DOS HOMENS
PRIMITIVOS AOS INDIVÍDUOS
História e indivíduos
Os intelectuais mediáticos fazem das características do indivíduo dos
tempos actuais a sua essência eterna, não só do indivíduo, mas do Homem.
Desde que se postule a hipótese idealista de que existe uma natureza
humana, caímos sempre em representações romanceadas, muito ao estilo de
Robinson Crusoe, que projectam em todos os lugares e em todos os tempos as
características de homens historicamente concretos, tal como Defoe projectou
Robinson na sua ilha com armas e bagagens, pretendendo através dele encontrar o
homem no seu estado natural.
A verdade é que o indivíduo tal como o concebemos hoje não existe desde o
início da história humana, visto que é apenas um resultado, uma criação de
milhares de anos de atividade humana. Por exemplo, na Europa, só no fim da
Idade Média aparece este homem independente, libertado de um lugar, de
obrigações, de ritos, de relações estabelecidas pelos costumes e pelo
nascimento, que se denomina indivíduo e é proclamado livre de ir e vir conforme
lhe apetecer e de estabelecer as suas relações com os outros homens.
Historicamente não existem indivíduos enquanto representantes permanentes
de um qualquer género humano. Não existe uma substância prévia, original,
criadora do homem natural, o qual depois se teria civilizado progressivamente,
organizando-se em sociedade e cuja associação teria sido, por assim dizer,
resultado da uma consciência desenvolvida através das gerações, um produto do
espírito, da sabedoria alcançada pela maturidade. O espírito estaria na origem
da associação, sendo a educação e a cultura os meios pelos quais os homens se
reconhecem como indivíduos e através dos quais as leis e os direitos se
generalizam, defendendo esse auto-reconhecimento. Mas donde vem afinal o
espírito, a educação, a cultura?
Não é o fato de o homem ser único que faz dele um indivíduo. Os homens
sempre viveram e produziram colectivamente. Aquilo que são e o modo como
organizam as suas relações são necessariamente as duas faces da mesma moeda.
Sabemos, por exemplo, que o indivíduo não existe nas primeiras formas de
organização comunitária (hordas, clãs, tribos, etc.). Nestas formas sociais
primitivas, cada homem é apenas um elemento, um membro do conjunto, sem
independência individual, não podendo existir por e para ele próprio, mas
apenas em função da comunidade que é o verdadeiro ser de todos.
Os homens, nas suas origens estritamente animais, como as abelhas, que Marx
gostava de tomar como exemplo, podem ter possuído uma organização social
bastante rigorosa. Mas as abelhas não são um conjunto de indivíduos, visto que,
sublinhava ele, cada uma desempenha a mesma função dentro da sua especialidade
(ventiladora, reprodutora, soldado, etc.) sem que lhe seja possível alterá-la
desde o nascimento até à morte. Cada abelha é sempre um elemento fixo do
conjunto. O membro da comunidade primitiva está mais ou menos na mesma
situação. Porém, o indivíduo separa-se dela de forma radical. Esse é o
movimento simples da história, que faz com que o homem se afaste cada vez mais
da sua condição animal originária.
Este movimento foi estudado por K. Marx nos Grundrisse. As
investigações posteriores de antropólogos e etnólogos não negaram a perspectiva
geral que ele traçou sobre esta questão. Pelo contrário, vieram mesmo confirmar
amplamente o que são hoje os indivíduos e a sociedade atual.
É um movimento pelo qual os homens se libertam das suas obrigações e
constrangimentos provocados pelos laços sociais de dependência que os faz ser
indivíduos. Mas ao mesmo tempo que se libertam destes ancestrais laços sociais
(e hoje inclusive dos laços familiares), têm de criar outros no exercício das
suas atividades necessariamente colectivas. O paradoxo é que, logo que se
concebem independentes e livres na opção das suas escolhas como indivíduos, de fato
acabam por se lhes impor os novos laços criados, sobre os quais não têm
qualquer controlo. As relações colectivas permanecem, tal como nas formas
comunitárias, exteriores a eles e dominam-nos. De maneira que a liberdade dos indivíduos
é essencialmente formal, visto que não dominam essas relações, mas, pelo
contrário, são dominados por elas.
Iremos evidentemente explicitar estas afirmações. É esta história
inacabada, sobre a criação dos indivíduos que vamos tratar em breves palavras.
Os homens das sociedades pré-mercantis
A essência do homem é evidentemente a atividade a partir da qual ele produz
as condições concretas da sua vida e, ao fazê-lo, ele próprio se produz. «O
homem é esse animal que se faz ao fazer». O que é completamente contrário à
pseudoteoria, tão propalada tanto nas salas traseiras dos cafés como na
Academia Francesa, acerca da natureza humana eterna, congénita.
