A Reprodução do Quotidiano
A actividade diária do homem tribal reproduz
ou perpetua a tribo. Esta reprodução não é
meramente física, mas igualmente social. Através das
suas actividades diárias, os homens das tribos não reproduzem
apenas um grupo de seres humanos; reproduzem a tribo, nomeadamente
um forma social particular com a qual este grupo de seres humanos
desempenha actividades específicas duma maneira específica.
As actividades específicas do homem tribal não são
a consequência das características “naturais”
de quem as realizou, da mesma forma que a produção de
mel é uma consequência da “natureza” da abelha.
O quotidiano produzido e perpetuado pelos homens tribais é
uma resposta social específica a condições materiais
e históricas particulares.
A actividade diária dos escravos reproduz a
escravatura. Através das suas actividades diárias, os
escravos não só perpetuam a sua condição
e as dos seus senhores fisicamente, como reproduzem também os
instrumentos de repressão e os hábitos de submissão
à autoridade do senhor. Para os homens que vivem numa sociedade
de escravos, a relação senhor-escravo aparenta ser uma
relação natural e eterna. Contudo, os homens não
nascem nem senhores nem escravos. A escravatura é uma forma social
específica, e os homens submetem-se a ela em condições
materiais e históricas particulares.
A actividade diária do trabalhador assalariado
reproduz trabalho assalariado e capital. Através das suas actividades
diárias, o homem “moderno”, como o homem tribal e
os escravos, reproduzem os habitantes, as relações sociais
e as ideias da sua sociedade; eles reproduzem a forma social do seu
quotidiano. Como a tribo e o sistema esclavagista, o sistema capitalista
não é nem natural, nem a forma final da sociedade humana;
como as primeiras formas sociais, o capitalismo é uma resposta
específica a condições materiais e históricas.
Diferentemente das primeiras formas de actividade social,
a vida quotidiana na sociedade capitalista transforma as condições
materiais às quais o capitalismo originalmente respondia. Alguns
dos limites materiais para a actividade humana ficaram gradualmente
sob o controlo humano. Num nível superior de industrialização,
a actividade prática cria as suas próprias condições
materiais tal como a sua forma social. Para nós o tema de análise
não é só como a actividade prática numa
sociedade capitalista se reproduz a si mesma, mas como essa actividade
por si mesma elimina as condições materiais para as quais
o capitalismo é uma resposta.
O Quotidiano na sociedade Capitalista
A forma social das actividades regulares das pessoas
no capitalismo é a resposta a uma determinada situação
material e histórica. As condições materiais e
históricas explicam a origem da forma capitalista, mas não
explicam porque é que esta forma continua depois da situação
inicial desaparecer. O conceito de “atraso cultural” não
é a explicação da continuidade da forma social
depois do desaparecimento das condições iniciais às
quais esta respondia. Este conceito é apenas um nome para a continuidade
da forma social. Quando o conceito de “atraso cultural”
é ostentado como um nome para a “força social”
que determina a actividade humana, estamos perante uma ofuscação
que apresenta o resultado das actividades das pessoas como uma força
externa fora do seu controlo. Isto não se aplica só a
este conceito. Muitos outros termos utilizados por Marx para descrever
as actividades humanas foram classificados como forças “externas”
e até “naturais” que determinam a actividade humana;
conceitos como “Luta de Classes”, “Relações
de Produção” e particularmente “A Dialéctica”,
têm o mesmo papel nas teorias de alguns “Marxistas”
que “Pecado Original”, “Fé” e “A
Mão do Destino” têm nas teorias dos mistificadores
medievais.
Na realização das suas actividades quotidianas,
os membros duma sociedade capitalista sustentam simultaneamente dois
processos: reproduzem a forma das suas actividades, e eliminam as condições
materiais para as quais esta forma de actividade era inicialmente uma
resposta. Contudo eles não sabem que sustentam estes processos;
as suas próprias actividades não lhes são transparentes.
Eles vivem na ilusão de que as suas actividades são respostas
às condições naturais fora do seu controlo, e não
se apercebem que são eles próprios os autores dessas condições.
O objectivo da ideologia capitalista é manter o disfarce que
impede as pessoas de se aperceberem que as suas próprias actividades
reproduzem a forma da sua vida quotidiana; o objectivo da teoria crítica
é revelar as actividades da vida quotidiana, tornando-as transparentes,
tornando visível a reprodução da forma social da
actividade capitalista no contexto das actividades diárias.
No capitalismo, o quotidiano consiste num conjunto
de actividades relacionadas que reproduzem e expandem a forma capitalista
de actividade social. A venda de trabalho-tempo por um preço
(salário), a incorporação do trabalho-tempo nas
mercadorias (bens vendáveis), o consumo de mercadorias tangíveis
e intangíveis (como bens de consumo ou espectáculos) são
actividades que caracterizam o quotidiano no capitalismo, não
são manifestações da “natureza humana”,
nem são impostas ao ser humano por forças fora do seu
controlo.
Se considerarmos que o ser humano é “por
natureza” um homem tribal não engenhoso e um homem de negócios
engenhoso, um escravo submisso e um artífice orgulhoso, um caçador
independente e um trabalhador assalariado dependente, então a
“natureza” do ser humano ou é um conceito vazio ou
depende das condições materiais e históricas, e
é de facto uma resposta a essas condições.
Alienação da actividade vital
Na sociedade capitalista, a actividade criativa toma
a forma de produção de mercadoria e os resultados da actividade
humana tomam a forma de bens negociáveis. A negociabilidade ou
vendabilidade são as características de todas as actividades
práticas e de todos os produtos. Os produtos da actividade humana
necessários à sobrevivência têm a forma de
bens vendáveis: só estão disponíveis na
troca por dinheiro. E o dinheiro só está disponível
na troca por mercadorias. Se um número alargado de pessoas aceita-se
a legitimidade destas convenções, se aceita-se a convenção
segundo a qual as mercadorias são um pré-requisito para
o dinheiro, e o dinheiro é um pré-requisito para a sobrevivência,
então encontrar-se-iam bloqueados num círculo vicioso.
Uma vez que não possuem mercadorias, a única maneira de
existir neste círculo é considerando-se a si, ou parte
de si, como mercadorias. E isto é, de facto, a solução
“peculiar” que os seres humanos impõem a si mesmos
ao encararem condições materiais e históricas específicas.
Eles não trocam o seu corpo ou partes do seu corpo por dinheiro.
