A Legitimidade
Democrática do Fascismo
Nunca uma ideologia se limita a afirmar-se no presente. Com igual empenho
reconstrói o passado; e os mitos assim criados servem para legitimar outro
quadro, não menos fantasista, em que a realidade de todos os dias é apresentada
como o seu exacto oposto. Nestas circunstâncias não resta outro recurso, a quem
pretenda participar na crítica do presente, do que desvendar também a história.
Que história? A do que
sucedeu? O passado está enterrado com os seus mortos e o que aconteceu ninguém
sabe, nem eles, porque os vivos conhecem apenas o que julgam fazer. Para além
disso, aquilo que exactamente fazemos só pode ser apercebido nas suas
consequências - e sê-lo-á então por outros, pelos que
vierem depois. Esses, porém, sentem o peso dos antepassados, não como uma
realidade própria, mas como o terreno onde dão vida às novas acções. Por isso
somos obrigados a avaliar a história, sem jamais podermos discorrer sobre o que
sucedeu, à luz das imperiosas necessidades do presente.
Que presente? O daquilo que hoje sucede? A multiplicidade da prática em que
participamos constitui para nós o real. Mas como a julgamos sem o saber exacto
das suas consequências, que são as de um futuro que ainda está por vir, sempre
a realidade nos escapa.
Ponto final nessa utopia de
conhecer o real. Cada um sabe o que precisa de saber e tal como o precisa. Há por isso duas histórias, a apologética e a
crítica, uma para os que dominam e os que aceitam a dominação, outra para os
que põem as dominações em causa. Em todo o mundo o neoliberalismo
é hoje a ideologia triunfante, proclamando uma economia de livre-concorrência
e uma sociedade de opções livres. Sob estes mitos encobre-se um sistema oligopolístico, dotado de formas de planificação
consideravelmente mais amplas e complexas do que os velhos planos centralizados
que vigoraram nos regimes leninistas. Bom número de autores tem denunciado a
forma como a actual sociedade democrática permite um grau superior de
exploração da força de trabalho e é capaz de mecanismos de vigilância e de controle muitíssimo mais apurados e eu procurei abordar a
questão em livros e artigos. Não é este o problema que me ocupa agora. Para
caucionar a sua mistificação da sociedade actual os neoliberais
pretendem que o capitalismo é um modo de produção essencialmente democrático e
que, no passado, os regimes francamente totalitários, ou não seriam
capitalistas, no caso soviético; ou, no caso dos fascismos, resultariam de
impedimentos ao normal funcionamento dos mecanismos económicos, um efeito
perverso da grande crise de entre as duas guerras mundiais, sem explicação nem
raízes na sociedade democrática.
Quanto aos regimes de tipo
soviético, mantiveram e reforçaram as relações de trabalho capitalistas e o
sistema capitalista de organização das empresas, desenvolvendo por isso este
modo de produção, sem jamais o porem em causa. A antiga União Soviética e os
países da sua esfera de influência demonstraram na prática a possibilidade de
conjugar diferentes sistemas de propriedade no interior do capitalismo, a tal
ponto que não só a mesma classe social, mas em boa parte as mesmas pessoas,
presidem às mudanças económicas hoje operadas. Mas não é esta também a questão
que vou abordar. Decorria ainda a guerra civil e já no interior das fileiras do
leninismo se erguiam vozes para denunciar o carácter capitalista da nova
sociedade que se estava implantando. Desde então os críticos de esquerda do
regime soviético foram perspicazes na análise das relações de exploração
resultantes da degenerescência da revolução russa. A bibliografia sobre o
assunto é abundante e as transformações dos últimos anos retiraram urgência à
questão. É outro o problema
que agora me interessa, o da completa legitimidade democrática dos fascismos.
Apaga o criminoso os traços e assim fizeram as
democracias logo a seguir à vitória na segunda guerra mundial. Os mecanismos de
censura, tanto os oficiais como os ocultos, impediram ou dificultaram nos
últimos quarenta e cinco anos a difusão da literatura política e económica
fascista, apresentando-se esta vigilância como uma medida progressista e,
portanto, com a suplementar vantagem de caucionar a actividade censória.
Fundadas numa operação de esquecimento colectivo, as actuais democracias
puderam reconstruir a seu gosto a história, deformando inteiramente o que fora
o fascismo e, ao mesmo tempo, desnaturando o passado democrático.
A organização corporativa dos
sectores de actividade económica, característica do fascismo, não era
fundamentalmente contraditória do velho liberalismo. Durante a Revolução
Francesa, em Junho do 1791 foi promulgada a lei Le Chapelier, que proibiu a associação dos trabalhadores para
a defesa dos seus interesses, tanto sob a forma de simples reuniões, como a
constituição de sociedades de auxilio mútuo e a organização de greves,
alargando-se no mês seguinte estas disposições ao mundo rural. Como a lei d'Allarde, votada em Março desse ano, dissolvera o sistema
tradicional das corporações de ofício e suprimira as manufacturas
privilegiadas, poderia parecer que se procurava uma completa atomização da
sociedade, correspondente aos mitos da livre-concorrência.
Porém, a legislação que tão estritamente coarctava os trabalhadores dava ao
patronato toda a latitude para organizar discricionariamente as empresas. E, ao
mesmo tempo, criaram-se e reconheceram-se legalmente múltiplas instituições
financeiras e económicas destinadas a permitir a harmonização das estratégias
dos capitalistas e a conjugação das suas actividades. A burguesia não operou
nunca fragmentada em unidades individuais, mas sempre inserida em teias de
interesses e em corpos sociais mais amplos.
Por outro lado. enquanto a lei proibia severamente
todos os tipos de associação que se devessem à iniciativa dos trabalhadores,
difundiam-se entre o patronato mais esclarecido práticas paternalistas,
mediante as quais eram postas à disposição dos assalariados habitação e formas
de assistência. Os proprietários das empresas não se limitavam, nesse caso, a
controlar indirectamente os operários, mediante o controle que exerciam sobre o
processo de trabalho. Controlavam-nos directamente, fazendo-os viver no bairro
da empresa, dando aos seus filhos instrução na escola da empresa, vigiando-lhes
os hábitos, refreando-lhes os vícios, em resumo, mantendo-os arrebanhados e
disciplinados durante as vinte e quatro horas do dia. Deste modo a classe
operária, em vez de pulverizada numa multidão de átomos isolados, como se
poderia deduzir pelo texto da lei, aparecia frequentemente dividida em corpos
sociais relativamente vastos, sob o comando de chefes de empresa.
Foi a estes tipos de organização social, puro fruto do capitalismo democrático,
que o fascismo veio dar uma forma mais sistemática. E como o fez numa época em
que a classe dos gestores disputava já a iniciativa política e, portanto,
quando os gestores da força de trabalho eram suficientemente fortes para terem
inteiramente corrompido e burocratizado a organização sindical, o velho
paternalismo de empresa pôde adquirir nova vitalidade apoiando-se no
sindicalismo reformista ou, pelo menos, aceitando a sua colaboração.
Quanto ao enquadramento
político e ideológico, e se deixar de lado o fascismo nipónico, que pelo seu
carácter militarista decorre em grande parte de tradições anteriores à
Restauração Meiji, posso talvez dividir os fascismos
de origem europeia em três grandes categorias.
