COMUNIZAÇÃO:
um apelo e um convite.
INTRODUÇÃO
Um acaso objectivo fez coincidir na primavera de 2004 duas tentativas
de afirmação de uma corrente “comunizadora”. Por um lado, houve uma reunião
preparatória da revista Meeting*, reunião na qual se
encontrariam várias pessoas que se reclamam desta corrente – se bem que neste
caso se tratava sobretudo de gente próxima a Théorie Communiste [1]. Paralelamente, e sem nenhum vínculo visível com dito projecto de
revista, apareceu um pequeno livro, Appel** (”Apelo”), sem indicação de autor nem de lugar de publicação, como
contributo às actividades que tendem à comunização.
Falar de comunização é afirmar que a futura revolução não
terá nenhum sentido emancipador nem possibilidade de sucesso a não ser que
desenvolva desde o começo uma transformação comunista em todos os planos, da
produção de alimentos até ao modo como comê-los, passando pela forma de nos
deslocarmos, onde vivemos, como aprendemos, viajamos, lemos, do modo como nos
entregamos ao ócio, como nos amamos e odiamos, como discutimos e decidimos o
nosso futuro, etc. Este processo não substitui, mas acompanha e reforça a
destruição (necessariamente violenta) do Estado e das instituições políticas
que sustentam a mercadoria e a exploração salarial. Esta transformação, que se
dará à escala planetária, se estenderá sem dúvida ao longo de algumas gerações,
mas não consistirá em que se tenha que criar previamente as bases de uma
sociedade futura destinada a realizar-se só depois de uma fase mais ou menos
longa de “transição”. Esta transformação não seria uma mera consequência da
conquista (ou da demolição) do poder político, que posteriormente daria lugar a
uma alteração social profunda. Seria o contrário do que resume a fórmula de
Victor Serge (então bolchevique), que escreveu em 1921: “Toda a revolução é um
sacrifício do presente em nome do futuro” [2]. Para dizê-lo positivamente: não se trata somente de fazer, mas de
ser a revolução.
Se o que se chama “corrente comunizadora” designa o conjunto
dos que se situam nesta perspectiva, fazemos parte dela e consideramos saudável
todo esforço colectivo que aponta nesse sentido. No entanto, rejeitamos o
convite à reunião preparatória da revista projectada.
ENCONTRO
O acordo sobre a comunização é uma condição sine qua non para um reagrupamento, mas não é suficiente. Os textos
escolhidos para a reunião incluíam um extenso artigo de Karl Nesic [3] no qual se expunha nomeadamente a nossa divergência com Théorie Communiste, divergência essa
bastante profunda para tornar mais ou menos impossível a colaboração teórica.
Se tal como pensa Théorie
Communiste nós caímos no humanismo idealista, ou se tal como pensamos nós
eles caem no estruturalismo determinista, isto impede todo o esforço teórico em
comum, e inclusive torna difícil a discussão. Não saberíamos como discutir
senão havendo acordo sobre o essencial, havendo entendimento sobre as questões
a colocar, divergindo no entanto nas respostas a dar-lhes.
Em nossa opinião, nem a revolução era logicamente impossível
no passado, como não se tornou logicamente possível e menos ainda inelutável há
alguns anos. É só uma possibilidade, que evidentemente se relaciona com o grau
e as formas do desenvolvimento capitalista neste momento histórico, mas que não
depende desse grau de desenvolvimento para acontecer. Nenhum umbral a faz
impossível, ou possível, nem sequer indispensável. A revolução era possível em
meados do século XIX tal como ainda o é a princípios do século XXI. Se ocorrer,
será antes de mais o resultado da actividade dos proletários. Será ruptura e
auto-emancipação. As razões do fracasso das tentativas passadas não é preciso
buscá-las no grau de desenvolvimento do capital, mas na própria actividade do
proletariado. O essencial não é o que a sociedade faz de nós, mas o que nós
fazemos com o que ela faz de nós.
