SOBRE SAPOS |
Lino Vitti |
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Ninguém melhor do que um cara nascido na roça para escrever sobre essa figura esquisita que é um sapo. Esquisita, feia, assustadora figura, moradora de brejos, lagoas, tanques e poças d’água em grande número existentes no meio rural. Lagoas, tanques poças d’água formadas por ribeiros humildes do campo, servem, além do meio ambiente, de moradia de sapos, rãs, pererecas, e bichos dessa espécie, de criadouros de peixes silvestres, como bagres, lambaris, traíras, enguias, e outras belezas aquáticas. Figura também presente é a libélula. Sílfide dos lagos campestres é a libélula, ou, como a chamávamos na roça tirolesa, “cava occhi”, cuja tradução quer dizer “arranca olhos”. Não vou pesquisar os motivos que levaram meus antepassados humanos a chamar desse jeito a leve e irisada libélula! Pode ser que o estranho inseto, de corpo esguio de bailarina e asas de cores cambiantes, tenha um dia provocado ou praticado essa barbaridade de arrancar olhos de alguém, para levar para todo o sempre o repulsivo apelido. De qualquer forma, é sempre lindo, poético, e misterioso verem-se as libélulas a adejar, silentes e airosas, por sobre a superfície de lagos, lagoas, tanques e que tais, lembrando esgalga patinadora a dar caprichosas voltas sobre um tablado de gelo. – Epa, epa, epa, vai
advertir-me o provável leitor! Você, seu cronista das arábias, não havia
prometido escrever sobre sapos e quejandos? Como é que perdeu o rumo e se
enviesa a falar de “cava occhi” e patinadoras? – Verdade, meu caríssimo e
decerto único acompanhante destas tiradas cronísticas, mas volto à vaca
frita, ou melhor, ao sapo horroroso. Esses caras saltadores,
quando a lagoa começa a música vesperal ou pós-chuva, roncam como cuícas
desesperadas, se untanhas; as pererecas e rãs, os sapos de menor porte
esgoelam-se em tonalidades diversas, puxando para as notas mais agudas,
enquanto o sapo untanha – o barítono ou o baixo do brejo – parece um rabecão,
ou um bumbo, compassado e grave, marcando o tempo musical daquela orquestra
feita de fusas e semifusas. Aliás, a conceituação popular já tem expressões
perfeitas para denominar essa ordenada desafinação de batráquios
musicalizando a lagoa : “vai, não vai, vai, não vai” ou “foi, não foi, foi,
não foi”. “Hum, hum, hum”, é a resposta do untanha acoitado em difícil
esconderijo do pântano. E assim a sinfonia
lacustre toca horas seguidas, noite a dentro, noite a fora, num “zmorzando”
até o alvorecer. Depois, a vastidão líquida silencia. E quem passa por ela
nas horas calmosas e quentes do dia, nunca suporá que debaixo daquele espelho
aquoso ou nas margens herbáceas que o emolduram está escondida uma verdadeira
orquestra de sons oblongos, guaiados, de “foi, não foi”, de “vai, não vai”. O suave poeta Cassiano
Ricardo tem sobre o assunto dos sapos e pererecas músicos dos lagos e
pantanais, um belo e inimitável poema. Também eu, cutucado pela sinfonia
sapal dos brejais da roça, tentei compor um soneto onomatopaico. Para os
pouco afeitos ao significado do vocábulo aí colocado, explico que se trata de
uma composição literária (poesia ou prosa) em que o autor procura usar
palavras – verbos, adjetivos, substantivos – que imitem os sons da coisa,
pessoa, ente retratado na escrita. Leiam o pobre soneto, a seguir transcrito,
tirado de uma página de “O MARIANO”, semanário católico de meus tempos de
congregação de Fita Azul – janeiro de 1952 – chegado a minhas mãos graças à
gentileza do saudoso artista plástico Edson Rontani: “A Lagoa
dos Sapos O ouro da luz, no azul do
céu, transborda Golfões sangüíneos do horizonte
escapos. E das sombras da várzea a
voz acorda Polífona, metálica, dos
sapos. Uns sons oblongos de
redondos papos, Guaiados bambos de distesa
corda. Pancadas surdas como um
dar sopapos, Num bumbo fundo, de
selvagem horda. Gaiatos gritos e ancestrais
glús-glús, Fanhoso côro, estúpido e
arabesco, Musicando o estertor final
da luz. E, a enxamear pequeninos
holofotes, A lagoa é um salão
carnavalesco Retumbando batuques e
fox-trotes.” (Crônica escrita em abril de 2007.) |
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