Vale a pena reiniciar

Lino Vitti

       

                    Reiniciar! Reinicia-se aquilo que foi cortado em meio antes de estar concluído. Ou, se concluído fora, reiniciar é começar de novo com o mesmo objetivo. Há coisas que não se reiniciam: a vida, a eternidade, o passado.

                   Muitos viajam, longamente, e à cada parada corresponde um reinicio de viagem. De carro, de navio, de avião, a pé, a cavalo, são muitos os processos através dos quais os viajantes percorrem seus itinerários. E como se sentem felizes, realizados, satisfeitos, quando conseguem alcançar os propósitos de suas andanças, correndo as distâncias e conquistando os êxitos, muitas vezes iniciados e reiniciados !

              Muitos resolveram um dia deixar seus estudos, interrompendo uma das mais queridas e necessárias metas visadas pelo homem. Entretanto, sentem-se incompletos, percebem que lhes falta alguma coisa na vida, que é preciso reiniciar os estudos, que é preciso dar novos impulsos aos seus passos. Então buscam novamente o fio da meada da vida, retornam aos livros, aos mestres, às escolas, reiniciando com talvez com maiores entusiasmos os caminho do saber, eventualmente deixados atrás. E tal reinicio pode muito bem trazer-lhes felicidade e renovar-lhes as forças combalidas rumo a objetivos valiosos e indispensáveis ao viver.

               O homem do campo, muitas vezes, tem sua lavoura devastada pela violência das intempéries meteorológicas. Olha a vastidão dos danos causados pelos ventos, pelo granizo, pelas inundações, e se desalenta porque com a tempestade e a devastação foram-se as esperanças, foram-se os prováveis lucros, foram-se os futuros alimentos e confortos para os seus e para os semelhantes, só sobrando a tristeza e a desolação. Entretanto, ainda está acesa no coração do homem lavrador, a chamazinha da fé, ainda confia nas suas forças e no seu ânimo. E reinicia então. Reinicia a dura lide da reconstrução de suas lavouras, reinicia suas expectativas de vitória, sua esperança Naquele que criou o mundo e ordenou um dia que os ventos amainassem, que o temporal fosse embora, que as ondas se tornassem mansa e lisas. E isto é, sem dúvida, reiniciar.

              O pecado, sabem-nos todos, é um ato destruidor que acomete e comete o ser humano. Sabem-no ainda que se interrompe com a desobediência à Lei Divina, o estado de graça, a amizade com Deus. Cai-se então na desgraça do desamor, na infelicidade de consciência, às vezes no remorso e no arrependimento. Deve-se aí reiniciar o estado de tranqüilidade de consciência e a amizade com Deus. Reiniciar a vida, a fé, o amor, a caridade. Reiniciar o caminho da graça e da luz divina.

             Não faz muitos dias, a natureza ofereceu-me graciosamente um exemplo digno de como os pequenos seres do mundo, como são as aves, reiniciam o seu trabalho de reconstrução do ninho. Um casal de rolas felizes e amorosas, resolveu construir seu humilde lar de palhinhas num pequeno vão entre o beiral do telhado e o bocal de uma lâmpada elétrica. A minha lógica humana que difere imensamente da lógica alada das extremosas rolas, entendia impossível o objetivo das aves. A cada palhinha colocada, invariavelmente se via sua queda, pois a superfície lisa da peça elétrica jamais iria prender aqueles “tijolinhos” leves e esvoaçantes trazidos pelas avesitas. Elas, entretanto, persistiam, teimavam, REINICIAVAM o seu mister, horas e dias seguidos. Afinal, parece terem compreendido a impossibilidade da escolha do local e desistiram, silenciosas e tristonhas, da empreitada. E as palhinhas, caídas ao chão, foram apanhadas pelo vento e levadas para não sei onde.

                 Ficou-me porém a lição da perseverança. E o modelo de que não devemos nunca deixar de reiniciar, reiniciar, reiniciar, que isto é virtude, é dedicação, é necessário ao convívio do mundo.

Dezembro 2005

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