Regimes como, por exemplo, o
salazarismo em Portugal, a regência de Horthy na
Hungria, o reinado de Carol II na Roménia e também,
durante a ocupação alemã da França, o governo de Vichy,
reduziram a um mínimo a componente populista. Não assentaram os mecanismos do
poder na excitação de enormes manifestações colectivas, nem a organização
militarizada de grandes massas assumiu qualquer papel decisivo no funcionamento
do aparelho de Estado. «A nossa Ditadura aproxima-se, evidentemente, da
Ditadura fascista no reforço da autoridade, na guerra declarada a certos
princípios da democracia, no seu carácter acentuadamente nacionalista, nas suas
preocupações de ordem social», declarava Oliveira Salazar numa das conhecidas
entrevistas com aquele que viria a ser o seu secretário da Propaganda Nacional.
«Afasta-se, porém, nos seus processos de renovação. [...] Mussolini, como sabe,
é um admirável oportunista da acção [...] Sentimo-lo, constantemente, entre o
escol que ele soube formar, que o serve com tanta inteligência, e a rua, a que
é forçado a agradar, de quando em quando.»1
Fascismos desse tipo, a que poderia chamar conservador, preferiam manter a
população na indiferença política e eram por isso os herdeiros das correntes
moderadas nas duas grandes revoluções burguesas, a de Cromwell
e, século e meio mais tarde, a Revolução Francesa.
A revolução inglesa
triunfante, tal como, em França, a lei eleitoral de 22 de Dezembro de 1789, a
Constituição de 1791 e, depois, os regimes que se sucederam ao 9 Thermidor, estabeleceram sistemas em que eram os meios de
fortuna a decidir da participação política e a hierarquia de rendimentos a
condicionar o grau desta intervenção. Só a disposição de terras ou outros
rendimentos, avaliados acima de dado montante, ou o pagamento de impostos
superiores a um certo limiar conferiam a capacidade de votar; e podiam apenas
ser eleitos aqueles que tivessem fortunas mais importantes ainda. A esmagadora
maioria da população masculina, além da totalidade das mulheres, ficava assim
absolutamente afastada mesmo das formas mais passivas e simbólicas de
participação política. Boissy d'Anglas
expôs o problema com clareza ao apresentar o projecto do que haveria de ser a
Constituição do Ano III (1795): «Se derdes os direitos políticos sem reserva a
homens desprovidos de propriedade e se eles vierem a tomar assento entre os
legisladores, hão-de fomentar ou deixarão que se fomente a agitação sem lhe
temerem os efeitos; estabelecerão ou deixarão que se estabeleçam impostos
funestos para o comércio e a agricultura porque não terão sentido, nem receado,
nem previsto as suas temíveis consequências, e por fim precipitar-nos-ão
naquelas convulsões violentas de que mal acabamos de sair.»2.
Perante uma audiência tão reduzida, a actividade governativa não assumia um
carácter espectacular e processava-se exclusivamente na sombra, pela
harmonização dos vários interesses regionais e das rivalidades entre os
notáveis. Era este o sentido da democracia para todos os que consideravam o
radicalismo dos Levellers ou o terror jacobino como uma ameaça à estabilidade da nova classe
dominante.
Foi exactamente deste tipo de constitucionalismo moderado, aceite pelos neoliberais como um dos expoentes do capitalismo
democrático, que os fascismos conservadores se constituíram herdeiros. Só que,
numa época em que o declínio da burguesia começava a favorecer a ascensão da
classe dos gestores, o critério das fortunas foi secundarizado
perante o da competência técnica. E o exclusivo da iniciativa política
reservou-se, não só aos grandes proprietários fundiários e aos grandes chefes
de indústria, mas sobretudo aos principais gestores, quer participassem na
propriedade privada do capital, quer o controlassem graças à detenção de postos
decisivos nas administrações.
O fascismo conservador
manteve-se também na tradição das grandes doutrinas racionalistas do século
dezoito, tal como haviam sido revistas pelo positivismo na segunda metade do
século dezanove. Charles Maurras,
um dos fundadores e a principal figura da Action Française, não foi propriamente um fascista porque, embora
defendesse uma concepção orgânica do Estado, preconizava igualmente a redução
do seu âmbito de intervenção e a descentralização administrativa. Mas foi o
mestre de toda uma geração de fascistas conservadores, que mobilizou contra as
ideologias irracionalistas e intuicionistas,
em nome de uma Razão e uma clareza formal quase voltaireanas.
E, discípulo de Maurras, Salazar era também admirador
de Auguste Comte. Este
quadro ideológico racionalista e positivista, hegemónico em França na Terceira
República, precisamente o expoente da democracia burguesa, não foi
significativamente alterado pelos ideólogos do fascismo conservador, que se
limitaram a temperá-lo com um catolicismo burocratizado, nos antípodas do
misticismo.
O segundo tipo de fascismo
encontrou o modelo no regime implantado por Mussolini em Itália. Aí, um dos
mecanismos fundamentais do exercício do poder consistia no relacionamento
directo do chefe com as massas e, em vez de ser estimulada a passividade
política, como sucedia no fascismo conservador, a população era, pelo
contrário, um figurante indispensável, vasto coro em cujas vozes ritmadas
deviam ecoar as ordens e os apelos do supremo dirigente. Mas para que esta
participação pudesse, sem riscos para a manutenção da ordem, ser elevada até à
histeria colectiva, era necessário que as massas estivessem enquadradas
militarmente em amplas organizações, que assumiam assim um papel importante no
funcionamento do Estado. O fascismo italiano serviu de exemplo a muitos
movimentos políticos e a outros regimes, nomeadamente ao Estado Novo de Getúlio Vargas, no Brasil e, na Argentina, ao regime de Perón, inspirando ainda, durante a segunda guerra mundial,
os colaboracionistas franceses sediados em Paris.
Quanto às forma de manipulação política o nazismo
inseria-se no mesmo modelo e só o seu carácter mais especificamente racista me
leva a referi-lo numa categoria à parte. Como neste tipo de regimes era
indispensável a relação directa do chefe com a população, podemos denominá-los
fascismo populista.
E não foi menos pura a sua legitimidade democrática. Se os fascismos de tipo
conservador continuaram as formas de constitucionalismo moderado em que a
participação política dependia do nível de fortunas, os de tipo fascista deram
continuidade às formas burguesas radicais assentes no sufrágio universal,
precisamente aquele que, de entre todos os sistemas, é comummente apresentado
como o expoente máximo da democracia. Esta afirmação pode à primeira vista
parecer completamente absurda, se não observarmos dois aspectos.
Em primeiro lugar, as noções de soberania popular e de representatividade
dos eleitos, apresentadas como o fundamento de teorias políticas
inteiramente positivas e prosaicas, aproximam-se pelo contrário das práticas
mágicas. O poder, ou se tem, ou não se tem; e delegá-lo é perdê-lo, deixar de o
ter. Nas democracias, como o capitalismo as conhece, o sufrágio mais não é do
que um ritual em que a população, mal lhe afirmam que é depositária do poder
soberano, vai publicamente renunciar a ele. E por qualquer magia de que só os
constitucionalistas possuem o segredo esse poder, como um espírito desencarnado, voaria para os eleitos. Deste modo o poder
que a camada dirigente já antes detinha é apresentado como se procedesse de uma
população que jamais o deteve. A concepção fascista do chefe supremo como
emanação da vontade colectiva das massas é exactamente do mesmo tipo da
concepção burguesa democrática para a qual o poder dos eleitos resultaria de
uma delegação popular mediante o sufrágio universal.
