A vida continua ... |
Lino Vitti |
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A imortalidade física não existe. A vida é um fenômeno que envolve dois elementos, intrinsecamente unidos para um tempo determinado: um material – o corpo; outro espiritual – a alma. O primeiro, mortal; o segundo, imortal. A morte chega no instante em que corpo e alma, por não se sabe que força, são desligados um do outro. Há a fuga de algo, desse ímã misterioso, mas real, que destaca alma e corpo, resultando a imobilidade total e a degeneração física da matéria, do pó, diz a fé, porque o homem é pó e ao pó há de retornar. O destino dessa poeira que deu contornos humanos ao espírito eterno já está traçado inexoravelmente, enquanto o elemento invisível, segundo as religiões de todos os tempos e de todos os padrões, aquele quê é chamado alma, mas que na verdade é a própria vida, acabará alcançando a presença do Criador, ou a sua total ausência; no primeiro caso, gozando da bem-aventurança eterna, no segundo, diz a doutrina cristã, sofrendo para sempre a desdita de ver Deus e não participar de sua glória e felicidade. Tudo segundo o homem o fizer e viver por o merecer. Nascer é carregar consigo a certeza
da morte. Por isso, morrem os que mal nascem, os que duram dezenas de anos e
até século, os pobres e os ricos, os sabidos e os ignorantes, os espertos e os
tolos, os ganhadores e os perdedores, os fiéis e os infiéis, os crentes e os
ateus, os casados e os solteiros, os que abraçam a vida religiosa e os que não
permanecem imunes à carne e ao prazer. Ao vir à luz, já trazemos na testa
nascente o estigma da duração da vida. Faleceu o Papa viajante, o Papa que
vagou pelo mundo inteiro para levar a presença de Deus aos que ainda descrêem,
levar a esperança aos que crêem, levar o amor aos deserdados de amor, levar a
realidade da vida aos que não pensam jamais no fim da vida, levar a palavra de
Deus aos ouvidos do mundo inteiro, pois para isso foi chamado por Ele, para
isso herdou a missão papal, para isso o Espírito Santo lhe deu a graça da
infalibilidade, levar consolo e amizade e dignidade e honra, aos povos e aos
seus dirigentes, no intuito sublime de arregimentar num só rebanho, sob seu
cajado de Pastor Santo, a humanidade. Essa humanidade dura de cabeça, que não
quer a Paz, não quer Deus, não quer a Salvação, não quer a felicidade do
Paraíso eterno. Desde o primeiro Papa eleito, ao que
se ensina o meu xará Lino, sucessor de São Pedro, que não precisou de eleição
porque o próprio Cristo, em vida ainda, lhe deu as Chaves do Reino de Deus na
Terra, recomendando-lhe “tudo o que ligares na Terra, será ligado no Céu, e
tudo o que desligares aqui será desligado no Céu”, desde o primeiro Papa,
repito, até hoje, a corrente do cristianismo e de seus dirigentes máximos,
continua, na pessoa de cada um deles, a florescer, a permanecer, a frutificar,
a distribuir os dons celestiais, a espalhar a santidade, a amar os seus
inimigos, a oferecer a Paz e o Amor, sem os quais a vida será um deserto, ou
quando não, um furacão que leva de roldão o que é bom, o que é mau, o homem e a
natureza, a vida e o bem-estar. O mundo inteiro, crente ou não,
cristão ou não, de qualquer raça, de qualquer cor, de qualquer país ou
continente, de qualquer idade ou qualquer saber, se entristeceu com a morte de
João Paulo II. Entretanto, ao mesmo tempo, comovido e confiante, crê e espera
que em breve deixaremos a orfandade temporária, porque o seu sucessor chegará,
imediatamente, carregado plenamente dos mesmos ideais, da mesma Fé, da mesma
convicção, da mesma confiança, dos mesmos desejos sublimes e santos que foram o
apanágio do representante de Cristo que nos deixa. E a vida continuará, e a voz de Deus
continuará, e a vida de uma Igreja gloriosa e perene continuará. E a palavra,
os ensinamentos, a paciência, o sofrimento, a santidade de João Paulo II, será
para aquele que lhe dará continuidade, uma bênção, um exemplo, um modelo, um
guia, um Pai. É o que neste momento, nestas linhas insignificantes para retratar a grandiosidade do Papa João Paulo II, este pobre escriba gostaria de transmitir aos caríssimos leitores de minhas desengonçadas crônicas semanais. Bem que quisera eu ter um relampejo que fosse daquela inteligência, cultura e crença, do imenso Papa falecido, para cantar-lhe as glórias imortais de que é dono, na Terra e no Céu, segundo merece a sua excelsa figura humana e divina. |
| Abril 2005 |