Esta essência é, em primeiro lugar, função do modo como os homens produzem
colectivamente. Quer dizer: também a sua subjectividade é em parte formada pela
relação de propriedade, se não tivermos da expressão um entendimento apenas
ligado ao seu invólucro jurídico formal, mas sim à apropriação real, ao domínio
concreto que os homens têm ou não sobre as suas atividades: terra, utensílios,
conhecimentos, etc. Como esta atividade tem sempre um carácter colectivo, esse
domínio e essa apropriação estão dependentes dos laços que os indivíduos criam
entre si, da forma como se organizam socialmente: conforme a mediação entre
eles for opaca ou transparente, assim também o será a sua relação com o resto
da natureza (as suas atividades).
É sempre estudando o modo de apropriação que podemos descobrir a essência
do homem e da sociedade de que estamos a falar.
As comunidades primitivas
A relação dos homens com a propriedade
Nas suas origens, os homens conservam evidentemente os traços do mundo
animal de onde provêm. Apenas se separam dele quando começam a produzir as suas
condições de existência a partir da ajuda de utensílios rudimentares (paus,
pedras, etc.) de que se apropriam. A horda, o clã e a tribo nascem como
realidades gregárias, mesmo que exista um certo polimorfismo de famílias,
divisões de sexo, idades, enfim, relações mais ou menos complexas, de acordo com
o estádio do seu desenvolvimento.
De início, os utensílios são tão primitivos que parecem não ter qualquer
função. A produtora de riqueza é a natureza. Tomar posse dela é apropriar-se de
um território. E daí resulta que o que cria a comunidade primitiva, o que os
homens que a compõem têm em comum é a posse colectiva de um território. A
comunidade é o único sujeito porque, face à hostilidade da natureza,
perturbadora e desconhecida, apenas ela pode assegurar a ocupação e a defesa
desse território e eventualmente a sua expansão pela conquista. Ocupação que
reside no fato de os grupos serem constituídos por laços internos como o
sangue, o parentesco (alargando-se pouco a pouco, graças à incorporação de
elementos externos: mulheres, escravos, alianças).
Só a pertença ao grupo permite que cada um viva nesse território. A
pertença pelo sangue a esta comunidade precede a propriedade. O traço
característico não é a ausência mais ou menos sistemática da propriedade
privada, mas o fato de a pertença à comunidade estar sempre pressuposta. Esta
submissão de cada um ao todo ordenado, entendido como natural e imutável, não
impede todavia que os homens possam ser hierarquizados pela submissão aos que
representam o todo e comunicam com ele (chefe descendente do Deus fundador,
feiticeiro). O sistema de castas na Índia é disso uma clara ilustração.
Mesmo nas formas mais avançadas das comunidades primitivas, onde se concede
a terra a famílias particulares (como nas formas «germânicas» descritas por
Marx) esta propriedade pessoal está ainda submetida ao poder da comunidade.
Aparentemente, ela seria constituída a partir de reuniões de proprietários em
assembleias, e portanto surgiria após o aparecimento da propriedade. Na
realidade, é sempre a existência prévia da unidade comunitária, fundada nos
laços de sangue, na descendência, na origem ancestral, na ocupação do
território, na língua e costumes, que pressupõe e engendra a atribuição de uma
parcela de terra a esta ou aquela família, assim como a sua participação nas
assembleias. Apenas na comunidade do tipo «germânico» se constata uma inversão
que conduzirá à propriedade privada independente, individual, base da sociedade
mercantil.
Enfim, nas comunidades primitivas, a «é sem dúvida a comunidade, colocada
antes da produção, que impede que o trabalho dos indivíduos seja trabalho
privado e o seu produto um produto privado; é ela que faz com que o trabalho
individual seja visto como uma função direta de um membro do organismo social[1]».
Sendo a comunidade o pressuposto da atividade dos homens, estes existem
apenas pela sua pertença ao grupo. O grupo é o sujeito (dotado sempre, aliás,
de um fundador mítico) e os homens são os seus elementos, existindo por e para
ele, para o reproduzir. Como escrevia Marx, que, como já observámos, gostava de
utilizar a imagem das abelhas para melhor se fazer compreender quando comparava
a sociedade organizada dos animais à dos homens, «a comunidade primitiva que
repousa sobre a propriedade comum faz de cada indivíduo uma abelha colada ao
seu enxame[2]». Ou ainda, «o indivíduo é nela apenas um
‘acidente’ da substância comunitária, propriedade da comunidade. Ele é um ‘elo
de uma cadeia’ preso à comunidade como o caracol à sua concha[3]».
