CONCLUSÃO
EU E OS OUTROS
No seu célebre «Eu é um outro» Rimbaud rejeitava à sua maneira o indivíduo
mutilado e negado da sua época: o que sou, ou pelo menos aquilo que preciso,
que desejo ser, não é o que vivo, o que sou forçado a ser, o que me desgosta e
recuso, que não sou eu. Nas comunidades primitivas tínhamos «eu é os outros». Nas
sociedades mercantis, Rimbaud poderia completar o seu «eu é um outro» com «eu
odeio os outros», como Sartre, que lhes chamou o inferno. Na sociedade futura
apropriada por todos, «eu e os outros» enriquecer-se-ão mutuamente com a troca
das suas qualidades e com a satisfação das suas necessidades recíprocas.
O indivíduo não é um átomo singular de um pseudo género humano, cujas
diferentes formas de associação dariam sociedades diferentes, tal como
diferentes associações de átomos produzem diferentes moléculas. Homens e
sociedades formam um todo histórico, cuja vida é a efectividade prática. O
indivíduo é apenas uma construção das atividades humanas, uma etapa na evolução
permanente dos homens.
Celebrada neste ano de 1993, na comemoração do seu aniversário, a família
Eyquem é bem representativa desta construção histórica. Mercadores
enriquecidos, compraram direitos senhoriais como mercadorias. Ei-los, pelo
dinheiro, membros da classe dominante. Efectivamente, podem aumentar o seu
poder envolvendo-se no exercício das suas funções (presidente da câmara
municipal de Bordéus, conselheiro do rei). Fortuna feita, notoriedade
conquistada, o sucessor pode agora filosofar sobre toda esta evolução material,
feita por alguém que veio do nada. Os Eyquem tornaram-se esse alguém, membros
legítimos da família de Montaigne, feitos através do dinheiro. Ser alguém,
concluirá o herdeiro, é depender apenas de si mesmo –, o que lhe é permitido
pela fortuna conquistada, ao mesmo tempo que impõe aos camponeses uma única
liberdade, a de trabalharem para ele. Montaigne será um dos primeiros «livres
pensadores», declarando que é apenas ele próprio e só por si se interessa,
embora vivendo à custa dos outros. É um dos primeiros dessa longa linhagem de
intelectuais democratas a preconizar a liberdade de expressão para todos, com a
condição de a massa trabalhadora ser privada dela para os sustentar.
Quando Montaigne escreveu «Eu sou para mim mesmo a matéria do meu livro”,
de fato assinalava o surgimento positivo do indivíduo como sujeito.
Completamente ocupado com a descoberta deste belo bebé (o homem privado) todas
as suas preocupações foram no sentido de lhe dar um berço (uma esfera privada)
e não de conhecer a matéria (social) deste eu que nascia. Hoje qualquer
indivíduo minimamente lúcido pergunta-se se realmente existe nesta sociedade
moderna totalmente coisificada e burocratizada.
Os ideólogos não vêem que as separações dos indivíduos e da sociedade são
de fato o resultado das relações mercantis (primeiro simples, mais tarde
capitalistas). Tomam o resultado pela causa, o ser histórico, produzido, pelo
ser natural. Vêem os indivíduos e a sociedade como um casal infernal, sem
possibilidade de divórcio porque não podem passar um sem o outro.
Para uns a separação é necessária. São aqueles que desde Constant, na
continuidade de Montaigne, só se julgam livres fora da multidão, dentro da sua
redoma, afirmando que apenas na esfera privada a liberdade é possível. A sociedade
deve interferir o menos possível, e os indivíduos abandoná-la o mais possível,
delegando nos representantes (devotados e competentes) o cuidado de gerir o
indispensável.
A este «liberalismo» de cada um por si e o Estado por mim, outros na linha
de Rousseau, vão afirmar que uma liberdade superior a esta liberdade animal
reside na participação de todos nos assuntos públicos, através da associação de
indivíduos em sociedade, trazendo para todos mais vantagens do que se
estivessem isolados. Visar a totalidade dos contributos é evidentemente um
progresso decisivo. Mas conhecem-se os perigos que traz, sobretudo no terreno
político: os que são investidos como representantes dessa totalidade
(identificada aliás por maioria simples), acabam por impor a sua ditadura aos
indivíduos (Rousseau previu este perigo e tentou contorná-lo encarando a
associação em pequena escala, segundo o modelo da Suíça, com eleitos vinculados
a mandato imperativo e revogáveis).
Hoje, com o desenvolvimento do capitalismo e dos Estados burocráticos,
estes pontos de vista aproximaram-se e o Estado tornou-se o seu fetiche comum.
Querem-no apto a cuidar de tudo, socializar os prejuízos, organizar os lucros,
mas que não intervenha «demasiado». Seja como for, é reconhecido como o
indispensável organizador da unidade forçada dos indivíduos, substituto da sua
impossível comunidade.
Mas liberdade, solidariedade e unidade não se ministram nem se decretam.