Eles trocam o conteúdo criativo da sua vida, a sua actividade
prática diária, por dinheiro.
Ao mesmo tempo que o ser humano aceita o dinheiro como
um equivalente da vida, a comercialização de actividade
vital torna-se numa condição para a sua sobrevivência
física e social. A criação e a produção
passam a significar actividade vendida. E o próprio homem só
é um membro produtor da sociedade se as actividades do seu quotidiano
forem actividades vendidas. Ao mesmo tempo que as pessoas aceitam os
termos desta troca, a actividade quotidiana toma a forma de prostituição
universal.
A venda de força criativa ou de actividade quotidiana
toma a forma de trabalho. O Trabalho é uma forma histórica
específica da actividade humana. Trabalho é actividade
abstracta que tem apenas uma propriedade: é comercializável,
pode ser vendido por uma dada quantidade de dinheiro. Trabalho é
actividade indiferente: indiferente à tarefa particular executada
e indiferente ao sujeito particular ao qual a tarefa é direccionada.
Cavar, imprimir e esculpir são actividades diferentes, no entanto
todas são trabalho na sociedade capitalista. Trabalho é
simplesmente “ganhar dinheiro”. A actividade vital que toma
a forma de Trabalho é um meio para ganhar dinheiro. A vida torna-se
um meio de sobrevivência.
Esta inversão irónica não é
o apogeu dum romance imaginado; é de facto o quotidiano na sociedade
capitalista. Sobreviver, nomeadamente auto-preservação
e reprodução, não são os meios para a actividade
pratica criativa, mas precisamente o contrário. A actividade
criativa na forma de trabalho, chamada actividade vendida, é
uma necessidade dolorosa para a sobrevivência; o trabalho é
o meio para a auto-preservação e reprodução.
A venda de actividade vital mostra outra inversão.
Através da venda, o trabalho dum indivíduo torna-se “propriedade”
doutro, é apropriado por outro, fica sobre o controlo doutro.
Por outras palavras, a actividade duma pessoa torna-se a actividade
doutra, a actividade do seu proprietário fica alienada da pessoa
que a executa. Desta maneira, a vida, a realização de
um indivíduo no mundo, a diferença que a sua vida faz
na vida da humanidade, não são apenas transformadas em
trabalho, uma condição dolorosa para a sobrevivência;
elas são transformadas em actividade alienada, actividade desempenhada
pelo comprador daquele trabalho. Na sociedade capitalista, os arquitectos,
os engenheiros, os trabalhadores, não são os construtores;
o homem que compra trabalho deles é o construtor; os seus projectos,
cálculos e movimentos são alienados; a sua actividade
vital, a sua realização pertence ao comprador.
Os Sociólogos académicos (que encaram a venda da força
de trabalho como uma concessão) entendem a alienação
do trabalho como um sentimento: a actividade do trabalhador "aparece"
alienada deste, "parece" ser controlada por outro. No entanto,
qualquer trabalhador é capaz de explicar a um sociólogo
académico que a alienação não é um
sentimento nem uma ideia na cabeça do trabalhador, mas sim um
facto real sobre o seu quotidiano. A actividade vendida é, de
facto, alienada do trabalhador; o seu trabalho é, de fato, controlado
pelo comprador.
Na troca da sua actividade vendida, o trabalhador recebe dinheiro, o
meio de sobrevivência convencionalmente aceite na sociedade capitalista.
Com esse dinheiro pode comprar mercadorias, bens, mas não pode
voltar a comprar a sua actividade. Isto revela uma “falha”
peculiar sobre o dinheiro como "equivalente universal". Uma
pessoa pode vender mercadorias por dinheiro e pode comprar as mesmas
mercadorias com dinheiro. Pode vender a sua actividade vital por dinheiro,
mas não pode comprar a sua actividade vital com dinheiro.
As coisas que o trabalhador compra com os seus honorários são,
antes de tudo, bens de consumo necessários à sua sobrevivência,
para reproduzir força de trabalho, de modo a poder continuar
a vendê-la; essas mercadorias são também espectáculo,
objectos para admiração passiva. Ele consome e admira
passivamente os produtos da actividade humana. Não existe no
mundo como agente activo transformador. Mas como espectador sem recursos,
impotente, pode chamar a esse estado de impotente admiração
"felicidade", e mesmo que o trabalho seja penoso pode desejar
ser "feliz", ou seja inactivo, por toda a sua vida (uma condição
similar a renascer morto). As mercadorias, os espectáculos, consomem-no;
ele consome energia viva em admiração passiva; é
consumido pelas coisas. Neste sentido, quanto mais tem, menos é.
(Um indivíduo pode superar a sua morte-na-vida através
de actividades criativas marginais; mas a população não,
excepto abolindo a forma capitalista de actividade prática, abolindo
o trabalho assalariado, e por conseguinte, desalienando a actividade
criativa).
O Fetichismo das Mercadorias
Alienando as suas actividades e incorporando-as em
mercadorias (receptáculos materiais de trabalho humano), as pessoas
reproduzem-se e criam capital. Do ponto de vista da ideologia capitalista,
e particularmente dos economistas académicos, esta afirmação
é falsa: as mercadorias "não são só
produto do trabalho"; elas são produzidas pelos "factores
de produção" primordiais, Terra, Trabalho e Capital,
a Santíssima Trindade capitalista. O "factor" principal,
e obviamente o herói da peça, é o Capital.
O objectivo dos defensores dessa trindade superficial não é
a análise, dado que a análise não é aquilo
que esses especialistas são pagos para fazer. Eles são
pagos para ofuscar, para disfarçar a forma social de actividade
prática sob o capitalismo, para encobrir o facto de que os produtores
se reproduzem a si mesmos, reproduzem os exploradores e os instrumentos
com os quais são explorados. A fórmula da trindade não
é suficientemente convincente. É óbvio que a Terra
não produz mercadorias, assim como a água, o ar ou o sol.