É que, em segundo lugar, é completamente assimétrica a relação entre o supremo
dirigente e as massas e, para que possa residir num dos lados apenas a
totalidade da iniciativa, torna-se necessário que no outro os indivíduos se
mantenham reciprocamente isolados. Nada mais ambíguo aqui do que o termo
massas, ele próprio decorrente do quadro ideológico em que estes sistemas
políticos foram pensados e funcionaram. As massas não tinham qualquer razão própria
de ser, nada unia directamente os indivíduos uns aos outros, pelo contrário, a
sua presença em conjunto tinha como única justificação a relação de cada um com
o chefe supremo. «No Estado fascista o indivíduo não é anulado, mas
multiplicado, exactamente do mesmo modo que um soldado num regimento não é
diminuído, mas ampliado, pelo número dos seus camaradas», escrevia Mussolini3.
Ora, a universalidade do direito de voto é precisamente a forma que melhor
consubstancia a atomização da população no isolamento individual. Para votar,
as pessoas são retiradas das relações sociais em que correntemente se inserem,
e o acto só será válido se reflectir a redução de cada um às fronteiras do seu
próprio corpo. Contra o carácter de classe adquirido enquanto produtores, o
sufrágio universal exprime o isolamento recíproco das pessoas enquanto
consumidores, que corresponde ao mito livre-concorrencial,
Desde a sua origem, a
generalização do voto e o culto do supremo dirigente foram aspectos
indissociáveis de um mesmo processo. Na Revolução Francesa eram os moderados
que pretendiam reservar a capacidade eleitoral aos cidadãos abastados e a
Montanha, ao tornar-se a facção dominante, alargou esse direito a todos os
adultos do sexo masculino. O sufrágio universal masculino foi praticado já nas
assembleias eleitorais reunidas em Setembro de 1792 e igual sistema ficou
previsto para a designação da Assembleia legislativa na nova Constituição,
votada em Junho do ano seguinte, embora se tivesse logo em seguida decidido que
não entraria em vigor enquanto a guerra durasse. Ao mesmo tempo os Jacobinos conseguiram passar sob o seu controle o movimento
da Descristianização. Para compreendermos o significado desta campanha é
necessário recordar que não se limitou a atacar os rituais da Igreja, mas
substituiu-os por outros, e quanto às novas cerimónias e aos seus objectivos os
Jacobinos entraram em franco antagonismo com as
correntes populares. Quando a 20 Prairial do ano II
(8 de Junho de 1794), mês e meio antes do golpe de Estado que levou à sua
derrota e execução, Robespierre presidiu à Festa do
Ser Supremo e da Natureza, foi ele sobretudo, o dirigente supremo, quem aí foi
celebrado. Era uma nova religião e uma nova arte? David, o célebre pintor,
organizara os cenários e fora o coreógrafo do cortejo, dois dos mais
importantes compositores franceses da época, Méhul e Gossec, haviam escrito a música e Robespierre,
elegantemente vestido e empoado, levando na mão as espigas e flores que
simbolizavam a natureza, apresentou-se isolado ao povo de Paris, separado dos
outros representantes à Convenção, afastado mesmo dos seus colegas do Comité de
Salvação Pública. Arte e religião novas, sem dúvida, aquelas mesmas que mais
tarde outros coreógrafos encenariam para Mussolini e Hitler. Robespierre foi o primeiro dos dirigentes políticos
modernos a fundir num processo único o culto do chefe e a fragmentação popular
subjacente ao sufrágio universal. Se o fascismo conservador encontrou a sua
caução democrática na ala moderada da Revolução Francesa, a caução do fascismo
populista deveu-se ao jacobinismo radical.
Ao longo do século dezanove alternaram na vida política capitalista duas
grandes correntes. Uma, continuadora das tendências moderadas da revolução
inglesa e da francesa, defendia um sistema conservador que tinha no parlamento
a instituição principal, considerado como o lugar onde se resolviam
discretamente as rivalidades na elite. A outra, herdeira das alas radicais de
ambas as grandes revoluções burguesas, propunha um regime populista em que a
generalização do direito de voto servia para sustentar um autoritarismo pessoalizado.
Contra o parlamentarismo, o
carácter plebiscitário que os populistas desejavam imprimir à vida política
atraiu elementos de extremos opostos da sociedade. O corpo de deputados representava
o obstáculo de maior peso a qualquer relacionamento directo que o principal
governante procurasse estabelecer com o eleitorado, por isso os populistas
sempre atacaram as Assembleias, mostrando -o que não era difícil - que se limitavam a resolver mesquinhas querelas de família
em detrimento do interesse geral. Esta crítica correspondia, por um lado, aos
ódios daqueles aristocratas que não tinham conseguido operar uma reconversão
económica e que o desenvolvimento do capitalismo arruinara; na extrema-direita
do leque político, a sua hostilidade ao parlamento dos ricos vinha do facto,
para eles indesculpável, de se tratar de novos-ricos. Mas o anti-parlamentarismo
dos populistas seduzia também, na outra ponta do espectro, muitos activistas do
movimento operário; transmutavam para o campo moral os temas da luta de classes
e o combate à exploração económica apresentava-se então como uma mera denúncia
da corrupção. E o tema anarquista da vontade individual livre e desregrada
inspirou os candidatos a chefe supremo, que se pretendiam livres na sua
autoridade e colocados, portanto, acima das normas. Contra o parlamentarismo
conservador, a força política do populismo plebiscitário foi tanto maior quanto
mais capaz se mostrou de articular ambos
os extremos. Criaram-se nesta conjugação redes de relacionamento que
permitiram, não só influências recíprocas, mas uma repetida oscilação de tantos
políticos e tantas organizações entre a extrema-direita e a extrema-esquerda.
Assim se gerou e desenvolveu o que viria a ser o fascismo, e as próprias
vanguardas estéticas do século dezanove são em grande parte incompreensíveis
fora deste contexto.
Por isso convergiram na
ideologia do fascismo populista duas grandes correntes do pensamento burguês do
século dezanove. O racionalismo positivista não foi posto em causa e era o
sistema a que se recorria para conceber fenómenos restritos à esfera das
pessoas comuns na vida corrente. Em tudo, porém, que dissesse respeito à acção
do chefe supremo e à sua relação com os elementos das massas, era apenas o irracionalismo que se invocava. Certas escolas de
pensamento jurídico conjugaram as duas correntes, definindo como loucos tanto o
grande criminoso, como o grande génio. À generalidade das pessoas, aos cidadãos
respeitadores, que são os pequenos infractores, aplicava-se a bitola do
comportamento normal, compreensível no quadro do racionalismo positivista. Os
grandes violadores, porém, tidos como exteriores à normalidade, só em termos de
irracionalismo deveriam ser entendidos. Da anormalidade
negativa, a do crime, a sociedade defendia-se pela execução capital ou pelo
isolamento carcerário. Mas a anormalidade do génio era criativa e precisamente
por isso poderia revitalizar o mundo da normalidade. Até aqui, nada havia que saísse do banal tema
romântico do artista acima da sociedade. Mas o populismo fascista foi mais
longe e apresentou o chefe político como um artista da política. Hitler «acabou
praticamente por identificar arte e política. E isto, como explicava ao
Congresso do partido em 1936, porque tanto a arte como o Estado são produto de
uma força criativa, a que dava designações variadas: «vontade autoritária» ou
ainda a «capacidade política de criar formas». Derivam da vontade política,
tanto a forma do Estado, como as formas das artes [...]. Os intérpretes da
força criativa são, segundo Hitler, o artista por um lado e, por outro, o
político. É típico que fale de um e outro em termos praticamente permutáveis.»4. Para os indivíduos da massa a razão e o
racional; para o dirigente, enquanto artista, a intuição no irracional. Nas
vésperas da Marcha sobre Roma, que lhe daria o poder, bradava Mussolini:
«Criamos o nosso próprio mito. Esse mito é uma fé, é uma paixão. Não é
necessário que seja uma realidade. É uma realidade pelo facto de ser um punho,
de ser uma esperança, de ser uma fé, de ser coragem.»5.