Como se os indivíduos parcelados, truncados na divisão do trabalho capitalista
pudessem suprimir ou abolir a sua alienação, decretando as condições da sua
comunidade! Essa utopia do «contrato social» é, paradoxalmente, a dos jacobinos
e a dos anarquistas. Exageram o poder da vontade humana, dos indivíduos ou da
sua associação política, porque não vêem as condições concretas, a
«necessidade» que as situações determinam, com as suas potencialidades, é
certo, mas também com os seus limites. Este voluntarismo ideológico conduz ao
despotismo da Virtude, da Moral ou da Política[38].
Partir dos homens reais é rejeitar tanto a ideia de que os indivíduos são o
produto da consciência e das ideias, como a crença de que são produto da
sociedade e do Estado, em suma, de qualquer coisa que lhes é exterior, exterior
às atividades que os produzem.
O idealismo subsiste mesmo quando se afirma, como em Hegel, que o ser «é» a
sua produção. Porque a questão é a de saber: por que produz ele assim? Segundo
o filósofo, o ser realiza os seus fins pela acção. Mas, prossegue, os seus fins
são o seu pensamento. A acção realiza pois o pensamento, e a consciência de si
mesmo realiza-se no objecto, produto desse pensamento assim realizado. A acção
transporta de algum modo o sujeito, a sua ideia, para o objecto. Ela produz o
objecto, o ser vê-o e objectiva-se, descobre-se no objecto produzido. A
consciência do objecto é a consciência de si mesmo. O homem, ao colocar um
objecto à sua frente, contempla uma representação de si conforme ao pensamento.
Tudo isto esquece-se de nos dizer a origem do pensamento e continua a ser
portanto profundamente idealista.
Os economistas «utilitaristas» não dizem coisa diferente. Na sua linguagem,
mais prática do que a dos filósofos, a razão é o interesse. O fim do homem é a
utilidade, que está no ganho. Para eles, o indivíduo racional age sempre
segundo o interesse privado, a maior vantagem com o menor trabalho. Bela
descoberta! É perfeitamente tautológico porque não se compreende que o
indivíduo actue contra o seu interesse. Mas como pode ele distingui-lo, no
mundo opaco do capitalismo? Porque é que os seus interesses estão neste mundo
reduzidos ao dinheiro, coisa não humana? Porque é que a busca dos seus
interesses individuais acaba sempre nos choques, nos conflitos, destruições e
crises? Sobre isso a teoria utilitarista, dita das «escolhas racionais», apenas
responde: são os erros dos homens (travando a livre concorrência do mercado
livre, necessário à acção reguladora da «mão invisível») ou então, é o fruto da
natureza humana (belicista).
Com Marx, o materialismo pôs a história concreta das atividades dos homens
como a determinação fundamental do seu ser numa dada época. Este ser é a
produção da atividade de gerações precedentes cujos resultados – materiais,
culturais, políticos – formam um quadro no qual o exercício da sua vontade é
real, mas limitado.
Dizer que a acção é a produção do objecto e objectivação de si é o mesmo
que nada dizer, visto que tanto o eu como a atividade estão determinados pelas
relações sociais, fundamentalmente pelos modos de apropriação, em
correspondência com o nível de desenvolvimento das forças produtivas. E é o que
se pode produzir e o modo como se produz que determina um modo de viver e as
suas necessidades. Necessidades a que responde a acção, mesmo que seja por
intermédio de um pensamento que a formaliza. Do mesmo modo, não basta dizer que
os indivíduos só podem existir colectivamente numa rede de cooperações e trocas
recíprocas. A questão é a de saber porque se realizam desta ou daquela forma,
produzindo estes ou aqueles homens e sociedades.
Assim, por que razão o indivíduo da sociedade capitalista não se reconhece
como ser social, mas sempre como ser isolado na concorrência? Como vimos, é
porque não dirige o seu trabalho e os seus instrumentos; porque a sua atividade
lhe surge como um meio para obter coisas, porque é negada e transformada em
coisa indiferenciada, em valor de troca,
Estas relações coisificadas de interesses opostos e egoístas não criam
homens livres, nem os enriquecem verdadeiramente. Quer queira, quer não, o «eu»
está dependente de coisas que não domina, de acontecimentos cujas causas ignora
por completo e a que não pode fugir (a não ser pelo suicídio romântico: «Não
tereis o meu eu; levo-o comigo!»). As relações humanas são violentas, astutas,
hostis. Cada um quer o produto do outro e depende dele nesse desejo de posse.
Ninguém possui coisas de uma necessidade semelhante, ninguém satisfaz as mesmas
necessidades com a mesma urgência; aquele que possui pode deixar morrer o que
não possui. São relações em que a mercadoria cobiçada constitui o poder do
indivíduo sobre o outro, onde cada um vale não por si próprio mas apenas pela
mercadoria que possui. Numa palavra, a mercadoria é o seu senhor.
