TRÊS
BAIRROS HISTÓRICOS DE PIRACICABA
Lino
Vitti
Parte I
Nada mais natural e sumamente
grato e lógico, traga eu – nativo e filho cioso de bairro campestre – para esta
comemorativa do aniversário citadino, algumas páginas, alguma síntese sobre a
essência histórica de localidades vizinhas, Santana e Santa Olímpia e antiga
Fazenda Negri, mais conhecidas como bairro dos tiroleses, ocupantes do
território do Município de Piracicaba, importantes na sua formação geográfica e
na sua função sócio-econômica desta comunidade nacional.
Este trabalho, reconheço-o
eu, não tem pretensões de ser um computador de informações, dados,
estatísticas, fatos e pessoas, como talvez o exija a magnitude de uma edição
comemorativa deste testemunho que o Jornal de Piracicaba lavra num momento de
sua longa existência e oferece à sociedade, e arquiva em suas tradicionais
prateleiras, como a comprovar sua atuação, o desejo de seus leitores de dar
possibilidades ao cumprimento de sua missão que todos sabem qual seja: tornar
presente o Passado em registro literário, jornalístico, em páginas de um
Jornal, ou passar ao Futuro o presente de suas atividades, de seus fins
informativos e objetivos sócio-culturais.
Os bairros ontem
Entendo, por isso, que
registrar momentos de existência, de passagem pelo tempo, de nomes e costumes
de um bairro ou de mais bairros, que fogem ao comum dessas formações físicas,
sociais e históricas, é até obrigação de um filho deles que teve a felicidade
de vir ao mundo naquele recanto do Município, cercado por uma natureza
exuberante e bela, cercado de roceiros dignos, valorosos, puros, trabalhadores,
estuantes de Fé, participantes sem dúvida do progresso deste povo que constitui
o Município de Piracicaba e do país. Pedaço de chão de onde, por milagres da
vida e pela perseguição aos sonhos, pelo valor dos que os precederam na jornada
histórica piracicabana, chegaram ao ponto de formarem uma comunidade ao lado de
valores imensos de cultura, agricultura e saber com que ela sói compor o seu
corpo e constituir o seu patrimônio físico e intelectual.
Que eram Santana e Santa Olímpia, terra nativa de Guilherme, Lino,
Walter (2), Dom Moacyr, Pe. Arthur, (todos Vitti), Pe. Jacó Stênico, Tia Maria
Stênico, Guido Negri (ex-vereador), José (Bépi) Vitti, Chico Vitti, professoras
da Família Vito, professores da Família Bépi, Mecânicos, Engenheiros, Advogados,
Operários e Técnicos da Dedini, Mausa, Caterpilar, funcionários graduados e
singelos do Município, do Estado, dos Bancos, Enfermeiros e Enfermeiras,
sacerdotes, freiras e Bispos, tudo em grande número, - que eram, pergunto? Uma
casa grande de fazendeiros, umas casas estiradas ao lado de terreiros amplos, a
guisa de moradias, um paiol imenso, alguns escravos restantes da época, uma
larga porteira vedando a entrada a estranhos... O mais, não passava de
extensos, intérminos, talhões de café, cavalgando e descendo morros e barrocas,
cercando as fronteiras e as terras longínquas, ribeiros generosos coleando os
vales, numerosos, e oferecendo brilhos de lambaris ao virem à tona alcançados
pelo sol, de traíras furiosas, de bagres largos e gorduchos, festas matinais ou
vesperais musicalizadas por uma infinidade de trilos, trissos, guinchos,
gritos, berros, vindos dos pássaros e animais silvestres.
Os bairros hoje
E hoje, passados cem anos e
pico, que são Santana e Santa Olímpia, e a fazenda Negri? Um centenário apenas
transcorreu e aquelas comunidades, de origem trentino-tirolesas, pode-se dizer
que são hoje o cartão de visitas do progresso, da civilização, oriundos do
trabalho, do esforço conjunto de seus filhos, verdadeiros distritos do
Município de Piracicaba.
A “Escolas Reunidas” virou
“E. E. de 1º. e 2º. Graus”, as capelinhas são hoje “matriz”, estilosamente
modernas, dotadas de serviços eletrônicos, torres galgando o céu, vitrais, som,
corais, atos religiosos diários, praças e ruas asfaltadas, armazéns diversos,
lojas, transporte de hora em hora para Piracicaba e vice-versa, e até tempos
houve em que circulavam, semanalmente, dois tablóides –- o Imigrante e o Radar
-. O casario não se esqueceu de se atualizzar progressivamente mudando
completamente a visão arquitetônica do passado, transporte coletivo em
abundância e muitas famílias assinam até jornais da cidade. E por falar em
jornais, não seria petulância nenhuma contar aqui que dos filhos de Santana,
escrevem para jornais de Piracicaba, “Jornal” e “Tribuna”, Lino, Guilherme,
Walter, Jair Vitti, semana e bi-semanalmente. Conta ainda com o “Príncipe dos
Poetas de Piracicaba”, eleito pela Academia Piracicabana de Letras, que nada
mais é do que o rabiscador destas linhas.