Passados bastantes anos, numa linguagem mais sóbria, esta concepção mantinha-se
inalterada: «Uma doutrina não deve ser um mero exercício verbal, mas um acto de
vida; e assim o valor do Fascismo reside no facto de estar raiado de
pragmatismo, mas ter ao mesmo tempo uma vontade de existir e uma vontade de
poder [...].»6. E ao justificar assim a sua
acção o chefe fascista podia invocar a dupla caução das grandes tradições
filosóficas do século dezanove.
Deve distinguir-se ainda um terceiro tipo de fascismo, o hitleriano. Tendo
conseguido escapar à chacina que Hitler desencadeou na célebre noite de Junho
de 1934 contra a ala radical do partido, Otto Strasser encontrou um temporário asilo em Itália, onde se
queixou a Mussolini da falta de interesse do Führer
pelas questões sociais. Mussolini teria comentado que Hitler, por nunca ter
sido um revolucionário, não poderia agora ser um verdadeiro fascista. O antigo
sindicalista e chefe de redacção do órgão oficial do Partido Socialista
italiano queria dizer que só quem tivesse directamente
participado na burocratização do movimento operário podia obter a experiência
necessária para manipular as massas. Enganava-se. Hitler foi um revolucionário,
talvez o mais revolucionário dos políticos capitalistas, porque as
transformações que imaginava realizar seriam tão profundas que, para ele,
deixariam sem sentido a questão social. Já em 1930, numa acesa discussão com Otto Strasser, declarara que «as
únicas revoluções são as revoluções raciais; não pode ocorrer uma revolução
política, ou económica, ou social -o que há sempre e apenas é a luta da camada
mais baixa de raça inferior contra a raça superior dominante e esta perde a
partida se esquecer as leis da sua existência.»7. E, após ter tomado
o poder, repetia a um dignitário nazi que «qualquer política que não tenha uma
base biológica ou objectivos biológicos é uma política cega.»8.
É tão grande a camada de esquecimento e as posteriores adulterações a que a
máquina de propaganda das democracias se tem dedicado, que se torna necessário
expor, na sua abjecção e pavorosa demência, o programa racista dos hitlerianos.
No quadro das minhas concepções, empregando exclusivamente categorias sociais,
devo enunciar uma doutrina que foi proclamada mediante critérios
fundamentalmente rácicos. Daí uma inevitável tensão
nas formas de expressão, entre os termos usados e a referência aos alheios. Mas
é isso mesmo a análise crítica.
Os nazis pretenderam levar a cabo uma colossal experiência biológica, de que
resultaria a criação de uma «raça superior». Hitler nem era um nacionalista,
nem afirmava que os Alemães constituíam já essa raça dominadora. Era num quadro
europeu, e não estritamente alemão, que ele pensava a sua actuação política, e
os povos germânicos ou, mais latamente, nórdicos, constituiriam a base apenas a
partir da qual a «raça superior» haveria de ser criada. Para esse fim os SS
revelaram-se a instituição adequada. Esperava-se que uma rigorosa selecção dos
seus membros, tendo em conta características biológicas, e um sistema
autoritário ordenando e condicionando os acasalamentos, permitissem num prazo
relativamente curto a criação extensiva de uma raça de chefes. A oeste a «raça
superior» organizar-se-ia numa sociedade de tipo capitalista. A leste ficam os
países dos Eslavos, considerados pelos nazis como uma «raça inferior», os sub-homens. Instaurar-se-ia aí um regime de escravismo de Estado, de que o aparelho político-militar
dos SS constituiria a ossatura repressiva e económica e que conheceu um
princípio de aplicação com a ocupação alemã durante a segunda guerra mundial.
Este programa tinha por
objectivo que, na sociedade capitalista estabelecida no Ocidente, os patrões e
os trabalhadores sentissem a alegada irmandade rácica
acima das clivagens sociais e, por conseguinte, os antagonismos de classe
fossem resolvidos em termos biológicos. Além disso, a exploração maciça dos
escravos de Leste, directamente submetidos ao aparelho de Estado, beneficiaria
a globalidade da sociedade ocidental, contribuindo para aumentar aí o nível de
vida dos trabalhadores e -esperava-se -atenuar mais ainda as suas
reivindicações. Por outro lado, o carácter infra-humano
atribuído aos Eslavos, defrontados com a supremacia exercida pela nova «raça»,
impediria qualquer revolta séria da força de trabalho escravizada e relegaria,
aqui também, para um plano meramente acessório a questão social. E assim, com
este programa de apartheid executado numa dimensão continental, os nazis
contavam instaurar uma sociedade de exploração perfeitamente estável, o império
da mais absoluta ordem. Hitler teria declarado em 1932 a um círculo restrito de
dirigentes do seu partido, encarregados do programa rácico
e de expansão territorial: «É necessário que, de uma vez para sempre, uma
Europa germânica crie as bases políticas e biológicas que serão os factores
perpétuos da sua existência. [...] Estamos hoje perante a implacável
necessidade de criar uma nova ordem social. [...] A sociedade sem classes dos
marxistas é uma loucura. A ordem implica sempre uma hierarquia. Mas a concepção
democrática de uma hierarquia baseada no dinheiro não é uma loucura menor. Uma
verdadeira dominação não pode nacer dos lucros
arriscados resultantes das especulações dos homens de negócios. [...] A verdadeira
dominação só pode nascer onde existir a verdadeira submissão. Não se trata de
suprimir a desigualdade entre os homens mas, pelo contrário, de a amplificar e
transformá-la numa lei protegida por barreiras intransponíveis, como nas
grandes civilizações dos tempos antigos.»9.
Deixemos os tempos antigos, era no imediato que os hitlerianos pretendiam
alicerçar numa revolução biológica um indestrutível regime de exploração.