O capital não é nenhuma entidade regida por leis que acabam
provocando um inevitável levantamento proletário, mas é uma contradição social
A teoria revolucionária e as suas “análises concretas da situação
concreta” baseiam-se evidentemente em premissas teóricas, mas não pretendem
abranger todo o passado e o presente deste mundo. Mesmo que se sinta no dever
de ser o mais rigorosa possível, a teoria comunista não é científica: não
pretende construir um objecto de estudo independente do quem o estuda, a partir
dessa posição privilegiada na qual o cientista acha poder controlar a
totalidade do fenómeno e alcançar as suas leis. A teoria comunista também não é
profética. Toda a profecia é irrefutável e imune ao desmentido dos factos, já
que ao estar situada a um nível supra-histórico, é pela sua própria natureza
inacessível à vulgar materialidade. O recorrente debate no movimento comunista
acerca da inevitabilidade da revolução não tem fim nem sentido. Somos
refutáveis…
…nomeadamente quando afirmamos que a realidade social actual
impede que o comunismo esteja na ordem do dia; que a revolução, no sentido em
que a concebe a corrente comunizadora, hoje em dia não é mais que um tema de
debate para um punhado de indivíduos e grupos, e que nisso não há nada de
significativamente diferente da situação que prevalecia há dez ou quinze anos.
A iniciativa continua a pertencer à burguesia, e a única crítica “real” deste
mundo é a do reformismo radical, de resto até agora sem nenhum verdadeiro
conteúdo ou repercussão social. A nossa época está marcada pela impotência dos
proletários em geral, e pela dos comunistas em particular.
Actualmente, mais ainda que no passado, não faz sentido achar
que a teoria por si mesma possa regular o diferendo que mantém consigo mesma e
com a sociedade, que possa deixar agora
de ser parcial e fragmentária. Quando não dispomos de quase nada mais que as
“armas da crítica”, estamos muito longe da crítica pelas armas. A rapidez dos
intercâmbios de informação e o acesso imediato aos milhares de textos na
internet coincidem com um confronto de ideias relativamente pobre. Supondo que
a era do virtual não tenha vindo a agravar esta debilidade, também não lhe deu
remédio. A velocidade de rotação das ideias parece inversamente proporcional à
intensidade dos debates que suscitam. Jamais a posse de uma extensa biblioteca
garantiu a qualidade de uma reflexão. Poupem-nos os sorrisos perante a nossa
“tecnofobia”. Mesmo considerando útil manter uma página na internet,
verificamos que muitos revolucionários partilham das ilusões da revolução
informática. A crítica da ingestão de carne está mais difundida que a do uso de
computadores, e a crítica das auto-estradas para automóveis mais frequente que
a da “auto-estrada da informação”. Mesmo havendo uma extrema escassez, ou mesmo
ausência pura e simples de textos de Bakunin, Pannekoek ou o próprio Marx em
1967, isso não impediu que uma onda contestatária lhes fizesse eco. Poucos anos
antes, a revista Potlatch divulgava entre 50 e 500 exemplares. Trinta anos
depois a disponibilidade instantânea de tudo não impede que a crítica social se
desenvolva a um nível claramente inferior. Isto não vai melhorar multiplicando por
dez as reuniões, nem por mil as ligações virtuais. O movimento revolucionário
não é um assunto de circulação nem a superação das nossas limitações um
problema de relações. Só a evolução da realidade social, para a qual
contribuirão as minorias comunistas mas não mais que os outros proletários, é e
será determinante, confirmando ou invalidando total ou parcialmente as nossas
hipóteses, e contribuindo para uma totalização.
Nas condições actuais, a não se assemelhar a uma versão ampliada de
Théorie Communiste, o reagrupamento
previsto em torno da revista Meeting
produzirá no melhor dos casos um boletim interno dos comunizadores. Mas a
justaposição não é o mesmo que o diálogo, e nem todo o diálogo é
necessariamente clarificador. Os documentos preparatórios da reunião evidenciam
já perspectivas bastante divergentes, por vezes dificilmente conciliáveis. O
decisivo é o conteúdo que se atribui às palavras comunização, classe, luta de
classes e abolição das classes. Muitos camaradas, e não somente os “comunizadores”,
assumem a ideia de uma classe que ao existir e ao lutar como classe acabará
abolindo todas as classes, mas esta fórmula interpretam-na em sentidos muito
diferentes, e amiúde contraditórios. Quanto a actividades práticas
qualitativamente superiores às que se realizaram até agora, não fica nada claro
como seriam favorecidas por tal iniciativa. Depois de 1945, segundo critérios
muito diferentes da comunização mas ambos pertinentes, Bordiga e Pannekoek
mantinham acordo em aspectos fundamentais que os distinguiam claramente dos
trotskistas, dos anarquistas, etc. Não obstante, ninguém imaginava fazê-los
coabitar numa mesma organização.
