Toda vez ou quase sempre que tomo
assento na cadeira, talvez anatômica, que anexaram ao micro com que fui
presenteado pelas crianças (filhos que continuam para os velhos as crianças
crescidas), fico imaginando sobre o destino das crônicas e sobre as
possibilidades de quem as recebe talvez pensando que, ao chegar da próxima, uma
semana já se terá esvaído na corrida do tempo. E as semanas se sucederão, e o
tempo será ontem, hoje, amanhã. Ontem que não mais retornará. Hoje, momento
passageiro mais veloz que um relâmpago. Amanhã, a incerteza atroz.
Sempre
que uma semana, um mês, um ano caminham para o ocaso, se ouve a lamúria das
vozes humanas que traduzem mais ou menos o seguinte: “como o tempo passa”,
“como voou este mês, este ano”, “com que velocidade o tempo se vai”. E é sem
nenhuma dúvida, sem mais aprofundadas considerações que confirmamos
tristonhamente: “é, nem parece”, “outro dia mesmo foi Primeiro de Ano, foi
Natal, foi Páscoa...”
E
assim os dias, os meses, os anos, se sucedem, as crianças crescem, os jovens
amadurecem, os homens adentram a velhice e os velhos se despedem para ir
prestar contas com o tempo que jamais terminará – a Eternidade.
Para
ser sincero (e quiçá excêntrico para alguns) detesto o convencionalismo das
folhinhas, a inutilidade dos calendários. Foi a eterna insatisfação do homem
que o levou a aprisionar o tempo dentro do mostrador de um relógio ou da gaiola
dos anos, como se com isto lhe fosse possível decepar as asas a essa ave colossal
ou diminuir-lhe a velocidade do vôo sem fim. Que coisa mais estéril, que coisa
mais inútil do que, em cada amanhecer, convencerem a nós, com um rabo do olho
na folhinha da parede, da mesa, ou da geladeira, que hoje é dia tal, do mês
tal, do ano tal ? Que coisa mais sem graça (especialmente para as formosas
filhas de Eva) do que ter necessidade de dizer “tenho tantos anos”! Por que
“anos” se o tempo é sempre presente, vale dizer, o minuto que passa?!
Falei
em minuto, é verdade, e está aí outro convencionalismo – a Hora - tão
profundamente encruada na vida humana que, o suprimi-la, traria decerto a
barafunda proveniente da supressão desse engenhoso mecanismo que é o relógio
apresentando e prendendo os séculos dentro da insignificância dos segundos ? Também,
já calcularam vocês o sossego, com a seqüência de todos os seus benefícios que
adviria para o mundo inteiro, caso se abolisse a secular maneira de marcar a
fuga do tempo ? Sem horário para levantar, ou deitar, sem horários para estudos
ou folguedos, em fim livres das garras dos ponteiros, tenho cá para mim que o
homem se sentiria mais à vontade para viver.
Calendário
e relógio, este conseqüência do primeiro, aquele originado pela seqüência dos
dias e das noites, eis aí dois obstáculos à felicidade humana. Não os
tivéssemos e ninguém sentiria o peso do número dos anos, com que medimos a
velhice, nem a desventura de contar as horas, cuja passagem, se boa é rápida,
se má, se perlonga indefinidamente, em ambos os casos porém, traduzindo
infelicidade.
Sem
calendário e sem relógio, não teríamos certamente o prazer ou desprazer
(conforme se concorde ou discorde dela) de ler esta crônica, escrita sob o
influxo da inalcançável rapidez com que o tempo sói deixar-nos para trás,
acenando adeuses e semeando searas largas e viçosas de saudades.