Nestas relações de separação, os indivíduos não decidem em conjunto o que
podem e o que querem fazer, embora a produção e a vida sejam necessariamente
colectivas. Esta necessidade impõe-se, a despeito deles, pelos acontecimentos
dotados de força social, de forma cega e catastrófica.
Cada um só faz aquilo que julga poder assegurar-lhe uma posição de força
sobre os outros; dar o mínimo e receber o máximo; monopolizar os conhecimentos
que garantam a força, manobrar, ludibriar. Esta mesquinhez, esta pobreza de
relações, são o oposto da simples evidência de que o desenvolvimento de cada um
depende da riqueza das suas relações, logo de um maior desenvolvimento de
todos.
No capitalismo, o indivíduo proletário só possui a sua força de trabalho,
mercadoria que troca pelas suas condições de existência, também elas tornadas
mercadorias, dinheiro. A associação do trabalho não é voluntária, mas imposta
pelas máquinas, pelo capital morto. Tudo parece vir do capital, a organização,
a eficácia, a ciência. Ao vender a sua força de trabalho, é ele próprio que se
vende, que se aliena. Os actos pelos quais existe e se exprime são absorvidos
por esse capital. A sua atividade já não corresponde a uma necessidade precisa,
reconhecida por ele como sua, mas à necessidade de ganhar dinheiro para poder
viver. Não é só a atividade que se perde neste produto anónimo, abstrato,
simples quantidade, que é o dinheiro, como acontece na sociedade mercantil
simples, mas torna-se também totalmente vazia, sem interesse. Nem a efectivação
do trabalho, nem o seu resultado, são a realização dos indivíduos no acto de
produzir segundo necessidades reconhecidas e escolhidas por eles.
O indivíduo da sociedade burguesa é assim caracterizado por esta dupla
situação: a separação dos outros e o despojamento de si. O que no fundo é a
mesma coisa, porque o indivíduo enquanto homem só pode existir com os outros;
não pode «possuir-se», isto é, dominar as condições da sua existência, a não
ser que domine também com eles as suas relações, a sua comunidade.
O «eu é um outro» de Rimbaud exprime com intensidade esta desapropriação de
si. Mas o poeta ignorava a sua origem e, como muitos artistas do seu tempo,
tentava transformar a solidão em qualidade: ela seria a condição da
independência do eu. Aquele que quer produzir pela verdade e não pelo dinheiro
só pode ser efectivamente um «maldito». Forçado a escolher ser «ele» e
excluído, ou venal e aceite, Rimbaud fez a primeira escolha, depois a outra
(desaparecendo do olhar dos seus). Não tentou a revolta radical para poder
ultrapassar este antagonismo em si mesmo revoltante. É por isso, sem dúvida,
que a burguesia o ama tanto, tal como o pai bíblico ama o seu filho pródigo:
excêntrico na juventude, mas razoável depois na procura do ganho.
É que uma tal revolta precisa de abandonar os céus da poesia, da ideologia,
da utopia, e mergulhar no mundo material, na compreensão das relações entre a
sociedade opressiva e os indivíduos. Assim como são os indivíduos, assim é a
sociedade e reciprocamente. Não se pode transformar um sem o outro. E a
história só avança quando produz homens mais independentes, mais senhores de si
próprios, o que só acontece quando a socialização se estende maise as suas
relações se tornam mais universais e mais ricas. Foi esta dialéctica,
aparentemente paradoxal, do desenvolvimento social e do desenvolvimento
individual que levou Marx a afirmar com grande justeza: «A história social dos
homens é sempre a história do seu desenvolvimento individual»[39].
Em que ponto estamos com o capitalismo? Como em todo o movimento, há o que
desaparece e o que é a possibilidade desse desaparecimento, o embrião do novo.
No plano social, que é o que nos interessa aqui, o lado podre do
capitalismo foi o de criar uma comunidade formal de indivíduos despojados; só
se julgam livres quando isolados da comunidade. Na sua Constituição criaram uma
comunidade abstrata de indivíduos abstrato proclamados livres: os cidadãos. São
muitos os exemplos da vida quotidiana a mostrar que a sua comunidade é
ilusória, que não são eles quando reunidos na «sociedade civil» concreta.
Verifica-se sem cessar que os indivíduos agrupados nunca são eles próprios, mas
sim outra coisa.
No desporto, por exemplo, a multidão identifica-se com um espectáculo que
nada tem a ver com ela, mas apenas a desumana rivalidade de uns contra os
outros. No processo eleitoral, expressão tão propalada da liberdade individual,
desaparecem na solidão significativa da cabina de voto, no interesse geral,
delegando nos outros o seu poder pessoal. Na inexistência de relações
interpessoais em proveito do espectáculo das manipulações mediáticas. No
dinheiro que transforma os indivíduos em mercadorias – até o corpo se compra,
os órgãos e o sangue para o enriquecimento de alguns. Numa existência social
que só vale pela aparência (carro, moda, lazeres, etc.), na qual os indivíduos
ficam totalmente despojados, mesmo do simples direito à palavra, reservada
apenas a um punhado de mediatizados e mediatizantes. Aliás, o fato de a
«comunicação» ser uma atividade especializada, em pleno desenvolvimento e
apenas expressa em dinheiro, basta para mostrar como ela é vazia de conteúdo
pessoal e naturalmente inexistente. Quanto mais a imagem se desenvolve como
concreto e imediato, mais domina a opacidade, porque menos compreensível se
torna. É por isso que esta sociedade é justamente designada como pornográfica:
vê-se tudo aquilo que não tem interesse e não se aprende nada que possa
interessar.