A comunidade como mediação (imediata, transparente) entre
os homens e a natureza
É pela atividade colectiva que um terreno para caça, recolecção ou pesca é
apropriado. Nos primeiros períodos históricos, uso e apropriação são uma e a
mesma coisa para a comunidade dos homens. Os utensílios, muito simples, são
usados pelos homens como mediação direta entre eles e a natureza. As relações
dos homens entre si e com a natureza são transparentes (embora encerradas nos
limites de uma atividade e de conhecimentos escassos).
Entre eles, como já observámos, estabelecem-se ligações de dependência
pessoal fundadas na pertença ao grupo. As obrigações daí decorrentes para cada
um são simultaneamente claras, evidentes e muito exigentes, visto que eles só
existem através do grupo, não têm
qualquer independência e estão submetidos a regras fundadas no costume, que
atribuem a cada um o seu lugar e a sua tarefa, consoante o sexo, a idade, o
nascimento, etc.
Só através da comunidade podem os homens ser «proprietários» das condições
objectivas da sua vida, e não como resultado das suas atividades particulares.
De certo modo, o privado não existe. A relação de propriedade, cujo papel
determinante já foi sublinhado, não resulta de um processo de apropriação direta,
pessoal, pelo trabalho, mas é previamente estabelecido como consequência do fato
de se ser membro da comunidade.
Dito de outro modo, é pela mediação direta e transparente da comunidade que
os homens se tornam senhores das condições da produção, que é simultaneamente
produção das suas próprias vidas. Esta característica essencial do mundo
pré-mercantil assume evidentemente formas bastante diversas nas suas
manifestações concretas, de acordo com as situações históricas. Damos adiante
alguns exemplos, a propósito das sociedades esclavagistas e feudais.
Produção e distribuição dos valores de uso
A comunidade primitiva forma um todo envolvente: homens e natureza estão
unidos no mesmo universo cósmico. O trabalho humano é pouco produtivo:
recolecção, caça, colheita, tudo isto parece mais gerado do que produzido,
parece provir mais de forças naturais, cósmicas, do que do trabalho. A vida
surge deste modo como um grande mistério, pois parece ser mais uma dádiva do
que o resultado do trabalho produzido. Os deuses dão e os homens oferecem aos
deuses para serem retribuídos.
Na medida em que há trabalho, este é atribuído pelo grupo a cada membro
segundo a tradição e o seu produto distribui-se diretamente por todos. Produção
e troca fazem-se apenas com o fim de satisfazer, de forma direta e imediata, as
necessidades existentes e não para acumular até ao infinito meios e riquezas. O
valor de uso é neste caso o fim da produção e os produtos circulam como tal.
Cada membro tem direito a uma parte do produto colectivo. Ninguém compra nem
vende, senão de um modo muito marginal e sob a forma de permuta.
Como cada um recebe da colectividade o que lhe é necessário, necessidade
essa determinada pelas condições de produção, isto significa que ninguém produz
para si próprio. Cada um vê como dádiva o que recebe da colectividade. E como a
colectividade parece viver dos dons da natureza, na consciência dos homens,
toda a troca surge como uma dádiva. Muitos antropólogos, como Mauss e os seus
discípulos em França, teorizaram exaustivamente sobre esta representação do
mundo, sem no entanto relacionarem de forma clara a sua origem com um modo de
produção particular e com relações de propriedade específicas.
Na realidade, ao falar de dádivas projectam, tal como fazem em relação a
outros conceitos como o de homem ou de indivíduo, os seus conteúdos actuais
numa situação passada, completamente diferente, onde não são, de modo algum,
apropriados.
Nas comunidades primitivas, a dádiva não possui o significado que lhe é
dado atualmente, como se se tratasse de uma oferta de indivíduo para indivíduo,
visto que os indivíduos ainda não existem. Existe a distribuição de valores de
uso no seio do grupo, entre os seus diversos elementos. Quando as abelhas
alimentam a rainha e as larvas com o seu mel não significa que esteja, a fazer
dádivas. A dádiva supõe a produção e a posse pessoal, a livre escolha, a
gratuitidade em oposição à venalidade, e estes conceitos não têm sentido nas
comunidades primitivas.