E não é só. Filhos daquele
mundo de gente simples, ordeira e laboriosa, estão voando nos céus nacionais e
internacionais, como pilotos exímios das gloriosas naves que os cruzam. Eu sei
de descendentes de filhos daquele chão que são diretores de Universidade,
funcionários do CENA, que vão a Londres e outros centros europeus participar de
conferências internacionais sobre Energia Nuclear, ensinam em Universidades, em
faculdades, estabelecimentos de altos graus. (continua).
Parte II
Fenômeno lingüístico
As famílias pioneiras –
Vitti, Correr, Cristofoletti, Stênico, Negri, Forti – que deram início àquelas
comunidades, de origem trentino-tirolesa, mantiveram o uso do idioma da terra
natal: o dialeto tirolês. Várias gerações, – adultos, jovens e crianças – por
muitos anos seqüentes, só se comunicavam na linguagem vinda do país de seus
antepassados. Alguns casos cômicos ilustram esse fenômeno lingüistico. Um dos
cabeças das famílias, vindo à cidade para adquirir mercadorias, pediu mais por
gestos do que palavras, se o comerciante tinha “gaveta” para vender. Encabulado
este, foi lá dentro e trouxe uma gaveta de uma de suas mesas. “Nó, nó, no lé
questa roba”, disse o comprador. E através de mímica explicou ao vendedor que
desejava era algo comprido e próprio para amarrar...
Ahn! – fez o comerciante, apanhando
um rolo de barbante. Isto aqui se chama barbante...
“Birbante mi”? reagiu o
tirolês comprador. É que em dialeto tirolês o termo “birbante”, como o
entendera o homem, é ofensivo, e significa malandro, vadio, madraço.
Fenômeno sócio-lingüístico
que tenho observado na vida daquelas comunidades, envolve o uso da fala
comunicativa, aos tempos em que se iniciou o funcionamento da Escola Reunida,
depois Grupo Escolar e hoje E. E. de 1º. e 2º. Graus “Dr. Samuel de Castro
Neves”, porquanto todas as crianças em idade de freqüentar o ensino, entregue a
professores que só se manifestavam em português, usavam o dialeto tirolês em
casa e o português na escola. Quer dizer, iam crescendo e ao mesmo tempo
falando duas línguas, sem nunca haverem-nas aprendido separadamente uma da
outra.
Sou testemunho desse
inusitado fato, uma vez que até os treze anos me manifestava por esse processo
de dois linguajares, só deixando-o ao entrar em seminário religioso, onde
apenas se fazia o uso do português.
A integração daquelas famílias
para o Brasil, em busca de novos horizontes de vida, além de um inacreditável
espírito de trabalho, boa vontade, desejos intensos de prosperar, trouxe um
profundo sentimento de Fé, trouxe almas tementes a Deus, trouxe corações
ardentes no amor à virtude. E os passos em direção ao futuro o foram sempre
guiados pela oração, pela moral, pelos bons costumes. A obra de presença de
Deus entre aqueles primeiros sonhadores de uma felicidade conseguida pelo
trabalho e pelo temor a Deus, foi construída e levada adiante por arte
missionária dos Frades Capuchinhos Franciscanos que enfrentando sacrifícios e
contratempos não esmoreciam para levar aos santanenses e olimpienses os
princípios da religião cristã.
As residências
Quem conheceu Santana e
Santa Olímpia ou a Fazenda Negri, atualmente dividida com o latifúndio Viocil
Zotelli, no que diz respeito aos prédios residenciais, não pode deixar de abrir
a boca de admiração diante da magnitude, do estilo, da beleza arquitetônica das
moradias de hoje.
Todos esses bairros devem
ter ficado de olho comprido sobre as mudanças por que a cidade vinha e vem
passando, para melhor, quanto às construções, e assim, num gesto de grata e
louvável inveja, passaram a colocar ao chão aquela casaria humilde dos seus
primórdios e a erguer em seu lugar construções modernas, arejadas,
estilisticamente em direção ao futuro, tanto é verdade que o Município não
deixou de olhar também para aquele progresso habitacional e aproveitou a
oportunidade para cobrar dos proprietários tributos de sua competência, como
IPTU, coleta de lixo, alvarás de construção e demolição, agraciando-os, por
outro lado, com os indispensáveis melhoramentos públicos da energia, do
asfalto, do esgoto e da água.
Considerações finais
Muito teria este
“historiador” de plantão (o verdadeiro é o prof. Guilherme Vitti) a escrever
sobre aquelas comunidades piracicabanas rurais, quanto à sua História, passada,
presente e possíveis previsões futuras, não nô-lo cerceassem as restrições do
espaço redacional.
Mesmo assim, desobedecendo a
tais preceitos, ouso prever um futuro muito especial para a política e os
políticos daqueles meus bairros natais. Há de se ver, por exemplo, que os votos
daqueles piracicabanos já deram à Câmara de Vereadores dois ilustres filhos:
Guilherme Vitti e Guido Negri, havendo contribuído decisivamente para a eleição
de outros Vereadores forasteiros e de prefeitos municipais, despejando
sufrágios decisivos em deputados, federais, estaduais, senadores, governadores.
Piracicaba precisa se orgulhar dos bairros – candidatos a Distritos –
de Santana, Santa Olímpia, Fazendas Negri e Viocil, por quanto ficou dito acima
e por quanto se poderá dizer amanhã.