Trabalho: Sacrifício ou prazer? |
Lino Vitti |
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Muitas
vezes, ao tempo em que se ouvia rádio, como lazer e até como ocupação
informativa, pois a televisão era rara e a Internet ainda estava nos cueiros
de sua invenção, tive oportunidade de ouvir uma bela música cantada, cujo
estribilho dizia: “trabalha, trabalha, negro...”, e repetia: “trabalha,
trabalha negro...”. A tonalidade musical era muito expressiva e fazia lembrar
muito bem a dureza e o sacrifício do trabalho escravo. Talvez dos cantos
ouvidos naqueles já saudosos tempos, esse foi um dos poucos que ficaram
gravados em minha memória. Invoco-o agora, ao passar de mais um Dia do
Trabalho, a 1° de Maio, como elemento para compor este meu também “trabalho”
jornalístico. Trabalhar é preciso, trabalhar é mandamento divino, cujas
origens nasceram com a Criação do universo, não bem como castigo ao pecado
dos primeiros pais da humanidade, mas como condição de sobrevivência dos
ingratos Adão e Eva: “comerás o pão com o suor de teu trabalho”, ouviu
estupefato o edênico casal dos lábios eternais do Pai. Vejam bem
que o Criador abriu os olhos adônicos com o termo “suor”. Ora, o suor brota
do próprio corpo humano, vem do âmago do homem ou da mulher, indicando que é
um tanto da vida física que se esvai, que se transforma em gotas vindas da
própria carne, escorrendo do rosto aos pés para o solo como tantas moedas
transfeitas em lágrimas, para conseguir o perdão de seu pecado e merecer a
bênção de Deus. Portanto o trabalho é algo muito grande, muito acima de
qualquer outra condição humana, necessário à vida e à sobrevivência. Não pode
ser explorado para fins menos dignos e condignos, não pode ser trapaceado,
não pode ser escravizado ou escravizante, não pode ser enganado, não pode ser
negado, não pode ser fugido, não pode ser vendido, não pode ser objeto de
política ou de religião. O trabalho
faz parte da própria existência do homem, dando a ela mais felicidade, mais
bem estar, mais amor, mais fé, mais esperanças. Sem ele, que seria do homem?
Sem ele que seria da vida, sem ele que seria da humanidade? Deitai, por
momentos que seja, um olhar sobre o mundo. Que vedes? Cidades crivadas de
arranha-céus, messes, naves, aviões, veículos, torres de comunicação,
caminhos e rodovias em todas as direções, transatlânticos, portos, estádios,
postes carregando fios em feixes por onde transitam a luz e a palavra, a
força e a riqueza. Tudo fruto do trabalho, tudo submetido àquela voz de Jeová
proferida no ato de criação do mundo, ao desobediente Adão, quando lhe impôs
o “comerás o pão com o suor de teu rosto”. Como é lindo
e sublime o trabalho! Quem pode ficar indiferente à admiração de um operário
em sua oficina, trabalhando, criando, fazendo riquezas? Quem pode ficar
indiferente àquela figura que se move em meio às searas, manejando a enxada,
a foice, o machado, o trator, o arado, a carregadeira, o podão? Quem pode
ficar indiferente àquela testa luzidia em seu laboratório de pesquisas,
estudando, destrinçando, renovando, criando novos princípios, novos
elementos, novas invenções? Quem pode ficar indiferente ao labor de um
sacerdote, de um pastor, de um bispo, que levam a Fé a outros trabalhadores,
como bênção divina, para dignificar mais e mais sua atividade e seu contínuo
manejar em prol do trabalho? Quem pode ficar indiferente ao ver diante de
dezenas de alunos, o mestre que trabalha ensinando, distribuindo a riqueza da
cultura e da dignidade humana? Quem pode ficar indiferente ao ver a mulher,
companheira do homem no paraíso edênico, portanto receptora também da
imposição divina, de avental, de chinelos, de lenço à cabeça, manejando
panelas e caldeirões, vassoura e espanador, tanques d’água e varais? Todos
trabalham, todos cumprem o mandamento do Criador, todos colaboram com Ele na
distribuição e manutenção da vida, pois sem trabalho não há vida e sem vida
não há evidentemente Trabalho. É por isso
que afirmo: o Trabalho é santo, o Trabalho é divino, o Trabalho é felicidade.
É sacrifício e é lazer, como digo logo no título de mais esta minha quiçá
milésima colaboração para a imprensa de minha terra. (2007) |
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