Além disso, o Capital (que é ao mesmo tempo um nome para
a relação social entre trabalhadores e capitalistas, para
os instrumentos de produção geridos pelo capitalista,
e para o dinheiro-equivalência dos seus instrumentos e “intangíveis”),
não produz nada mais do que ejaculações publicadas
por economistas académicos. Mesmo os instrumentos de produção
que são o Capital de um capitalista, são "factores
de produção" primordiais apenas quando alguém
limita o seu campo visual a uma empresa capitalista isolada. A visão
da economia como um todo revela que o Capital de um capitalista suga
o trabalho alienado por outro capitalista. No entanto, mesmo que a fórmula
da Trindade não convença, ela cumpre a sua tarefa de ofuscação,
desviando o essencial da questão: em vez de perguntarem porque
é que a actividade das pessoas sob o capitalismo assume a forma
de trabalho assalariado, os potenciais analistas do quotidiano capitalista
são transformados em domesticados académicos marxistas
que perguntam se o trabalho é ou não o único "factor
de produção".
Por conseguinte, a Economia (e a ideologia capitalista em geral) trata
a terra, o dinheiro e os produtos do trabalho, como coisas que possuem
o poder de produzir, de criar valores, de trabalhar para os seus proprietários,
de transformar o mundo. Isto é o que Marx chamou fetichismo que
caracteriza as opiniões do dia-a-dia das pessoas, elevadas ao
nível do dogma pela Economia. Para o economista, as pessoas vivas
são coisas ("factores de produção"),
e as coisas vivem (o dinheiro "trabalha", o Capital "produz").
O adorador de fetiches (fetichista) atribui o produto da sua actividade
ao seu fetiche. Como resultado, ele cessa de exercer a sua potência
(de transformar a natureza, de determinar a forma e o conteúdo
do seu quotidiano); ele exerce apenas os "poderes" que atribui
ao seu fetiche (o "poder" de comprar mercadorias). Por outras
palavras, o fetichista castra-se a si mesmo e atribui virilidade ao
seu fetiche.
Mas o fetiche é uma coisa morta, não é um ser vivo,
não possui virilidade. O fetiche não é nada mais
do que algo para o qual e através do qual as relações
capitalistas são mantidas. O misterioso poder do capital, o seu
"poder" de produzir, a sua virilidade, não residem
nele, mas no facto das pessoas alienarem as suas actividades criativas,
de venderem o seu trabalho aos capitalistas, de materializarem ou reificarem
o seu trabalho alienado em mercadorias. Por outras palavras, as pessoas
são compradas com o produto das suas próprias actividades,
ainda que vejam as suas próprias actividades como actividades
do Capital, e seus produtos como produtos do capital. Atribuindo poder
criativo ao Capital e não à sua própria actividade,
as pessoas abdicam da sua actividade vital, da sua vida quotidiana,
em benefício do capital. Isto significa as pessoas sacrificam-se
diariamente para a personificação do capital, do capitalista.
Vendendo o seu trabalho, alienando a sua actividade, as pessoas reproduzem
no dia-a-dia as personificações das formas dominantes
de actividade sob o capitalismo, reproduzem o trabalhador assalariado
e o capitalista. Não reproduzem apenas os indivíduos fisicamente,
mas também socialmente; reproduzem indivíduos que são
vendedores da força de trabalho e indivíduos que são
proprietários dos meios de produção; reproduzem
os indivíduos assim como suas actividades específicas,
a venda assim como a propriedade.
Sempre que as pessoas desempenham uma actividade que não definiram
e não controlam, sempre que pagam por bens que produziram com
dinheiro recebido em troca de sua actividade alienada, sempre que admiram
passivamente os produtos da sua própria actividade, como objectos
alienados adquiridos com o seu dinheiro, elas dão vida nova ao
Capital e aniquilam as suas próprias vidas. O resultado desse
processo é a reprodução da relação
entre o trabalhador e o capitalista. Contudo, não é esse
o objectivo dos indivíduos envolvidos. As suas actividades não
lhes são transparentes; os seus olhos estão fixados no
fetiche que se mantém entre o acto e o resultado. Os agentes
individuais mantêm os olhos fixados nas coisas, precisamente naquelas
para as quais as relações capitalistas são estabelecidas.
O trabalhador como produtor deseja trocar o seu trabalho diário
por um salário em dinheiro, deseja precisamente aquilo que permite
restabelecer a sua relação com o capitalista, aquilo qual
o reproduz a si como trabalhador assalariado e ao outro como capitalista.
O trabalhador como consumidor troca o seu dinheiro por produtos do trabalho,
precisamente as coisas que o capitalista tem para vender e assim conseguir
o seu Capital.
A transformação diária da actividade vital em Capital
é mediada por coisas, mas não é efectuada pelas
coisas. O fetichista não sabe disto; para ele trabalho e terra,
instrumentos e dinheiro, empresários e banqueiros, são
todos "factores" e "agentes". Quando um caçador
que utiliza um amuleto abate um veado com uma pedra, ele talvez considere
o amuleto um "factor" essencial para o seu êxito, até
mesmo possibilitando magicamente a presença do veado como uma
presa a ser abatida pelo caçador. Se ele é um fetichista
responsável e bem-educado, devotará a sua atenção
para o amuleto, cuidando-o e admirando-o. Para melhorar as condições
materiais da sua vida, tentará aperfeiçoar o seu fetiche,
não a maneira de atirar a pedra; talvez até envie o seu
amuleto para "caçar" por ele. As suas actividades diárias
não lhe são transparentes: quando come bem não
consegue ver que é sua própria acção de
atirar a pedra e não a acção do amuleto que lhe
providência a comida; quando está faminto não consegue
ver que é a adoração do amuleto em vez de caçar,
e não a ira de seu fetiche, a causa de fome.
O fetichismo das mercadorias e do dinheiro, a mistificação
das actividades diárias das pessoas, a religião da vida
quotidiana que atribui actividade a coisas inanimadas, não é
um capricho mental nascido da imaginação dos homens; ele
tem origem na natureza das relações sociais sob o capitalismo.
Os homens, de facto, relacionam-se entre si através das coisas;
o fetiche é, de facto, a ocasião na qual actuam colectivamente
e através do qual reproduzem as suas actividades. Mas não
é o fetiche que actua. Não é o Capital que transforma
a matéria-prima, nem é o Capital que produz bens. Se a
actividade vital não transformasse esses materiais, eles continuariam
inertes, matéria morta. Se os homens não estivessem dispostos
para continuar a vender a sua actividade viva, a impotência do
Capital seria revelada; o Capital deixaria de existir; a sua última
potência remanescente seria o poder de relembrar as pessoas de
um passado em que a vida quotidiana se caracterizava pela prostituição
universal e diária.