Com o desenvolvimento dos instrumentos de produção e com o surgimento de um
pequeno produto excedentário, estas comunidades tornam-se certamente mais
complexas. Por um lado, as relações de dependência pessoal que as caracterizam
hierarquizam-se (chefes, anciãos, feiticeiros, etc.); por outro, desenvolvem-se
as formas de «dar e receber» que Mauss estudou. Mas ele próprio mostrou à
evidência que se tratava apenas de cumprir obrigações sociais como resposta à
necessidade de garantir relações de dependência pessoais mais complexas: manter
ou estabelecer alianças, laços de parentesco (e especialmente dotes para
matrimónio), ou ainda afirmar o poder e a autoridade sobre o grupo, mostrando
maior eficácia na produção. Por exemplo, no potlach, bastante citado,
que certas tribos índias praticavam, os melhores caçadores, pescadores e
guerreiros «desacumulavam», rivalizando na distribuição das suas presas. O mais
forte não era, como acontece hoje, aquele que mais acumulava, mas, pelo
contrário, o que mais distribuía.
Este tipo de partilha mostra na realidade a não existência do indivíduo e
da dádiva individual. Exprime, pelo contrário, a sua pertença e dependência face
ao grupo, no seio do qual a propriedade, a independência e a acumulação
individuais não têm sentido nem existência. O poder pessoal que se manifesta
através destas «doações» só é possível na medida em que reforça a comunidade, a
enriquece e a prestigia.
Ainda hoje podemos confirmar que nas sociedades economicamente pouco
desenvolvidas e onde se mantêm laços comunitários, por razões específicas
(imigração, por exemplo) os homens investem mais em certo tipo de obrigações
pessoais (entreajuda, associações, festas, ofertas, etc.) que na acumulação
individual. Eis um grave impedimento ao desenvolvimento, segundo lamentam dos
economistas! Estas «ofertas» e «retribuições» apresentam-se como trocas não
estritamente quantificadas e equiparadas, com a aparência de dádivas (de fato,
a quantificação, a igualização e o retorno são norma e isso manifesta-se mesmo
na forma de dinheiro que os regula), visam somente reforçar os laços de
dependência entre pessoas e os laços de grupo[4].
Numa palavra, o que é produzido e circula nas comunidades caracterizadas
por laços de dependência pessoal são valores de uso. As relações e as trocas
entre pessoas (como aliás com o resto da natureza animada, vegetais, animais, a
água, etc., tendo, por assim dizer, um animus, ou uma alma) são de ordem
qualitativa, ao contrário das sociedades mercantis onde, como veremos, as
relações têm um carácter estritamente quantitativo entre coisas. A distribuição
destes valores de uso no seio do grupo satisfaz as necessidades imediatas de
cada um e efectua-se segundo os costumes, as hierarquias e os simbolismos
através dos quais se dá vida a esses laços pessoais, que exprimem a pertença ao
grupo.
Veremos que quanto mais a sociedade cresce e alarga os seus contactos com
outras, mais ela se distende e mais a troca se despersonaliza e se quantifica.
A troca inicial passa a venda ao estrangeiro, compra da protecção dos
poderosos, relação de dominação e de apropriação. Só com este crescimento e
esta despersonalização simultânea das relações humanas surgirá o indivíduo; só
a partir daí poderemos falar de altruísmo, egoísmo, avareza e donativos
individuais.
Concluamos esta breve incursão às comunidades primitivas dizendo que,
apesar de grandes diversidades[5],
elas partilham três traços característicos:
– Os indivíduos não existem como
tais, mas como elementos, membros predeterminados do mesmo sujeito, a
comunidade (que passam a integrar, sobretudo através de ritos iniciáticos ad
hoc).
– A comunidade é a mediação
imediata entre os homens e a natureza, o suporte essencial da relação de
apropriação. No seu seio as relações de dependência pessoal são determinantes.
– Ela produz bens de uso, para
satisfazer necessidades imediatas que lhe são próprias. Não acumula e, presa à
rigidez das crenças e costumes, só tem como fim a sua reprodução, uma vez que
se concebe imutável num mundo cósmico que lhe parece também imutável (daí o
mito do eterno retorno, das reincarnações, ressurreições, etc.). A sua evolução
é muito lenta, afrouxando e dissolvendo-se progressivamente, e é com o avanço
das trocas que os homens se vão libertando dos laços comunitários e se abrirá
caminho à sua autonomização em indivíduos.
Mas antes de examinar o nascimento do indivíduo independente com a
sociedade mercantil, detenhamo-nos brevemente nas duas formas essenciais de
organização social que a precederam no mundo ocidental. Veremos como nelas
ainda sobrevivem, embora de forma cada vez mais distante, os traços essenciais
das comunidades primitivas, até finalmente desaparecerem. Deste modo
compreenderemos melhor, a partir destes, os indivíduos da sociedade mercantil
nascente, que estão na base do capitalismo moderno.