Mas, simultaneamente, o capitalismo desenvolve as condições da sua
superação. Particularmente no sentido em que cria a conexão social entre os
indivíduos, mesmo que suponha uma «independência e indiferença recíproca» e se
efective independentemente da sua vontade, da sua consciência. E por mais
anárquica e violenta que seja, com o seu cortejo de mutilados sociais, «é
preferível à ausência de conexão, ou a uma conexão apenas local, fundada na
estreiteza de laços de sangue originais e em relações de domínio e servidão.
Como é óbvio, os indivíduos não podem dominar a sua própria conexão social sem
que antes a tenham criado».
Longe da nostalgia de um regresso à gleba e aos seus laços de servidão ou a
qualquer outra comunidade limitada, o materialismo aplica-se na descoberta de
condições para novas transformações que conduzam à criação de homens mais
senhores de si próprios e mais ricos de qualidades. Por conseguinte, indivíduos
mais livres e mais socializados.
O processo de socialização nasceu com a humanidade, nas conexões primitivas
(animais, gregárias, tribais, etc.), e evoluiu para conexões cada vez mais
complexas e universais. Não existe «fim último», mas conquistas de relação com
a totalidade, a transparência e a consciência, a partir das quais os homens
possam sair da sua «pré-história» (fase durante a qual os homens «ainda se
encontram prisioneiros das condições da sua vida social, em vez de poderem
partir dessas condições») e exerçam livremente as suas atividades. A
consciência e a liberdade não são um fim, mas um meio. Só podem existir para
todos e por todos; caso contrário, há sempre domínio de uns sobre os outros,
portanto opressão, mutilação e empobrecimento.
Não se trata de conduzir este movimento no imaginário, ou inventar em lugar
dos homens uma comunidade utópica, como Fourier e outros tentaram fazer, mas
partir dos resultados da história, da situação concreta, e aí desenvolver as
condições de transformação que possibilitem a existência de indivíduos livres
para que possam construir as suas relações, a sua comunidade.
De entre esses resultados existe um, que é a possibilidade dos indivíduos
independentes e suas conexões se poderem constituir a partir de agora, pela
primeira vez na história. Indivíduos cuja individualidade é alienada e negada
experimentam necessariamente a exigência da libertação. Indivíduos que estão
submetidos a conexões que têm a forma de relações entre coisas experimentam
necessariamente a exigência de inverter esse domínio exterior no sentido de se
afirmarem donos das suas relações e de pretenderem que sejam mais ricas em
qualidades pessoais.
É porque o capitalismo (a atividade dos homens nas relações sociais
capitalistas) cria estas necessidades, que elas ganham necessariamente um
começo de existência na consciência dos homens e estes podem desenvolver uma atividade
para as satisfazer e fazem-no.
Marx dizia sobre o indivíduo da sociedade mercantil que ele pode muito bem
inchar até se julgar totalmente independente dos outros, escolher estas ou
aquelas relações com eles, mas na realidade cada uma das suas atividades, a
começar pelas mais elementares, como comer, habitar e vestir, torna-se uma
necessidade que transforma o seu desejo egoísta em apetência por outros
objectos e portanto de outros homens para além dele. Ora a carência de um
indivíduo não se resolve apenas com ele, mas com o outro para a poder
satisfazer. É necessário então criar uma relação, envolver-se, estabelecer uma
conexão. É a necessidade do indivíduo, do seu interesse, que cria os laços da
sociedade civil. O que une dois proprietários privados, e mais tarde todos, uns
aos outros, é o desejo dos objectos que são a matéria da sua propriedade. Este
desejo «prova a cada um deles que não é o ser particular que julga ser, mas sim
um ser total cujas necessidades se encontram face às produções do trabalho de
outrem numa relação de propriedade interior; pois a necessidade que eu tenho de
uma coisa é a prova evidente e irrefutável de que ela pertence ao meu ser, que
a existência desse objecto para mim e a sua propriedade são próprias e
particulares à minha natureza»[40].
Quanto mais desenvolvido estiver o indivíduo, maiores são as suas
necessidades em riqueza de conhecimentos de toda a espécie. As necessidades que
tem são uma qualidade do seu ser. Ao encontrá-las no outro descobre novas
riquezas que ainda não possui. É a necessidade dos outros que se afirma. Nas
relações capitalista,s essa relação está escondida, desnaturada, pela mediação
do valor, do dinheiro, que transforma toda a qualidade em quantidade anónima, abstrata,
e faz da vida uma coisa opaca, não construída e aparentemente inexistente. O
que não impede a necessidade de uma relação direta e transparente dos
indivíduos com os indivíduos, fundamento da comunidade dos homens.