O trabalhador aliena a sua vida para preservar a sua
vida. Se não vendesse a sua actividade não ganharia um
salário e não poderia sobreviver. No entanto, não
é o salário que faz da alienação a condição
de sobrevivência. Se os homens decidissem colectivamente não
vender as suas vidas, se estivessem dispostos a assumir o controle das
suas actividades, a prostituição universal não
seria uma condição para a sobrevivência. É
a disposição das pessoas para continuar a vender o seu
trabalho, e não as coisas pelas quais o vendem, que faz com que
a alienação da actividade vital seja necessária
para a preservação da vida.
A actividade vital vendida pelo trabalhador é
comprada pelo capitalista. E é apenas essa actividade que respira
vida no Capital e o torna "produtivo". O capitalista, "proprietário"
das matérias-primas e dos instrumentos de produção,
exibe os objectos naturais e o produto do trabalho das outras pessoas
como a sua própria "propriedade privada". Mas não
é o misterioso poder do Capital que cria a "propriedade
privada" do capitalista; a actividade vital é que cria a
"propriedade privada", e a forma dessa actividade é
o que a mantém "privada".
Transformação da Actividade Vital
em Capital
A transformação de actividade vital em
Capital acontece através das coisas, mas não pelas coisas.
As coisas que são os produtos da actividade humana, parecem ser
agentes activos porque as actividades e contactos são estabelecidos
para e através delas, e porque as actividades das pessoas não
lhes são transparentes; confundem o objecto mediado com a causa.
No processo de produção capitalista, o trabalhador incorpora
ou materializa a sua energia vital alienada num objecto inerte, usando
instrumentos que são materializações das actividades
de outras pessoas (instrumentos industriais sofisticados incorporam
a actividade intelectual e manual de incontáveis gerações
de inventores, aperfeiçoadores e produtores do mundo inteiro
e das mais variadas formas de sociedade). Os instrumentos por si só
são objectos inertes; são a incorporação
material de actividade vital mas não estão vivos. O único
agente activo no processo de produção é o trabalhador.
Ele usa produtos do trabalho doutras pessoas e dá-lhe vida que
é a sua própria vida; não é capaz de ressuscitar
os indivíduos que contribuíram com actividade vital para
o seu instrumento. O instrumento talvez lhe permita fazer mais durante
um dado período, e neste sentido, talvez aumente a sua produtividade.
Mas só o trabalho vivo que é capaz de produzir pode ser
produtivo.
Por exemplo, quando um trabalhador industrial dirige um torno mecânico,
utiliza produtos do trabalho de gerações de físicos,
inventores, engenheiros e fabricantes de tornos mecânicos. Ele
é obviamente mais produtivo do que o artesão que esculpe
o mesmo objecto. Mas não faz sentido considerar que o "capital"
disponível para o trabalhador industrial é mais "produtivo"
do que o "capital" do artesão. Se gerações
de actividade intelectual e manual não fossem incorporadas no
torno mecânico, se o trabalhador industrial tivesse de inventar
o torno, a electricidade e o torno eléctrico, então levar-lhe-ia
numerosas vidas para rodar um simples objecto no torno mecânico,
e nenhum montante de Capital poderia cobrir a produtividade acima da
conseguida pelo artesão que trabalha o objecto à mão.
A noção de "produtividade do capital" e particularmente,
a medição detalhada da "produtividade", são
invenções da "ciência" da Economia, religião
do quotidiano do capitalista que consome a energia das pessoas na adoração,
admiração e adulação do fetiche central
da sociedade capitalista. Colegas medievais desses "cientistas"
efectuaram detalhadas medidas de largura e altura dos anjos no Céu,
sem nunca terem perguntado se os anjos e o Céu existiam, porque
tinham a certeza da existência de ambos.
O resultado da actividade alienada do trabalhador é
um produto que não lhe pertence. Este produto é uma incorporação
de seu trabalho, uma materialização de parte da sua vida,
um receptáculo que contém a sua actividade vital. Ele
não decide quando, como, e o que fazer, nem é dono do
que faz. Se o trabalhador quiser apossar-se do que fez, será
como comprador. O que ele desenvolve não é apenas um produto
com algumas utilidades; para isso não precisaria de vender o
seu trabalho ao capitalista em troca de um salário, teria apenas
que escolher os materiais necessários e as ferramentas disponíveis
para produzir, guiado pelos seus objectivos, e limitado pelos seus conhecimentos
e habilidades. (É óbvio que um indivíduo só
pode fazer isso marginalmente; a livre apropriação e o
uso de materiais e ferramentas disponíveis só acontecerá
quando a forma capitalista de actividade for abolida.). O que o trabalhador
produz em condições capitalistas é um produto com
uma propriedade muito específica, a vendabilidade. O que a sua
actividade alienada produz é uma mercadoria.
A produção capitalista é produção
de mercadorias; a afirmação de que o objectivo do processo
é a satisfação de necessidades humanas, é
falsa; é uma racionalização e uma apologia. A “satisfação
das necessidades humanas” não é o objectivo do capitalista
ou do trabalhador ocupado na produção, nem é o
resultado do processo. O trabalhador vende o seu trabalho por um salário;
o conteúdo específico do salário é-lhe indiferente;
ele não aliena o seu trabalho a um capitalista que não
lhe dê um salário em troca, não importando as necessidades
humanas que esses produtos possam satisfazer. O capitalista compra trabalho
e investe-o na produção de mercadorias. Ele é indiferente
às propriedades específicas do produto e às necessidades
das pessoas. Tudo o que lhe interessa a respeito do produto é
por quanto este será vendido, e tudo o que lhe interessa a respeito
das necessidades das pessoas é a quantidade que "precisam"
de comprar e como podem ser coagidas, através da propaganda e
do condicionamento psicológico, a "necessitar" de mais.
O objectivo do capitalista é satisfazer a sua necessidade de
reproduzir e acumular Capital, e o resultado desse processo é
a expansão ampliada do trabalho assalariado e do Capital (que
não são "necessidades humanas").
A mercadoria produzida pelo trabalhador é trocada pelo capitalista
por uma quantidade específica de dinheiro; a mercadoria é
um valor que se troca por um valor equivalente. Por outras palavras,
o trabalho (passado e presente) materializado no produto pode existir
sob duas formas distintas e equivalentes, mercadoria e dinheiro, ou
no que é comum a ambos, valor. Isso não significa que
valor é trabalho. Valor é uma forma social de trabalho
dogmatizado (materializado) na sociedade capitalista.