A teoria comunista baseia-se numa premissa ainda não
demonstrada, o que implica inevitavelmente uma fragmentação, que necessariamente
aumenta em todo período de baixa intensidade da luta de classes. Marx e Engels,
mesmo estando menos isolados que nós, admitiam que em geral não contavam mais
que com eles mesmos, e não com um amplo movimento que devia reconhecer o seu
“mandato” de teóricos revolucionários. Cento e cinquenta anos depois, depois de
ter sido mostrado dez vezes sobre o seu leito de morte, o capitalismo continua
vivo, e a comprovação efectiva da teoria de uma revolução comunista segue
pendente. Pode-se teorizar tudo e também o contrário: a revolução pode parecer
muito evidente devido à persistência de um movimento proletário, ou impossível
devido à prática persistentemente não comunista dos mesmos proletários. Um
mesmo rigor demonstrativo saberia basear estas duas opiniões contrárias em
factos históricos provados e conceitos próximos, reivindicando-se sem muito
abuso dos nossos clássicos. Mesmo que diametralmente opostas, estas duas
posições têm em comum algo fundamental: ambas julgam a coerência e a
pertinência de um conceito segundo o que este diz de si mesmo. Mas, a luta de
classes é e será o único juiz na matéria. Só as irrupções proletárias sobre a
cena histórica “provam” a validade da teoria do proletariado, teoria que
somente uma revolução comunista poderá provar de maneira definitiva. Entre cada
grande onda de agitação social, e até que ocorra a última, que seria “a
verdadeira”, a suspensão de toda reflexão e actividade revolucionária produz um
sentimento de vazio. Em tais casos desenvolve-se uma tendência natural a preencher
este vazio o melhor que se pode. Mas transformar as derrotas em vitórias só é
possível sobre o papel; é melhor reconhecer-se temporariamente derrotado se o
que se ambiciona é não permanecer nessa situação.
A tarefa do momento não é organizar uma expressão comum, nem
argumentações que se cruzam sem encontrar-se, mas aprofundar os nossos
pressupostos particulares admitindo e integrando o seu carácter inacabado, e
confrontá-los aos factos que analisam. Posto isto, é preciso assumir que por
indispensável que seja esta actividade, não conduzirá a uma síntese crítica,
inacessível actualmente. Para parafrasear a Internacional Situacionista, o
importante hoje não é a unidade mas a divisão assumida: supera-se uma situação
dada, sobretudo uma situação de debilidade e isolamento, assumindo-a, e não
agindo como se não existisse, ou como se dependesse sobretudo da (boa) vontade
dos comunizadores…
…ou de polémicas “sem concessões”. Polemizar é personalizar,
considerar o outro como proprietário de ideias das que só é depositário, e
assim imediatamente comprometer-se num caminho falso. A polémica tem por
objecto destruir o adversário, tratando-o no pior dos casos como inimigo, e no
melhor como troféu. Preferimos criticar aquilo que apresenta interesse e merece
ser desconstruído para situá-lo num outro conjunto onde possa tomar um novo
sentido. Criticamos não o que julgamos absurdo ou estúpido (e muito menos
“perigoso”!, mas o que lemos e queremos que se leia [4].
Por esta razão, geralmente citamos pouco o que nos parece
criticável. O polemista em busca de um alvo fácil escolhe no adversário a frase
que lhe parece mais fraca. Preferimos expor nossa posição e deixar ao leitor a
tarefa de contrastá-la com a lógica da posição divergente. Para quê citar
trinta frases que provam o determinismo de Théorie
Communiste? Um oponente poderia encontrar trinta frases que provem o
contrário. É o movimento global de um posicionamento que segue ou não uma linha
determinista. Um leitor que se contentasse com citações para declarar-se de
acordo connosco não teria compreendido nada do nosso método.