Escravagismo e sociedade feudal
Os ideólogos que consideram a essência do indivíduo burguês, a guerra de
todos contra todos, como a do Homem universal, a do género humano, vêem na
escravatura apenas um exemplo particularmente cruel e bárbaro, ligado a uma
época em que a burguesia iluminada não tivera ainda a oportunidade de dar ao
mundo os «Direitos do Homem» (proclamados universais mas reservados
exclusivamente aos brancos).
Na realidade, a escravidão e a servidão medieval são formas de domínio e de
sujeição que relevam não de uma hipotética natureza humana, mas
fundamentalmente de determinações históricas particulares, na sequência das
formas comunitárias primitivas.
O crescimento destas conduziu-as necessariamente à guerra para conquistarem
novos territórios; o território, como vimos, além de formar um todo com a
comunidade, era também a sua única fonte de riqueza. Como enriquecer senão
recorrendo à pilhagem e ao roubo, quando o trabalho era tão pouco produtivo e a
acumulação pela exploração do trabalho assalariado não podia ainda ser uma
realidade?
Mas assim, nestas formas sociais onde apenas existiam a comunidade e os
seus membros, os povos conquistados só podiam ser negados, quer dizer,
exterminados, ou considerados como objectos ou coisas (literalmente:
subjugados) enquanto condições objectivas da produção (e isso tornou-se
vantajoso a partir do momento em que eles passaram a produzir mais do que o
necessário para sobreviver). Lembramos já que o único procedimento próprio
destas comunidades pré-mercantis era o de proprietárias. Qualquer homem apenas
podia ser membro da comunidade (ligado essencialmente a um processo de
parentesco), proprietário nela e por ela, ou então objecto utilizado pelos
proprietários, e assim tornar-se servidor ou instrumento de produção.
Deste modo, a escravatura não é um mero estado de servidão numa civilização
ainda bárbara e cruel, mas um resultado necessário do desenvolvimento das
comunidades primitivas e da sua reprodução num período em que a propriedade
pressupõe a pertença à comunidade.
Esta é a característica essencial ligada à ocupação da terra, que faz da
escravatura uma forma derivada das comunidades em expansão. É sempre no modo de
apropriação que reside a característica fundamental das diferentes épocas da
história da humanidade.
Do mesmo modo, na fase seguinte o servo da gleba não é uma simples relação
de força entre dominante e dominado. Como na comunidade primitiva, servo e
senhor começam por estar numa relação de dependência pessoal, tal como o
vassalo e o suserano, os laicos e os poderes religiosos. Em todas as esferas da
vida medieval estas relações de dependência pessoal fazem com que as relações
sociais pareçam ser relações entre pessoas. A forma do trabalho é concretamente
e diretamente social; dias de trabalho gratuito do servo, dízimos, etc. são
quantidades de trabalho pessoal fornecidas aos senhores e aos clérigos em troca
de outros serviços pessoais por eles assegurados – militares, jurídicos,
religiosos –, para com os membros, definidos pela ligação à terra.
Na sociedade medieval clássica, são ainda os laços de sangue, os lugares
fixados pelo nascimento e os deveres e obrigações mútuas das pessoas daí
resultantes que pressupõem a existência dos seus membros.
Os servos, como outrora os escravos, são considerados meios de produção,
numa sociedade agora dominada pelo nobre ou pelo bispo. É que a ocupação e o
uso da terra continua a ser a principal e quase única fonte de riqueza e, sendo
os instrumentos ainda pouco produtivos, ela é a essência da comunidade,
pressupõe a existência e dirige a apropriação.
Posteriormente, estas relações transformam-se. Tornam-se cada vez mais
relações de domínio militar por meio das quais o senhor se apropria da terra;
são relações coisificadas na forma de propriedade do solo. Mas continuam a
surgir na consciência dos homens como relações pessoais e naturais, graças ao
hábito, ao costume, ao direito, e também porque estes não vêem para além da
estreiteza das suas trocas[6].
Outra prova de que estas relações são ainda concebidas como pessoais está
na importância dada ao carácter qualitativo: cada um deve fazer valer as
qualidades atribuídas à sua função. Para o nobre, por exemplo, como militar, a
coragem, honra, fidelidade e prestígio, que forjaram o mito da cavalaria. Mas,
sendo também proprietário de terras, o nobre desenvolve cada vez mais relações
económicas coisificadas: tributos, impostos e o trabalho obrigatório não remunerado
do servo.
Inicialmente a sociedade medieval é uma comunidade ligada à terra de que se
apropria. Mas com o desenvolvimento dos utensílios difunde-se a especialização
e a separação dos ofícios e, paralelamente, as cidades onde se exercem.