No capitalismo, as relações sociais não são
estabelecidas directamente; elas são estabelecidas através
do valor. A actividade diária não é trocada directamente;
ela é trocada sob a forma de valor. Consequentemente, o que acontece
com a actividade vital no capitalismo não pode ser descrito observando
a actividade em si, mas apenas seguindo as metamorfoses do valor.
Quando a actividade vital das pessoas toma a forma de trabalho (actividade
alienada), adquire a propriedade de permutabilidade, adquire a forma
de valor. Por outras palavras, o trabalho pode ser trocado por uma quantidade
de dinheiro "equivalente" (salário). A alienação
deliberada de actividade vital que é entendida como necessária
para a sobrevivência pelos membros da sociedade capitalista, reproduz
a forma capitalista na qual a alienação é necessária
para a sobrevivência. Justificando-se pelo facto da actividade
vital ter a forma de valor, os produtos dessa actividade devem também
assumir a forma de valor: devem poder ser trocados por dinheiro. É
óbvio que se os produtos do trabalho não tomassem a forma
de valor, mas por exemplo, a de objectos úteis à disposição
da sociedade, então permaneceriam nas fábricas ou seriam
levados gratuitamente pelos membros da sociedade, quando a necessidade
surgisse; neste caso, o dinheiro não teria valor e a actividade
vital não poderia ser vendida por uma quantidade de dinheiro
"equivalente". A actividade vital não poderia ser alienada.
Consequentemente, assim que a actividade vital assume a forma de valor,
os produtos dessa actividade tomam a forma de mercadoria, e a reprodução
do quotidiano acontece através das mudanças ou metamorfoses
do valor.
O capitalista vende os produtos do trabalho num mercado, troca-os por
uma quantidade equivalente de dinheiro, realiza um determinado valor.
A magnitude específica desse valor num mercado particular é
o preço das mercadorias. Para o economista académico,
o preço é a chave de São Pedro para as portas do
céu. Como o próprio Capital, o Preço move-se num
mundo maravilhoso que consiste inteiramente em objectos; os objectos
têm relações humanas uns com os outros e estão
vivos; transformam-se, comunicam-se, casam-se e têm filhos! E
é claro, na sociedade capitalista, as pessoas são felizes
através da graça desses inteligentes, poderosos e criativos
objectos!
Nas representações pictóricas dos economistas,
os anjos, trabalhadores celestiais, fazem tudo e os homens nada fazem;
os homens simplesmente gozam o que os anjos fazem para eles. Não
apenas o Capital produz e o dinheiro trabalha, como outros misteriosos
seres possuem virtudes similares. Por conseguinte, a Oferta, uma quantidade
de coisas que são vendidas, e a Procura, uma quantidade de coisas
que são compradas, determinam o preço, a quantidade de
dinheiro. Quando a Oferta e a Procura se casam num ponto particular
do diagrama, elas dão à luz o Ponto de Equilíbrio
dos preços, que corresponde a um estado universal de bem-aventurança.
As actividades do quotidiano são desempenhadas pelas coisas,
e as pessoas são reduzidas a coisas ("factores de produção")
durante as horas "produtivas", e em espectadores passivos
durante o seu tempo de lazer. O mérito do economista consiste
em atribuir o resultado das actividades quotidianas às coisas,
e em não ver a actividade das pessoas por detrás da extravagância
das coisas. Para o economista, as coisas (por meio das quais a actividade
das pessoas é regulada no capitalismo) são ao mesmo tempo
mães e filhos, as causas e as consequências da sua própria
actividade.
A magnitude do valor, ou seja, o preço da mercadoria, a quantidade
de dinheiro pela qual é trocada, não é determinada
pelas coisas, mas pelas actividades quotidianas das pessoas. Procura
e oferta, concorrência perfeita e imperfeita, não são
mais nada do que formas sociais de produtos e actividades na sociedade
capitalista; elas não têm vida própria. O facto
da actividade ser alienada, ou seja, o trabalho-tempo ser vendido por
uma quantidade específica de dinheiro, de ter um valor específico,
tem consequências para a magnitude do valor dos produtos daquele
trabalho. O valor das mercadorias vendidas deve ser, no mínimo,
igual ao trabalho-tempo que nelas foi incorporado. Isto é aplicável
tanto à empresa capitalista como à sociedade. Se o valor
das mercadorias vendidas pelo capitalista fosse menor do que o valor
do trabalho que ele contratou, a empresa iria logo à falência.
Socialmente, se o valor das mercadorias produzidas for menor do que
o valor investido na sua produção, a força de trabalho
não consegue reproduzir-se, para não falar nos capitalistas.
Contudo, se o valor das mercadorias for igual ao trabalho-tempo investido
na sua produção, os produtores de mercadorias apenas se
reproduziriam a si mesmos e a sociedade já não seria uma
sociedade capitalista; a sua actividade poderia consistir na produção
de mercadorias mas não seria uma produção capitalista
de mercadorias.
Para o trabalho criar capital, o valor dos produtos do trabalho deve
ser maior do que o valor do trabalho. Por outras palavras, a força
de trabalho deve produzir um sobreproduto, uma quantidade de bens que
ela não consome, e esse sobreproduto deve ser transformado em
sobrevalor ou mais-valia, uma forma de valor que não é
apropriada pelos trabalhadores como salário, mas pelos capitalistas
como lucro. Posteriormente, o valor dos produtos do trabalho deve ser
ainda maior, porque o trabalho vivo não é a única
espécie de trabalho materializado nesses produtos. No processo
de produção, os trabalhadores gastam a sua própria
energia mas também utilizam o trabalho doutros, acumulado nesses
instrumentos, e transformam matérias-primas nas quais foi dispendido
um trabalho prévio.
Isto leva a um estranho resultado: o valor dos produtos do trabalhador
e o valor do seu salário são de magnitudes diferentes,
ou seja, a quantidade de dinheiro recebida pelo capitalista, quando
vende as mercadorias produzidas pelos seus trabalhadores contratados,
é diferente da quantidade que ele paga aos trabalhadores. Esta
diferença não é explicada pelo facto dos materiais
usados e ferramentas terem de ser pagos. Se o valor de uma mercadoria
vendida fosse igual ao valor do trabalho vivo e dos instrumentos, não
haveria lugar para os capitalistas. O facto é que a diferença
entre essas duas magnitudes deve ser suficientemente grande para sustentar
a classe capitalista; não apenas os indivíduos, mas também
a actividade específica reservada a estes indivíduos,
ou seja, a compra da força de trabalho. A diferença entre
a venda total dos produtos e o valor do trabalho gasto na sua produção
é a mais-valia, a essência do capital.