Só uma estranha superstição ideológica pode fazer crer que o Estado será
sempre necessário para organizar as relações entre os indivíduos. De qualquer
modo, é evidente que, perante a burocracia do Estado, todos os indivíduos são
considerados coisas, peões, números. O Estado não reconhece os indivíduos como
tais mas como categorias: caçadores, pobres, parentes, doentes, velhos,
desvalidos, ladrões, proprietários, etc. Outras tantas categorias ou «casos
sociais» de que se «encarregam» burocracias especializadas e leis específicas.
A burocracia secciona os homens de acordo com as situações a que estão
submetidos. Para ela, não existem indivíduos, mas problemas, em função dos
quais são divididos, para que os problemas se resolvam, permanecendo os indivíduos
despojados. Funciona exactamente da mesma maneira que a cadeia na fábrica
taylorizada, onde milhares de gestos parcelizados tratam uma peça do objecto.
Existe multidão, engrenagens, mas as pessoas e as suas relações estão ausentes,
tal como a sua vontade.
Dirigir o processo colectivo de produção, e portanto da produção da vida, e
ter relações pessoais é idêntico. A necessidade da comunidade implica a
necessidade dos indivíduos serem senhores da sua vida, mais rica de
conhecimentos, de atividades criativas, logo de universalidade.
Esta necessidade encontra as suas bases e os germes de consciência na
sociedade capitalista atual que, tendo criado o indivíduo formal, não pode
impedir que ele procure apropriar-se das condições do seu desenvolvimento real,
no sentido de afirmar plenamente a sua existência.
A necessidade de afirmação pessoal pode evidentemente desviar-se e sofrer
múltiplos impasses, tais como os reagrupamentos étnicos sob a capa do «direito
à diferença», raciais, nacionais, etc., em que os indivíduos procuram uma
«identidade» acanhada, ideológica, uma protecção negativa face aos outros, em
vez de constituírem uma reivindicação positiva de relações mais universais.
Nestes agrupamentos não só o indivíduo encontra estreiteza e tacanhez, como
também se apaga diante de uma ideia que não é ele, seja a da raça, da nação,
etc.
Estas ideias são apenas a expressão das separações e privações dos outros,
que definham o indivíduo, como a planta privada de água e de sol. No entanto,
existem também condições que levam à sua abolição.
O extraordinário desenvolvimento das forças produtivas criadas pelo
capitalismo tornou possível uma importante redução do tempo de trabalho
efectivo, e assim libertou os indivíduos da submissão do trabalho obrigatório.
O desemprego em massa que acompanha necessariamente o desenvolvimento
capitalista desperta cada vez mais as consciências para o problema dessa
redução. Prepara-se uma grande luta para sabermos se se vai tratar de uma
simples distribuição do desemprego e da miséria, dentro de uma mesma divisão
social do trabalho ou se, pelo contrário, se terá que pôr em causa essa mesma
divisão, portanto a repartição das riquezas materiais e intelectuais que daí se
deduz [41].
Na verdade, trata-se de um desafio evidentemente essencial da luta de classes, atualmente,
nos países desenvolvidos.
A necessidade que vai na direcção desta segunda via existe e ganha força.
Não apenas a recusa do desemprego e da morte social subjacente, mas também a
recusa do trabalho embrutecedor é profunda para uma enorme camada, daqueles que
só trabalham contra vontade, fartos de neste gastar a vida, suportando-o devido
à necessidade de se alimentarem e ao medo do desemprego, mas revoltando-se
sempre que a ocasião é propícia. Ao ponto de se viver a dispensa do trabalho
como uma libertação e não como um drama: «Eu detestava o meu trabalho,
esgotou-me; nele deixei toda a minha personalidade e durante muito tempo
senti-me anulada por me ter submetido aos meus 4700 francos sem ter coragem
para me despedir»[42].
A inversão a realizar tem por eixo fundamental a apropriação pelos
indivíduos dos instrumentos de trabalho, essa mediação entre eles e o mundo.
Para que possam ser realmente proprietários!
Quando os instrumentos eram ainda sumários e desempenhavam um papel menor
no trabalho, vimos que a mediação era nesse caso a comunidade, única força
humana face à natureza que podia apropriar-se da terra, única condição da
produção. Com o aperfeiçoamento das ferramentas em instrumentos cada vez mais
desenvolvidos, a mediação individualiza-se e são apropriados pela habilidade,
pela profissão e pelo saber profissional.
Mais tarde, esses instrumentos desenvolvem-se em máquinas, absorvendo essas
qualidades que escapam ao indivíduo isolado. Estas são apropriadas por «forças
intelectuais» do pólo capitalista. Reconquistar a apropriação da mediação (dos
instrumentos de produção e das condições de vida) supõe que todos possam ter
acesso aos conhecimentos necessários. E o que significa isso, uma vez que esses
conhecimentos são tão vastos, que só colectivamente podem ser apropriados?