Pouco de polémica, e certamente, nada de refundação. Isto
talvez seja o que têm em comum as pessoas interessadas em Meeting, e sem dúvida é o núcleo do que nos afasta de tal projecto.
Apesar das divergências entre Théorie
Communiste e os demais participantes (por exemplo a revista e sítio web
Na nossa opinião, e sem querer defender uma invariância,
consideramos que tal refundação doutrinal não tem objecto. Arriscando-nos que
alguns nos vejam como bordiguistas, diremos que a parte essencial da teoria
revolucionária foi formulada na década de 1840 (e correndo o risco de espantar
outros, acrescentaremos que a IS não estava muito longe de reconhecer este
facto). Qual é essa parte essencial? A definição do proletariado como nova
força histórica em relação aos escravos, aos servos, aos pobres, explorados e
despojados de épocas anteriores ao capitalismo (antes do Renascimento, antes
sobretudo da industrialização). E isso, não por amor à indústria ou às forças
produtivas (mesmo que a ambiguidade de Marx e outros em torno deste ponto seja
inegável, aqui concentramo-nos nos pontos fortes da sua perspectiva, e não nas
suas debilidades), mas porque o capitalismo é o primeiro sistema de exploração
universal, e baseia-se num proletariado potencialmente revolucionário devido a
sua existência no capital, a sua inter-relação com o capital, à “implicação
recíproca” precisamente, que lhe dá a capacidade de actuar como sujeito de uma
mudança social radical, a capacidade de criar uma comunidade humana. A partir
da metade do século XIX começou a ficar claro o conteúdo do comunismo: abolição
da propriedade privada, do capital, do dinheiro, do trabalho, do Estado.
Segundo esta perspectiva, não há nenhuma diferença
fundamental que separe o mineiro inglês ou o artesão proletarizado parisiense
de 1850, do assalariado de um call-center
em Indiana ou do camionista californiano do ano 2004. Se analisamos os factores
que em 1850 impediam o mineiro e o artesão proletarizado de empreender uma
acção comunista, esses “limites objectivos” (isto é, que não dependiam deles
mas lhes eram impostos pela situação) também os encontraremos no assalariado do
call center e no camionista do ano
2004. O que os quatro têm em comum (em termos de possibilidade histórica e de freio e inércia social) é
infinitamente mais que aquilo que os distingue. E isso é o essencial.
Talvez esta teorização seja falsa, mas basicamente, não temos
outra. Nenhuma nova teoria está em condições de prová-la ou desmenti-la. Só a
história (não ocorrida, portanto o futuro) poderá fazê-lo. Não há nada hoje dia
que garanta ou possa demonstrar que os proletários de 2015 ou 2030 actuarão
melhor ou serão mais revolucionários que os de 1848, 1919 ou 1969.
Esta parte essencial não é a totalidade. Destruição do
Estado, crítica do movimento operário, crítica de todas as mediações, crítica
da nação, crítica da vida quotidiana, compreensão da revolução como
comunização… todas estas contribuições indispensáveis surgiram e podiam surgir
antes de 1848. E mais, ao abordar estes diferentes pontos, os comunistas de
1920 ou de 1970 amiúde foram contra as posições de Marx e Engels. O que não
impede que estas contribuições só adquirem sentido se estão ou estavam
integradas na definição essencial, caso contrário é toda a perspectiva
comunista que se suprime.
Não se precisa duma teoria pós-operária da revolução, porque
a que temos, a de Marx, Pannekoek, Bordiga ou Debord não era nenhuma teoria “operária”.
Que o comunismo cedeu ao obrerismo, é inegável. Mas no seu sentido mais
profundo e ofensivo, quem se buscava no operário não era o produtor e
manipulador de ferramentas e máquinas supostamente libertadoras., mas o proletário. O obrerismo não foi o
programa do proletariado, mas o da contra-revolução. Não temos aqui espaço para
demonstrar que isto é assim, mas mesmo na mais “operária” das correntes
comunistas, a esquerda alemã: o verdadeiro partido do operário não era o KAPD, mas o USPD.
A não ser que signifique embarcar-se numa deriva, voluntária
ou não, controlada ou não - o que certamente não é o caso de Meeting - fundar a teoria não pode
significar a busca de um ponto de observação privilegiado desde o qual o
conjunto da história da humanidade se revelará aos que possuem o código
correcto. Aí encontramos um novo exemplo da crença (compreensível mas ilusória)
na omnipotência do espírito humano.
