Velhice: o que é isso? |
Lino Vitti |
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Veja bem, o possível leitor, que
surgem, de imediato, nas linhas do título desta quiçá milionésima crônica
minha, dois vocábulos significativos sobre o tema pretensamente abordado por
mim: velhice e decano. Ser
velho não é curvar-se bisonhamente ao peso dos muitos anos. Não é reclamar do
vazio físico, social, espiritual, humano enfim, com que a vida contempla os que
ultrapassam os 80. Não é deitar no leito do nada fazer aguardando a hora de
partir para a eternidade. Não é locupletar consultórios médicos ou hospitalares
com visitas constantes e nem sempre necessárias , na tentativa inútil de
repelir para longe aquilo que é próprio de todos os mortais, feitos de carne e
ossos que o tempo se compraz em achacar e destruir. Não é encastoar-se numa
torre de isolamento, renegando tantas coisas belas e boas que a vida costuma
oferecer a qualquer um de nós, mesmo que a companhia dos anos seja numerosa e
desagradável. Não é ainda – ser velho - renunciar aos amores familiares, aos
sonhos gostosos, aos anseios de vencer, aos desejos de divertir-se, às
possibilidades de conquistar novas amizades, novos relacionamentos, novos
conhecimentos artísticos, científicos; de renunciar à leitura de livros,
jornais, revistas; de deixar de sentar-se diante da tevê para assistir disputas
esportivas, novelas glamourosas, noticiário nacional e internacional, filmes
novos e antigos; e por último, diria, ser velho não é jamais jogar a vontade de
lado, no lixo, e deixar de escrever crônicas, artigos, romances, poesia,
pintar, transmitir novas teorias, novos princípios políticos, participar da
vida institucional do país e acompanhar tudo quanto em outras nações
acontece... Isto
seria não ser um velho legal, e o contrário disso, seria, logicamente, SER
VELHO. Prematuramente, desnecessariamente SER VELHO! A
velhice – a boa velhice – deve ser amada, como um dom divino, como um prêmio da
vida, como um valor inarredável da existência, como um modelo que deve
permanecer no seio da sociedade, para ser imitado, para ser guardado, para ser
cultuado. E às crianças, aos jovens, aos adultos e aos outros velhos, de
qualquer sexo ou condição humana, cumpre ver com olhos de ouro aqueles a quem o
tempo elegeu para viver muitos anos, aqueles que vêem o horizonte do ocaso já
bem próximo, iluminado como um convite a ser seguido, serenamente, à espera da
noite sem fim e da eternidade . É
verdade que nem sempre a mente – a alma – envelhece com o corpo. Há então uma
descompensação entre uma e outro. Não deve ela entretanto ser motivo de
desalento, sim porém, uma razão de se buscar um nivelamento necessário para que
se estabeleça o equilíbrio, e, com ele, a tranqüilidade , o bem-estar. Deixe-se
o espírito navegar por ilusões, por países encantados, ao encontro daquilo que
faz esquecer o rol de anos vividos e poderemos quiçá ver que a velhice não é
nada, não apavora, não entristece, não apaga os sonhos, as esperanças, os
amores a tudo quanto o mundo lhe ofereceu durante tantos e bem aproveitados
anos. Os
bons anos vividos e saboreados com sabedoria, são um feliz depósito no banco da vida , à disposição de saques futuros,
pelos quais se compram dias de felicidade relativa, ao lado do esquecimento dos
males, contratempos, aborrecimentos, desditas e contrariedades. Apesar de se
encontrarem belezas na recordação do passado, deve-se pouco ou nunca recorrer a
ele, porque é saudade, é fumaça, é esquecimento que se foram, e a certeza de
que não mais retornarão causa sem dúvida tristezas e decepções . Embora
tudo o que ficou dito acima, embora adentrado no último lance do caminho da
existência, sinto-me bafejado pela felicidade de uma velhice que me permite
poder ainda transmitir aos amigos, aos familiares, aos desconhecidos, aos
leitores de todos os jornais de Piracicaba, as minhas idéias, a minha poesia,
as minhas crônicas, onde deponho com todo o coração minha amizade, meu amor
pelos meus, minha gratidão para com aqueles que me acompanharam durante muito
tempo os anos de minha vida literária, poética, cristã, laboriosa e fecunda ,
especialmente com o respeito e entrelaçamento pessoal de que m sabe o que é ser
velho, e assim, carregar a velhice não como um fardo doloroso, mas como um
prêmio de longa vida por Deus concedida e abençoada. |