A flor

(Primeiro poema, escrito em 1935.)

 

Lino Vitti

 

 

 

 

                    I                           

Nasceu de um regato à margem,

pequenina, sem igual.

cresceu, abriu-se orgulhosa

sem padecer algum mal.    

 

                    II                          

Passaram semanas, meses,       

qual dia primaveril,        

vivendo a bela florzinha           

por entre alegrias mil.               

 

                    III                         

Do sol recebia os raios,  

da lua, doce beijar.                   

Das auras, leve sorriso,

das aves, meigo cantar.

 

                    IV                         

Das águas calmas, serenas,

ouvia o doce correr,

por entre as copas sombrias,

das juritis, o gemer.        

 

                    V                          

Do beija-flor recebia

o leve beijo também.

Sugar o mel do seu seio

a borboleta lá vem.         

 

                    VI

Nas tardes doces, calmosas,

em que o sol triste descia,

a flor de corola aberta

ao céu sereno sorria.

 

                    VII

Nas belas noites tranqüilas

em que a lua resplandecia

a flor com o lindo seu cálix

o doce orvalho sorvia.

 

                    VIII

Passaram-se longos dias,

chegara a flor a murchar,

subiram, correndo, as águas,

levaram-na para o mar.

 

                    IX

E lá que fez a florzinha

naquele mundo de água?

Chorou, chorou, coitadinha,

as suas dores e mágoas.

 

                    X

Assim somos nós na vida:

quando menos esperarmos

eis então que a toda brida

vem a morte arrebatar-nos.

 

 

 

Nota do Autor em julho de 2005:

 

Poesia escrita por mim em segredo (era vedado poetar na sala de estudos do Colégio Santa Cruz), nos felizes dias do ano de l935, como seminarista, e, chegada até minhas mãos, graças a um caderno manuscrito do saudoso Padre Jacó Stênico (de Santa Olímpia), que guardo como recordação e como coisa das mais preciosas. Poderá e deve ser talvez minha primeira poesia!

 

De lá até aqui já rolaram, declive abaixo do tempo, nada menos do que 65 anos, o que quer dizer que a verdadeira poesia me acompanha sem dar tréguas à idade, por todo esse período, sempre acalentada, amada, distribuída a todos quantos encontrei no caminho da vida, tão bela, tão dignificante, tão feliz, contrariando aqueles que supõem, erroneamente, que ela é passageira, fútil, desinteressante.

 

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