À «raça superior» atribuíam-se por isso as características intelectuais adequadas
à criação e à manutenção de uma sociedade de exclusiva ordem: o espírito de
síntese, a capacidade de fazer prevalecer a união sobre as cisões, as
hierarquias sobre os conflitos, o todo sobre as partes. Mas, para que a «raça
superior» fizesse triunfar essa ordem estável e inaugurasse o Reich dos mil
anos, seria necessário aniquilar primeiro a «raça» privada de espírito de
síntese, os críticos propensos a analisar o todo na contraditoriedade das suas
partes, os subversores que sempre ameaçam as hierarquias com os conflitos. E
quem melhor os podia representar, senão aquele povo que, há dois mil anos
expulso da pátria de origem, se revelara incapaz, tanto de se deixar assimilar
pelos Estados que o acolheram, como de fundar um Estado próprio? Para quem
considerava o Estado como a suprema manifestação da ordem, o Judeu errante,
condenado à eterna diáspora, simbolizava a vocação da desordem. O catálogo das
peculiaridades intelectuais necessariamente atribuídas aos Judeus e à «raça
superior» foi muito desenvolvido e detalhado pelos partidários da Física
Ariana. Dois prémios Nobel, Philipp Lenard e Johannes Stark, animaram um movimento de universitários e invetigadores que pretendiam reconstruir a física sobre
bases rácicas, considerando a teoria quântica e a
relatividade como tipicamente judaicas em virtude do seu carácter dedutivo e
pela prática sistemática da abstracção quantitativa. Enquanto a «raça superior»
se distinguiria pelo raciocínio indutivo e pelo prevalecimento do concreto
qualitativo e, por isso, seria capaz de conceber a natureza como um todo e de
praticar a experimentação científica como uma fusão do experimentador nesse
todo. «Era um axioma entre todos os nacionais-socialistas a rejeição de
quaisquer formas de materialismo e a adopção da ideia de uma natureza animada
por um espírito omnipresente. A comunhão com esse espírito permitia adivinhar a
ordem hierárquica natural das coisas, incluindo a necessidade de que um Führer conduzisse um povo na luta pela existência.»10. Sem interesse actual para a ciência, as
elucubrações da Física Ariana são importantes porém para definir a ordem como o
supremo critério de distinção entre as «raças». E assim todos os judeus
começaram a ser perseguidos, mais tarde exterminados, como subversores. E todos
os críticos, comunistas e social-democratas, foram de imediato perseguidos e em
grande parte exterminados enquanto Judeus. Socialistas e comunistas sem nenhum
antepassado judaico eram condenados como Judeus, do mesmo modo que o eram
judeus francamente reaccionários ou conservadores.
O programa de genocídio anti-semita, a que a generalidade da grande imprensa
hoje resume o fascismo alemão, não foi uma mera continuação dos pogroms que começaram a difundir-se na Europa a partir da
Primeira Cruzada. Estes deveram-se à diferença de religiões, mas a perseguição
nazi teve implicações muito mais amplas. Num quadro ideológico estritamente
racista não podia deixar
de se atribuir uma referência rácica ao inimigo, a
qualquer inimigo. Pretendendo exterminar os Judeus estava sobretudo a
perseguir-se os adversários da ordem capitalista, os críticos, os opositores. E
é precisamente isto que os sustentáculos actuais do capitalismo querem fazer
esquecer. A campanha anti-semita foi um corolário das medidas destinadas a
criar uma raça alegadamente superior. São essas medidas a questão central, de
que todas as outras decorrem. Reduzir o nazismo a um anti-semitismo vulgar
corresponde a ocultar toda uma problemática de manutenção e reforço da ordem,
deixando além disso sem explicação o sistema de escravismo
de Estado a que estavam votados os Eslavos. Mas é indispensável às democracias
actuais confundir o fascismo hitleriano com um tipo de perseguição aos Judeus
anterior ao capitalismo, para ocultar que, quanto ao aspecto central e
específico do seu racismo, os nazis encontraram nas democracias as mais
legítimas credenciais.
A transição da primeira para a
segunda metade do século dezanove marcou urna profunda viragem nas formas de
racismo prevalecentes na Europa. Até então as culturas eram exclusivistas
e cada uma sobrevivia pela negação das outras. Mas se povos com crenças,
línguas e formas de organização diferentes podiam ser considerados inferiores,
essa alegada inferioridade cultural e social não se projectava geralmente numa
inferioridade biológica. É certo que se documentam exemplos de conversão do
ostracismo civilizacional numa pretensa hierarquia de capacidades intelectuais,
mas eram casos pouco frequentes, reduzidos a pessoas ou meios restritos. Se a
generalidade de uma população desdenhava o falar das outras, os seus hábitos,
até a cor, não desprezava por isso as aptidões de cada indivíduo. Todos os
grandes impérios consideraram bárbaros os vizinhos, mas um bárbaro que se
pusesse ao serviço da sociedade rival e demonstrasse talentos podia ascender
aos mais altos postos, chegar até ao trono. Na segunda metade do século ezanove, porém, generalizou-se nos países europeus uma nova
concepção e o racismo passou a ter implicações biológicas, supondo-se que a uma
cultura alegadamente inferior corresponderia uma inferioridade nas capacidades
cerebrais.
Esta transformação fica
ilustrada com especial clareza se compararmos duas das obras de Darwin. A primeira, publicada em 1839 com o título Journal
of Researches into the Geology and Natural History of the Various Countries
Visited by H.M.S. Beagle, 1832-36, tornou-se
correntemente conhecida como The Voyage of the Beagle. Darwin
revela aí uma profunda compreensão das relações sociais e das culturas de povos
que, ao mesmo tempo, desdenhava pelas suas limitações tecnológicas e pela
ausência de Estado. Por exemplo, depois de descrever as atrocidades que na
Argentina as tropas de Rosas estavam a cometer na guerra contra os índios,
observa: «É triste descobrir como os índios cederam perante os invasores
espanhóis. Schirdel diz que em 1535, quando foi fundada Buenos Aires, havia
aldeias com dois e três mil habitantes. Mesmo no tempo de Falconer (1750) os
índios organizavam expedições contra lugares tão distantes como Luxan, Areco e
Arrecife, mas agora estão remetidos para além do Salado. Não só foram
exterminadas tribos inteiras, mas os que restam tornaram-se mais selvagens; em
vez de habitarem grandes aldeias e se dedicarem aos ofícios da pesca e da caça,
vagueiam agora pelas planícies, sem casa ou ocupação fixa.»11. É uma
análise especialmente interessante por mostrar que a situação das populações
indígenas na época não correspondia a quaisquer características próprias,
resultando de uma degradação exclusivamente provocada pelos invasores. E tendo
dedicado páginas a observar, sempre com compreensão e frequentemente com grande
argúcia, o tipo de vida dos nativos do extremo sul das Américas, afirma a
relação entre as formas sociais e as condições económicas e políticas: «A
perfeita igualdade existente entre os indivíduos que compõem as tribos da Terra
do Fogo há-de atrasar por muito tempo a sua civilização. [...] Quer se
considere como uma causa, ou como uma consequência, são sempre os mais
civilizados que têm as formas de governo mais artificiais. [...] Na Terra do Fogo,
até que surja algum chefe com poder suficiente para se apoderar de qualquer
vantagem adquirida, por exemplo os animais domesticados, não se afigura
possível melhorar o estado político da região. Mesmo uma peça de tecido dada a
alguém é rasgada em pedaços e distribuída; e nenhum indivíduo se torna mais
rico do que outro. Por outro lado, é difícil entender como possa vir a surgir
um chefe sem que haja antes algum tipo de propriedade que lhe permita
manifestar a sua superioridade e aumentar o seu poder.»12. Não
importa que Darwin considere aqui uma sociedade tanto mais perfeita quanto mais
desiguais forem as fortunas e opressivo o Estado. O fundamental é que explica a
situação daquelas populações em termos estritamente sociais, não rácicos.