Podemos considerar estes artesãos urbanizados como indivíduos
independentes? Para o saber, não basta verificar que abandonaram a sua condição
de servos e conquistaram certos direitos (as cartas de foral), nem romancear
sobre a sua habilidade e o saber que lhes são próprios. É necessário seguir o
método materialista e voltar ao modo de apropriação dos meios de produção, que
já não é neste caso a terra, mas as ferramentas.
Como se sabe, o artesão medieval organizava-se sempre na corporação. O
sistema de corporações não é senão a adaptação do sistema comunitário a esta
situação específica em que a propriedade já não se exerce sobre a terra mas
sobre os instrumentos.
Só a pertença à corporação permite a aquisição dos conhecimentos e da
experiência que são as condições de apropriação
dos meios de trabalho, dos instrumentos. Todas as regras corporativas, a
aprendizagem, o estatuto de companheiro, têm como objetivo conservar na
corporação o poder de definir e de transmitir as formas de produção. A
corporação é o pressuposto da apropriação.
É certo que estes instrumentos e este saber são criação dos homens. Mas de
homens que são originários do sistema comunitário agrário, de que conservam os
usos e os comportamentos sociais (que seguramente lhes parecem próprios da
«natureza humana»). O que os leva a querer conservar num grupo preciso esta
função, este saber. A organização em corporação permite esta conservação.
A força que a propriedade comunitária mantém é revelada, especialmente, nas
severas condenações a que estavam sujeitos os que pensavam poder agir como
proprietários privados para enriquecimento pessoal. Há o exemplo de um
serralheiro das Cevenas que vendeu aos espanhóis o segredo do fabrico de
tecelagem da seda e por isso foi condenado à morte (nos nossos dias teria sido
um brilhante exportador). Ou ainda o fato de os tipos de produção, quer quanto
à qualidade ou quanto à quantidade, serem determinados por regras corporativas
bastante rigorosas.
Isto significa também que o objetivo do sistema corporativo é em primeiro
lugar a sua própria reprodução em permanente identidade, traço característico
de todas as sociedades pré-mercantis. O enriquecimento dos seus membros é
secundário. Cada um apenas produz os bens considerados necessários, como
valores de uso, e só trabalha o que precisa para o conseguir. O consumo,
estabelecido pelo costume, determina a produção.
Existe, não obstante, compra e venda por intermédio do dinheiro. Com o
desenvolvimento das trocas comerciais, os mercadores começam a acumular e a
considerar as mercadorias como simples quantidades de dinheiro, valores de
troca. Os centros comerciais como Veneza, e depois outros com as grandes
descobertas dos navegadores, tornar-se-ão potências a partir das quais a
produção é feita em função do dinheiro e da acumulação, abrindo caminho à
sociedade mercantil que desagregará a sociedade feudal.
Para pôr fim à observação da sociedade medieval, observemos que este
sistema de corporações e de guildas, visando a sua reprodução dos modos de
produção como tais, é profundamente conservador. Estas comunidades possuem
formas de vida social limitadas e veneram o imobilismo e a tradição.
Como vimos, na origem das primeiras comunidades humanas, este imobilismo
partia da representação de um mundo sempre idêntico a si próprio. Essa concepção
de um eterno retorno gerava mitos religiosos de tipo cíclico, como o da
reencarnação. O tempo não existe, nem o progresso, tudo é circular, a vida e a
morte, o passado e o presente não estão separados: são elementos do ciclo
cósmico eterno de que a comunidade é o elemento humano permanente.
Mas, com o uso de utensílios vagarosamente aperfeiçoados, desenvolve-se o
movimento de transformação da natureza, assim como a consciência do papel nela
desempenhado pelos homens. Abre-se caminho às noções de progresso e do tempo. O
utensílio introduz uma mediação entre eles e a natureza e portanto também um
suporte, um momento de reflexão sobre a sua atividade, cada vez mais meditada.
Desenvolvem-se então práticas conscientes, codificam-se, transmitem-se e
complexificam-se os saberes. As especializações prosperam e os homens começam a
separar-se e a individualizar-se de acordo com as suas atividades. As
comunidades tornam-se também mais complexas, mais estruturadas, mais
codificadas, integrando novos elementos culturais. Elas aparecerão agora como
realidades construídas pelos homens, substituindo a noção de que os homens
existem em função delas. Inicia-se a inversão pela qual elas aparecerão como
construídas e existentes através dos homens e não os homens existindo graças a
elas.
Dissolução das comunidades pré-mercantis
Pelo contacto entre si, as comunidades fazem permutas. É uma primeira
forma, rudimentar, de troca de mercadorias. Ela aparece nas periferias das
comunidades e de início ocasionalmente, visto que a permuta apenas pode
referir-se a um excedente disponível e nesta fase os homens não estão ainda em
condições de produzir muitas coisas excedentárias e, de resto, não o têm como
finalidade. Mas, ao fazê-lo, o que era produzido apenas como valor de uso
transforma-se pouco a pouco em valor de troca, mercadoria, e é progressivamente
produzido como tal, à medida que se torna possível produzir mais excedentes.