Para desvendar a origem da mais-valia, é necessário examinar
porque é que o valor do trabalho é menor do que o valor
das mercadorias produzidas por este. A actividade alienada do trabalhador
transforma materiais com a ajuda de instrumentos, e produz uma certa
quantidade de mercadorias. Contudo, quando essas mercadorias são
vendidas e os materiais e instrumentos usados foram pagos, os trabalhadores
não recebem o valor remanescente com salário, é-lhes
dado menos. Por outras palavras, durante o dia de trabalho os trabalhadores
executam uma certa quantidade de trabalho não pago, trabalho
forçado, pelo qual não recebem o equivalente.
A realização desse trabalho não remunerado é
outra "condição de sobrevivência" na sociedade
capitalista. No entanto, tal como a alienação, esta condição
não é imposta pela natureza, mas pela prática colectiva
das pessoas, pelas suas actividades diárias. Antes da existência
de sindicatos, o trabalhador individual aceitava qualquer trabalho forçado,
pois a rejeição do trabalho implicaria que outros trabalhadores
aceitassem essas condições e o trabalhador individual
não receberia salário. Os trabalhadores competiam uns
com os outros por salários oferecidos pelos capitalistas; se
um trabalhador desistia do emprego por considerar o salário muito
baixo, um trabalhador desempregado estava disposto a substitui-lo, porque
para o desempregado um salário baixo é melhor do que nada.
Esta competição entre trabalhadores é chamada de
"trabalho livre" pelos capitalistas, que fazem grandes sacrifícios
para manter essa liberdade dos trabalhadores, uma vez que foi precisamente
essa liberdade que preservou a mais-valia do capitalista e tornou possível
a acumulação de capital. Nenhum trabalhador tem vontade
de produzir mais do que aquilo que lhe pagam. O seu desejo é
ganhar um salário mais bem remunerado. No entanto, a existência
de trabalhadores desempregados que não ganham salário
algum, e cuja concepção de um salário alto era
consequentemente mais modesta do que a de um trabalhador empregado,
fez com que fosse possível para o capitalista contratar trabalho
por um salário mais baixo. De facto, a existência de trabalhadores
desempregados permite ao capitalista pagar o salário mais baixo
que os trabalhadores estão dispostos a receber para trabalhar.
Assim, o resultado da actividade quotidiana dos trabalhadores, cada
um lutando individualmente pelo maior salário possível,
foi baixar o salário de todos. O efeito da competição
de cada um contra todos, foi que todos ganharam o mínimo possível
e o capitalista extraiu o máximo possível de mais-valia.
A prática quotidiana de todos anula os objectivos de cada um.
Mas os trabalhadores não sabiam que a sua situação
resultava do seu comportamento diário; as suas próprias
actividades não lhes eram transparentes. Para os trabalhadores,
o salário baixo parece ser simplesmente uma parte natural da
vida, como a doença e a morte, e a redução do salário
uma catástrofe natural, como uma inundação ou um
Inverno intenso. As críticas dos Socialistas e as análises
de Marx, assim como o aumento do desenvolvimento industrial que trouxe
mais tempo para reflexão, descobriram alguns dos disfarces e
tornaram possível aos trabalhadores ver mais além das
suas actividades. No entanto, na Europa Ocidental e nos Estados Unidos,
os trabalhadores não repudiaram a forma capitalista do quotidiano;
eles formaram sindicatos. E em condições materiais diferentes,
na Rússia e na Europa Oriental, os trabalhadores (e os camponeses)
substituíram a burguesia por um estado burocrático, que
comprava trabalho alienado e acumulava Capital em nome de Marx.
Com os sindicatos, o quotidiano é semelhante ao que era sem os
sindicatos. De facto, é quase igual. O quotidiano continua a
consistir em trabalho (actividade alienada) forçado e não
pago. O trabalhador sindicalizado já não negoceia os termos
da sua alienação; os funcionários do sindicato
fazem-no por ele. Os termos nos quais a actividade do trabalhador é
alienada, não são guiados pela necessidade individual
do trabalhador em aceitar o que é possível. Agora os trabalhadores
são guiados pela necessidade burocrática do sindicato,
em manter a sua posição como intermediário entre
os vendedores e compradores de trabalho.
Com ou sem sindicatos, a mais-valia não é um produto da
natureza ou do Capital; é criada pelas actividades quotidianas
das pessoas. No desempenho das suas actividades quotidianas, as pessoas
não só estão dispostas a alienar essas actividades,
como também a reproduzir as condições em que são
forçadas a alienar as suas actividades, a reproduzir Capital
e o poder do Capital para comprar trabalho. Isto não é
porque não saibam "qual é a alternativa". Uma
pessoa incapacitada por indigestão crónica, derivada da
ingestão excessiva de gordura, não continua a ingerir
gordura porque não sabe "qual é a alternativa".
Ou prefere ser incapaz de desistir da gordura, ou então não
é claro para ela que o consumo diário de gordura lhe causa
essa incapacidade. E se seu doutor, pastor, professor e político
lhe disser, primeiro, que a gordura é o que a mantém viva,
e segundo, que eles já fazem tudo o que ela faria se estivesse
bem, então não surpreende que a sua actividade não
lhe seja transparente e que não se esforce por torná-la
transparente.
A produção de mais-valia é uma questão de
sobrevivência, não para a população, mas
para o sistema capitalista. A mais-valia é a porção
do valor das mercadorias produzidas pelo trabalho que não é
devolvida aos trabalhadores. Pode ser expressa em mercadorias ou em
dinheiro (tal como o Capital pode ser expresso em quantidade de mercadorias
ou de dinheiro), mas isso não altera o facto de que é
uma expressão para o trabalho materializado depositado numa dada
quantidade de produtos. Desde que os produtos possam ser trocados por
uma "equivalente" quantidade de dinheiro, o dinheiro representa
o valor dos produtos. O dinheiro pode, inversamente, ser trocado por
outra quantidade de produtos de valor "equivalente". O conjunto
dessas trocas, que ocorrem simultaneamente durante o quotidiano, constitui
o processo capitalista de circulação. É através
deste processo que acontece a metamorfose da mais-valia em Capital.