E no entanto, quando em 1874 Darwin publicou a segunda edição, ampliada,
de The Descent of Man and Selection in Relation to Sex, a perspectiva
mudara radicalmente. O pressuposto do livro é a inferioridade biológica dos
povos que vivem em sistemas sem propriedade, ou com um grau reduzido de
diferenciação das fortunas, e sem Estado, ou sob formas rudimentares de
opressão. Sempre que refere diferenças de raça é explícito que se trata de uma
hierarquia, sendo os Brancos considerados superiores e ficando os
Anglo-Saxónicos acima dos demais. E esta tese, que serve de fio condutor a toda
a obra, é por vezes enunciada com flagrante rudeza e concisão, por exemplo ao
afirmar: «A convicção de que existe no homem uma estreita relação entre a
dimensão do cérebro e o desenvolvimento das faculdades intelectuais apoia-se na
comparação dos crânios das raças selvagens e civilizadas, dos povos antigos e
modernos, e por analogia com toda a série dos vertebrados.»13. E «os
poderes mentais dos animais superiores não diferem em género, ainda que o façam
muito em grau, dos poderes correspondentes do homem, especialmente das raças
inferiores e selvagens [...].»14. Esta distância menor que separaria
as raças inferiores dos animais superiores explicaria, sem dúvida, «a forte
tendência observada nos nossos aliados mais próximos, os macacos, nos idiotas
microcéfalos e nas raças selvagens da humanidade para imitar tudo aquilo que
ouçam e lhes desperte a atenção [...].»15. Ao mesmo tempo passou
também a considerar as mulheres física e mentalmente inferiores aos homens;
será bom nunca esquecer que a conversão do racismo numa gradação biológica se
operou conjuntamente com idêntica transformação no sexismo. Porém Darwin, se se
tornou um racista, não deixou por isso de ser um grande cientista e a
argumentação que emprega ilustra involuntariamente este paradoxo. No primeiro
terço do livro afirma a inferioridade biológica dos povos que julga selvagens e
propõe-se em seguida explicá-la. Para isso introduz a noção de selecção sexual
mas tudo o que consegue, nos restantes dois terços da obra, é tentar justificar
as diferenças de cor e de fisionomia, sem que nunca, nem numa linha sequer,
possa daí inferir qualquer hierarquização das capacidades mentais. E assim
ficou por demonstrar aquela que, para ele, seria precisamente a questão. Os
discípulos estiveram longe de ter a probidade do mestre. Que se passara
entretanto, para provocar uma mutação tão cabal?
Até então a expansão dos Europeus em direcção à África e ao Oceano
Pacífico tivera objectivos predominantemente comerciais e assentara na fundação
de entrepostos, mantendo relações de tráfico com as sociedades autóctones. O
desenvolvimento da indústria nas metrópoles obrigou a uma profunda remodelação
da estratégia colonial, que passou a visar principalmente a obtenção de alguns
tipos de alimentos e de matérias-primas, quer pela extracção, quer pelo
estabelecimento de grandes plantações. Mas para isso seria necessário converter
ao assalariamento povos que, enquanto parceiros comerciais, tinham conservado
os seus sistemas económicos próprios, e uma destruição metódica dos modos de
produção tradicionais não poderia ocorrer sem a ocupação dos territórios. As
guerras de conquista que as democracias europeias desencadearam em África na
segunda metade do século dezanove, e que levaram à reunião da Conferência de
Berlim em 1884-1885, foram a condição prévia à assimilação de povos que haviam
antes sido aliados. E a obtenção de trabalhadores para as minas e plantações
conseguiu-se com um misto de pressões económicas e fiscais permanentes, de
enquadramento administrativo e de violência pura, resultando numa peculiar
conjugação de assalariamento e trabalho forçado. Este processo de anulação de
soberanias e de implantação dos novos sistemas de trabalho fez-se acompanhar,
na consciência democrática europeia, pela convicção da inferioridade biológica
dos povos de pele escura. O que se passara já em vastas regiões das Américas
confirma esta análise. Desde há séculos que aí se mobilizavam grandes equipas
de escravos, especialmente Negros importados de África, empenhados numa
produção directamente destinada ao mercado mundial. E de igual modo as vítimas
do sistema foram consideradas biologicamente inferiores pelas classes
dominantes locais. As novas concepções de racismo eram necessárias para justificar
aos Europeus a destruição dos modos de produção pré-capitalistas, a completa
desorganização social de vastas populações e a integração de muitos dos seus
elementos, sob a imediata e rigorosa vigilância dos colonos, num sistema de
trabalho cuja razão de ser lhes escapava inteiramente por estar em relação
directa com os grandes circuitos do comércio mundial.
As Sociedades de Geografia, que proliferaram a partir da segunda metade do
século dezanove, constituíram, a infra-estrutura do novo tipo de colonialismo.
Graças às expedições e pesquisas que patrocinavam e àquelas cujos resultados
difundiam, as campanhas militares podiam ser mais cuidadosamente preparadas e
redobrava-se a eficácia da ocupação territorial e do posterior enquadramento
administrativo. Ao mesmo tempo a estratégia expansionista era justificada
mediante o aprofundamento e a divulgação das novas formas de racismo. E em
breve, graças sobretudo à acção das Sociedades de Geografia, este conjunto de
orientações pôde ser integrado numa nova disciplina académica, a Geografia
Política, depois denominada Geopolítica.
A Geopolítica pretendia explicar a necessidade sentida pelo capitalismo de
afirmar o seu poder sobre novos e vastos territórios, atribuindo-a, não à
dinâmica económica, mas a pretensos interesses históricos de povos entendidos
não menos miticamente. E assim as aspirações imperiais das classes dominantes
europeias e norte-americanas justificar-se-iam pelas cedências e a submissão
que a alegada superioridade dos povos de pele clara necessariamente imporia aos
povos, considerados inferiores, de pele mais escura, negra ou amarela. Nascida
nas instituições universitárias e administrativas das democracias e aí
desenvolvida, nomeadamente na Grã-Bretanha pela acção de Halford Mackinder,
membro da ala mais imperialista do Partido Conservador e que, ao serviço do seu
governo, desempenhou em 1919 um importante papel na guerra civil russa como
conselheiro político das forças brancas, a geopolítica iria contribuir para a
formação do pensamento de Hitler. O expoente desta disciplina na Alemanha de
entre as duas grandes guerras, o general e geógrafo Karl Haushofer, foi, na
Universidade de Munique, professor de Rudolf Hess, de quem se tornou amigo
pessoal. E é bem conhecido que Hess, membro do partido nazi desde 1920, onde
viria a ocupar o segundo lugar até à sua bizarra partida para a Grã-Bretanha
durante a guerra, gozava então da inteira confiança de Hitler e ajudou -o
quando ele, na cadeia, escrevia o Mein Kampf. Foi assim que Hitler teve
oportunidade de aproveitar amplamente as doutrinas geográficas em voga. O
cordão umbilical que unia o fascismo alemão às democracias ficou reforçado.
A Eugenia foi a outra das novas disciplinas académicas, desenvolvida nos
regimes democráticos, que participou decisivamente na formação do quadro
ideológico do nazismo. Directo continuador da obra de Darwin, o seu primo
Francis Galton, fundador da Eugenia, desenvolveu o racismo em dois aspectos que
se revelarão de grande importância. Por um lado, considerou em termos biológicos,
não só as diferenças de situação entre os povos, mas também as diferenças
sociais no interior de cada povo, de maneira que a elite da classe dominante
seria superior, tanto sob o ponto de vista físico como mental, e os
descendentes destas famílias herdariam as qualidades dos pais. Assim, Galton
fundiu numa justificação única o domínio de uns povos sobre outros e, no
interior de cada sociedade, de uma classe sobre a outra, explicando-os ambos
pela superioridade biológica. Intimamente relacionada com esta concepção está a
sua defesa de uma estratégia biológica, considerando necessária uma intervenção
directa e sistemática na evolução humana, mediante o condicionamento dos
acasalamentos, de maneira a aperfeiçoar a raça. A futura política hitleriana ficava
assim já traçada nas suas linhas fundamentais. Aliás, a tese de Galton de que a
genialidade era uma característica transmissível hereditariamente havia
recebido a concordância de Darwin, que formulou ele próprio um verdadeiro
programa de genocídio social e rácico.