Significa apenas a necessidade de relações diretas e transparentes, permitindo
a todos a decisão sobre o que cada um faz e como, trocando os seus
conhecimentos e as suas necessidades.
Nas comunidades primitivas, as relações eram com certeza transparentes, mas
suportadas, pela exigência da penúria e da fraqueza, reduzidas a pouca coisa,
com pouco conteúdo, dada a limitação da própria comunidade. Agora já não
necessitam de ser pressupostas e podem ser construídas, conscientes, escolhidas
e universalmente desenvolvidas. O enriquecimento dos indivíduos em
conhecimentos e consciência caminha assim a par com o estabelecimento de
relações sociais novas, fundadas sobre necessidades partilhadas. Os indivíduos
apropriam-se simultaneamente dos instrumentos de trabalho e das relações
sociais. É o que permite o tempo livre como tempo essencial da vida, assim como
a supressão da divisão social do trabalho que daí pode resultar.
O que conduz a isto inexoravelmente? São as novas necessidades. A relação
social capitalista conduz à baixa da taxa de lucro (como tendência geral e não
como processo linear) e ao desemprego. A causa é a mesma: a acumulação, a
procura constante do aumento da produtividade como meio de produzir a
mais-valia (dita «relativa»). Numa relação social de apropriação por todos, os
ganhos de produtividade teriam consequência bastante diferente: a abundância e
o tempo para atividades livremente escolhidas. Hoje a necessidade de viver
tornou-se necessariamente a de «trabalharem todos, menos e de outra maneira»41.
A situação a que chegou o desenvolvimento das forças produtivas conduz a
uma redução extrema do tempo de trabalho necessário e cria simultaneamente essa
necessidade. Toda a gente se pôs a discutir este problema, mas evidentemente
não da mesma maneira: ou de acordo com a simples distribuição da penúria no
quadro de uma relação salarial sem mutação, ou então no quadro de uma
modificação radical dessa relação e, mais generalizadamente, da divisão social
do trabalho. Uma vez mais se coloca perante os homens a questão da apropriação
da mediação, dos instrumentos de trabalho e das relações sociais, de que
depende a direcção da sua vida.
Só que esta necessidade não é ainda suficientemente forte e consciente para
servir de base à força revolucionária para a sua realização. Todos estão ainda
mais ou menos isolados nas separações próprias do capitalismo e submetidos às
ideologias fetichistas que daí decorrem.
Esse é o problema da construção de um novo Partido revolucionário que
abordámos, primeira mediação a construir entre os indivíduos explorados,
primeiro meio para conquistar uma influência pessoal no decurso das suas vidas.
Um partido operário independente é o primeiro passo para a criação do
indivíduo real e já não formal, quer dizer, do indivíduo que se apropria da sua
atividade e das suas relações com os outros, rico na universalidade das suas
necessidades, capacidades e prazeres. Quanto mais rico for, melhor pode exercer
as suas atividades para si mesmo, e não como um meio de viver na sociedade para
a sociedade. E também quanto mais exercer laços pessoais, profundos e
gratificantes, mais se torna indivíduo social. Que maior prazer do que a minha
necessidade encontrar o teu desejo, que mais profundo laço social que o produto
da atividade que o exprime ser recebido por ti como a tua necessidade, parte de
ti mesmo?
Na medida em que o indivíduo exerce a sua atividade para si próprio, as
necessidades que reconhece como suas e que torna suas não são pagas, não são
negócio. Assim, o seu produto não reveste a forma de valor de troca, não há
nenhuma necessidade que revista essa forma abstrata. Não espera da sua atividade
uma troca quantitativa, uma reciprocidade, dinheiro por dinheiro. Assume
realmente a forma de uma dádiva aos outros (contrariamente à forma primitiva de
dádiva).
As relações interpessoais numa sociedade de abundância onde os indivíduos
são senhores das suas atividades e das suas conexões sociais, em vez de serem
sujeitas a relações coisificadas exteriores a cada um e às instituições que as
geram, deixam de ser obrigações recíprocas, passando a ser de gratuitidade na
satisfação das necessidades humanas. Com efeito, numa sociedade de abundância,
constituída por indivíduos livres, a minha atividade é o meu prazer, como expressão
direta das minhas qualidades. Só espero como dádiva senão um novo prazer, que o
meu prazer seja também o dos outros, porque vai ao encontro das suas
necessidades. Mesmo hoje, muitos homens conhecem esta verdade: a vida de um
homem só se enriquece com a dos outros, a solidão é a aridez do deserto.
Os burgueses estão convencidos que são livres-pensadores, dotados do livre
arbítrio de uma individualidade livre. E afirmam que o comunismo é a triste
uniformidade de uma multidão robotizada. Mas na verdade é o seu próprio mundo
(incluindo o que era o Leste dito comunista) que produz indivíduos com
comportamentos e pensamentos tristemente uniformes, reconhecidos socialmente
apenas como dinheiro e de acordo com a quantidade que possuem.
