No tronco do roble

Lino Vitti

       

        Explico, antes de mais nada e da importante curiosidade do leitor, o que vem a ser essa palavrinha “roble”, inserida por mim no título desta crônica. Não é bicho de sete ou mais cabeças, pois roble é nada mais nada menos do que a frondosa e altiva árvore carvalho. Portanto, mais adiante pretendemos inserir no tronco dessa gigantesca espécie arbórea, algo muito bacana que acontece no campo do amor humano. Você que acaso tenha mania gostosa de perseguir com sua valiosa leitura a estrada literária destas crônicas, como o deve fazer também com as de Totó Danelon, Jair Vitti, Padre Zezinho e outros que publicam ao nosso lado os seus belos trabalhos, cada qual na sua especialidade, vai constatar ao final dela como há coisas simplicíssimas na vida, nas cujo significado guardam uma enormidade de sentimentos.
        Elas mexem com o maior deles, abrigado no imo da alma humana: o Amor... Baah! me dirá você, com certa ironia e descrença: amor, amor! Essa coisa tão tergiversada nestes terríveis tempos de mal estar moral, social, religioso, nacional e internacional, de uso e abuso pelos jovens, madurões e velhotes, pelo homem e pela mulher, pelos povos de todo o mundo! É, meu caro cronista, prosseguirá a sua voz a que empresto muita importância e valor, ninguém mais respeita o amor, aquele que fazia tremer o coração e a voz dos namorados, dos pretendentes ao amor necessário e profundo para se constituir uma verdadeira família, recheada de filhos e filhas, tudo atendendo ao mandamento divino do amai-vos, amai-vos. Verdade, verdade, meu suposto interlocutor, tudo parece ter ido por água abaixo, gerando a infelicidade humana tão presente em nossos dias turbulentos, guerreiros, cansados de virtude, arrebentados pelos vícios e pecados.
         Desculpem os possíveis leitores, pela digressão acima, pois a conversa inicial com vocês era a de escrever sobre troncos de árvores anosas, frondosas, donas de amplo espaço no seio da floresta ou sobrando solitárias nos descampados e barrancas de estradas antigas que, de distâncias em distâncias, serviam de ponto de descanso para os viajores, romeiros, passeantes, e mendigos perambulantes. Esses espécimes eram propícios a piqueniques ou paradas para abrigar-se do sol ou para tomar mesmo um lanche. Além dos restos da festa passageira, costumavam as pessoas deixar um sinal inconfundível de sua passagem, gravando, a canivete, nos grossos troncos da generosa árvore, um coração – símbolo do amor – onde se gravavam, em geral, o nome de jovens casadoiros, para a curiosidade dos novos passantes: fulano ama fulana – passamos por aqui em (data ) e aqui deixamos o nosso amor. Marília e Gilmar, amamo-nos... E assim, cada qual a seu modo ia deixando no tronco da grande árvore lindeira ao caminho, a manifestação evidente do seu bem-querer.
        Tempos idos, era assim que se gravava o gostar dos namorados ou um pensamento qualquer de interesse do coração. Os troncos de árvores alterosas, frondes copiosas, serviam de telégrafo estranho para perpetuar adiante, tempo afora, um momento de felicidade acontecido à sombra daquele teto amplo e verdejante. E era sempre certo que alguém curioso botasse olhar sobre um coração desenhado, em talho, no tronco escamoso, a guardar dentro das linhas em formato imitativo, a manifestação do namorado, do noivo, de uma ansiosa ou ansioso jovem, para que um passante, lendo no futuro, participasse daquele momento de ventura e sonho.
        Muros, paredes de caverna, bilhetinhos repassados, às ocultas, por entre as carteiras da sala de aula, substituem hoje, aquele primitivo processo comunicativo estampado no troco de um roble, de um jequitibá, de uma perobeira, de um cedro, de uma paineira que, por acaso, tenham sobrado intactos da devastação das matas e pontifiquem, soberanamente solitários, à beira dos caminhos, junto aos locais de turismo, onde possam surgir ao olhar dos curiosos que sempre os há em locais assim.
        Reconheço que não está muito bem forjada a crônica de hoje. Espero entretanto que em meio à confusão redacional, os amigos leitores compreendam o que o inveterado cronista quis dizer e o nobre editor perdoe a falta de imaginação de seu bisonho colaborador.
       


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