CONSIDERAÇÕES SOBRE O TEMPO

 

                                                 Lino Vitti

 

            Toda vez ou quase sempre que tomo assento na cadeira, talvez anatômica, que anexaram ao micro com que fui presenteado pelas crianças (filhos que continuam para os velhos as crianças crescidas), fico imaginando sobre o destino das crônicas e sobre as possibilidades de quem as recebe talvez pensando que, ao chegar da próxima, uma semana já se terá esvaído na corrida do tempo. E as semanas se sucederão, e o tempo será ontem, hoje, amanhã. Ontem que não mais retornará. Hoje, momento passageiro mais veloz que um relâmpago. Amanhã, a incerteza atroz.

            Sempre que uma semana, um mês, um ano caminham para o ocaso, se ouve a lamúria das vozes humanas que traduzem mais ou menos o seguinte: “como o tempo passa”, “como voou este mês, este ano”, “com que velocidade o tempo se vai”. E é sem nenhuma dúvida, sem mais aprofundadas considerações que confirmamos tristonhamente: “é, nem parece”, “outro dia mesmo foi Primeiro de Ano, foi Natal, foi Páscoa...”

            E assim os dias, os meses, os anos, se sucedem, as crianças crescem, os jovens amadurecem, os homens adentram a velhice e os velhos se despedem para ir prestar contas com o tempo que jamais terminará – a Eternidade.

            Para ser sincero (e quiçá excêntrico para alguns) detesto o convencionalismo das folhinhas, a inutilidade dos calendários. Foi a eterna insatisfação do homem que o levou a aprisionar o tempo dentro do mostrador de um relógio ou da gaiola dos anos, como se com isto lhe fosse possível decepar as asas a essa ave colossal ou diminuir-lhe a velocidade do vôo sem fim. Que coisa mais estéril, que coisa mais inútil do que, em cada amanhecer, convencerem a nós, com um rabo do olho na folhinha da parede, da mesa, ou da geladeira, que hoje é dia tal, do mês tal, do ano tal ? Que coisa mais sem graça (especialmente para as formosas filhas de Eva) do que ter necessidade de dizer “tenho tantos anos”! Por que “anos” se o tempo é sempre presente, vale dizer, o minuto que passa?!

                        Falei em minuto, é verdade, e está aí outro convencionalismo – a Hora - tão profundamente encruada na vida humana que, o suprimi-la, traria decerto a barafunda proveniente da supressão desse engenhoso mecanismo que é o relógio apresentando e prendendo os séculos dentro da insignificância dos segundos ? Também, já calcularam vocês o sossego, com a seqüência de todos os seus benefícios que adviria para o mundo inteiro, caso se abolisse a secular maneira de marcar a fuga do tempo ? Sem horário para levantar, ou deitar, sem horários para estudos ou folguedos, em fim livres das garras dos ponteiros, tenho cá para mim que o homem se sentiria mais à vontade para viver.

                        Calendário e relógio, este conseqüência do primeiro, aquele originado pela seqüência dos dias e das noites, eis aí dois obstáculos à felicidade humana. Não os tivéssemos e ninguém sentiria o peso do número dos anos, com que medimos a velhice, nem a desventura de contar as horas, cuja passagem, se boa é rápida, se má, se perlonga indefinidamente, em ambos os casos porém, traduzindo infelicidade.

                        Sem calendário e sem relógio, não teríamos certamente o prazer ou desprazer (conforme se concorde ou discorde dela) de ler esta crônica, escrita sob o influxo da inalcançável rapidez com que o tempo sói deixar-nos para trás, acenando adeuses e semeando searas largas e viçosas de saudades.

 

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