O alargamento da permuta a novas quantidades e a diversificação cada vez
maior de mercadorias amplia o domínio do valor de troca e provoca a criação de
um valor equivalente, a moeda. Com ela a relação compra-venda substitui a
permuta, a troca de mercadorias generaliza-se e consequentemente também a
produção para a troca, na qual o trabalho social se vai tornando progressivamente
trabalho generalizado, abstrato.
Como acabamos de sublinhar, uma coisa só é alienável quando produzida como
excedentária pelo seu produtor. Evidentemente este excedente já não tem para
ele (ou antes, para ela, tratando-se da comunidade) um valor de uso. A partir
daí, por difusão, toda a produção tende a tornar-se valor de troca no seio da
comunidade. A sua extensão fixa-se gradualmente, por comparação e repetição das
trocas, na igualdade da quantidade de trabalho generalizado. A dissolução das
relações sociais pré-mercantis (servidão, corporações, etc.) faz-se acompanhar
da das suas formas (doações, dízimos, serviços, etc.) através das quais se
permutavam valores de uso.
Observemos de passagem que mesmo a escravagismo, através de uma forma de
dominação inalterada, vai mudando de conteúdo, prolongando-se até às sociedades
mercantis, com as quais entra todavia
As comunidades primitivas produziam para satisfazer as suas necessidades. A
tendência de produzir para trocar leva cada um a comportar-se como proprietário
daquilo que troca, do seu produto assim como das suas condições de produção:
terras e instrumentos. Estas condições perdem a relação imediata e «natural»
que tinham com os seus utilizadores para se tornarem propriedades pessoais,
mercadorias permutáveis, ficando deste modo concentradas em certas mãos e
certos grupos[7].
Esta transição verifica-se com nitidez na sociedade medieval, sociedade
cada vez mais híbrida à medida que se desenvolvem os fatores de desagregação
das antigas comunidades. A terra torna-se propriedade pessoal do senhor e pode
ser vendida ou comprada como mercadoria, assim como as terras comunais. As
corporações eram, de início, o pressuposto da apropriação dos utensílios e dos
ofícios. Mas este saber-fazer é cada vez mais pessoal, à medida que se
desenvolvem as técnicas, e por conseguinte as especializações, que dão lugar a
uma nova divisão do trabalho. Como sempre, deve corresponder-lhe um novo modo
de apropriação, também ele pessoal. As condições da produção especializada
transmitem-se de pais para filhos. Tornam-se tanto mais pessoais quanto mais
intervém, devido ao aperfeiçoamento das técnicas, o virtuosismo e a habilidade
própria de cada artesão. As qualidades pessoais são deste modo um elemento
determinante da própria apropriação. Resulta daqui necessariamente que os
artesãos pretendam obter a correspondente apropriação jurídica, de modo a ver
reconhecida a vantagem pessoal das suas qualidades. São incessantes as
reivindicações para se libertarem da rigidez das regras corporativas, para
fazerem valer direta e livremente o seu trabalho pessoal, o que os leva a aliar-se
com os camponeses na revolução de 1789, altura em que finalmente os meios de
produção lhes são reconhecidos como propriedade. E, com o desenvolvimento das
cidades, dos mercados e do comércio, passam a produzir cada vez mais para
vender, tendo como fim o enriquecimento pessoal.
Assim, o surgimento da pessoa independente, proprietária, produtora de
valores de troca, isto é, da pessoa que se torna indivíduo, tem os seus
fundamentos históricos na dissolução da apropriação comunitária devida ao
aperfeiçoamento dos meios de produção e à divisão do trabalho que a acompanha,
permitindo a generalização da produção de mercadorias.
Posto isto, os trabalhadores já não são colocados como condições objectivas
de produção, como eram outrora os escravos e os servos. Passam a ser sujeitos,
proprietários de terra, de instrumentos ou, pelo menos, da sua força de
trabalho. E com a progressão do sistema mercantil até ao capitalismo, que
examinaremos adiante, já não é «o trabalhador mas o trabalho que é uma condição
da produção»[8]. O
capital apodera-se do trabalho, não dos trabalhadores, até atingir o ponto em
que os suprime e ignora ao substituí-los pelas máquinas.