Claro que não se pode descrever em detalhe as futuras relações sociais
comunistas, onde os indivíduos serão pessoas singulares. Seria cair na utopia
tentar saber antecipadamente aquilo que apenas homens novos e transformados
poderão conceber plenamente à medida que o construírem por si próprios. Para
nós, o importante é mostrar as bases concretas deste movimento.
Descrever o comunismo como se estivéssemos nele seria puramente ideológico,
porque se faria uma representação das relações sociais futuras sem ser possível
testá-la pela verificação prática, única que permite fazer de uma ideologia uma
ciência, quer dizer, fazer uma representação em profunda concordância com a
realidade (ainda que não possa ser representada inteiramente).
É contudo inevitável e necessário que os homens façam representações de
fins mais ou menos longínquos. Montaigne dizia com graça: «Nenhum vento soprará
para aquele que não tem um porto como destino». Como vimos, é a necessidade do
partido que é posta ao proletariado, para que o movimento do capital e das
classes tenha sentido, para que a sua força possa ser utilizada, como o
marinheiro utiliza o vento, realizando assim a sua liberdade ao utilizar as
leis da natureza para chegar a bom porto. É com efeito natural que, fazendo-se,
o movimento comunista nascente utilize as formas ideológicas do sistema social
de onde emerge. É um fato geral da história, porque as novas representações só
podem utilizar as formas da ideologia existente (inclusive na linguagem) para
lhe modificar o conteúdo.
Observámos, por exemplo, que o protestantismo era uma expressão do
racionalismo (nova ideologia) sob forma religiosa (única forma ideológica
conhecida, aceitável e utilizável na época). O racionalismo devia impor-se com
a sociedade mercantil, porque os actos dos indivíduos já não podiam ser
determinados pela comunidade, com os seus constrangimentos, ou pelas
instituições, como a igreja romana, com as suas leis. Proprietário, único
responsável, o indivíduo da sociedade mercantil só se tem a si mesmo como guia
dos seus actos. Dirá que é a sua razão que o impele a servir os seus interesses
privados. É necessário que os seus actos lhe apareçam como racionais, na falta
de outra determinação, comunitária ou religiosa. E não apenas para si mas para
todos, de modo que a razão de cada um se torne razão global. Haveria assim,
para os filósofos, uma razão (uma totalidade) em que todos participam
naturalmente, sem querer. Este Racionalismo diz-nos que o progresso é o
enriquecimento, válido para todos. Ao revestir a forma religiosa, porque nasceu
numa sociedade puramente religiosa, o racionalismo está contudo em contradição
com a religião, cuja essência é particularmente irracional, apesar de Calvino
ter tentado unificá-las com a teoria da predestinação. Por isso surgirá
rapidamente uma forma laica de racionalismo, mais tarde sintetizada na
filosofia das Luzes.
Porém a ideologia racionalista vai entrar em choque com realidades para ela
contraditórias: a desordem permanente, o esbanjamento e a anarquia deste
capitalismo proclamado racional, a barbárie e o esmagamento dos indivíduos
reconhecidos como soberanos. Daí os românticos desiludidos das sociedades à
procura de heróis, de indivíduos solitários indomáveis contra a hostilidade do
destino e contra os outros. Posteriormente o niilismo e o egotismo
individualista, absolutamente anti-sociais. Mas daí também a tentativa do
movimento comunista para ultrapassar a dupla incapacidade das ideologias
racionalistas e egotistas para contribuírem para o real desenvolvimento dos
indivíduos.
Este movimento teve também de utilizar as formas ideológicas existentes
enquanto as relações sociais que tem por vocação instaurar não produzem novas
formas. Serve-se pois do racionalismo para criticar a extrema irracionalidade
do capitalismo, ao afirmar que um mundo racional seria, pelo menos, um mundo
onde os indivíduos organizassem colectivamente e com total conhecimento de
causa o seu trabalho e a repartição dos seus produtos. Indivíduos racionais são
conscientes daquilo que fazem e decidem em conjunto o que fazem.
Contudo, a utilização da ideologia racionalista choca-se com esta
contradição: como expressão da ideologia das relações mercantis, não pode
permitir relações transparentes nem indivíduos plenamente conscientes do que
fazem. Com efeito, o racionalismo permanece no domínio da economia própria da
época em que o trabalho obrigatório determina ainda os comportamentos e a
sociedade. Para se ser racional é necessário poder calcular e para calcular é
necessário reduzir o trabalho a uma quantidade, medi-lo através de uma unidade,
torná-lo abstrato, uniforme, e negar o seu aspecto qualitativo, essencial e
humano. A racionalidade em economia exprime o desaparecimento do homem face à
unidade monetária, ao dinheiro. Numa palavra, o racionalismo exprime sempre a
lei do valor, portanto a opacidade.