No fim de contas, tudo indica que os membros do projecto Meeting dão à comunização um conteúdos
diferente do que resumimos no início deste texto. Para eles esta noção não
designa o processo concreto de transformação comunista das relações sociais,
mas define um tempo completamente novo, o da revolução enfim possível e
necessária. É difícil não ver aí uma regressão em relação ao que tentavam
fazer, por exemplo e cada um a sua maneira, Um mundo sem dinheiro, A Banquise,
ou mesmo mais recentemente, Hic Salta [6].
APELO
Se bem que
profundamente diferente, Appel
ilustra também uma situação de crise, esforçando-se à sua maneira para a
ultrapassar.
Responder a Appel sacando
da nossa balança teórica reluzente para pesar os prós e contras não teria
nenhum sentido, ou daria prova de uma triste indiferença com a subversão social
que nasce, actua, se procura e se formaliza. Quaisquer que sejam as apreensões
que possa suscitar, este livro expressa uma existência, uma experiência, em
particular nas acções antiglobalização dos últimos anos, e à sua maneira põe o
dedo sobre esta época. Expressa numa linguagem que procura ser poética, o seu
acervo teórico inclui elementos de compreensão essenciais tomados de empréstimo
de Marx, da esquerda comunista, da IS, da anarquia, sem reivindicar nenhuma
filiação, sem citar directamente nenhum clássico: integradas no texto, as
citações frequentemente atribuem-se “a um amigo” ou a “um velho amigo”.
“À força de ver o inimigo como um sujeito que nos enfrenta -
em vez de experimentá-lo como uma relação que nos constrange - que nos
enclausuramos enquanto lutamos contra a clausura“. (p.8)
“À prática do comunismo, tal como a vivemos, a chamamos o
Jogo. Quando alcançamos um nível superior de comunização dizemos que
construímos o Jogo. Sem dúvida outros, que ainda não conhecemos, estão também
construindo o Jogo, em outro lugar. Este apelo é-lhes dirigido“. (p.63)
“A construção do Partido, no seu aspecto mais visível,
consiste para nós na colocação em comum, a comunização daquilo de que dispomos.
Comunizar um bem quer dizer: libertar-lhe o uso e sobre a base desta
libertação, experimentar relações de afinidade intensas, complexas“. (p.66)
“Há ocasiões, como num motim, onde o facto de relacionar-nos
entre camaradas aumenta consideravelmente nossa capacidade de ataque. Quem pode
dizer que o problema do abastecimento de armas não é parte da constituição
material de uma comunidade?“(p.67)
A comunização
define-se aqui como antagónica a este mundo, em conflito irreconciliável
e violento (até à ilegalidade) com ele. Difere pois da alternativa que pretende
(e consegue amiúde) fazer-se aceitar à margem, e coexistir duradouramente com o
Estado e o regime de trabalho assalariado, esperando que algum dia a relação de
forças se inverta por si só e que as zonas e actividades “libertadas” se tornem
maioritárias até que acabem ganhando todo o espaço, sem revolução, graças à
superioridade natural das relações humanas e fraternais sobre as relações
mercantis e de dominação Não só não compartilhamos essa visão, mas
combatemo-la.
No entanto, como “tornar habitável a situação de excepção”?
(p.78). Por exemplo, como viver sem trabalhar, na ausência dum movimento de
grande amplitude que rompa com a ordem estabelecida?
Appel supõe aqueles
a quem se dirige como um meio já organizado (ou em vias de sê-lo) e
relativamente numeroso. É permissível duvidar que assim seja. O livro reconhece
que a experiência do Black Bloc
mostrou os limites da resistência social: se se defender é difícil, como passar
à ofensiva?
