própria existência e acção como classe como limite a
ultrapassar. Não existe outro «esgotamento» do modo de produção capitalista.
* Sendo apenas uma parte dum texto mais longo, e sobretudo estando situado bem depois do início, este trecho ressente-se um pouco de falta de auto-suficiência. Assim certos temas apenas abordados aqui são explorados com mais detalhe nas secções anteriores.
[1] Referência ao facto de o capital ser uma relação social, estando os seus dois pólos, encarnados em classes diferentes, implicados reciprocamente. O capital pressupõe o trabalho, e reciprocamente. O autor usa este tema, entre outras coisas, para criticar a noção de revolução enquanto afirmação positiva de uma das classes do capitalismo, isto é, a classe operária. O que importa reter aqui é que Jappe e a “Crítica do valor” alemã usam a noção para desqualificar a luta de classes como meramente imanente ao capitalismo, não concebendo a superação deste como produto das contradições entres as classes, como a auto-abolição de uma dessas classes, o proletariado.
[2] Expressão idiomática do francês (N’y voir que du feu) que significa ficar aturdido com um golpe súbito, deixando de ver com clareza.
[3] O autor entende por programatismo, o proletariado, na sua luta de emancipação, fazer da sua situação e da sua definição no modo de produção capitalista o programa do comunismo e o entender o comunismo como programa a aplicar, ou seja, o entendimento da revolução como afirmação positiva da classe operária e não como da sua auto-abolição.