Por isso o comunismo, ideologia fundada na possibilidade histórica, posta
pelo próprio capitalismo, de libertar o homem do trabalho obrigatório, deve
criticar e ultrapassar este racionalismo, mesmo que tenha de levá-lo ao cúmulo
da sua lógica (como na célebre «Robinsonada» de Marx e também como tentaram
fazer as primeiras experiências russas e chinesas de planificação). Para o
fazer, apossa-se desta outra forma ideológica complementar do racionalismo, o
individualismo, que também leva ao cúmulo na sua lógica de expressão das
necessidades históricas de os homens se constituírem como indivíduos livres.
Mas para aí chegar, deve destruir o individualismo fundado na alienação do
indivíduo isolado e das separações e divisões provocadas pelas relações
mercantis, a fim de abrir uma via a indivíduos capazes de exercer livremente as
suas atividades e de se enriquecer mutuamente uns com os outros.
Em suma, a ideologia comunista desenvolve-se com a dupla destruição do
racionalismo (domínio do quantitativo) e do individualismo (definhamento do
indivíduo), com a emergência do reino da liberdade e da satisfação do indivíduo
social.
Mas tudo isto, é necessário repetir, não passa de uma representação do
futuro, baseada evidentemente no movimento real do presente e do passado, mas
nada mais do que isso. Por isso Marx se recusou a inventar uma nova sociedade.
Podemos apenas dizer que nos apercebemos das raízes de uma árvore cujas flores
e frutos irão depender dos seus cultivadores.
O passado não nos dá o futuro; no entanto, o presente esclarece o passado.
Façamos então pela última vez um pequeno resumo desse passado de acordo com o
ponto de vista que nos interessou ao longo deste trabalho: o movimento
histórico do desenvolvimento do indivíduo.
Nas comunidades pré-mercantis, os homens estavam submetidos a vínculos
obrigatórios e a dependências pessoais. Nas sociedades mercantis puderam
apropriar-se dos seus meios de produção e do seu trabalho. Todavia, este
fugiu-lhes porque tomou a forma de valor de troca. O dinheiro tornou-se o laço
social e a substância da comunidade mercantil. É ele que permite comprar o
trabalho na forma de força de trabalho, isto é, desapropriar o indivíduo
daquilo que lhe dá existência: a sua atividade.
Foi então necessária a existência do indivíduo independente, livre, para
poder vender a sua força de trabalho. Só que, com esta venda, surgiu o processo
de acumulação da mais-valia. Esta acumulação despojou o trabalhador das suas
qualidades, que se concentraram face a ele no pólo capitalista das máquinas e
das forças intelectuais da produção.
Assim, os indivíduos alienaram o seu ser, não só na coisificação das suas atividades
e das suas relações sociais, mas particularmente na própria realização deles
mesmos. Separados uns dos outros, negados pelos outros como pessoas, a
sociedade (o conjunto das conexões com esses outros) aparece-lhes como sendo a
dos outros sem eles, como uma força estranha, opaca e hostil.
Entretanto, com a divisão do trabalho generalizado, criaram um mundo
universal de trocas generalizadas e laços universais. Produziram capacidades e
conhecimentos engendrados com a universalização das suas relações. Os homens
das sociedades pré-mercantis podem parecer-nos mais enriquecidos porque estavam
de posse das suas qualidades. Contudo, essas qualidades eram bastante pobres se
comparadas com as que hoje nos cabem
A necessidade e a possibilidade prática de abolir a divisão social
capitalista estão hoje, plenamente, na ordem do dia, juntamente com a
transformação e a redução do trabalho, permitindo a partilha das riquezas
intelectuais e materiais e o tempo livre para atividades livres.
A abolição das separações da divisão do trabalho é também a abolição do
valor de troca como mediação das relações entre os homens, assim como de outras
mediações daí resultantes na superestrutura, sobretudo, o Estado. As atividades
dos indivíduos serão as das suas qualidades, pessoalmente apropriadas e
trocadas. Os seus vínculos sociais serão o desenvolvimento das suas
individualidades. As relações antigas e objectivas, as das coisas fora dos
homens, serão substituídas por relações subjectivas, de homem a homem.
Indivíduos e comunidade realizar-se-ão mutuamente. Tal é o futuro já em
construção, o embrião que uma revolução pode trazer até este ponto, como diz o Manifesto:
«O livre desenvolvimento de cada um será a condição do livre desenvolvimento de
todos».
Outubro de 1993.
[38] Em Le détour Irlandais,
op. cit., tentei mostrar que este voluntarismo ideológico que
negligencia a análise concreta foi também um erro de Mao, principalmente
durante a Revolução Cultural.
[39] Op. cit., nota 32. Esta frase, separada do seu contexto,
forneceu evidentemente ocasião para toda a espécie de interpretações sem
sentido dos que pretendem atribuir a Marx a opinião de que o indivíduo isolado
é o único sujeito (por exemplo
[40] K. Marx, Pl. II, p. 25, Manuscrits
de 1844.
[41] Este problema foi prolongadamente analisado
[42] Operária despedida de uma fábrica de confecções. Le
Monde, Março de 1993.
[43] K. Marx, Pl. II, p. 215.