Ao não fazer-se esta pergunta, corre-se o risco de se
teorizar uma comunização limitada a um desvio, sem dúvida necessário para uma
revolução, mas insuficiente. Comunizar é experimentar outras relações, outras
atitudes de viver, em todos os planos. Mas é também, obrigatoriamente, algo
mais e outra coisa que alargar ao
máximo as margens de autonomia que esta sociedade permite. Fazemos nossa a
definição do comunismo como colocação em comum, como ser e fazer juntos, como
processo e como conflito. Mas como pôr em prática agora, na realidade social
que prevalece em 2004, uns laços, uns espaços, umas rupturas, que não sejam
mais uma alternativa radical que a de outros, sem dúvida alguma mais violenta e
mais reprimida porque frequentemente fora da lei, mas também integrados ao
funcionamento do capitalismo moderno?
A partir de agora cada cidade da Europa e América do norte (e em
breve cada vez mais da Ásia) terá seu grupo verde radical, sua comunidade
anarquista, o seu ocupa. Viver fora do trabalho assalariado é possível (ou
obrigatório) para milhões de europeus. O hedonismo contemporâneo reverte a
fórmula de Victor Serge que citámos no início deste artigo: convida-nos a não
sacrificar o presente em nome do futuro, mas que construamos situações
intensas, que vivamos agora de um modo diferente as mesmas relações sociais.
Este hedonismo converge com o movimento alter-mundista na mesma negação da
totalidade, e de toda destruição do poder político central: do seu ponto de
vista, o que se pode fazer é tomar o poder sobre cada pessoa e localmente,
substituindo a revolução social futura por milhões de revoluções pessoais e
micro-colectivas.
Appel descreve um
movimento anti-globalização inicialmente subversivo, mas depois reabsorvido por
diferentes burocracias, sem se perguntar suficientemente sobre a realidade
desse movimento, sobre o facto de que nasceu quinze anos depois que os últimos
ecos das sacudidas revolucionárias dos anos 60-70, cuja compreensão é
indispensável para entender onde estamos agora.
Se, como o afirma o livro, os anti-globalizadores radicais
tivessem vencido a esquerda mundial na rua, obrigando-a a retirar-se para os
seus fóruns sociais, nós (os autores de Appel, nós mesmos, e muitos outros)
teríamos uma existência, uma acção regular na rua, o que não é o caso, temos
que admiti-lo. Falta a este Appel
(apelo) uma análise do movimento social presente, das lutas, dos retrocessos e
resistências no mundo do trabalho, das greves, de sua aparição, de sua derrota
frequente, da sua ausência ocasional; numa palavra: tudo o que cobre o
alter-mundialismo e cujos limites exprime.
Apesar da “desertificação” das relações humanas, o velho
mundo não está agonizando, e sustenta-se também das crises, nas quais tudo se
esgota para durar, tanto burgueses como proletários.
Um “apelo” não se refuta. Escuta-se ou ignora-se. O leitor
terá compreendido a nossa escolha. Appel reflecte os dilemas da nossa época, e
as suas aspirações. Se há ambiguidade, esta só se resolverá pela prática dos
que fizeram tal apelo, mas sobretudo por todos aqueles a que este se refere.
Por exemplo, um sinal de evolução positiva para um princípio de amadurecimento
social seria um laço entre os participantes de Meeting e os autores de Appel,
com capacidade para assumir o que têm em comum e o que os distingue; tendo a
liberdade de, talvez, chegar à conclusão que são incompatíveis. Se a situação é
como a que descrevem os artífices de Meeting
e os autores de Appel, a simples
coincidência de ambos projectos deveria suscitar pelo menos um interesse
recíproco nos seus respectivos animadores. Até onde sabemos, não é o caso.
Gilles Dauvé, 2004
[1] R.Simon, BP 17, 84300 Les Vignères. [http://theoriecommuniste.communisation.net/]
** Disponível em portugués neste link [http://www.radioleonor.org/wp-content/uploads/2009/01/appel.pdf]
[2] Les anarchistes et
l’expérience de
[3] L’Appel du vide, Troploin, 2004, páginas 41-45. [http://troploin0.free.fr/biblio/vide/]
[4] Objectar-se-nos-á
talvez com o exemplo de Marx contra Proudhon (Miséria da filosofia, 1847), onde
a teoria comunista se precisa e se afirma
[6] Un monde
sans argent: folheto em três volumes publicado pelo OJTR em meados dos anos
setenta. [tradução portuguesa: http://www.geocities.com/lipstickinrage/msd0.htm
] Hic Salta: revista publicada por ex-membros de Théorie Communiste (um dos
quais publicou