IPÊS
Lino Vitti
Abre
a janela matinal... Que vês?
O
milagre florido das umbelas
Com
que – artistas gloriosos – os ipês
Pintaram
a sorrir mágicas telas.
Umas
roxas, imensas, são buquês,
Lembram
semanas santas nas capelas.
Outras,
mistérios cheios de porquês,
Aloiram
cabeleiras amarelas.
Várias,
brancas, espalham os arminhos....
Todos
são almas dentro em nós vivendo,
Roxas,
brancas, às vezes muito pálidas...
A
tristeza, o prazer nossos caminhos,
A
palidez de quem está morrendo.
As
pobres almas sem amor – esquálidas!
* * *
(Nota: Este soneto, de junho 2006, foi prefaciado com o seguinte
texto:)
FESTIVA FLORESCÊNCIA
Lino Vitti
Ao vir do inverno, quando tudo parece se
entristecer, mormente na roça, com o silêncio dos pássaros e a queda das folhas
de inúmeras espécies arbóreas, com manhãs vestidas de neblina friorenta e com
um sol pálido teimando romper esse véu branco da natureza, com homens, mulheres
e crianças empacotadas em trajes grossos e deselegantes – ao vir do inverno,
repito – aqui, na paisagem citadina, o espetáculo é outro, é como que um
contraste intrigante.
Praças,
ruas, avenidas e quintais, como que fazem questão cerrada cada qual, para
mostrar, com orgulho vegetal, a glória colorida dos ipês em flor, ora roxa, ora
branca, ora amarela, todas destinadas a encantar os olhares e a contemplação
daqueles que têm alma, prazer e felicidade para admirar as ofertas de beleza
com que a aproximação da Primavera sabe colocar – pingos de encantamento num
imenso mundo de luzes e cores – aqui e ali para o lazer dos olhares humanos.
O ipê – nome curtinho em letras, mas
enorme na sua presença vegetal - é soberbo em sua copa e em suas cores. E para
que a grandiosidade de suas flores, compactas, em pendões, gloriosas, se
estampe mais intensamente no palco da paisagem, ele se despe primeiramente do
traje verde de todas as folhas, e se envolve em seguida e de imediato, na
roupagem colorida das flores, para se apresentar, assim como se fora uma atriz
da linda ópera Primavera, em gala florida, para gáudio dos espectadores humanos
e silvestres. Aqueles extasiados diante da atriz enflorada, estes ansiosos por
ir beijar a beleza colorida e quiçá encontrar naquela explosão de flores uma
gota de mel que todas as flores, avaramente, sempre guardam em seu regaço.
Os jardins, as ruas, as praças, em vindo esta estação hibernal a antecipar a chegada breve da Primavera, são tomadas de súbito pela florada dos ipês. Eles são pontuais, ano a ano respondem presente, como se tivessem um profundo amor aos olhares humanos, como se sentissem a necessidade de se manifestar nesse generoso explodir de flores, como se os chamássemos a nos alegrar a visão e a alma, como se fosse uma manifestação divina descida do céu, de onde, teimoso poeta que sou, suponho sejam trazidos até nossa alegria terrena os ipês floridos, numa noite de felicidade pelos anjos jardineiros dos celestiais jardins. Só isso justificaria tanta beleza, cores tão exuberantes e lindas, espetáculo tão grandioso, como esse!
E porque
o poeta, infeliz (ou feliz?) prisioneiro dessa profunda manifestação humana, se
sente fatalmente empurrado a poetar, assim como o músico e o pintor não podem
fugir aos chamamentos de sua arte maravilhosa, sempre que diante de um
escândalo espetacular de cores ou de poesia, senti-me no dever de oferecer aos
leitores um pouco de poesia sobre os maravilhosos visitantes. (Ver, acima, o
soneto “Ipês.)