Em primeiro lugar, Darwin abordou o problema de como assegurar, no interior de
um mesmo povo ou sociedade, a supremacia dos que a si próprios se julgavam
superiores relativamente aos considerados inferiores. «Entre os selvagens,»
escreveu ele na sua grande obra sobre a evolução humana, «rapidamente são
eliminados os indivíduos física ou mentalmente fracos; e os sobreviventes
demonstram geralmente uma saúde vigorosa. Nós, os civilizados, pelo contrário,
fazemos todo o possível por travar o processo de eliminação; construímos
hospícios para os atrasados mentais, os aleijados e os doentes; promulgamos
leis de auxílio aos pobres; e os nossos médicos empenham-se com toda a
habilidade em salvar a vida de cada um até ao último momento. [...] Assim se propagam
os membros fracos das sociedades civilizadas. Ninguém que tenha participado na
criação de animais domésticos pode duvidar de que isto é forçosamente muito
prejudicial à raça humana.» Mas ao chegar a este ponto Darwin intimidou-se nas
conclusões, por considerar que a simpatia manifestada para com os fracos se
integrava em formas de comportamento necessárias ao próprio tecido social. E
consolou-se com a reflexão de que, pelo menos, «os membros inferiores e mais
fracos da sociedade não se casam com tanta liberdade como os vigorosos », além
da existência de factores institucionais que, mediante os mecanismos da
selecção, beneficiariam os mais aptos física e mentalmente. Pôde assim
concluir: «Embora a civilização trave de muitas formas a acção da selecção
natural, parece favorecer um melhor desenvolvimento do corpo […]. Isto pode
deduzir-se do facto de os homens civilizados, quando comparados com os
selvagens, terem-se revelado mais fortes fisicamente.». Quanto às qualidades
intelectuais, Darwin afirmou em seguida: «Se os membros de cada escalão da
sociedade fossem divididos em dois corpos iguais, incluindo um os
intelectualmente superiores e o outro os inferiores, não pode haver
praticamente dúvidas que os primeiros teriam mais êxito em todas as profissões
e criariam um maior número de filhos. […] Deve por isso haver nas nações
civilizadas uma certa tendência para o aumento, tanto no número como no nível,
dos intelectualmente aptos.» Apesar de tão agradável constatação, Darwin não
era inteiramente optimista. « Nos países civilizados, um dos mais importantes
obstáculos ao aumento numérico dos homens de uma categoria superior [...] [é] o
facto de os mais pobres e imprevidentes, tantas vezes degradados pelo vício,
[...] tenderem a multiplicar-se a uma taxa mais rápida do que a dos indivíduos
previdentes e em geral virtuosos.»
Porém, actuariam igualmente em sentido contrário outros mecanismos da
selecção natural, além de instituições sociais, levando os pobres, os imorais e
os criminosos a sofrer uma maior taxa de mortalidade. Esta complexa articulação
de forças opostas em caso nenhum levaria a resultados garantidos: «Se os vários
obstáculos especificados [...], e, talvez outros ainda desconhecidos, não
impedirem os imprevidentes, os depravados e os restantes membros inferiores da
sociedade de aumentar a uma taxa mais rápida do que a dos homens de melhor
categoria, a nação retrocederá, como sucedeu já tão frequentemente na história
do mundo. Devemos lembrar-nos de que o progresso não é uma regra invariável.»16.
Foi precisamente neste ponto que as teses de Galton continuaram as de Darwin,
suprindo-se as incertezas da selecção natural com a intervenção segura «dos
homens de melhor categoria». Aliás, já noutra passagem da mesma obra Darwin
esteve à beira de conceber esse tipo de actuação, ao escrever que «o homem se
distingue muito de qualquer animal estritamente domesticado, porque a sua
criação nunca foi controlada durante muito tempo, quer por uma selecção
sistemática, quer inconsciente. Nenhuma raça ou corpo de homens foi subjugada
tão completamente por outros homens que alguns indivíduos fossem conservados, e
assim seleccionados inconscientemente, por de algum modo serem da maior
utilidade para os seus senhores.»17. Só pode chegar-se a um grau tão
extremo de antecipação histórica quando o lugar das doutrinas e práticas
futuras está já exactamente marcado.
Ainda que Darwin hesitasse quando analisava a questão rácica no interior
de uma mesma sociedade, tudo parecia esclarecer-se ao passar para o confronto
entre povos. A superioridade branca, nomeadamente anglo-saxónica, encontraria
confirmação na própria expansão imperialista, que Darwin entendeu como uma
verdadeira estratégia de genocídio. «A extinção resulta sobretudo da rivalidade
entre tribos e entre raças. [...] Quando nações civilizadas entram em contacto
com selvagens a luta é breve [...] o cultivo da terra será, de maneiras
diversas, fatal para os selvagens, que não podem, ou não querem, mudar de
hábitos. Nalguns casos novas doenças e vícios revelaram-se muitíssimo
destrutivos» e Darwin continua a enunciar um catálogo de formas de extinção das
populações autóctones resultantes da introdução de novas instituições
económicas e administrativas e de novos tipos de vida, sem esquecer o
extermínio provocado mais directamente pelas campanhas militares18.
A este respeito já não tinha dúvidas quanto ao sentido prevalecente nos
mecanismos de selecção. «O nível de civilização parece ser um elemento da maior
importância no êxito de nações rivais.» E poucas linhas depois, com igual
convicção, escrevia, a propósito de um dado caso, que «a morte seguiu-se às
tentativas de civilizar os nativos.»19. Se aquela mesma
«civilização» que assegurava o triunfo de uns garantia a liquidação dos outros,
então tudo corria bem no melhor dos mundos. «Numa época futura que não há-de
distar muitos séculos, as raças civilizadas do homem decerto exterminarão em
todo o mundo, e substituirão, as raças selvagens .»20.
Na sequência da acção de Galton, as Sociedades de Eugenia proliferaram nos
meios universitários das democracias europeias e norte-americana, empenhando-se
mais profundamente ainda do que o fundador no programa racista. E o racismo
recebeu a consagração oficial no direito internacional das democracias quando a
Sociedade das Nações, fundada em 1919 por iniciativa das potências vencedoras
na primeira grande guerra, se recusou a introduzir nos seus estatutos uma
cláusula de igualdade racial, proposta pelo Japão e pela China. Embora o
presidente Woodrow Wilson tivesse sido um dos mais activos promotores da
Sociedade das Nações, os Estados Unidos acabaram por se auto-excluir, em
virtude da posição isolacionista tomada por grande parte do Senado; o que não
impediu os dirigentes do país de agravarem eles próprios as medidas racistas.
Os eugenistas, cujas campanhas contra a imigração se haviam iniciado nos
Estados Unidos antes ainda do começo deste século, beneficiaram de um crescente
apoio dos meios políticos e o Congresso aprovou em 1924 a National Origins
Quota Law que, além de estabelecer um limite máximo ao número de imigrantes
aceite anualmente, fixava as suas origens nacionais consoante critérios
destinados a orientar a composição étnica da população norte-americana. Ao
mesmo tempo, e por influência também das Sociedades de Eugenia, começava a difundir-se
a esterilização de várias categorias de doentes mentais e de pessoas
consideradas criminosas ou moralmente pervertidas. Na década de 1930 numerosos
estados dos Estados Unidos e algumas das mais modelares democracias europeias
haviam promulgado legislação neste sentido.