A porção de valor que não retorna ao trabalhador,
ou seja, a mais-valia, permite a existência do capitalista e também
lhe permite fazer muito mais do que simplesmente existir. O capitalista
investe uma porção da mais-valia, contrata novos trabalhadores
e compra novos meios de produção, expande o seu domínio.
Isto significa que o capitalista acumula novo trabalho, ambos na forma
de trabalho vivo que ele contrata, e de trabalho passado (pago e não
pago) que é depositado nos materiais e máquinas que compra.
A classe capitalista como um todo acumula a mais-valia do trabalho da
sociedade, mas esse processo ocorre numa escala social e consequentemente
não pode ser visto se observarmos apenas as actividades de um
capitalista. Cabe lembrar que os produtos comprados como instrumentos
têm as mesmas características dos produtos vendidos. Um
capitalista vende instrumentos a outro capitalista por uma dada quantidade
de valor e apenas uma parte desse valor é devolvido aos trabalhadores
como salário; a parte restante é mais-valia, com a qual
o primeiro compra novos instrumentos e trabalho. O segundo compra os
instrumentos por um dado valor, o que significa que ele paga pela quantidade
total de trabalho expropriada pelo primeiro, tanto pela quantidade remunerada
como pela quantidade não remunerada. Isto significa, que os instrumentos
acumulados pelo segundo capitalista contêm o trabalho não
pago executado para o primeiro. O segundo, por sua vez, vende os seus
produtos por um dado valor e devolve apenas uma porção
de seu valor aos trabalhadores; utiliza o restante para novos instrumentos
e trabalho.
Se todo o processo fosse comprimido num único
período de tempo, e se todos os capitalistas fossem agregados
num só, seria visto que o valor com o qual o capitalista adquire
novos instrumentos e trabalho é igual ao valor dos produtos que
ele não devolveu aos produtores. Esse trabalho acumulado em mais-valia
é capital. Nos termos da sociedade capitalista como um todo,
o Capital total é igual à quantidade de trabalho não
pago efectuado por inumeráveis gerações de seres
humanos, cujas vidas consistiram na alienação diária
de sua actividade. Por outras palavras, o Capital ao qual os homens
vendem os seus dias de vida, é o produto da actividade vendida
por estes, e é reproduzido e expandido sempre que um homem vende
outro dia de trabalho, em cada momento que decide continuar a viver
a forma capitalista do quotidiano.
Armazenamento e acumulação da
actividade humana
A transformação do trabalho excedente
em Capital é uma forma histórica específica de
um processo mais geral, o processo de industrialização,
a transformação permanente do ambiente material do homem.
Algumas características essenciais desta consequência da
actividade humana, sob o capitalismo, podem ser compreendidas por meio
de uma ilustração simplificada. Numa sociedade imaginária
as pessoas gastam a maior parte de seu tempo activo produzindo comida
e outras necessidades. A actividade excedente pode ser dedicada à
produção de alimentos para sacerdotes e guerreiros que
não produzem nada. Pode também ser devotada à produção
de bens que são queimados em rituais sagrados ou mesmo usados
em cerimónias ou exercícios de ginástica. Em qualquer
um dos casos, as condições materiais de existência
dessas pessoas não mudam de uma geração para outra,
como resultado das suas actividades quotidianas. No entanto, uma geração
pode acumular a produção excedente em vez de consumi-la.
O trabalho excedente acumulado da geração anterior irá
providenciar à nova geração uma quantidade maior
de tempo e trabalho excedente. Num período relativamente curto,
o trabalho acumulado irá exceder o tempo de trabalho disponível
para qualquer geração; com o baixo consumo de energia,
as pessoas dessa sociedade imaginária seriam capazes de provisionar
para a maioria das tarefas necessárias e também para as
tarefas das futuras gerações. A maioria das horas que
inicialmente gastavam a produzir utilidades estaria agora disponível
para actividades não ditadas pela necessidade, mas projectadas
pela imaginação.
À primeira vista não parece razoável que as pessoas
se dediquem à bizarra tarefa de produzir e armazenar excedentes.
Dado que podem consumir esses excedentes, é pouco provável
que armazenem para futuras gerações o que seria suficiente,
por exemplo, para realizar um maravilhoso espectáculo em dias
festivos. No entanto, se as pessoas não dispuseram das suas próprias
vidas, se a sua actividade laboral não lhes pertencia, se a sua
prática consistiu em trabalho forçado, então essa
actividade humana pode muito bem ser orientada para a tarefa de armazenar
tempo de trabalho excedente em receptáculos materiais. A função
histórica do Capitalismo, função preservada pelas
pessoas que aceitaram a legitimidade doutros disporem das suas próprias
vidas, consistiu precisamente no armazenamento da actividade humana
(valor), em receptáculos materiais (mercadorias), por meio do
trabalho forçado.
Quando se submetem ao "poder" do dinheiro
para comprar trabalho armazenado assim como actividade vital, quando
aceitam o “direito” fictício de protectores do dinheiro
para controlar e dispor do armazenado e da actividade vital da sociedade,
as pessoas transformam dinheiro em Capital e os donos do dinheiro em
Capitalistas.
Esta dupla alienação, a alienação
da actividade viva na forma de trabalho assalariado e a alienação
da actividade das gerações passadas na forma de trabalho
armazenado (meios de produção), não é um
acto único que aconteceu na história. A relação
entre trabalhadores e capitalistas não é uma coisa que
se impôs na sociedade num momento passado, uma vez e para sempre.
Os homens nunca assinaram um contrato nem mesmo fizeram um acordo verbal
no qual abdicavam do poder sobre suas actividades, e no qual abdicavam
do poder sobre a actividade viva de todas as gerações
futuras, no mundo inteiro.
O Capital veste a máscara duma força
natural, parece tão sólido como a própria terra;
os seus movimentos parecem tão irreversíveis como as marés;
a sua crise parece tão inevitável como são terramotos
e as enchentes. Mesmo quando se admite que o poder do Capital é
criado pelos homens, talvez seja meramente para inventar a máscara
de uma força feita pelo homem, um Frankenstein, cujo poder inspira
mais terror do que qualquer outra força natural. No entanto,
o Capital não é uma força natural nem um monstro
criado pelo homem no passado e que desde então dominará
a vida humana para sempre. O poder do Capital não reside no dinheiro,
desde que o dinheiro é uma convenção social a qual
não tem mais "poder" do que aquele que os homens lhe
estão dispostos a conceder. Quando o homem se recusa a vender
o seu trabalho, o dinheiro não executa sequer as tarefas mais
simples, porque o dinheiro não "trabalha".
