Ser padre

Lino Vitti

       

“Muitos serão os chamados, mas poucos os escolhidos”, são palavras textuais de Cristo falando sobre a missão dos seus apóstolos. Dentre tantos, Ele escolheu apenas doze, aos quais incumbiria dar seqüência aos seus ensinamentos, à sua doutrina, à sua palavra. Vendo-se com os olhos da razão humana, é fácil deduzir que apenas doze homens não teriam como levar ao mundo inteiro aquilo que Cristo deixou para instruir os espíritos e salvar as almas, entretanto é fácil compreender esse mistério se percorrermos as páginas evangélicas, onde, às tantas, consta aquele fabuloso milagre da multiplicação dos pães, quando de singelos três peixes e cinco pães Cristo alimentou, e com sobras, a multidão que o acompanhava, milhares de cristãos, sequiosos da sua palavra e de doutrina. Ora se assim se fez, por obra e graça de Deus, qual dúvida poderá se insinuar em nossa mente ao considerarmos que apenas doze discípulos, num perene e divino milagre, haveriam de levar os ensinamentos do Mestre pelo mundo todo?

            Desses fatos bíblicos do Novo Testamento, nasceu certamente a figura do sacerdote, daquele que, dando continuidade às atividades dos doze apóstolos, haveria de transmitir a todos os povos até os confins da terra, haveria de perpetuar – digamos – o milagre dos pães e dos peixes em forma de evangelho. Já se vão mais de 2.000 anos, e a luz da Fé, do Amor, da Esperança, da Caridade, aquilo mesmo que o próprio Cristo entregou à mão dos seus apóstolos, continua brilhante, continua sendo espalhada, continua conquistando as almas e os corações, por e até onde se encontre um ser humano para santificar, para salvar.

            Essa tarefa divinal em nossos dias envolve a figura valorosa do padre, o sucessor daqueles que viveram com Cristo e Dele receberam a Verdade para levar avante e adiante até a consumação dos séculos. Daí nasce a grandiosidade, a importância, a divinização da vocação sacerdotal. Não será qualquer um, mas somente os escolhidos, que serão “poucos” diz o próprio Cristo, aqueles a quem caberá responder pela continuidade da missão apostólica de passar para os séculos adiante a evangelização pregada, ensinada e deixada, por Ele.

            E, se me permitis, direi que ser padre não é uma escolha, como ser professor, médico,engenheiro, industrial, comerciante, ou qualquer outra pessoa. É um chamado e uma escolha, sim, mas feita por Deus, é uma vocação, concedida por privilégio divino, é ser tal qual os apóstolos de Cristo que deixaram tudo para trás e seguiram convictamente os mesmos passos evangélicos deixados como senda sublime por Jesus. Ser padre não é profissão, para ganhar dinheiro, ou para resolver casos de família, ajeitar situações ou colocar gente que se desviou do caminho da vida. Nada disso. É, ao contrário, renunciar aos prazeres, às riquezas, às profissões lucrativas do mundo, para ser humilde, despegado dos bens, justo, caridoso, candidato às dificuldades, à pobreza, à renúncia, aos desejos da carne, à vanglória e a tudo quanto o mundo inventa para seu prazer, sua comodidade, seu desapreço ao próximo, seus lucros, sua satisfação biológica, festas, carnavais, praias, boates, cassinos...

            Ser padre é ser missionário de Deus, apóstolo da religião, professor espiritual das almas, romeiro em busca do santuário da salvação do ente humano, trabalhador dessa vinha imensa da Fé, caridoso, carinhoso, representante de Cristo onde estiver, como estiver, quando estiver.

            Ser padre é atender, como Cristo o fez muitas vezes em sua vida terrena, ao pecador, ao que perdeu a graça e precisa recupera-la, mediante a santa absolvição. E como o pecado e o seu sacripanta o demônio, estão presentes dia e noite em todo o mundo, a ele sacerdote, cabe dia e noite também combater o mal por eles causado ao mundo, vigiar e trabalhar para que desapareçam quanto possível- pecado e demônio- dentre a humanidade originariamente cristã.

            Ser padre, afinal, é ser diferente do que o mundo quer e o mundo pensa com relação a Deus, a Cristo, a Virtude, a Verdade. É continuar a obra de Deus pelos tempos afora, e levar almas para a salvação eterna, o quanto for possível, seja com renúncia, com sacrifício, com trabalho, com amor.

2005

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