Bastante antes de os nazis conquistarem o poder já as democracias tinham
criado, desenvolvido e aplicado um programa racista que não só afirmava a
existência de uma hierarquia de capacidades mentais e físicas consoante as
cores de pele e os estratos sociais, mas propunha-se igualmente, mediante
normas legais, conduzir uma actividade selectiva de modo a orientar a evolução
biológica. O racismo hitleriano distinguiu-se do racismo democrático apenas sob
o ponto de vista administrativo, pois era num quadro altamente centralizado que
pretendia produzir a «raça superior», enquanto as democracias, articulando
vários centros de poder, propunham-se chegar de outra maneira ao mesmo
objectivo. Mas esta diferença de actuações não se restringia ao racismo,
decorrendo das formas de organização a que, neste campo como em todos os
outros, obedeciam os aparelhos de Estado. Quanto à ideologia e aos seus
objectivos, os projectos de Hitler inseriram-se legitimamente no quadro da
geopolítica e da eugenia, dispondo portanto das mais puras credenciais
democráticas.
Nem era menor a sua legitimidade democrática quando recorriam às formas
mais delirantes da atrocidade para aplicar o programa rácico. É bem conhecido o
horror dos campos de concentração nazis, mas os democratas cobrem com um
espesso silêncio a transformação de vastíssimos territórios colonizados em
puros campos de concentração. Os regimes parlamentares eram uma forma política
adequada ao tipo de economia prevalecente nas metrópoles; e este aspecto do
sistema capitalista não podia existir sem o seu complemento, a exploração
colonial, com as atrocidades sistemáticas e o terrorismo de Estado necessários
para introduzir o trabalho assalariado entre populações que toda uma cultura
prendia a outros modos de produção. Democracia e terror colonial foram duas
faces da mesma realidade. Só o emprego extensivo de variadas formas de
crueldade, não só as punições físicas, mas a permanente humilhação social e
psicológica, pôde converter, no espaço de uma geração, populações seguras de
si, ou tantas vezes arrogantes, numa mssa submissa. Para que a vida se
processasse nos termos requeridos pelo colonialismo era indispensável
desagregar os sistemas sociais existentes e a tarefa não foi entregue à livre
iniciativa dos colonos. Foi planeada e superiormente dirigida pelas classes
dominantes nas metrópoles democráticas. Tratava-se de deixar esses povos sem
qualquer compreensão do presente, de modo a serem roubados do futuro. Deixá-los
desprovidos de passado foi o verniz ideológico deste programa e para isso os
universitários recusaram a dignidade da História a todas as histórias que não
tivessem conduzido à civilização europeia e negaram a igualdade biológica dos
povos que sustentavam culturas diferentes. Seria impossível fazer aqui o
catálogo das crueldades praticadas nas colónias pelas democracias. Seria inútil
também, porque o principal horror reside na possibilidade de empregar
sistematicamente tais métodos, e não no facto de mais um, ou dez, ou mil
mutilados se juntarem à soma.
*
O neoliberalismo precisa de reconstruir a história e a ilusória pureza de que
reveste os seus antecedentes é o espelho da falsidade com que opera no
presente. O mundo mudou. Enquanto territorialização do expansionismo e reforço
do aparelho clássico de Estado num único pólo centralizador, o fascismo, tal
como existiu entre as duas guerras mundiais, está encerrado. A dinâmica
capitalista deve-se agora às grandes empresas multinacionais que, deixando as
fronteiras sem significado, estabelecem uma rede económica e política que não
sustenta já territórios contínuos e homogéneos. E, inter-relacionando-se numa
multiplicidade de pólos principais, as grandes sociedades multinacionais e as
principais administrações alicerçaram um novo sistema de poder, que exercem de
forma pluricentrada e no qual as maiores empresas assumem funções directamente
políticas. Ao mesmo tempo, a internacionalização do capital fez com que
se encontrem à frente das mesmas empresas e das grandes burocracias
supranacionais gestores das mais variadas origens e cores de pele, o que
inevitavelmente alterou os termos em que o racismo pode ser formulado. Para
entendermos, porém, as democracias contemporâneas como um estádio superior, e
tanto mais grave, da repressão camuflada, do controle oculto, da imperceptível
manipulação, não devemos esquecer que têm sempre sido estruturalmente
inseparáveis das formas mais abjectas de opressão. Se pudessem olhar para o
interior de si próprias e para o seu passado como, na novela célebre de Joseph
Conrad, o Sr. Kurtz à beira de morrer, exclamariam com ele: « O horror! O
horror! »
por João Bernardo IN: Malasartes,
Coimbra, 1992, n° 8.
Notas
1 António Ferro, Salazar, o Homem e a sua Obra, s.1.:
Empresa Nacional de Publicidade, 1933,
pp. 73-74.
2 Albert Soboul, La Révolulion Française [Paris]: Gallimard,
1964, vol. II, pp. 176-177.
3 Benito Mussolini, «The Political and Social Doctrine of Fascism», Internalional Conciliation, n.º 306, Janeiro
de 1935, reproduzido em
Charles F. Delzell (org.) Mediterranean Fascism 1919-1945, New York: Walker, 1971. A frase
citada encontra-se na pág. 105.
4 Barbara Miller-Lane, Architettura e Política in Germania
1918-1945, Roma: Officina Edizioni, 1973, pp. 242-243.
5 O discurso de Mussolini no Congresso do partido em Nápoles em
Outubro de 1922 vem parcialmente transcrito em Ch. F. Delzell, op. cit. A
passagem citada está na pág. 42.
6 B. Mussolini, «The Political and Social Doctrine of Fascism»
em ibid. A frase reproduzida encontra-se na pág. 103.
7 Alan Bullock, Hitler,
A Study in Tyranny, Harmondsworth: Penguin, 1972,
pp. 157-158.
8 Hermann Rauschning,
Hitler m'a dit,
Paris: Coopération, 1939, pág.
274.
9 Id., ibid., pág. 59.
10 Alan D. Beyerchen, Scientists
under Hitler. Politics and the Physics Community in The
Third Reich, New Haven e Londres: Yale University
Press, 1977, pp. 126-127. Porém, entre outras deficiências, a maior
das quais é a de não aprofundar suficientemente as relações ideológicas entre a
Física Ariana e o indeterminismo de Heisenberg, o autor deste livro nunca
consegue entender que a experimentação a que se referiam Lenard, Stark e os
seus seguidores não era de tipo empirista, mas subjectiva e panteísta.
11 Esta obra de Darwin foi editada em Londres por The Folio
Society, em 1990, com o título A Naturalist's Voyage. A passagem citada vem na pág. 78.
12 Id., ibid., pág. 173.
13 Charles Darwin, The Descent of Man and Selection in
Relation to Sex, Londres: The Folio Society,
1990, pág. 45.
14 Id., ibid., pág. 471.
15 Id., ibid., pág. 73.
16 Id., ibid., pp. 113-119.
17 Id., ibid., pág.
23.
18 Id., ibid., pp . 157 e segs.
19 Id., ibid., pág. 158.
20 Id., ibid., pág. 134.