Nem o poder do Capital reside nos receptáculos
materiais, nos quais o trabalho das gerações passadas
está armazenado, dado que a energia armazenada nesses receptáculos
é Capital, isto é, propriedade alienada. Sem a actividade
vital, a colecção de objectos que constituem o Capital
da sociedade seria meramente um monte de artefactos dispersos, sem vida
própria, e os “proprietários” do Capital seriam
um monte de pessoas não criativas, rodeadas de bocados de papel
numa tentativa falhada para ressuscitar memórias dum passado
grandioso. O único poder do Capital reside nas actividades diárias
das pessoas; este “poder” consiste na disponibilidade das
pessoas para venderem as suas actividades diárias por dinheiro,
e por desistirem do controlo sobre os produtos da sua própria
actividade e da actividade de gerações anteriores.
Sempre que uma pessoa vende o seu trabalho a um capitalista
e aceita apenas uma parte de seu produto como pagamento, cria condições
para compra e exploração doutras pessoas. Nenhum homem
daria voluntariamente o seu braço ou o seu filho em troca de
dinheiro, mesmo quando um homem vende a sua vida laboral, deliberada
e conscientemente, para obter as suas necessidades, não só
reproduz as condições que continuam a fazer da venda da
sua vida uma necessidade para a sua preservação, como
também cria condições que fazem da venda da vida
uma necessidade para outras pessoas. As gerações posteriores
podem-se recusar a vender as suas vidas de trabalho, pelas mesma razão
que aquele se recusou a vender o seu braço; contudo, cada falha
na recusa de trabalho forçado e alienado aumenta a disponibilidade
de trabalho acumulado, com o qual o Capital pode comprar vidas de trabalho.
Para transformar o trabalho excedente em capital, o
capitalista tem de descobrir uma maneira de guardá-lo, em recipientes
materiais, em novos meios de produção, e deve contratar
novos trabalhadores para activar novos meios de produção.
Por outras palavras, ele deve aumentar a sua empresa, ou começar
uma nova noutro ramo de produção. Isto requer a existência
de compradores de novos produtos e a existência de pessoas que
são pobres o suficiente para desejarem vender sua força
de trabalho. Os capitalistas não reconhecem limites ou obstáculos
para as suas actividades; a democracia exige liberdade absoluta para
o capital. O imperialismo não é só o "último
estágio" do capitalismo, é também o primeiro.
Tudo o que possa ser transformado numa mercadoria é
lançado no moinho do capital, esteja na terra do capitalista
ou na terra do vizinho, seja subterrâneo ou esteja à superfície,
no mar ou no ar, noutros continentes ou mesmo noutros planetas; todas
as conquistas e conhecimentos obtidos pela exploração
da natureza, da Alquimia à Física, são mobilizadas
para encontrar novos receptáculos materiais que armazenem trabalho,
para inventar novos objectos que alguém possa ser convencido
a comprar.
Compradores de velhos e novos produtos são criados
por todos os meios possíveis e disponíveis. Novos meios
são descobertos e "mercados abertos" pela força
e pela fraude. Se falta dinheiro às pessoas para comprar os produtos,
elas são empregadas pelos capitalistas e pagas para produzir
os bens que desejam comprar. Se artesãos locais já produzem
o que os capitalistas têm para vender, os artesãos serão
arruinados. Se leis ou tradições proíbem o uso
de certos produtos, as leis e tradições são destruídas.
Se as pessoas não têm desejos físicos ou biológicos,
então os capitalistas "satisfazem" os seus "desejos
espirituais" e empregam psicólogos para os inventar. Se
as pessoas estão tão saciadas que não podem usar
objecto novos, então são ensinadas a comprar objectos
e espectáculos que não têm uso mas podem ser simplesmente
observados e admirados.
Os pobres são encontrados em comunidades agrárias
e pré-agrárias em cada continente. Se não são
pobres o suficiente para desejar vender o seu trabalho quando os capitalistas
chegam, são empobrecidos pelas próprias actividades dos
capitalistas. As terras dos caçadores tornam-se gradualmente
"propriedade privada" de "proprietários"
que utilizam a violência estatal para restringir os caçadores
a "reservas" que não contêm caça suficiente
para mantê-los vivos. As ferramentas dos camponeses tornam-se
gradualmente disponíveis, apenas para o mesmo comerciante que
generosamente lhes empresta dinheiro com o qual compraram as ferramentas,
até que as "dívidas" dos camponeses são
tão grandes que são forçados a vender a terra que
nem eles ou qualquer um de seus ancestrais havia comprado. Os compradores
de produtos artesanais subjugam gradualmente os vendedores, até
chegar o dia em que o comprador decide instalar os seus artesãos
debaixo do mesmo teto, e provê-los com instrumentos que lhes facilitam
concentrar as suas actividades na produção dos artigos
de maior lucro. Caçadores independentes como não independentes,
camponeses e artesãos, homens livres, assim como escravos, são
transformados em trabalhadores assalariados. Aqueles que previamente
dispunham da sua própria vida, face a condições
materiais severas, cessaram de dispor dela precisamente quando empreenderam
a tarefa de mudar essas mesmas condições materiais. Aqueles
que antes eram criadores conscientes da sua pobre existência,
tornaram-se vítimas inconscientes das suas actividades enquanto
aboliam a pobreza da sua existência. Os homens que foram muito
mas tinham pouco, agora têm muito mas são pouco.
A produção de novas mercadorias, a “abertura”
de novos mercados, a criação de novos trabalhadores, não
são três actividades separadas; são três aspectos
da mesma actividade. Uma nova força de trabalho é criada
precisamente para produzir novas mercadorias; os salários recebidos
por esses trabalhadores são o novo mercado; o seu trabalho não
pago é a fonte da nova expansão. As barreiras naturais
ou culturais não impedem a expansão do Capital, a transformação
da actividade quotidiana das pessoas em trabalho alienado, a transformação
da sua mais-valia em "propriedade privada". Contudo, o Capital
não é uma força natural, é um conjunto de
actividades executadas todos os dias por pessoas; é a forma da
vida quotidiana; a sua contínua existência e expansão
pressupõem apenas uma condição essencial: a disposição
das pessoas para continuar a alienar as suas vidas ao trabalho e, por
conseguinte, reproduzir a forma capitalista do quotidiano.
Kalamazoo, 1969
Fredy Perlman
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