Mas não nos antecipemos. De momento interessa-nos esta transformação na
qual as condições objectivas de produção já não são apropriadas através da
mediação da comunidade e passam a ser valores de troca, coisas que cada vez
mais se afastam dos homens para adquirir a função de uma nova mediação entre
eles e a natureza. Coisas que são alienáveis a todos e a qualquer um que as
puder comprar a troco de dinheiro, e face ao trabalhador independente. O mesmo
se passa com o próprio trabalho que, tal como o produto, também se torna apenas
um valor de troca, uma coisa, quantidade indiferenciada, dinheiro.
A dissolução da comunidade dá lugar aos indivíduos isolados, separados,
alienados (isto é, cujas atividades têm apenas uma existência social
quantitativa e abstrata). Enfrentam uma sociedade civil que lhes é estranha,
visto que cada um é agora estranho aos outros, sociedade controlada por um
Estado que os desapossa das funções políticas, da gestão das suas próprias
relações sociais.
A essência das comunidades primitivas é a escassa eficácia dos instrumentos
e a imaturidade dos homens que ainda não estão em condições de cortar totalmente
o cordão umbilical que os une ao mundo animal. Mas, evidentemente, esta ligação
é relativa. Estes homens têm a fala para comunicar e trocar experiências, a
consciência religiosa para representar o seu lugar particular no mundo e a
capacidade de organização para se defender ou conquistar novas riquezas. Enfim,
são seres sociais, e já sem o saberem, «animais políticos», seres organizados
segundo certas ideias, perseguindo certos fins que imaginam e projectam, não
meros animais gregários, mas pessoas activas na «gestão» da sua comunidade.
Nas comunidades primitivas existe já um vínculo político entre os seus
membros, na medida em que a atividade de cada um é estruturada pela comunidade,
que gera relações pessoais (troca de valores de uso, de serviços). A bem dizer,
toda a economia está politizada, ou melhor, a economia, a política, a vida
social e a religião formam um todo. Só depois, com o surgimento das relações
mercantis e do indivíduo burguês, a economia se «despolitiza», quer dizer, se
concebe como tendo por base a atividade pessoal e não a atividade estruturada
comunitariamente. A partir daí, a política (que se torna gestão do «interesse
geral», isto é, do interesse das classes dominantes) separa-se formalmente da
economia, que passa a ser o domínio independente das «leis do mercado», tomadas
como naturais, quando de fato apenas são as leis coercivas do valor de troca,
resultante do desmembramento das comunidades, dando lugar aos indivíduos
separados enquanto produtos das sociedades mercantis, impondo-se-lhes como
forças estranhas em substituição da comunidade, que era ainda uma força
reconhecida. Esta ruptura, bem real mas historicamente determinada, vai dar
origem a um sem-número de teorias sobre a separação entre o homem natural e o
homem político.
O homem é «um animal que só se pode constituir como indivíduo singular em sociedade». Este movimento que lentamente percorre todas as sociedades pré-mercantis, desde as comunidades primitivas até às sociedades medievais, conduz à formação do indivíduo na sociedade mercantil. Iremos agora prosseguir este estudo, observando o indivíduo na sociedade mercantil e na sua extensão capitalista. Indivíduo livre, que desde o nascimento se vê dominado por leis «naturais» da economia, e por uma sociedade política que o transcende, forças estranhas, resultantes do desmembramento comunitário.
Notas: Nas citações de Marx, a sigla E. S. refere-se às
Editions Sociales, e Pl. (I ou II) à colecção
[1] K. Marx, Pl. I, p. 285.
[2] Idem, p. 875.
[3] Essa relação de
dependência para com a comunidade não se confunde com a ideia falsa de que
esses homens seriam uma massa de elementos indiferenciados, sem qualidades
pessoais. O que se afirma é que cada homem pode ser único sem, no entanto, ser
indivíduo.
[4] «Le Don et le Recours», Ressorts de l´économie urbaine, Ed. Ndiona-enda, Dacar, 1992.
[5] Marx distinguiu,
principalmente nos Grundrisse, três grandes formas históricas
pré-mercantis de relação do proprietário com as condições objectivas de
produção: as formas orientais, antigas, e germânicas. As suas características
gerais não excluem, evidentemente, toda a espécie de diversidades concretas no
seu seio, assim como a existência do comércio, do dinheiro e da mercadoria. O
que aí é determinante é sempre o modo como se produz.
[6] Mesmo em 1789, o povo via
ainda
[7] «Para que a alienação
seja recíproca, é simplesmente necessário que os homens se relacionem uns com
os outros, por um reconhecimento tácito, como proprietários privados dessas
coisas alienáveis e por isso mesmo como pessoas independentes». (K. Marx, Le
Capital, Pl. I, p. 623).
[8] K. Marx, Grundrisse,
Pl. II, p. 840.